Bob Dylan, 78 anos (ou “Dignity never been photographed”)

“Eu estou atento apenas no que acontece em um certo tempo. Não estou atento em como será quando eu for embora ou como é antes de eu estar lá” – Bob Dylan a Larry “Ratso” Sloman, 1975

Hoje Bob Dylan completa 78 anos. É uma marca invejável para um artista que continua se desafiando e interessado em manter na ativa sua inesgotável criatividade. A citação introdutória é de 1975, mas reflete muito bem o pensamento que acompanha Dylan desde sempre.

Registro durante o show em Valencia (07 de Maio de 2019), quando Dylan usou chaves de boca para segurar as letras.

Mesmo com os setenta e oito ciclos, Bob Dylan mantém seu giro mundial sem parecer ter hora para acabar. Há uma diminuição de velocidade e uma preferência por um repertório mais estático, mas ainda há espaço para experimentações, improvisos e uma necessidade de conectar com seu público.

Exemplo está em sua recente passagem por Viena, quando se irritou com um fotógrafo da platéia e pediu que escolhesse: ou tocavam ou posavam para a foto – quase levando um belo tombo. É interessante observar sua necessidade de brigar para que todos apreciem o momento – e que ninguém estrague o dele, principalmente.

Com sua dignidade intacta, Bob Dylan persiste na sua missão e devoção a sua Musa-mor. Se as palavras lhe rendem prêmios inéditos, é na melodia instantânea que ele encontra o afago para sua arte. Palavras sozinhas, para ele, talvez pareçam fracas ou perdidas. Não há muito o que dizer, mas há muito a se cantar.

Como um trovador budista, Bob Dylan semeia a prática de estar presente no presente. Ele evita ao máximo se afogar na nostalgia imutável. As canções, mesmo que as mesmas, continuam sendo reescritas, rearranjadas, refeitas, transformando-as em novo, de novo e sempre. A cada instante.

E se somos a soma dos instantes, quão relevante é estar presente no agora? Dylan que diga.

Para ler textos de aniversários anteriores, acesse:

Bob Dylan, 77 anos (ou “Olhando para trás”)
Bob Dylan, 76 anos (ou “O escultor sonoro”)
Bob Dylan, 75, e a ocupação em nascer
Bob Dylan, 74, e a Árvore da Música
Bob Dylan, 73, e o eterno estado de “vir a ser”
Bob Dylan, 72 anos: compreendendo Dylan
Os 71 anos de Bob Dylan (ou como ele nunca olha para trás)

Bob Dylan, 77 anos (ou “Olhando para trás”)

Refletindo sobre as atitudes recentes de Bob Dylan, devo alertar os leitores do Dylanesco: ele mentiu para nós. Desde os anos 60, cunhou não só um documentário como um estilo de vida. “Dont Look Back” era uma bandeira para se desprender das correntes do próximo passado em busca da construção de descobertas constantes. Décadas depois, no documentário No Direction Home, ele explicou que o artista deve sempre estar em um estado de transição, para nunca estacionar num único lugar.

Repito: ele mentiu para nós. Faz um bom tempo que Bob Dylan olha para trás, sem que a gente perceba com clareza. E aqui estão dois indícios recentes:

1) Clássicos da Literatura

Meticulosamente analisado por Richard F. Thomas, a relação de Bob Dylan com os clássicos gregos e romanos data desde a juventude de Bob Dylan, ainda na cidade de Hibbing. Nas primeiras composições, olha para Roma com grande admiração, mas é no segundo milênio que ele remete ao seus estudos da adolescência com mais afinco, dialogando com grandes clássicos e em boa parte das canções que escreveu.

(Leia mais sobre o livro de Richard F. Thomas: “Why Bob Dylan Matters”)

2) Clássicos do Jazz

Desde 2015, Bob Dylan usou suas visitas ao estúdio para gravar clássicos de jazz, a grande maioria já interpretados por Frank Sinatra. Além de ser uma iniciativa que distoa de sua carreira – sendo tratado nos anos 60 como uma solução contrária ao establishment da indústria da época -, Dylan devaneou com os sons que respirou, voluntária ou involuntariamente, em sua juventude. Apesar de fincar os pés na profissão de cantautor (singer-songwriter), Bob também olhou com carinho as poesias pop que sobrevovam ao seu redor.

Viu? Apenas dois exemplos recentes que comprovam minha opinião. Bob Dylan olha, sim, para trás.

… mas calma. Pensando melhor, talvez ele não esteja mentindo para nós.

Bob não tem desdém pelo passado, mas medo pelo canto da sereia Nostalgia. Não quer se aprisionar em um personagem do Dia da Marmota em que não consegue, de fato, viver coisas novas.

Para Dylan, viver o passado não é reviver o que passou, mas recriar os significados das lembranças. Ele rememora como se quisesse organizá-las e desorganizá-las ao mesmo tempo e ininterruptamente. Ele quer ressignificar suas experiências, tornando-as algo novo.
Talvez esteja aí a razão do seu repertório estático dos shows recentes. Talvez Bob Dylan esteja querendo esfregar o passado no presente através da repetição frequente.

Enquanto que muitos de nós tratamos o passado como um canto da sereia que nos aprisiona, Bob Dylan sabe se desviar da hipnose marinha para olhar para trás com a certeza de que já viveu, mas que há ainda muito o que viver – mesmo que seja contemplando, com uma nova ótica a cada momento, o passado.

Feliz aniversário, Bob.

Para ler textos de aniversários anteriores, acesse:

Bob Dylan, 76 anos (ou “O escultor sonoro”)

Bob Dylan, 75, e a ocupação em nascer

Bob Dylan, 74, e a Árvore da Música

Bob Dylan, 73, e o eterno estado de “vir a ser”

Bob Dylan, 72 anos: compreendendo Dylan

Os 71 anos de Bob Dylan (ou como ele nunca olha para trás)

Update: eis uma bela homenagem no Youtube, com Bob Dylan cantando “Old Rock ‘n’ Roller”, de Charlie Daniels Band, e introduzindo “Essa é para quem imagina o que acontece para pessoas como eu”.

Bob Dylan, 76 anos (ou “O escultor sonoro”)

Trinta e oito discos de estúdio, três mil e quinhentos shows e mais de quinhentas músicas depois, Bob Dylan completa setenta e seis anos de idade. Números que refletem o quanto ele passou sua vida imerso em um único tema: a Música.

Entender Bob Dylan é se aprofundar nos meandros das possibilidades da canção. Como um escultor, Dylan quer explorar todos os ângulos do seu objeto de contemplação. Se num mesmo romance coexistem raiva, tristeza, alegria e paixão, porque não seria possível na escultura sonora dylanesca?

No momento da exposição, ao invés de levar para a estrada um museu itinerante em que o que prevalece é o julgamento do infinito, Bob & cia preferem levar o próprio ateliê. Trabalha na frente do público. Permite que todos o observe produzir em tempo real. É como se ele nos deixasse apreciar o que ele faz, mas o benefício se limita até aí. Não podemos opinar e mal podemos interagir – só nos resta testemunhar seu momento de criação.

Por quê? O mais importante é a conexão que é feita. Mas qual é a conexão se Dylan pouco fala (durante os shows, durante premiações, com raras entrevistas)? A conexão se faz através da canção. Em seus shows recentes, a parca luz parece nortear uma possível máxima dylanesca: não sou eu, é a Música. E de fato sempre foi.

Porém, é preciso falar dos fatos recentes. Seus últimos discos são de canções imortalizadas por Sinatra e outros e não exploram o poder poético que lhe rendeu o Nobel de Literatura em 2016. O repertório dos shows se mantem praticamente estático, com raras mudanças e sutis alterações nos arranjos e fraseados. Dentro deste contexto, é preciso opinar:

Prefiro o Bob de outras épocas. E nem precisa ser tão distante. Do início da década 2010, dos shows de São Paulo em 2012. Sinto falta do imprevisível, do aqui-e-agora, dos resgate de canções próprias, de lançamentos de novos álbuns de inéditas, de um Dylan incomodado com a mesmice.

Mas também é preciso respeitar: se sua regra foi sempre mudar, manter-se o mesmo é uma mudança de hábito, não? Ao invés de criar esculturas distintas e diárias, Bob se propôs um novo desafio: recriar a mesma escultura incessantemente. Talvez seja um bloqueio criativo ou uma crise com sua própria criação, mas talvez seja uma imersão no desconhecido, mesmo que isso signifique uma fase de interpretação de canções de terceiros e a monotonia da repetição.

Seja como for, estaremos contigo, Bob. E entendemos sua (agri)doce indireta, mesmo que não seja de sua autoria:

“I’m sentimental, so I walk in the rain
I’ve got some habits even I can’t explain
Could start for the corner, turn up in Spain
But why try to change me now?

I sit and daydream, I’ve got daydreams galore
Cigarette ashes, there they go on the floor
I’ll go away weekends, leave my keys in the door
But why try to change me now?

Why can’t I be more conventional?
People talk, people stare, so I try
But that’s not for me, cause I can’t see
My kind of crazy world go passing me by

So, let people wonder, let ‘em laugh, let ‘em frown
You know I’ll love you till the moon’s upside down
Don’t you remember I was always your clown?
Why try to change me now?
Don’t you remember I was always your clown?
But why try to change me
Why try to change me now?”