AmericanaramA: Uma incursão dylanesca (Parte 1)

AmericanaramA

Aqui está a primeira parte do meu relato sobre os três shows que vi de Bob Dylan em sua turnê AmericanaramA – ao lado das bandas My Morning Jacket, Wilco e outros convidados.

Antes, uma breve contextualização.

São Paulo → Atlanta

Tudo começou com a minha necessidade de tirar férias. Sem nenhuma razão aparente – talvez apenas tentando remeter aos recessos escolares da juventude -, marquei com bastante antecedência meu hiato para o mês de julho. Com a aproximação da data, pensei na possibilidade de uma viagem ao exterior. A escolha já estava definida: Estados Unidos. Mais do que uma viagem turística, queria estar em lugares que significavam algo para mim. E, como fã dylanesco assumido, esses locais com alguma ligação, direta ou indiretamente, a vida e obra de Bob Dylan.

Dylan ainda não havia divulgado as datas dos seus shows deste período. Alguns boatos indicavam shows na Inglaterra e outros diziam de shows pelos EUA. Depois de um teaser misterioso, foram divulgadas as informações da nova turnê de Dylan: AmericanaramA.

Minha intenção inicial era tentar vê-lo na região de New York, para aproveitar e reencontrar com mais calma a cidade que fui em 2009. Contudo, o destino guardou uma surpresa ainda melhor: shows em Atlanta, Nashville e Memphis.

Comecei a correria para comprar ingressos, procurar hotéis, hostels, passagens, transportes entre as cidades e tudo mais que poderia adiantar. Depois de muita apreensão, nervosismo e ajuda de amigos, consegui reservar tudo o que era possível.

Atlanta, Georgia: Aaron’s Amphitheatre (29/06/2013)

Depois de um longo atraso no vôo por conta das manifestações na região de Guarulhos (onde fica o Aeroporto Internacional de Cumbica), cheguei em Atlanta por volta das 14h (horário local). Era o tempo suficiente para ir até o hotel, descansar um pouco, comer algo e já me encaminhar para o local das apresentações, que teriam início às 17h30 com Bob Weir (ex-Grateful Dead) e seguiriam com My Morning Jacket, Wilco e terminaria com Bob Dylan.

Aarons

O Aaron’s Amphitheatre tem capacidade para 19 mil pessoas e é um anfiteatro “híbrido”: além de um gramado em forma de arena, mais próximo do palco existe um grande espaço coberto com cadeiras. De cada lado, duas praças de alimentação vendem comidas e as mais diversas bebidas (incluindo algumas opções de cerveja, algo diferente para nós brasileiros).

Por volta das 21h50,antes de apagar as luzes, uma mulher sobe ao palco – possivelmente a mesma que posiciona os três espelhos sem um significado ou função explícito – e dá um recado “em nome da turnê de Bob Dylan”: para que as pessoas curtam o show ao vivo e pessoalmente, e não através das lentes de celulares e câmeras.

Na movimentação dos roadies e assistentes para montar o palco, é interessante pegar alguns detalhes:

  • Bob Dylan abriu mão mesmo de tocar guitarra, que nem é instalada, e “trocou” por um piano Yamaha Baby Grand Piano; contudo, seu teclado Korg (com o lapsteel servindo como suporte das letras e gaita) é instalado mesmo que Dylan nem chegue perto do instrumento;
  • Al Santos, o stage manager, usa uma caneca e uma escova de dentes para limpar os três microfones de Bob (no centro do palco, no piano e no teclado);
  • Apesar do calor descomunal (até para um brasileiro), os roadies colocam dois aquecedores a gás nos dois lados do palco. Aparentemente eles servem mais como decoração do que para aquecer o tempo abafado de Atlanta.

A apresentação

Já com as luzes apagadas, apenas Stu Kimball entra no palco improvisando no violão. Com um jogo de iluminação rápida, o resto do bando – Tony Garnier no baixo, George Receli na bateria, Don Herron no lapsteel, rabeca, mandolin elétrico e bandolin, e o recém-incluído Duke Robillard na guitarra – sobe ao palco e tão imediatamente começa a primeira música.

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“Things Have Changed” tem um começo parecido com os shows de 2012, mas Bob Dylan está visivelmente querendo mudar seu jeito de cantar. Se nos shows e do disco do ano passado Bob Dylan “ostentava” uma voz rouca e cavernosa, agora ele busca a sutileza e timbres mais doces. Às vezes, contudo, ele não impede que escape algum “urro” de sua desgastada voz.

“Love Sick” está mais triste e vagarosa, soando como um lamúrio desiludido. Ao solar na gaita, a platéia aplaude como se fosse um convidado especial entrando no palco.

Assim como nas duas primeiras músicas, Bob Dylan se mantém no centro do palco para “High Water (For Charley Patton)”. O forte desta canção é a dinâmica; os altos e baixos entre o verso, o refrão e o hiato lírico. Dylan percebe que o peso e a rispidez da letra merece algo mais pontiagudo e revisita a rouquidão e o grunhido. No final, como já fizeram em “Blind Willie McTell” ao vivo, investem num “final falso”. Desta vez, são três vezes. Uma brincadeira pequena que diverte (e surpreende quem não sabia desse arranjo).

Com a conclusão real da canção, Bob Dylan se dirige pela primeira vez ao piano. Esboça alguns acordes e a música começa: “Soon After Midnight”, do recente disco Tempest. Tudo está solto, elevado, tal qual aquela sensação analgésica, quase sonífera, da madrugada. O solo de Duke é tão vintage quanto a música pede – embora em alguns momentos pareça meio esquisito.

Aproveitando o clima “tempestivo”, Bob Dylan emenda com “Early Roman Kings”. Ele continua no piano, mas sinto falta dos temperos do Korg para esta música. De qualquer forma, fica clara a intenção de Dylan em brincar mais com a dinâmica do que com os arranjos. O silêncio tão valioso quanto o som.

Agora é hora de voltar alguns anos. O ano é 1975 e a música é a mesma que abriu o disco Blood On The Tracks: “Tangled Up In Blue”. O arranjo é parecido com o que vimos aqui no Brasil em 2012, mas agora ela é mais sutil, introspectiva. Incansável compositor, Bob Dylan brinca com a letra e faz mudanças que parecem terem saído na hora. O solo de Duke Robillard também é improviso, e para mim parece faltar uma “história”. Talvez fosse só a minha cabeça, mas Duke não parecia estar tão íntimo das harmonias.

Bob Dylan realmente gostou de Tempest e escolheu mais uma música do disco: a dançante “Duquesne Whistle”. Foi deixado de lado a introdução jazzy e a música já começa com uma pegada shuffle na bateria e um baixo muito bem trabalhado de Tony Garnier. A voz de Bob é completamente diferente da registrada no álbum – com o refrão cantado em um doce falsete.

Ao término da canção, Bob Dylan escolhe a gaita, pega o microfone Sennheiser MD 421 e se dirige para o centro do palco. Enquanto o bumbo e o baixo fazem a marcação constante, o resto dos instrumentos apenas soam soltos. Bob Dylan então começa a cantar e todos reconhecem a surpresa: “She Belongs To Me”, a primeira das quatro músicas dos anos 60 da noite. O solo da gaita é envolvente e acompanha o clima da música.

De volta ao piano, Bob Dylan canta “Beyond Here Lies Nothin’”. Tudo soa unificado, funcionando perfeitamente bem. Duke Robillard, famoso pelo blues, se sente em casa com a canção na hora do solo.

Do blues para a valsa. O tempo ¾, para quem já conhece o repertório de Dylan, deixa claro qual será a próxima: “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”. Uma canção que nunca ficará velha, longa ou monótona. Por mais gigantesca que seja a letra, no fim da música fica a vontade de que houvesse mais algumas estrofes para nosso deleite.

Apesar de já estar no repertório há tempos, “Blind Willie McTell” tem um gosto diferente em Atlante, cidade em que viveu o famoso músico. O falso final feito no ano passado se manteve e se extende, assim como em “High Water”.

“Simple Twist of Fate”. Seu arranjo atual combina com a sutileza da música e Dylan insere uma frase que deixa qualquer dylanesco sensibilzado: “He read the note she left behind, it said you should have met me in 68, then we could have handled this simple twist of fate”.

Back to the 50’s com “Summer Days”. Ao contrário do ocorrido nos últimos shows em São Paulo, Bob Dylan manteve a música simples, sem improvisos experimentais e divertidos. Ainda assim é uma ótima música, principalmente com o clima.

Já com os três acordes de Stu Kimball no violão, o público enlouquece porque sabe o que vem: “All Along The Watchtower”. É a música que o público americano mais empolgou. O final, com George Recelli descendo a mão na bateria depois de um momento de quase-silêncio é fenomenal para o fim do show.

Todos se dirigem a frente do palco, com Bob Dylan esboçando um sorriso. Ele se aproxima do microfone como se fosse agradecer ou algo assim, mas é alarme falso. Eles saem sem que ele troque qualquer palavra com o público.

Com todo o anfiteatro batendo palmas e clamando por um bis, eles voltam para outro clássico dylanesco: “Ballad of A Thin Man”. Dylan desistiu do eco na voz e fica no piano, mas sem sugerir o mesmo arranjo que fez no instrumento em 1965.

Agora sim o show acabou.

A grande maioria se dirige ao estacionamento, onde antes do show muitos ficaram no “aquecimento” tomando cerveja e comendo – igual já vimos em documentários de rock espalhados por aí. Infelizmente perdi o contato com o simpático casal residente de Atlanta que eu conheci durante os shows de abertura. Conheci também uma australiana que mora em Alabama e que viajou com a amiga 2h30 para ir até o show. Interessante notar que os dylanescos por aqui…

Volto pro hotel e, apesar da empolgação, preciso me obrigar a dormir. No dia seguinte de manhã vou para Nashville de ônibus para ver mais um show de Bob.

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