Resenha: Travelin’ Thru – The Bootleg Series, Vol.15

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No começo de novembro, Bob Dylan lançou o décimo quinto volume de sua Bootleg Series, intitulado “Travelin’ Thru”, que aborda registros entre 1967 a parte de 1970 – apesar da descrição estar até 1969. No total, são 50 faixas distribuídas em 3 CDs (ou 3 LPs). Ao contrário das edições mais recentes da série, Travelin’ Thru possui apenas uma versão e é menos extenso – talvez influenciado pelo lançamento há menos de 6 meses do box Live Recording 1975, com 14 CDs (e o relançamento de Bootleg Series Vol. 5).

Unboxing

O box é bem mais simples que outros da Bootleg Series. A caixa é mais frágil e há apenas um livreto contendo algumas fotos e textos do fotógrafo Ben Rollins, a cantora Rosanne Cash e o jornalista Colin Escott.
Confira o vídeo:

Disco 1: John Wesley Harding e Nashville Skyline

O primeiro disco, com 15 faixas, contempla as sessões de gravação dos álbuns John Wesley Harding (17 de outubro e 6 de novembro de 1967) e Nashville Skyline (13 e 14 de fevereiro de 1969).  No livreto do box, Colin Escott explica que pouco foi aproveitado dos takes de John Wesley Harding porque as versões eram muito parecidas entre si (mostrando uma breve mudança de comportamento de Dylan). Escott também informa que as sobras de Nashville Skyline foram perdidas pela Columbia/Sony, havendo apenas algumas  versões inéditas.

De maneira geral, as faixas das sessões de John Wesley Harding são inferiores que as que foram para o álbum. “As I Went Out One Morning” é vagarosa, mas perde a malandragem do conto; “I Dreamed I Saw St. Augustine” e “I Pity The Poor Immigrant” são mais rápidas, perdendo a melancolia. Como John Wesley Harding é um dos meus discos favoritos, gostaria que tivesse mais takes, mesmo que com versões parciais. Não há qualquer registro de músicas tão emblemáticas como “Dear Landlord”, “The Wicked Messenger” e principalmente “The Ballad of Frankie Lee and Judas Priest”.

Sobre Nashville Skyline, temos faixas mais interessantes. “To Be Alone With You” começou num ritmo shuffle e com parte da letra diferente. “Tell Me That It Isn’t True” é rápida, se distanciando do conteúdo da letra, mas com um arranjo muito bom. O grande destaque é “Western Road”, outtake inédito que no livro “The Recording Sessions” foi intitulada apenas como “blues”.

Disco 2/3: Dylan-Cash Sessions

Além da versão de “Girl From North Country” que saiu em Nashville Skyline, algumas canções do encontro de Dylan e Johnny Cash já circulavam em bootlegs não-oficiais (como Nashville Sessions e A Tree With Roots), mas muitos fãs ainda esperavam takes inéditos deste registro ocorrido em apenas dois dias – 17 e 18 de fevereiro de 1969.

Nas 25 faixas contidas em Travelin’ Thru (19 no Disco 2 e outras seis no Disco 3), é possível ver Johnny Cash solto e se divertindo. Dylan também se diverte, mas é perceptível uma certa timidez, talvez por ter câmeras no estúdio, mas também talvez pela própria presença de Cash, que apesar da proximidade desde que se conheceram em 1964 continuava sendo um de seus grandes ídolos.

O registro é bacana, mas menos do que eu esperava. As sessões parecem ser despretensiosas, mas também meio perdidas – Dylan não sabe as letras de boa parte das canções. São dois cantores com características únicas e caminhos próprios – que dificulta um dueto improvisado.

Entre os destaques do encontro está “One Too Many Mornings”, “Careless Love” com uma letra divertida, a dobradinha “Don’t Think Twice, It’s Alright” com “Understand Your Man” – ambas compartilhando a mesma fonte melódica e “Wanted Man”, escrita por Bob Dylan e lançada por Cash:

Disco 3: Johnny Cash Show e Earl Scruggs

O Lado B do disco 3 começa com as gravações do primeiro episódio do Johnny Cash Show, tendo Bob Dylan como convidado inaugural. As gravações ocorreram em 1º de maio de 1969 e temos três canções: “I Threw It All Away”, “Living The Blues” e o dueto “Girl From North Country”. Nas três, temos um Dylan mais introspectivo, tímido e quase inseguro – algo completamente plausível quando se imagina que era a primeira aparição na TV depois de anos de reclusão. Ainda assim são belíssimas interpretações.

Depois temos mais duas canções de Johnny Cash, dessa vez sem o próprio. Ocorrida em 3 de maio de 1969, Dylan parece ter gostado do universo country e revisitou grandes canções que marcaram sua história: “Ring of Fire” e “Folsom Prison Blues”.

Para finalizar, cinco faixas de um ensaio casual de Dylan com Earl Scruggs para o documentário “Earl Scruggs Perfoming with His Family and Friends”. Bob Dylan parece bem mais à vontade e solto, oferecendo algumas versões interessantes, com destaque para “To Be Alone With You”

Nashville Cats

Parte de Travelin’ Thru é uma lupa breve mas interessante sobre a aproximação de Bob Dylan com o country de Nashville. Para muitos, foi este encontro que criou o country-rock que vieram pela frente, com discos de Neil Young, Leonard Cohen e muitos outros. É importante aqui enfatizar o nome do produtor Bob Johnston, que fez toda a conexão entre Dylan, Cash e Nashville.

Entre a mágica de Nashville estava a altíssima qualidade dos músicos profissionais de estúdio. Conhecidos como Nashville Cats, tiveram uma projeção para além do country graças a Dylan.

Esta relação foi tema de uma grande exposição em Nashville anos atrás, com o lançamento de um livro e um CD.

Conclusão

Com pouco mais de duas horas, os três discos criam um passeio divertido, apesar de breve. Como já dito, não detalha muito este período interessantíssimo. Imaginar que no mesmo ano de de 1967 e Sgt. Peppers, Surrealistc Pillow e Are You Experienced, Bob Dylan voltava à cena depois de lançar Blonde On Blonde com um disco feito apenas com violão, gaita, baixo e bateria (e um breve lap steel).

Sinceramente, creio ser o pior volume de todos os quinze já lançados. Não busca trazer uma nova visão sobre o período e sua produção gráfica parece preguiçosa. Não garimpa de verdade.

Para um fã de Bob Dylan é um lançamento relevante e divertido, mas muito aquém do que já foi revisitado e descoberto.

Abaixo, um breve documentário (com algumas pessoas meio aleatórias) sobre esta fase:

Bob Dylan, ao vivo em Palo Alto (14/10/2019)

por Leca, publicitária morando na Bay Area, que adoraria voltar no tempo pra ver o Dylan tocar Hurricane ao vivo.

Chegamos ao Frost Amphitheater perto das seis da tarde. O portão já estava aberto, então, as filas que se formavam nas duas entradas do lendário espaço já estavam em movimento.

O público nelas era bem variado. Famílias, casais e até crianças aguardavam tranquilamente para entrar. Cobertores e cadeiras eram itens quase que obrigatórios, pois a noite prometia ser fria.

Na checagem de segurança, a primeira surpresa: Bob Dylan, em pessoa, havia solicitado uma mudança de última hora nas regras (já restritas) do local. Se antes não eram permitidas apenas câmeras com lentes removíveis, ele foi além e exigiu que nenhuma câmera entrasse no lugar para que não fossem feitos registros fotográficos naquela noite. Claro que, com celulares abrigando câmeras poderosíssimas no bolso de cada um ali, o pedido era algo difícil de controlar, por isso, a equipe de segurança apertou as regras e a câmera que levamos teve que ser guardada no porta-casacos do espaço. “Nós também fomos pegos de surpresa”, disse a atendente ao nos entregar a senha para a retirada pós-show. Não respondi, mas fiquei pensando que esse é o tipo de coisa que se pode esperar quando se abriga uma estrela dessa magnitude.

O anfiteatro Frost é um centro de eventos em que todos os lugares são privilegiados. Sua disposição tem o palco no espaço mais baixo e as arquibancadas naturais se elevando à sua frente. As árvores ao redor criam uma proteção para o ambiente, deixando o som ali dentro e o mundo externo lá fora, o que cria uma espécie de aura mística, digna do show que viria a seguir.

À frente do palco, praticamente todas as cadeiras que haviam sido colocadas já estavam tomadas. Decidimos ficar mais para trás, sentar na grama e curtir nosso vinho e queijo (comprados lá dentro, é claro, já que nenhuma garrafa era permitida no lugar) até o início do show.

Um cartaz informava que todos os ingressos para o espetáculo tinham sido vendidos. E a multidão se acomodando ao nosso redor confirmava isso: Bob Dylan tocaria para uma casa cheia em plena segunda-feira.

O show começou pontualmente às sete e meia. Quem deu as boas-vindas foram as luzes do palco, pois Bob Dylan pulou o cumprimento e foi direto para aquilo que sabe fazer de melhor: música.

Ele só para pra falar quando, lá pelo meio do setlist, apresenta a banda que toca com ele. Chega até a ser estranho, de tão inesperado que é, ver ele mudar do modo performance para o modo ser humano que reconhece e agradece os talentos ao seu lado.

E que banda, senhoras e senhores. Incansáveis, cada um parece ter o seu momento durante o show. Os dois guitarristas ganham solos emblemáticos, o baterista embala as canções mais agitadas. E Bob Dylan? Bem, ele deixa a gaita um pouco de lado para se divertir com o piano armário, tocando de forma entusiasmada várias das canções. Sentado ou em pé, Dylan estava performático essa noite.

Seu traje brilhava enquanto ele se dedicava a interpretar as canções, em movimentos que não chegavam a ser exatamente uma dança, mas sim, a resposta natural do seu corpo a algo que ele faz com muito gosto, até hoje.

Tendo visto Bob Dylan em São Paulo em 2012, é impossível não comparar as duas apresentações em termos de voz. E, sabe-se lá que milagre, remédio ou exercício vocal Dylan andou fazendo, mas foi com muita alegria que pudemos ouvir sua voz em excelente estado. A rouquidão deu lugar a uma experiência quase cristalina, sendo possível entender não apenas as palavras, mas algo além, a dimensão que ele dava aos tons, alcançando diferentes notas e fazendo versões ao vivo de músicas já conhecidas soarem como novas. É difícil explicar. Mas dessa vez, banda e cantor estavam em uma sincronia tão perfeita que o show que ouvimos poderia tranquilamente ter saído de um álbum de estúdio.

No palco, além dele e a banda estavam apenas os manequins (???) alinhados na parte de trás e um busto de uma estátua no canto direito, à frente, próximo ao piano. Fora isso, a única “distração” era o trabalho das luzes, que transformava, criando texturas diferentes, o fundo do palco a cada música.

E talvez fosse o fato de que estávamos cercados de árvores em uma noite estrelada. Ou ainda, o impressionante momento, em 2019, em que não havia nenhum celular levantado na plateia (um ou outro corajosos arriscavam cliques muito rápidos e logo desapareciam), mas o show parece ter sido uma experiência quase que sobrenatural. Centenas de pessoas reunidas em uma clareira no meio da mata, sob as estrelas, para assistir a uma criatura que aparece, entrega uma experiência artística inesquecível, e, assim como veio, vai embora, deixando todos completamente transformados e se perguntando se tudo aquilo foi real.

Inclusive, como ele não se despede, o momento do bis é uma incerteza. Ele vai voltar? Ele não vai voltar? Felizmente, ele voltou, tocou mais duas músicas com a mesma energia das primeiras, deu as mãos para a banda, saudou nossa presença com uma reverência profunda (o que me deixou pensando sobre o fato do alongamento desse senhor de 78 anos ser melhor do que o meu) e partiu para estrada, rumo ao próximo show.

É isso que ele gosta de fazer. É isso que ele seguirá fazendo, até o fim dos dias.

Sorte daqueles que puderem presenciar esse momento ao vivo algum dia.

Entrar no universo de Bob Dylan pode ter regras rígidas e bem específicas, mas elas garantem, com toda a certeza, um show como nenhum outro na vida.

Setlist (por BobLinks):

  1. Beyond Here Lies Nothin’ (Bob center stage on guitar, Donnie on violin)
  2. It Ain’t Me, Babe (Bob on piano, Donnie on violin)
  3. Highway 61 Revisited (Bob on piano, Donnie on lap steel)
  4. Simple Twist Of Fate (Bob on piano then center stage on harp, Donnie on violin)
  5. Can’t Wait (Bob center stage, Donnie on lap steel
  6. When I Paint My Masterpiece (Bob on piano, Donnie on violin)
  7. Honest With Me (Bob on piano, Donnie on violin)
  8. Tryin’ To Get To Heaven (Bob on piano, Donnie on violin)
  9. Make You Feel My Love (Bob center stage, Donnie on pedal steel)
  10. Pay In Blood (Bob center stage, Donnie on lap steel)
  11. Lenny Bruce (Bob on piano, Donnie on violin)
  12. Early Roman Kings (Bob center stage, Donnie on pedal steel,
    Tony on standup bass)
  13. Girl From the North Country (Bob on piano, Donnie on violin,
    Tony on standup bass)
  14. Not Dark Yet (Bob center stage, Donnie on pedal steel)
  15. Thunder On The Mountain (Bob on piano, Donnie on lap steel)
  16. Soon After Midnight (Bob on piano, Donnie on lap steel)
  17. Gotta Serve Somebody (Bob on piano, Donnie on pedal steel)
    (bis)
  18. Ballad of a Thin Man (Bob center stage on harp, Donnie on lap steel)
  19. It Takes A Lot To Laugh, It Takes A Train To Cry
    (Bob on piano, Donnie on lap steel)

5 novidades no show de Bob Dylan de 2019

Depois de um breve boato vindo do baixista da Rolling Thunder Revue, Rob Stoner, de que Bob Dylan pausaria sua turnê no segundo semestre de 2019, tudo voltou ao normal: 38 shows marcados entre outubro e dezembro. Nesta fase da turnê, Bob Dylan optou por tocar principalmente em universidades.

E no primeiro show, no Bren Center de Irvine, tivemos algumas novidades.

Piano armário

Bob Dylan deixou de lado seu Baby Grand Piano e optou por um piano mais popular, o piano de armário. Se por um lado o transporte durante a turnê seja muito mais fácil com este instrumento, seu design pode dificultar ver o rosto de Dylan para quem está na platéia olhando para o fundo do piano.

Manequins (?!?)

Três manequins foram colocados atrás da banda. Na foto é possível ver que um manequin é masculino e está vestido de smoking e outro feminino com o que parece ser um vestido. Não tentei buscar razões para isso (e lembrei de quando alguns espelhos foram colocados na frente do palco, virados para o público, alguns anos atrás).

Novo baterista, Matt Chamberlain

Sem anunciar se a mudança é definitiva ou temporária, George Receli foi substituído pelo baterista Matt Chamberlain. Com 52 anos, Matt tocou com Pearl Jam em 1991 e se tornou músico de estúdio desde então, tocando com inúmeros músicos, como Amos Lee, Blake Mills, Brad Mehldau, Bruce Springsteen, David Bowie, Elton John, Fiona Apple, John Mayer, Soundgarden, Laura Marling e gravou dois discos com The Wallflowers, banda do filho de Dylan, Jakob.

Novo guitarrista, Bob Britt

Sem nenhuma razão aparente – talvez apenas para mudar a sonoridade, mesmo – Bob Dylan havia tirado Stu Kimball da guitarra. Desde o ano passado ele fez shows apenas com Charlie Sexton na guitarra e Donnie Herron no violion, lapsteel e pedal steel. Agora, trouxe de volta um segundo guitarrista. Bob Britt já é conhecido de Dylan faz tempo, sendo um dos inúmeros músicos que participou do disco Time Out Of Mind.

Nesta entrevista, Bob Britt conta um pouco de como foi participar da gravação do disco:

Things Have Changed sai

Para o primeiro show com a nova formação, Bob Dylan optou por mexer também no repertório. Tirou algumas canções que estavam há muito tempo, como Things Have Changed, Blowin’ in the Wind e Like a Rolling Stone, e incluiu uma bem rara, Lenny Bruce.

Aqui está o áudio completo:

Setlist:
Beyond Here Lies Nothin’ (Bob on guitar)
It Ain’t Me, Babe
Highway 61
When I Paint My Masterpiece
Cry A While
Simple Twist of Fate
Honest With Me
Tryin’ to Get To Heaven
Make You Feel My Love
Pay in Blood
Lenny Bruce
Early Roman Kings
Girl of the North Country
Not Dark Yet
Thunder on the Mountain
Soon After Midnight
Gotta Serve Somebody

bis

Long and Wasted Years
It Takes A Lot To Laugh, It Takes A Train To Cry