A Hard Rain’s A-Gonna Fall (ou a descrição do medo e a discrição do terror)

Em outubro de 1962, os EUA viviam seu momento mais tenso na Guerra Fria. Após instalarem mísseis nucleares na Turquia apontados para a URSS, os americanos viram seu arquiinimigo fazer o mesmo ao colocar mísseis na costa de Cuba, todos apontados para o território rival.

Apelidada de Crise dos mísseis, a tensão ia além de um iminente embate: era a consolidação de uma guerra nuclear. Uma guerra que poderia ficar sem vencedores, já que devastaria boa parte do nosso planeta – ou simplesmente sua totalidade.

O episódio influenciou Bob Dylan em ao menos duas canções. Let me die in my footspeps – inicialmente intitulada I will not go down under the ground – era uma música quase descritiva da situação: houve um crescimento na venda de tijolos e cimentos nos EUA, já que inúmeros cidadãos montaram abrigos subterrâneos para um possível ataque russo. Um Dylan patriota, percebendo a possível destruição total de seu país, se recusa a descer e prefere morrer na sua terra, com o orgulho de ser parte dela.

Contudo, assim como fez em algumas canções de protesto (vide Only a pawn in their game), Dylan também focou não apenas no fato, mas refletiu sobre as origens e os possíveis resultados desse embate.

A Hard rain’s a-gonna fall foi lançada no álbum “The Freewhelin’ Bob Dylan” (1963) e gravada em apenas um take no dia 6 de dezembro de 1962, no estúdio A da Columbia em New York. A melodia e a estrutura básica – como um diálogo – foram emprestadas da canção tradicional “Lord Randall”. Nela, um jovem e a mãe conversam e, aos poucos, revela-se que o filho está morrendo por envenenamento.

Ao vivo no Gaslight, em 1962 (2ª estrofe)

Bob converte a música para uma problemática contemporânea. Sobre sua versão, ele afirma que “cada frase é na verdade uma música inteira. Mas quando a escrevi acreditava que não viveria tempo bastante para escrever muitas mais, então coloquei tudo o que pude nela.”


Durante a turnê The Rolling Thunder Venue, em 1975 (3ª estrofe)

Todas as estrofes iniciam com um questionamento para o “filho de olhos azuis”: Onde ele esteve, o que ele viu, o que ele ouviu, quem ele conheceu e, finalmente, o que ele fará com a chuva que está prestes a cair.


Ao vivo em Milão, no dia 15/04/2009 (4ª estrofe)

Para o jornalista Anthony Scaduto, Dylan explica que não se trata de uma alusão a uma chuva nuclear, mas “apenas” de algum tipo de fim que está prestes a acontecer. Bob afirma que a frase que explica a chuva está na última estrofe, “Where the pellets of poison are flooding their waters” [Onde as gotas de veneno inundam suas águas]. Como veneno, ele diz considerar todas as mentiras que são empurradas para dentro dos cérebro dos americanos, principalmente em rádios e jornais.


Ao vivo em Amherst, no dia 19/11/2010 (5ª estrofe) – Atualmente é a versão que mais me chama a atenção, principalmente a interpretação de Dylan nessa estrofe. É interessante perceber como o fraseado na guitarra de Charlie Sexton vai regendo e influenciando Bob na forma de cantar, que cresce gradativamente até seu ápice.

Nas suas respostas às questões, Bob utiliza imagens inéditas no linguajar usado pela música popular da década de 60. Acima de tudo, é uma canção que expressa terror e medo, sem um foco pré-definido. Não há menção à guerra nuclear, chuva radioativa, segregação racial ou a qualquer tema específico. A música incita o ouvinte a refletir sobre seus próprios medos, discutir a iminência de que algo ruim possa acontecer através de seus próprios sentimentos.

Abaixo, uma versão completa de “A hard rain’s a-gonna fall”, gravada em 10 de março de 1964.

11 thoughts on “A Hard Rain’s A-Gonna Fall (ou a descrição do medo e a discrição do terror)

  1. Quando compôs Masters of War, Bob Dylan disse para Joan Baez que tinha feito a música porque pensava que esse tipo de letra, na época, poderia dar muito dinheiro. Joan Baez disse que não acreditava em Bob por ele ter dito uma “coisa dessas”.
    O que vocês acham?

    1. Luiz, tenho comigo que o Dylan jamais foi movido pela questão financeira e sim por gostar do que fazia. Acredito que seu comentário era apenas para “dar um nó” na cabeça dos que o tinham como porta-voz de toda uma geração, para que o deixassem em paz. Mas, convenhamos, todos precisamos ganhar dinheiro para sobreviver… Uns, ganham espalhando o terror, a morte, a tristeza… Outros, como Dylan, caminham no lado decente do caminho. Ainda que tenha sido só para ganhar dinheiro, ele ganhou merecidamente cada centavo que esta música lhe proporcionou. “Masters of War”, “A Hard Rain’s a-Gonna Fall” e todas as outras, são eternas.

  2. Sem dúvida nenhuma, a maior canção de protesto de todos os tempos, e, para mim, a melhor de todas as que Dylan gravou. São raros os dias em que eu não a escute.. Daqui a 300 anos ainda estarão falando desta canção, porque ela tem o dom de ser atemporal. Para aqueles que duvidam da genialidade de Bob, ouçam esta canção. Sua percepção mudará após os primeiros versos…

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