Resenha: “The New Basement Tapes – Lost In The River”

The New Basement Tapes - Lost In The River

A Egyptian Records, gravadora de Bob Dylan que em 2011 lançou letras inéditas de Hank Williams musicadas por nomes como Jakob Dylan, Jack White, Norah Jones e o próprio Dylan, parece ter gostado da ideia e repetiu a receita – dessa vez focando nas letras do seu dono.

Tudo começou quando uma caixa de letras – manuscritas e datilografadas – foi entregue pelos editores de Bob Dylan ao amigo e produtor musical T Bone Burnett (que já havia tocado com Dylan desde os tempos de Rolling Thunder Revue).

A partir das letras (entregues em duas levas: uma com 16 e uma segunda com oito), datadas de 1967, T Bone quis repetir o clima do casarão Big Pink e recrutou músicos multi-instrumentistas para compor um “dream team” e musicar as poesias dylanescas.

The New Basement Tapes - Lost In The River

A escalação que entrou em estúdio foi de peso: Elvis Costello, Rhiannon Giddens (Carolina Chocolate Drops), Taylor Goldsmith (Dawes), Jim James (My Morning Jacket) e Marcus Mumford (Mumford & Sons) – todos com experiência em excursionar com Dylan. Além deles, o projeto ganhou a visita de Johnny Depp durante as gravações.

Antes, depois ou durante Basement Tapes?

Apesar de T Bone Burnett atrelar as letras a era Basement Tapes, Clinton Heylin questionou na edição Dez/14 da UNCUT a real época de composição. Para Heylin, tanto o conteúdo quanto evidências físicas (Robbie Robertson, da Band, indicou que as letras de Basement Tapes eram entregues apenas datilografadas, sem ser manuscritas) indicam que as letras de Lost In The River podem ter um contexto ainda mais intrigante.

“A razão para que estas letras tenham um valor além do status de ‘perdidas’ é que elas aparentam ser letras de músicas que Dylan compôs nos seis meses após o acidente de moto, mas antes da Band se mudar para Big Pink.”

Clinton então vê essas letras como a ligação perdida entre Blonde On Blonde e Basement Tapes, numa época em que Dylan questionava não só a direção de sua arte como a condução de sua carreira (com atritos cada vez mais frequentes com seu empresário, Albert Grossman). Talvez por isso, guardou a sete chaves os rascunhos que passavam pela sua cabeça – antes mesmo de pensar em gravar com os futuros vizinhos.

Conteúdo

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=Iq66_lWB7I4[/youtube]

Conforme foram divulgadas através de lyric videos, as letras de Lost In The River ficavam cada vez mais emocionantes. Independente da data exata em que foram compostas, seu conteúdo parece dialogar diretamente com as possíveis reflexões de Dylan durante a recuperação do fatídico – e histórico – acidente, formando um amálgama entre estudos poéticos e balanços sobre os últimos quatro anos corridos e bem sucedidos de Bob.

“Down on the bottom/ No place to go but up” está na estrofe de abertura do disco: talvez uma referência ao “vôo” de Dylan sob a moto? Outro exemplo possivelmente autobiográfico está em “Nothing To It”, descrevendo um incômodo por não se encaixar em nenhum rótulo ou estilo:

“Well I knew I was young enough
And I knew there was nothing to it
‘cause I’d already seen it done enough
And I knew there was nothing to it

There was no organization I wanted to join
So I stayed by myself and took out a coin
There I sat with my eyes in my hand
Just contemplating killing a man”

Ao se debruçar nas letras “esquecidas”, é interessante notar o novo caminho que Dylan passava a trilhar. As letras parecem se aproximar mais da visão que Bob desenvolveria principalmente em John Wesley Harding: alguém que entende a riqueza da linguagem e alegoria e passa a usá-la atrelada a uma maior maturidade e sensatez.

Outro ponto é o poder que Dylan tem em não olhar para trás. Várias letras de Lost In The River são clássicos instantâneos, com belíssimas construções. É o caso de “When I Get My Hands On You”, “Liberty Street” e “Stranger” (talvez minhas três favoritas do disco).

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=BDUDx15KdkI[/youtube]

Forma

Por sorte de todos, o grupo liderado por Burnett não quis simular uma musicalidade dylanescas nas composições. Respeitou-se principalmente as características dos músicos envolvidos e a habilidade de interação entre eles.

As gravações parecem ter sido feitas ao vivo, com os músicos se olhando e se relacionando no momento do registro, dando um caráter mais pessoal e íntimista. Segundo Burnett, alguns músicos resolveram musicar as letras antes do encontro, enquanto outros preferiram vir com o propósito de agregar no improviso. Ambas as formas parecem muito próximas do formato que agrada Dylan, possibilitando, aí sim, um ambiente tão solto e leve quanto a época de Basement Tapes.

Documentário

Além do álbum e suas variações (CD, download e vinil), o registro resultou também em um documentário para a HBO, com cenas das gravações, além de entrevistas – incluindo até Bob Dylan.

O documentário irá ao ar nos EUA no dia 21 de novembro. Confira o trailer:
[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=Fsx-QMY_FKY[/youtube]

Conclusão

Lost On The River Box Set + Deluxe Digital Album + Fan Poster Bundle

“Lost In The River” é um projeto respeitoso e ousado. Como diz a máxima, ninguém canta Dylan como Dylan, mas quando não há uma referência das intenções do autor, a liberdade flui com a naturalidade da descoberta.

T Bone escolheu com inteligência e estratégia os integrantes do supergrupo. Para mim, os destaques ficam com dois jovens e talentosos músicos: Rhiannon Giddens, com sua bela voz e habilidade no banjo; e Marcus Mumford que me ganhou com sua interpretação de “Stranger”.

Além disso, é um ótimo complemento para o “Bootleg Series: The Basement Tapes Complete”, que Dylan acabou de lançar e que cobre exatamente a mesma época.

Infelizmente, ainda não há qualquer informação sobre o lançamento deste disco no Brasil.

Resenha: The Lyrics

The Lyrics

No dia em que Bob completa 53 anos do seu primeiro show em New York, eis que sou contemplado com o compêndio máximo da literatura dylanesca. Maior que uma capa de vinil, quase mil páginas e um peso proporcional à relevância de Dylan: The Lyrics.

O livro, lançado no dia 28 de outubro pela Simon & Schuster, foi editado por Christopher Ricks (acadêmico com publicações sobre Dylan), Lisa Nemrow e Julie Nemrow.

The LyricsThe Lyrics tem 926 páginas e pesa pouco mais de 6kg. Com um formato um pouco maior que uma capa de disco, um dos diferenciais deste livro para as outras compilações líricas de Dylan é a inserção da capa e contracapa de todos os discos, incluindo os textos originais (algo similar ao Box of Vision).

As letras são distribuídas em ordem cronológica de lançamento, mas também foram incluídas canções nunca lançadas oficialmente. Na introdução, Ricks deixa claro três pontos importantes: primeiro que as letras contemplam todos os discos, desde 1962; segundo que a publicação oferece variações cantadas por Dylan ao longo dos anos (inexistente em compilações anteriores); e terceiro que as estrofes e versos são diagramados tendo como base a forma como Bob cantou.

Outro detalhe bem relevante: as letras de Tempest, último disco de inéditas de Dylan até o momento, foram transcritas e passaram pela aprovação de Bob (nem no site oficial existe a letra). Isto significa que é a primeira vez que podemos ter certeza do que é cantado em Tempest.

Conclusão

Writings & Drawings (1973) e The Lyrics (2014)
Writings & Drawings (1973) e The Lyrics (2014)

The Lyrics é um compilado relevante e necessário para qualquer fã dylanesco. Entre o primeiro livro com letras, intitulado Writings & Drawings (com dedicatória e ilustrações de Bob), até esta última publicação, Bob Dylan se afastou da tarefa, mas deixou a cargo de pessoas competentes. The Lyrics consegue respeitar não só o legado do artista com também parte da sede por conhecimento e referência de seus fãs.

Apesar de imponente e belíssimo, o tamanho do livro dificulta seu uso. Outro ponto fraco, ao meu ver, é o papel manteiga que cobre a capa. A ideia é boa e bela, mas fica óbvio a iminência de rasgos e amassados.

Mas isso não diminui o exímio e meticuloso trabalho.

Abaixo, algumas fotos (em baixa qualidade) das páginas.

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Manuscrito de “Like a Rolling Stone” é leiloado e bate recorde

Like A Rolling Stone

Um rascunho de “Like a Rolling Stone” foi leiloado hoje pela Sotheby’s e bateu recorde de valor. As quatro páginas do hotel Roger Smith, de Washington, DC, rabiscadas por Bob Dylan foram vendidas a surpreendentes US$2,045 milhões (mais de R$4,550 milhões).

A quantia superou o último recorde de um manuscrito de música pop leiloado: a letra de “A Day In the Life”, de John Lennon, vendida por “apenas” US$ 1,2 milhões (cerca de R$2,67 milhões) em 2010.

Além do rascunho da letra final, o documento contém rabiscos, devaneios e letras não utilizadas (como “dry vermouth/You’ll tell the truth”, “it feels real”, “does it feel real”, “get down and kneel”, “raw deal” e “shut up and deal”)

No mesmo leilão, a letra de “A Hard Rain’s A-Gonna Fall” também foi vendida – US$485 mil (cerca de R$1,08 milhões).

Bob Dylan na Encruzilhada

[vimeo=http://vimeo.com/92133080]

Muitos devem se perguntar: por que um manuscrito foi vendido por tanto dinheiro? A questão é tão simples quanto se questionar sobre os leilões de quadros. “Like a Rolling Stone” vai além da carreira e conjunto da obra de Dylan. A canção, lançada no disco Highway 61 Revisited, foi um marco quando lançada, em dia 15 de junho de 1965, por vários motivos.

Bob Dylan disse que escreveu “um vômito, que parecia ter 20 páginas”; Bruce Springsteen já declarou que o início da música soou como uma porta arrombada por um ponta-pé; A revista Rolling Stone (cujo próprio nome é uma possível referência) colocou a canção em primeiro lugar entre as 500 músicas mais importantes da história.

E Greil Marcus, especialista em Bob Dylan, escreveu em 2005 o livro “Like a Rolling Stone – Bob Dylan na Encruzilhada” apenas sobre a música, suas referências e influências.