Bob Dylan e o Cinema: A Minha Canção de Amor/Together Through Life

Together Through Life

Bob Dylan sempre foi seduzido pela sétima arte – desde a juventude, nas sessões do cinema Lybba Theater de seu tio, em Hibbing, passando pelo seu orgulho ao exibir seu Oscar de Melhor Trilha Sonora Original com “Things Have Changed”. Ao longo de sua carreira, experimento diversas participações no cinema. Esta é uma das mais recentes, que resultou em duas obras interligadas e independentes ao mesmo tempo.

A Ousadia de Olivier

A idealização do álbum Together Through Life (2009) começou com uma audácia surpreendente de um diretor francês. Olivier Dahan ainda colhia os frutos da aclamada cinebio “La Vien en Rose”, sobre Edith Piaf, quando começou a trabalhar em um “roadmovie” que se passava no Sul dos EUA. Para isso, precisava se uma trilha sonora que tivesse a mesma intensidade e contraste que o roteiro. A resposta não era difícil.

“Eu queria que as canções soassem sulistas. Verdadeiras músicas do espírito americano. O que isso significava para mim, e para milhões de pessoas no mundo, é canções de Bob Dylan” – Olivier Dahan, para a Rolling Stone.

Com a resposta na cabeça, foi atrás de concretizá-la, surpreendendo até mesmo Bob Dylan com o pedido:

“No começo eu achei impensável. Digo, eu não sabia o que ele estava realmente dizendo. ‘Você pode escrever 10 ou 12 canções?’. Saca? Eu disse ‘É mesmo? Este cara está falando sério?’. Mas ele foi muito audacioso! Normalmente te pedem para escrever uma música para ficar no fim do filme. Mas 10 músicas? Dahan queria colocá-las ao longo do filme e encontrar diferentes razões para elas. Eu meio que dei o benefício da dúvida que este cara sabia o que ele estava fazendo.” – Bob Dylan, para a Rolling Stone.

My Own Love Song

My_own_love_songJane (Renée Zellweger) é uma ex-cantora que abandonou a carreira após sofrer um acidente de carro e ficar paraplégica. Sua única companhia é Joey (Forest Whitaker), um ex-bombeiro que foi internado em um hospital psiquiátrico após ver sua família morrer. O destino os une para que se ajudam contra os fantasmas do passado, enquanto obrigam um ao outro a entender e superar os obstáculos da vida. A obra se passa numa viagem entre Marysville (Kansas) até New Orleans (Louisiana). Personagens são incluídos na história para criar o clima de epopéia da dupla.

A participação de Bob Dylan na trilha sonora é fiel aos planos tanto do cantor quanto do diretor: ser o pano de fundo que conecta os personagens ao enredo ao mesmo tempo que insere o público no mundo do Sul dos EUA. O caso não é uma cobertura de todos os ritmos locais, mas um imenso quadro que tá a tônica para a ambiência escolhida.

Além de algumas canções de Together Through Life, outras músicas da discografica dylanesca aparecem em momentos cruciais, como “What Good Am I” (do disco Oh Mercy), “Precious Angel” e “I Believe In You” (ambas do álbum Slow Train Coming).

O filme não é tão redondo, mas vale assistir. Como resume Sérgio Vaz:

“Parece que o diretor queria contar uma história de pessoas que enfrentam problemas sérios na vida, uma dureza sem conta e sem fim, mas que, mesmo assim, buscam algum tipo de esperança, de alegria.

O filme é isso, sim: um road movie de pessoas desajustadas e sofridas que ainda têm forças para perseguir a felicidade.

Mas acaba tendo tantos elementos díspares, disparatados, que deixa aquela sensação de obra irregular, um tanto descosturada.

No entanto, mesmo assim é – repito mais uma vez – um filme que tem muitas qualidades.”

Trilhando: Together Through Life

O álbum Together Through Life é o 33º disco de estúdio de Bob Dylan, lançado no dia 28 de abril de 2009, cerca de um ano antes da exibição do filme. Apesar de ser concebido por encomenda, Bob Dylan, como de costume, transcende a função da canção como pano de fundo para criar algo independente de seu contexto (dois outros exemplos óbvios são “Knockin’ On Heaven’s Door” e “Things Have Changed”).

Bob Dylan co-escreveu quase todas as letras com Rober Hunter, letrista do Grateful Dead que já havia trabalhado com Dylan no álbum Down In The Groove (1988) e participaria da criação de “Duquesne Whistle”, de Tempest (2010). A única exceção é “This Dream Of You”.

A escolha dos músicos pareceu ser meticulosa, a partir da paisagem sonora a ser criada:

  • Mike Campbell (guitarra e mandolin): guitarrista do Tom Petty & The Hearbreakers, que excursionou com Dylan em 1986;
  • Tony Garnier (baixo): músico com mais estrada ao lado de Dylan, desde 1989;
  • Donnie Herron (steel guitar, banjo, mandolin e trumpete): músico constante nas últimas turnês;
  • David Hidalgo (acordeão e guitarra): integrante da banda Los Lobos, já tocou guitarra para outros, como Tom Waits;
  • George Receli (bateria): assim como Donnie, frequente nas últimas turnês de Dylan.

Together Through Life chegou ao público três anos depois de Modern Times, de 2006. Se desde 1997 Bob já mostrava um desgaste na voz, este álbum é a concretização do término das cordas vocais de Dylan. Mas assim como Tom Waits, Bob parece usar essa limitação a seu favor, criando uma voz que soa e ressoa seus 50 anos de música.

(curiosamente, Bob Dylan conseguiria abandonar parte dessa rouquidão após o lançamento de Tempest, de 2012 e com a voz ainda mais suja. Na turnê que se seguiu, Dylan começou a explorar um outro estilo, mas aveludado – que evoluiria para seu atual momento, em que interpreta diversos standards de jazz. Mas isso é outro papo…)

Faixa a faixa:

Beyond Here Lies Nothin’ – Se Olivier queria um clima sulista, aí está. Uma música que te leva a um bar rústico no meio do nada americano. Tudo na música é suingue, um ritmo interessante para ver Dylan, com 68 anos, cantar em cima. O clipe, ainda mais surpreende, retrata uma “sutil” discussão de relacionamento:

Life Is Hard – O único pedido feito por Olivier: uma balada para ser cantada pela protagonista ao final do filme. “Life is Hard” é uma das músicas que eu gostei desde a primeira audição. Há uma leveza melancólica no arranjo e na interpretação de Dylan que torna o desabafo sobre os obstáculos da vida em algo positivo – um recomeço a partir da dor.

Renee Zellweger – Life Is Hard (SPOILER ALERT!)

My Wife’s Home Town – Ao lado de Hunter e Dylan, a canção também é creditada a Willie Dixon pela sua óbvia relação com “I Just Want To Make Love To You”, interpretada por Rolling Stones, mas cuja versão mais próxima é de Muddy Waters. A canção é uma ode bem humorada sobre sua esposa (sabe se lá qual!). É impossível não conectar com Tom Waits e não sorrir ao ouvir os risos dylanescos no último refrão.

Muddy Waters – I Just Want To Make Love To You

If You Ever Go To Houston – Um dialogismo atrás do outro. Enquanto o arranjo ecoa a versão de Fats Domino para “Blueberry Hill”, a letra possui um trecho de “Midnight Special”, canção de Harry Belafonte gravada em 1962 e tem como participação na gaita o jovem Bob Dylan, recém chegado à New York.

Fats Domino – Blueberry Hill

Forgetful Heart – Para mim, entre as melhores canções que Bob Dylan já compôs (a lista é grande, admito). Um blues em tom menor que clama por uma acordo de paz entre o ser e seu coração. Enquanto a gravação soa em um ritmo arrastado, ao vivo a a música fica ainda mais vagarosa, com um arranjo em bongôs, violino e arco no baixo acústico que carrega ainda mais o desespero da letra.

Bob Dylan – Forgetful Heart (Istanbul, 20/06/2014)

Jolene – Uma espécie de “Lucille”, de Little Richards, mas com uma possível referência ao hit homônimo de Dolly Parton. Contudo, se Dolly pede para que Jolene não roube seu homem, Dylan retrata justamente o homem perdido pelo amor platônico de Jolene.

Dolly Parton – Jolene

This Dream Of You – É como se Dylan refizesse “Romance In Durango”, de Desire (1976). Para Hinton, uma mistura de Paris com tango ou música mexicana. No meio do belo arranjo de acordeon e violino, a esperança reina através do sonho – e aqui guarda uma incoerência dylanesca, mas aguarde duas faixas.

Shake Shake Mama – O grande destaque desta música é o ritmo da bateria de George Receli. É impossível não se empolgar com o som ao mesmo tempo que entende a sutileza e dificuldade que é ter um ritmo completo e simples ao mesmo tempo. Anos depois, o vocalista da banda canadense The Deep Dark Woods faria uma versão bem diferente, mas iluminando um outro lado da canção:

Ryan Boldt – Shake Shake Mama

I Feel A Change Comin’ On – Uma feliz canção amparada no otimismo da mudança. Lembra da incoerência dylanescoa? Está na ponte desta música. Se antes a esperança vem em forma de sonho, aqui ele afirma: “Qual o propósito de sonhar? Você tem coisas melhores a fazer. Sonhos nunca funcionaram para mim, até mesmo quando eles se tornam realidade”. Mas essa é a melhor parte da letra: “Estou ouvindo Billy Joe Shaver e lendo James Joyce. Algumas pessoas me dizem que eu tenho o sangue da terra na minha voz”. Mais Dylan, impossível.

It’s All Good – É como se Dylan resolvesse reescrever “Political World”, do disco Oh Mercy, com a ambientação proposta pelo filme. Ironica, sarcamo e até novas risadas de Bob preenchem um cenário tão confuso quanto real, que no final pouco importa. It’s all good.

Conclusão: Blood Of The Land In My Voice

Apesar de um roteiro ligeiramente truncado, Olivier acertou na mosca ao ser corajoso o suficiente com o pedido a Dylan. Além de criar uma trilha sonora de qualidade e indentidade, ainda estimulou Bob a produzir um disco bom, com ótimas canções que ele manteria no repertório de shows durante muito tempo.

Resenha: Melancholy Mood EP (2016)

EP Melacholy Mood (2016)

Ao retomar sua turnê anual, começando 2016 com 16 shows no Japão, Bob Dylan presentou o público nipônico com um EP contendo quatro faixas do próximo disco, Fallen Angels, a ser lançado no dia 20 de Maio. O EP, com um visual temático japonês, também terá venda durante o Record Store Day, 16 de abril.

As novas gravações usam o mesmo escopo que Shadows In The Night: canções já interpretadas por Frank Sinatra. Contudo, há ao menos duas diferenças sutis entre o EP e o álbum anterior.

A primeira é: se Shadows In The Night apresentava um Bob Dylan contagiado pela intensidade e imensidão das obras que tiraria do túmulo dos standards mundano, a primeira prévia do disco sucessor se mostra bem mais leve. As quatro músicas escolhidas soam mais joviais, mais soltas, como se Bob Dylan já soubesse a trilha a seguir e pudesse curtir a paisagem sonora que o cerca.

A segunda é o instrumento que desempenha o protagonismo. Em Shadows In The Night o pedal steel de Donnie Herron direciona praticamente todas as adaptações nos arranjos. No EP, contudo, o protagonismo fica por conta da guitarra de Charlie Sexton, pincelando notas que complementam a melodia da letra ao mesmo tempo que dá um apoio mais técnico à voz, que às vezes falha, de Bob.

Ouvir Bob Dylan cantar standards é algo tão curiosos quanto contagiante. É verdade que a voz dele não parece ser a mais apropriada para o estilo – o que, ao meu ver, mostra como seu impulso artístico ainda está vivo e ainda guarda energia para experimentalismos e investimentos de risco -, mas é fácil se pegar cantarolando as faixas interpretadas por ele. É como se ele soubesse traduzir a intenção de Sinatra, sem ter a voz de Sinatra.

Trocando em miúdos e revisitando uma máxima dylanesca: Nobody Sings Sinatra Like Dylan.

Resenha – The Cutting Egde: Observando o Big Bang

“A visão que o mundo tem de Rimbaud é um caleidoscópio. Ela muda de cor, de forma, se transforma e nunca é definitiva. Não é concreta, não é real. A lenda tomou conta da biografia e o mito soterrou o homem. Os poemas são poderosos fragmentos biográficos, embora eles não concluam, não desenhem um Rimbaud preciso. Seus delírios, suas alucinações, suas iluminações e temporadas no inferno, às vezes indicam traços do poeta. Mas a poesia acabou quando ele estava saindo da adolescência, aos 19 anos. Aí começa a saga mítica-rimbaldiana que não deixou versos, mas quase se sobrepõe ao poeta.” – (Ivan Pinheiro Machado, sobre Rimbaud).

“A voz de Dylan tinha uma ponta afiada [cutting edge, em inglês], o som de seu estilo de blues das antigas afiado com uma segurança tranquila de um artista no topo de seu jogo, ainda cru, ainda abrasivo, mas absolutamente, definitivamente ao seu estilo. Você poderia amar aquele som ou odiá-lo, mas você não poderia negar sua singularidade.” – (Elijah Wald, sobre Bob Dylan de ‘65).

Booleg Series N. 12 - Cutting Edge

Gosta de ler? Imagine ter acesso ao rascunho do seu livro favorito. Um manuscrito todo rabiscado, com devaneios do autor sobre os diversos caminhos que a trama pode tomar. “Quem é o verdadeiro heroi?”, “Em que momento os dois devem se encontrar?”, “Já é hora dele morrer?”.

Prefere filmes? Pense ter acesso aos bastidores de um filme com o script em aberto. Roteirista, diretor e atores discutem as diversas formas de passar a intenção do autor. “Estou puto ou inconformado?”, “Mas eu me surpreendo com a reação porque eu estava triste, não?” “Eu devo ir correndo ou caminhando?”.

Os dois exemplos acima são bem rasos, admito, mas talvez sejam uma boa analogia para se entender um pouco o que é ouvir The Bootleg Series, Vol. 12: The Cutting Edge – 1965-1966. A mais recente edição da série de bootleg oficiais cobre com muitos detalhes as sessões de gravações da “fase elétrica” de Dylan, ou os 14 meses que separam Bringing It All Back Home e Blonde On Blonde.

Detalhe da versão Deluxe
Detalhe da versão Deluxe

Até mesmo para os patamares da Bootleg Series, Cutting Edge é surpreendente. Se nas edições anteriores havia um linha narrativa que contextualizava o tempo/espaço de Bob Dylan na história do universo, dessa vez ela é não apenas um livro aberto, mas uma viagem no tempo completa. Já que estamos falando de universo, pense na possibilidade de observar o momento do Big Bang. Talvez eu não consiga explicar Cutting Edge sem analogias…

Tive acesso primeiro ao áudio da versão de colecionador, com mais de 19 horas espalhadas em 379 faixas, dispostas cronologicamente em 18 CDs, e comprei as duas outras versões: Deluxe, com 6 CDs, e o “Best of” em três vinis (que acompanha também o formato em CD duplo).

Antes de apertar o Play, um “unboxing” das duas edições que tenho em mãos.

“Unboxing” – Deluxe

Frente do box com 6 CDs
Frente do box com 6 CDs

A versão com 6 CDs é acompanhada de dois livretos. “Mixing Up The Medicine” reúne fotos, reportagens e documentos (como alguns manuscritos de letras), dividos em capítulos cronológicos de cada álbum, as turnês entre eles e, curiosamente, um capítulo apenas para a visita de Dylan a Factory de Andy Warhol (fato sem tanta relevância no BS12).

Verso do box com 6 CDs
Verso do box com 6 CDs

O outro livro, além de comportar os 6 CDs, possui dois textos maiores que contextualizam as obras em seu tempo, além de pinçarem destaques da compilação. O primeiro texto é de Bill Flanagan e percorre rapidamente a história de Bob Dylan entre Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited. O segundo grande texto é de Sean Wilentz, escolhido para falar apenas sobre Blonde On Blonde e sua importância na história da música.

Al Kooper faz um breve relato sobre sua experiência, além de outros dois depoimentos: Angeline Butler, que cantou em uma versão de “If You Gotta Go, Go Now” e Rowland Scherman, fotógrafo da famosa capa do Greatest Hits.

Outro ponto de destaque são as notas de cada uma das músicas dos discos, com uma breve análise da evolução ocorrida dentro do estúdio.

No total, o Deluxe oferece 111 faixas, sendo um dos CDs focado em toda a sessão de gravação de “Like a Rolling Stone”. No final dos 15 takes, o CD contém os quatro canais da fita master separados – canal 1: guitarra solo, canal 2: vocal e guitarra base (Dylan), canal 3: piano e baixo, e canal 4: bateria e órgão.

“Unboxing” – Best Of em vinil

Frente do box em vinil
Frente do box em vinil

A menor versão de Cutting Edge é de um CD duplo ou vinil triplo. Possui apenas um livreto, com fotos, documentos e os textos citados acima com exceção das análises das músicas compiladas. Cada vinil está guardado em dois envelopes, um com uma arte vintage relacionada à Columbia e outra lisa.

Enquanto as versões mais extensas apresentam mais de um take de várias músicas, a edição “Best of” possui apenas uma versão alternativa de cada canção – as únicas exceções são “Like a Rolling Stone” e “Desolation Row”, que possuem dois takes cada. No total, o Best Of possui 36 faixas.

Trilhando “Cutting Edge”

Detalhe de um dos vinis
Detalhe de um dos vinis

Cutting Edge é um registro de um dos períodos mais relevantes de Bob Dylan para a história da música. Foi na junção das letras de Dylan, seu passado recente folk e sua vontade em voltar para o rock, que se criou, querendo ele ou não, um novo estilo. Nas inúmeras versões das músicas em que Dylan é acompanhado por banda, é possível ver como muitas nasciam como um rock mais óbvio e pop, passando só depois para a abordagem menos jovial que se caracterizaria a fase elétrica de Bob.

Bob Dylan sabe pra que lado ir, mas desconhece o caminho para se chegar lá. A banda nem sempre acerta nos primeiros takes, mas o que vemos aqui é um Dylan mais insistente do que ouvíamos falar. De fato algumas músicas são deixadas de lado para serem tocadas em um outro momento, mas várias outras são executadas quase à exaustão, com inúmeras mudanças até mesmo na letra – algo que Dylan costuma fazer até hoje nos palcos.

Manuscrito de "I Want You"
Manuscrito de “I Want You”

Infelizmente, a maior parte desses exemplos são de canções menos relevantes, como “On the Road Again” (que em uma das versões recebe um batuque bizarramente interessante), a primeira abordagem de “It takes a lot to laugh, it takes a train to cry” (que depois ganharia novos ares em Nashville), “Can You Please Crawl Out Your Window” (que no fim só virou um single sem grande importância) e “Leopard-Skin Pill-Box Hat” (que depois de 13 takes insistindo na mesma ideia, só teria sua versão final em um outro dia, dessa vez acertada no primeiro take).

Os bons destaques são: “One Of Us Must Know (Sooner Or Later)”, “Stuck Inside Mobile With Memphis Blues Again”, “Just Like A Woman”, “Visions Of Johanna” e a já batida “Like a Rolling Stone”. Em todas elas, o ponto de partida é muito distante do resultado final (com exceção de “Rolling Stone”, em que já no quarto take temos a versão final, mas a banda continua por mais 11 tentativas!). Essas canções são ótimos exemplos de como Dylan tinha uma ideia na cabeça, mas que precisava da parceria da banda para chegar na execução ideal. Acompanhar os inúmeros takes é aflitivo, mas prazeroso: é como saber o final do filme, mas assisti-lo observando como a história chega até sua conclusão.

Cada versão de Cutting Edge conta parte da história ocorrida nas salas frias dos estúdios da Columbia, tanto em New York quanto em Nashville. Até mesmo os 18 CDs da edição mais parruda possuem lacunas. Temos acesso “apenas” a tudo que foi gravado, mas algumas decisões não foram registradas nas fitas. Como já disse, ainda assim é uma imersão sem igual e inédita até mesmo depois de onze edições da Bootleg Series.

Capa de um dos livros
Capa de um dos livros

É possível perceber, por exemplo, parte das razões da troca de produtor. Não sabemos ao certo porque Dylan, ou seu empresário, trocou Tom Wilson por Bob Johnston, mas temos registros de um artista impaciente com os assovios irritantes de Wilson nas inúmeras interrupções. Também podemos ouvir a tentativa de Dylan em gravar com sua banda de turnê (que se tornariam The Band): Bob está incomodado com a batida forte e concisa do grupo, mas não sabe explicar com exatidão para onde quer ir. De todas as músicas gravadas por eles, apenas uma chegou a Blonde On Blonde – “One Of Us Must Know (Sooner Or Later)”.

O que sabemos é que após a experiência frustrada com The Band, Bob Johnston conseguiu convencer Dylan a gravar na capital do country, Nashville. Lá, encontrou com músicos profissionais que possuiam experiência com artistas do calibre de Elvis, o maior ídolo de Dylan, e possuiam uma habilidade de se ajustar às adversidades musicais. Este capítulo tem uma importância tão grande, que até o Country Hall Of Fame fez uma recente exposição sobre a influência de Dylan e Cash na cidade.

Conclusão

12285962_10206441800538710_1724994478_n

Quando Ivan Pinheiro Machado fala sobre Rimbaud, ele descreve um artista numa época em que pouco se tem registro. A fuga do poeta à Africa gerou tanta especulação quanto o significado sua própria, e escassa, obra. No caso de Bob Dylan, contudo, temos cada vez mais dados para revisitar, reescrever e reapreciar a formação do poeta, cantor, mito e sua Musa. Assim como o Rimbaud, Bob Dylan é um eterno caleidoscópio, criando um amalgama que se molda a partir das vontades do seu dono.

E, parafraseando Elijah Wald, que em seu livro “Dylan Goes Eletric” quase prevê o nome do Bootleg Series N.12, “você pode amar aquele som ou odiá-lo, mas você não pode negar sua singularidade”.