Lançamento: O Guia do Bob Dylan

Depois de uma biografia robusta e de uma discografia comentada, um guia sobre Bob Dylan fecha os lançamentos em português no ano do septuagésimo aniversário do cantor. Publicado pela editora Aleph, o Guia do Bob Dylan é uma tradução da série Rough Guides, lançada pela Penguin e Rough Guides nos EUA, Canadá e Inglaterra.

Escrito pelo jornalista britânico Nigel Williamson – que também escreveu outros guias, além de um livro sobre as músicas de Neil Young – o Guia pode parecer pequeno (304 páginas), mas é riquíssimo no conteúdo.

No formato de almanaque, o livro contem, além de uma biografia com bons detalhes, curiosidades interessantes, como as 50 músicas essenciais, a discografia completa e informações sobre covers, filmes, livros e sites que auxiliam na busca por informações dylanescas.

+Leia o primeiro capítulo do livro (pdf).

Um ponto bem interessante é que esta edição brasileira foi atualizada em relação a original, de 2006. Neste meio tempo Dylan lançou dois álbuns de inéditas (Modern Times e Together Through Life), dois álbuns da Bootlegs Series (Tell Tale Signs e The Witmark Demos), além do natalino Christmas In The Heart.

O livro é voltado tanto para quem é fã quanto para quem é admirador e quer ter um livro de consulta rápida.

Acho interessante este aumento de publicações nacionais sobre Bob Dylan. No exterior, são infinitas as quantidades de livros (e sites) sobre o artista ou até mesmo sobre fases específicas de Dylan.

O poslúdio de Robert Shelton

Em um dos parágrafos finais, Robert Shelton faz uma retrato virtuoso com várias referências sobre a influência de Dylan. Consegui descobrir algumas canções e um álbum (que estão entre colchetes), mas sei que existem lacunas. De qualquer forma, é um belo trecho.

“Não podemos dar um preço às rimas, cadências e imagens de Bob Dylan que reentram no imaginário popular, de onde as tirou e refinou. Sabemos que o Mr. Jones é o arquifilisteu alheio ao fato de que algo está acontecendo [Ballad of a Thin Man]. Apesar de estarmos na Rua da Desolação [Desolation Row], continuamos seguindo em frente [Tangled Up in Blue]. Pode ser que haja sangue nos trilhos [Blood on the Tracks] e que nada seja revelado [Ballad of Frankie Lee and Judas Priest], mas ele nos disse que deve haver alguma escapatória [All Along the Watchtower]. Pode não haver caminho para casa [Like a Rolling Stone] para ele e para muitos de nós, mas com um pé na estrada e outro na cova, tentamos sair da jaula vazia que nos prende [Visions of Johanna]. Desespero e esperança travam um embate na torre do capitão, alerta-nos um par de gêmeos beligerantes. Apesar de estar tudo acabado agora, renovamos a nós mesmos deixando os mortos para trás [It’s All Over now, Baby Blue]. Somos mais jovens do que tudo isso agora [My back pages]. Morte e renascimento [Oh, Sister]. Para cada sete que morrem, há outras sete ocupadas nascendo [It’s alright, Ma]. Esquecemo-nos de onde terminam os versos de Dylan e começam os nossos.”

E aí? Mais alguma referência?

…turvava desde o coração

Tenho lido No Direction Home e afirmo que é um dos melhores livros sobre Dylan que já li. Compartilho um parágrafo em que Robert Shelton descreve duas semanas em que Bob se apresentou no Folk City, entre os dias 25 de setembro e 8 de outubro de 1961.

Durante as duas semanas ele alternou três figurinos, um mais imundo que o outro. Um dos trajes consistia numa camisa azul desbotada, calça cáqui, um pulôver escuro sem mangas, uma incongruente gravata larga, tudo sob seu famoso chapéu. Outras vezes, ele usou um paletó de camurça e uma camisa de lã sem gravata. Seu violão Gibson tinha um papel com a ordem das músicas colado na lateral superior, e o suporte de gaita ficava pendurado no pescoço. Sua aparência era minuciosamente descuidada e muito mirrada e franzina – até que ele começasse a cantar. Sua voz atormentada e comprimida parecia estar lutando para sair da garganta como um fugitivo da cadeia. Era uma voz enferrujada, que lembrava as gravações antigas de Guthrie. Era gravada em cascalho, como a de Van Ronk, e por vezes murmurava, como a de Elliott. E, ainda assim, era uma voz diferente de todas as outras. Não se pensava nela como algo belo ou sinuoso, mas como algo que turvava desde o coração. Bob não parecia nem um pouco urbanizado, mas mais ainda como um velho cantor de folk que trabalhasse numa fazenda. A maior parte do público gostou de Dylan naquelas duas semanas e o viu como um cantor étnico consumado, mas muitos o consideraram apenas uma piadas de mau gosto.