Bob Dylan ganha Prêmio Nobel de Literatura 2016

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O Prêmio Nobel divulgou hoje que Bob Dylan é o vencedor do ano na categoria literatura. No site oficial, a instituição sueca deu uma breve descrição sobre a razão da escolha:

“O Prêmio Nobel de Literatura 2016 foi concedido a Bob Dylan por criar uma nova expressão poética dentro da grande tradição de canções Americanas.”

O vencedor do Prêmio Nobel ganha 8 milhões de coroas suecas (cerca de 1,2 milhões de dólares).

No evento de anúncio do ganhador, Sara Danils, Secretária da Academia Sueca, descreveu Dylan como “Um grande exemplo… e por 54 anos ele esteve se mostrou como tal, reinventando-se”. Danils citou o disco Blonde On Blonde, de 1966: “Um exemplo extraordinário da sua brilhante maneira de fazer rimas, conectar refrões e seu jeito brilhante de pensar”.

Apesar de saber que a decisão surpreenderia, Danils justificou:

“Se você olhar muito para trás, 5.000 anos, você descobre Homero e Safo. Eles escreveram textos poéticos que eram destinados a serem performados, e é o mesmo jeito para Bob Dylan. Nós ainda lemos Homero e Safo e gostamos.”

Segundo o UOL, o escritor japonês Haruki Murakami era o favorito dos leitores. Outros nomes citados foram os do poeta sírio Adonis e do romancista queniano Ngugi wa Thiong’o. Bob Dylan é o 259º americano a ganhar o prêmio e neste ano outros nomes dos EUA estavam na disputa, como Don DeLillo, Philip Roth e Joyce Carol Oates.

Entre os fãs dylanescos, sempre existiu a expectativa de que Bob Dylan ganhasse o Prêmio. Contudo, muito se discutiu entre os especialistas não apenas sobre a relevância de Bob Dylan como pela escolha de um músico em um prêmio exclusivamente para escritores.

Times They Are A-Changin’.

Parabéns, Bob!

Para quem ainda tem dúvidas sobre a escolha, uma seleção com 10 poesias dylanescas:

[Vídeo] Bob Dylan no penúltimo Late Night with Dave Letterman!

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Bob Dylan tocou há apenas algumas horas no Ed Sullivan Theatre, o mesmo local em que ele abandonou em 12 de maio de 1963. Dylan foi o último convidado músical da última semana de Dave Letterman a frente do programa antes de sua aposentadoria.

Para a ocasião, Bob escolheu sua música de trabalho (que nunca tinha sido tocada ao vivo) de Shadows In The Night: “The Night We Called It a Day”. A apresentação foi filmada em plano sequência, sem nenhum corte de câmera e Dylan, como de costume, passou boa parte do tempo analisando sua imagem em alguma TV e sem esboçar um sorriso, nem quando Dave foi agradecê-lo. (timidez ou apenas falta de paciência para o showbusiness, mesmo?).

Sem mais delongas, Bob Dylan:

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=u_djZiswcrQ[/youtube]

Inside Llewyn Davis (ou Another Loser Like Me)

“Se nunca foi nova e nunca fica velha, então é uma canção folk” –

Llewyn Davis

“See that kid sitting back at the bar
He’s picking up a storm on a Martin guitar
That poor fool thinks he’s gonna be a star
He’s just another loser like me” –

Losers, de Dave Van Ronk

Inside Llewyn Davis

De maneira simplória, “Inside Llewyn Davis – Balada de um homem comum” conta a história de um músico e suas tentativas frustradas de sucesso. Mas por trás dessa sinopse diminuta, esconde-se outro tempo e outro lugar. O bairro de New York Greenwich Village no início de 1961 era bem diferente do que conheceríamos.

E talvez esteja aí um dos grandes trunfos do filme dos irmãos Cohen: contar uma história que se passa na calmaria antes da tempestade; no prólogo antes da história ser efetivamente (re)escrita.

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O Greenwich Village se transformaria nos primeiros meses de 1961. No dia 24 de janeiro, um garoto que se autointitulava “Bob Dylan” chegava de Minneapolis ao bairro com o objetivo de seguir viagem até New Jersey, onde seu ídolo Woody Guthrie padecia em um hospital psiquiátrico. Mas toda a trama de “Inside Llewyn Davis” se passa antes da influência de Bob Dylan na cena e na região.

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Llewyn Davis x Dave Van Ronk

Llewyn Davis x Dave Van Ronk

Llewyn Davis é claramente, e vagamente, inspirado no músico Dave Van Ronk. Ao contrário de Llewyn, Van Ronk tinha uma relativa fama no bairro, sendo apelidado de “Prefeito da rua MacDougal” – uma das principais da região. Além de excelente violonista, influenciado por ícones como Rev. Gary Davis e Mississippi John Hurt, Van Ronk também era referência pelos pensamentos políticos e pela seu amplo conhecimento sobre folk, blues e jazz tradicional.

Outra “incoerência” é que Dave Van Ronk não só tinha uma casa como hospedou alguns músicos iniciantes – como o próprio Dylan, que passou boa parte de 1961 na casa de Dave e Terri.

Entre as similaridades, está o título do disco “Inside Llewyn Davis” e a busca pelo sucesso. Dave Van Ronk nunca chegou a ter a fama de seus contemporâneos e apesar dos discos que lançou e das turnês que fez, sua fama basicamente se restringiu ao bairro folk de New York.

[youtube=http://youtu.be/ngFUyhuF31U?t=2m20s]

Já em 1972, o selo Fantasy lançou uma compilação intitulada “Van Ronk” que continha os dois primeiros discos do músico – ambos gravados em abril de 1962. No encarte, lê-se:

“Dave Van Ronk tornou-se um personagem lendário na música folk, apesar de nunca ter a aceitação total do público que ele tão convincentemente merece. Como um estímulo e mentor na atmosfera de música folk de Greenwich Village, ele fornece orientação e inspiração para uma série de poetas da música, entre eles Bob Dylan, Paul Simon, Judy Collins e Arlo Guthrie”.

As armadilhas do folk

É complexo entender a razão da carreira “mal-sucedida” de Van Ronk. Sua interpretação era única e suas habilidades técnicas eram finas e virtuosas.

Seria seu repertório, recheado de músicas tradicionais antigas – e até algumas obras de Weill e Brecht, o grando culpado? Se sim, como Pete Seeger e Joan Baez conseguiram se manter tanto tempo no topo e no holofote?

joan baez and pete seeger

Tomando como base de comparação esses três músicos se tem alguns fatos concretos: Pete Seeger, ao lado de muitos companheiros como Woody Guthrie, praticamente criou o movimento de direitos civis aplicado à música. Sua contribuição para a disseminação dessa cultura popular teve um peso imensurável. Joan Baez também participou da mesma abordagem, agregando ao “folk revival” um engajamento político para a defesa dos oprimidos.

Mas talvez não esteja aí a grande diferença. Para mim, o que Dave Van Ronk sofreu foi simplesmente um “simple twist of fate”. Tanto Joan quando Pete já tinham lançado seus discos antes da chegada de Dylan em NY. Dave Van Ronk era apenas o cara certo, mas na hora errada.

Bob Dylan trouxe um frescor na tradição. Talvez a carreira de Dylan sirva como contra-exemplo para a frase de Llewyn: “Se nunca foi nova e nunca fica velha, então é uma canção folk”. Bob Dylan trouxe frases novas para uma música antiga; um pensamento atualizado revisitando os alicerces da cultura popular. A música de Dylan era nova e apenas nós, décadas depois, saberíamos que ela nunca ficaria velha.

Hang me, oh hang me I’ll be dead and gone

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“Inside Llewyn Davis” está longe de ser um filme hollywoodiano. Tanto o desenrolar da trama quanto sua narrativa espantam aqueles que querem algo harmonioso e utópico. O filme é a luta intensa do artista que acredita numa arte única e talvez pouco compreendida.

E, acima de tudo, é uma homenagem esquisita e diferente, mas com gratidão e respeito, aos ícones e lendas que são pouco conhecido de muitos, mas muito valiosos para poucos.

Infelizmente Dave Van Ronk de encaixa nessa definição e talvez agora seja a hora de compensar a falta de reconhecimento.