Bob Dylan, 79 anos (ou “Fique seguro, fique atento”)

Desde 2011 escrevo no dia 24 de maio um devaneio sobre Bob Dylan. Para além das festas, penso nos aniversários como um momento de reflexão. É desse jeito que costumo fazer com os meus e foi como imaginei fazer com os de Dylan.

Assim, é impossível dissociar este balanço reflexivo com nosso contexto atual. Vivemos uma pandemia quase incoerente – um vírus que se desintegra com água e sabão, mas que chega a matar 1.000 brasileiros em um dia. O isolamento imposto pelo coronavírus pode flertar com a solitude, mas seu perfil coercitivo nos faz claustrofóbicos – cada um a sua maneira.

Em meio a tudo isso, talvez tenha sido a primeira vez que realmente me peguei imaginando como Bob Dylan passa seu aniversário. Quase em tom de fiscalização, me peguei questionando coisas como: será que ele está se cuidando, lavando as mãos, usando máscara e assim por diante.

O fato é que pouco sabemos da vida íntima de Dylan – às vezes as informações vem à tona décadas depois. E pouco importa também. É necessário entender que o Dylan que conhecemos, e que admiramos, é o Dylan do palco, do estúdio, das letras e canções. Não é o avô, pai ou amigo confidente.

Com o distanciamento, vivemos em um reality show generalizado, com todos transmitindo suas casas como cenário. A ideia de uma live dylanesca nunca passou na minha cabeça – tamanha invasão é absurda diante do seu histórico recluso. Mas ganhamos uma mensagem divulgada em conjunto com o lançamento “Murder Most Faul”.

“Saudações para meus fãs e seguidores com gratidão por todo seu apoio e lealdade durantes os anos. Esta é uma canção inédita que gravamos há algum tempo e vocês talvez achem interessante.
Fique seguro, fique atento que Deus esteja com vocês.”

“Murder Most Faul” veio a público no dia 27 de março. Três semanas depois ouviríamos “I Contain Multitudes” e seguidos outros 21 dias receberíamos “False Prophet”. Junto com a última música, chegou a informação de que teríamos outras sete faixas inéditas – pelo menos até pessoas como Scott Warmuth vasculhar o mundo atrás de referências, influências e dialogismos.

As três novas canções apontam muitos pontos interessantes. O mais óbvio é o retorno a composições próprias. Também é interessante observar como as duas primeiras absorvem a recente fase jazzística para criar algo diferente. É um estilo que dialoga com os últimos discos de cover, mas que não os repete. Há o clima, mas o cenário é diferente.

Desde 2015, Bob Dylan se propôs a garimpar o cancioneiro norte-americano para entender suas entranhas harmônicas, suas intonações vocais e todo o sentimento que muitas gerações receberam incessantemente. Gostemos ou não do resultado, colheremos em breve o fruto dessa imersão.

E agora me vem a mente: há aqui a maneira Dylan de compartilhar sua intimidade.

Ele não permite a entrada da mídia em sua casa. Não distribui pelo mundo entrevistas e é raro vê-lo no palco falar algo que não seja sua música. Mas é inquestionável sua disposição de tornar seu trabalho um livro aberto. Nesses lançamentos de jazz, ele se propôs a uma imersão descobridora e permitiu que nós fôssemos testemunhas. E agora, aos 79, divulgará os resultados dos aprendizados dos últimos anos.

Com “Murder Most Faul”, abre um pouco seu universo de referências e apresenta em forma de lista como tudo que absorve se torna uma colcha variada e colorida.

Enfurnado em casa, ouvindo as novas canções e suas listas e referências, me inspiro a fazer o mesmo. Não é nostalgia, mas uma revisitação sob o olhar atual. Não é reviver, mas reencontrar. Seja com livros, discos e até armários que há tempos não mexia, Bob Dylan me inspira a cerzir minha própria colcha de retalhos.

Parabéns, Dylan. Fique seguro, fique atento que Deus esteja com você.

Para ler textos de aniversários anteriores, acesse:

Bob Dylan, 78 anos (ou “Dignity never been photographed”)

Bob Dylan, 77 anos (ou “Olhando para trás”)

Bob Dylan, 76 anos (ou “O escultor sonoro”)

Bob Dylan, 75, e a ocupação em nascer

Bob Dylan, 74, e a Árvore da Música

Bob Dylan, 73, e o eterno estado de “vir a ser”

Bob Dylan, 72 anos: compreendendo Dylan

Os 71 anos de Bob Dylan (ou como ele nunca olha para trás)

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