Conheça mais detalhes sobre “Shadows In The Night”

bd_shadows_cvr_fnl_cd

Faltando menos de um mês para o lançamento do próximo disco de estúdio de Bob Dylan (a ser lançado no dia 3 de fevereiro), uma recente entrevista com o engenheiro de som e um release deu mais informações sobre o tão aguardado disco.

Já temos boatos sobre “Shadows In The Night” desde maio de 2014. Agora temos certeza que o 36º álbum de estúdio de Bob Dylan será apenas de covers de canções interpretadas por Frank Sinatra. Entre as 10 faixas do discos, estão clássicos como Autumn Leaves, That Lucky Old Sun e Stay With Me, recentemente inclusa como fechamento dos shows de Dylan.

No release sobre a produção, Bob Dylan falou um pouco sobre os desafios:

“Foi um grande privilégio fazer este disco. Eu sempre quis fazer algo assim há muito tempo, mas nunca fui corajoso o bastante para pegar canções para uma orquestra de 30 integrantes e refinar para uma banda com 5 pessoas. Esta é a chave para todas essas performances. Nós conhecíamos muito bem as músicas. Foi tudo feito ao vivo. Talvez um ou dois takes. Sem overdubbings. Sem sala para a voz. Sem fones de ouvido. Sem canais separados e, na maioria das vezes, mixadas como foram gravadas. Eu não me vejo fazendo covers delas. Elas já foram encobertas o suficientes. Enterradas, na verdade. O que eu e minha banda estamos basicamente fazendo é desenterrando-as. Tirando-as do túmulo e trazendo-as para a luz do dia.”

Ouça “Full Moon & Empty Arms”:
[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=6S7nTLeMdAk[/youtube]

Engenheiro de som fala sobre as gravações

Al Schmitt, famoso engenheiro de som que detem nada menos que 21 Grammies em sua carreira (e já trabalhou com inúmeras pessoas de peso, como Steely Dan, George Benson, Natalie Cole, Neil Young e Diana Krall), deu uma recente entrevista no Youtube e falou um pouco sobre o disco.

Segundo Al, Bob Dylan adiou as gravações para aguardar uma vaga na agenda de Schmitt. O disco foi gravado no prédio da Capitol (na mesma época em que “The New Basement Tapes” era gravado). O engenheiro disse que sua mulher achou o disco “sexy”, enquanto que T Bone Burnett, Elvis Costello e Diana Krall adoraram o resultado.

Al afirma que é diferente de tudo o que Bob Dylan já fez. Além da escolha do repertório, o formato dos músicos foi bem pouco usual. Bob e sua banda gravaram no mesmo ambiente, sem qualquer divisão. Por algum motivo inexplicável, Dylan não queria ver os microfones dos instrumentos, apenas o utilizado para gravar sua voz. Por isso Al formou uma meia lua com todos os músicos e “escondeu” os microfones com certa distância (o microfone do baixo acústico, por exemplo, estava há 2,5 metros longe do instrumento!).

O engenheiro também relatou que quando Bob ouviu o resultado, ele disse: “Eu nunca ouvi minha voz soar tão bem.”

Confira a entrevista:

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=Pxo6dUjnwlA[/youtube]

Schmitt informa que foram gravadas 23 canções, apesar de apenas 10 serem lançadas agora. Confira as escolhidas:

1.  I’m A Fool To Want You
2.  The Night We Called It A Day
3.  Stay With Me
4.  Autumn Leaves
5.  Why Try to Change Me Now
6.  Some Enchanted Evening
7.  Full Moon And Empty Arms
8.  Where Are You?
9.  What’ll I Do
10.  That Lucky Old Sun

Para quem tiver Spotify, é possível ouvir a seleção interpretada por Sinatra:

Resenha: “The New Basement Tapes – Lost In The River”

The New Basement Tapes - Lost In The River

A Egyptian Records, gravadora de Bob Dylan que em 2011 lançou letras inéditas de Hank Williams musicadas por nomes como Jakob Dylan, Jack White, Norah Jones e o próprio Dylan, parece ter gostado da ideia e repetiu a receita – dessa vez focando nas letras do seu dono.

Tudo começou quando uma caixa de letras – manuscritas e datilografadas – foi entregue pelos editores de Bob Dylan ao amigo e produtor musical T Bone Burnett (que já havia tocado com Dylan desde os tempos de Rolling Thunder Revue).

A partir das letras (entregues em duas levas: uma com 16 e uma segunda com oito), datadas de 1967, T Bone quis repetir o clima do casarão Big Pink e recrutou músicos multi-instrumentistas para compor um “dream team” e musicar as poesias dylanescas.

The New Basement Tapes - Lost In The River

A escalação que entrou em estúdio foi de peso: Elvis Costello, Rhiannon Giddens (Carolina Chocolate Drops), Taylor Goldsmith (Dawes), Jim James (My Morning Jacket) e Marcus Mumford (Mumford & Sons) – todos com experiência em excursionar com Dylan. Além deles, o projeto ganhou a visita de Johnny Depp durante as gravações.

Antes, depois ou durante Basement Tapes?

Apesar de T Bone Burnett atrelar as letras a era Basement Tapes, Clinton Heylin questionou na edição Dez/14 da UNCUT a real época de composição. Para Heylin, tanto o conteúdo quanto evidências físicas (Robbie Robertson, da Band, indicou que as letras de Basement Tapes eram entregues apenas datilografadas, sem ser manuscritas) indicam que as letras de Lost In The River podem ter um contexto ainda mais intrigante.

“A razão para que estas letras tenham um valor além do status de ‘perdidas’ é que elas aparentam ser letras de músicas que Dylan compôs nos seis meses após o acidente de moto, mas antes da Band se mudar para Big Pink.”

Clinton então vê essas letras como a ligação perdida entre Blonde On Blonde e Basement Tapes, numa época em que Dylan questionava não só a direção de sua arte como a condução de sua carreira (com atritos cada vez mais frequentes com seu empresário, Albert Grossman). Talvez por isso, guardou a sete chaves os rascunhos que passavam pela sua cabeça – antes mesmo de pensar em gravar com os futuros vizinhos.

Conteúdo

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=Iq66_lWB7I4[/youtube]

Conforme foram divulgadas através de lyric videos, as letras de Lost In The River ficavam cada vez mais emocionantes. Independente da data exata em que foram compostas, seu conteúdo parece dialogar diretamente com as possíveis reflexões de Dylan durante a recuperação do fatídico – e histórico – acidente, formando um amálgama entre estudos poéticos e balanços sobre os últimos quatro anos corridos e bem sucedidos de Bob.

“Down on the bottom/ No place to go but up” está na estrofe de abertura do disco: talvez uma referência ao “vôo” de Dylan sob a moto? Outro exemplo possivelmente autobiográfico está em “Nothing To It”, descrevendo um incômodo por não se encaixar em nenhum rótulo ou estilo:

“Well I knew I was young enough
And I knew there was nothing to it
‘cause I’d already seen it done enough
And I knew there was nothing to it

There was no organization I wanted to join
So I stayed by myself and took out a coin
There I sat with my eyes in my hand
Just contemplating killing a man”

Ao se debruçar nas letras “esquecidas”, é interessante notar o novo caminho que Dylan passava a trilhar. As letras parecem se aproximar mais da visão que Bob desenvolveria principalmente em John Wesley Harding: alguém que entende a riqueza da linguagem e alegoria e passa a usá-la atrelada a uma maior maturidade e sensatez.

Outro ponto é o poder que Dylan tem em não olhar para trás. Várias letras de Lost In The River são clássicos instantâneos, com belíssimas construções. É o caso de “When I Get My Hands On You”, “Liberty Street” e “Stranger” (talvez minhas três favoritas do disco).

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=BDUDx15KdkI[/youtube]

Forma

Por sorte de todos, o grupo liderado por Burnett não quis simular uma musicalidade dylanescas nas composições. Respeitou-se principalmente as características dos músicos envolvidos e a habilidade de interação entre eles.

As gravações parecem ter sido feitas ao vivo, com os músicos se olhando e se relacionando no momento do registro, dando um caráter mais pessoal e íntimista. Segundo Burnett, alguns músicos resolveram musicar as letras antes do encontro, enquanto outros preferiram vir com o propósito de agregar no improviso. Ambas as formas parecem muito próximas do formato que agrada Dylan, possibilitando, aí sim, um ambiente tão solto e leve quanto a época de Basement Tapes.

Documentário

Além do álbum e suas variações (CD, download e vinil), o registro resultou também em um documentário para a HBO, com cenas das gravações, além de entrevistas – incluindo até Bob Dylan.

O documentário irá ao ar nos EUA no dia 21 de novembro. Confira o trailer:
[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=Fsx-QMY_FKY[/youtube]

Conclusão

Lost On The River Box Set + Deluxe Digital Album + Fan Poster Bundle

“Lost In The River” é um projeto respeitoso e ousado. Como diz a máxima, ninguém canta Dylan como Dylan, mas quando não há uma referência das intenções do autor, a liberdade flui com a naturalidade da descoberta.

T Bone escolheu com inteligência e estratégia os integrantes do supergrupo. Para mim, os destaques ficam com dois jovens e talentosos músicos: Rhiannon Giddens, com sua bela voz e habilidade no banjo; e Marcus Mumford que me ganhou com sua interpretação de “Stranger”.

Além disso, é um ótimo complemento para o “Bootleg Series: The Basement Tapes Complete”, que Dylan acabou de lançar e que cobre exatamente a mesma época.

Infelizmente, ainda não há qualquer informação sobre o lançamento deste disco no Brasil.

Disco novo (só de covers)?!?

O site oficial de Dylan acordou hoje com a imagem abaixo e o áudio de Bob cantando a música “Full moon and Empty Arms” – canção de 1945 já interpretada também por Frank Sinatra e outros.

cover3

OUÇA AQUI

 

UPDATE!

Shadows In The Night

O disco se chamará Shadows In The Night e aparentemente já tem data de lançamento: 26 de agosto.

Dentre as discussões, especula-se a possibilidade de ser um disco apenas com canções cantadas por Frank Sinatra, que Dylan sempre demonstrou ser fã (até tocando em um tributo).