AmericanaramA: Uma incursão dylanesca (Parte 2)

Bob Dylan - Nashville

Ao término do show de Bob Dylan em Atlanta (leia o relato aqui), tive que correr para o hotel. Cheguei por volta das 00h30 e precisava acordar às 4h30 para pegar um ônibus em direção à Nashville.

Atlanta → Nashville

Quando informei alguns americanos em Atlanta que pegaria o Greyhound, serviço de ônibus dos EUA, para viajar até Nashville, todos olhavam esquisitos. Alguns se surpreendiam pela escolha da opção mais barata existente e outros ainda tentavam me convencer de que não era tão tranquilo como eu imaginava.

Foto: Wikimedia
Foto: Wikimedia

O Greyhound de fato é um transporte do “povão” americano. Os conselhos de como me portar lá – sem fazer amizades e evitar o máximo de contato – me fizeram ficar receoso, mas ao vivenciar vi que tudo aquilo é possível encontrar com facilidade no Brasil. E não é só isso. O Greyhound possui uma organização e estrutura até melhores do que as nossas! Viajei em ônibus com ar-condicionado, tomadas para recarregar baterias e até Wi-Fi. Quanto às pessoas, ninguém me destratou e em nenhum momento me senti ameaçado.

Após uma viagem de cerca de cinco horas, cheguei em Nashville. Andei com minha mala até o hostel, uma caminhada de cerca de 25 minutos por ruas relativamente desertas, até a chegada do “centro turístico”. Ao me deparar com a Broadway, a principal rua da cidade, comecei a rir sozinho. Parecia uma volta ao passado country, com os bares e suas luzes neon, as diversas músicas soltas no ar, incluindo a de músicos de rua extremamente habilidosos. De fato tudo é meio cenográfico. Ainda assim é muito bom.

Meu hostel ficava de frente para o famoso e imenso Rio Mississippi. Cheguei com mais folga do que em Atlanta, o que me deu tempo para deixar minhas coisas e fazer um “reconhecimento de campo” enquanto caminhava até a Third Man Records, loja de discos de Jack White. Depois de um almoço às 15h, fui até o hostel para descansar um pouco antes da iminente maratona dylanesca.

Nashville, Tennessee: Riverfront Park (30/06/2013)

Foto: Samuel M. Simpkins / The Tennessean
Foto: Samuel M. Simpkins / The Tennessean

Caminhei até o local do show, um belíssimo gramado a beira do Rio Mississippi. Cheguei relativamente cedo e pude apreciar o restante do dia e parte daquilo que chamou a atenção de Bob Dylan nos anos 60 para batizar um de seus discos de Nashville Skyline.

Bob Weir continuou escalado para a edição do AmericanaramA na capital do country. Depois de My Morning Jacket e Wilco, a equipe de turnê do Bob Dylan entrou no palco para fazer toda a coreografia necessária para mudar os equipamentos. Entram os roadies que transportam amplificadores, bateria e instrumentos, os responsáveis por verificar as caixas de som de retorno, os técnicos de iluminação que fazem os ajustes finais dos holofotes que ficam atrás dos músics. Todos devidamente orientados pelo chefão Al Santos (o mesmo que fazia o discurso de introdução em turnês anteriores).

Foto: Samuel M. Simpkins / The Tennessean
Foto: Samuel M. Simpkins / The Tennessean

O show transcorre basicamente igual ao o dia anterior. Bob Dylan está um pouco mais solto e brinca mais com vocalizações nas músicas (“Love Sick”, por exemplo, ganha belos vibratos), dando um ar R&B em alguns momentos. Outro destaque está para o guitarrista Duke Robillard, que parece bem empolgado e até se permite dar um passo a frente quando é seu momento de solar.

Ao contrário do show em Atlanta, não há divisões na platéia, com todos compartilhando o mesmo gramado (que ao fundo ganha uma colina que serve de arquibancada). Era possível ver “tiozões sessentões” que já viram Dylan em outras décadas, jovens que foram para ver as outras bandas – principalmente Wilco -, e que ficaram para ver Bob. Vi até um filho e sua mãe (que insistia para que ele forçasse mais para ficar mais próximo do palco).

Foto: Samuel M. Simpkins / The Tennessean
Foto: Samuel M. Simpkins / The Tennessean

O repertório praticamente não sofreu mudanças. Como disse Derek Barker da Isis: “Um fã de Mark Knopfler sugeriu que Mark aprendesse com Dylan a mudar um pouco o setlist entre os shows. Pelo jeito aconteceu o contrário”.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=PL7mdt0EFvU]

Em Nashville, a única mudança nas canções em relação ao dia anterior foi o bis, “Blowin’ In The Wind”, que ganhou a participação do grupo vocal McCrary Sisters. No final da música, Bob Dylan foi até o centro do palco, onde estavam as três cantoras, e fez o solo de gaita rodeado por elas. Inesquecível.

Bob Dylan & Nashville

Bob Dylan gravou quatro discos em Nashville: Blonde On Blonde (parte em Nashville, parte em New York), John Wesley Harding, Nashville Skyline e Self Portrait (também com sessões divididas entre Nashville e New York). Além desses registros, a cidade tem uma importância maior por ser berço do country. O famoso programa de rádio Grand Ole Opry, por exemplo, era gravado na cidade, no Ryman Auditorium. Elvis Presley, Johnny Cash, Roy Orbinson e tantos outros influentes tiveram uma história íntima com a chamada Music City.

Al Kooper, o músico responsável pelo som de órgão de “Like a Rolling Stone” e que participou das gravações de Blonde On Blonde, opina que com este disco, Bob Dylan foi o primeiro a conseguir capturar o “som das 3 da manhã”, superando até mesmo Sinatra. Em um encontro acadêmico, Al relata a dissonância no “modus operandi” de Nashville e seus músicos profissionais e a forma de Bob Dylan trabalhar em estúdio. Além de dar uma liberdade de execução relativamente rara aos músicos, Bob Dylan usava boa parte do dia para compor e fazer ajustes enquanto investia pouquíssimo tempo nas gravações. Muitas das versões que escutamos até hoje foram feitas após alguns poucos takes.

Como percebeu Marcelo Costa, é muito estranho garimpar os museus e as visitações em lugares turísticos de Nashville e encontrar tão pouca referência a Dylan. Coincidentemente, antes de viajar, encontrei um vídeo de Robbie Robertson, que também gravou Blonde On Blonde, comentando sobre esta época:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=-rEx9Z0jtoM]

Robbie então talvez tenha matado a charada do “ostracismo dylanesco” na Music City. Ele opina que a cultura de Nashville não tem o costume de valorizar músicos que não fazem parte do círculo local. Apesar de acharmos elementos aqui e ali, o “wild mercury sound” que Dylan conseguiu em Blonde on Blonde difere daquele que escutamos aos montes nas ruas da cidade.

O show seguinte seria apenas depois de dois dias, o que me deu tempo para conhecer alguns pontos turísticos obrigatórios – Country Music Hall of Fame and Museum, RCA Studio B, os bares da Broadway e um recém-inaugurado museu do Johnny Cash.

Próxima parada: Memphis.

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