Rolling Stone lança edição especial de colecionador sobre Bob Dylan

A Rolling Stone americana lançou recentemente uma edição especial para colecionador só sobre Bob Dylan. Na publicação, um compilado de entrevistas e textos já publicados na revista desde seu início, em 1967.

Confira os principais destaques da edição:

  • Primeira menção à Dylan, na RS #2 (Novembro/1967), sobre John Wesley Harding;
  • Primeira entrevista, na RS #47 (Novembro/1969);
  • Nota sobre os boatos das gravações em Woodstock – depois chamadas de Basement Tapes – (Junho/1968);
  • Nota sobre a turnê Rolling Thunder Revue, por Larry Sloman (1975);
  • A mais recente, em 2012, após o lançamento de Tempest.
  • Guia para a vida, por Bob Dylan – reunião de frases separadas por temas;
  • As 100 melhores músicas (atualização da lista das 70 músicas, publicada em 2011);
  • Alguns números curiosos da vida e obra de Dylan.

Segundo o editor-chefe da Rolling Stone Brasil, Pablo Miyazawa, está nos planos o lançamento da publicação especial no Brasil, mas não agora (“talvez no segundo bimestre”, ele disse).

Para os ansioso (como eu), a revista importada pode ser encontrada no Ebay.

Update (Setembro/2013): Já está nas bancas do Brasil a versão em português!

Dylan nos 100 maiores artistas de todos os tempos

Bob Dylan já encabeçou a lista das 500 maiores músicas e teve uma grande influência na lista das 100 melhores canções dos Beatles. Agora, o cantor também participa da recente edição especial da Rolling Stone Brasil, dessa vez com “Os 100 Maiores Artistas de Todos os Tempos”.

A revista reuniu 55 músicos, jonalistas e executivos do mundo da música para montar a lista dos 100 maiores artistas da música pop. Com um resultado tão eclético quanto óbvio, cada artista selecionado recebeu um texto de famosos como Keith Richards, Flea, Elvis Costello e tantos outros.

O júri

Entre os 55 jurados, alguns tiveram uma relação direta com Bob Dylan. Conheça alguns:

Jackson Browne – músico e compositor, possui um estúdio onde Dylan passou no começo do ano para gravar mais um álbum de inéditas.

Dr. John – além de participar de “The Last Waltz”, seu maior hit “Right Place Wrong Time” teve como faísa inicial uma frase dada por Dylan a ele: “I’m on the right trip, but I’m in the wrong car”.

Bill Flanagan – vice-presidente e diretor editorial da MTV Networks, em 2009 fez uma entrevista exclusiva com Dylan sobre o disco “Together Through Life”.

David Geffen – fundou a Asylum Records (e posteriormente a Geffen). Foi o único a convencer Dylan a sair da Columbia (por um curto período). Bob lançou pela Asylum os álbuns “Planet Waves” e “Before the Flood”.

Mikal Gilmore – jornalista, escreveu o livro “Ponto Final”, com uma série de perfis de personalidades relevantes para os anos 60 (incluindo Bob Dylan, obviamente).

Robert Hilburn – crítico de música do Los Angeles Times, acompanhou Dylan em alguns shows – como no sua primeira apresentação em Israel.

Greil Marcus – primeiro editor de resenhas de discos da Rolling Stone, já lançou uma compilação de textos sobre Dylan e um livro sobre “Like a Rolling Stone” além do importante “The Old, Weird America” (sobre a gravação do “Basement Tapes”).

Jerry Wexler – co-produziu junto de Dylan o disco de estréia de Barry Goldberg, além de ter produzido dois álbuns de Bob: “Slow Train Coming” e “Saved”.

O resultado

Bob Dylan conquistou a medalha de prata, perdendo apenas para Os Beatles. Parceiro de Dylan em shows e em alguns discos, o guitarrista Robbie Robertson foi o responsável por escrever sobre o cantor.

Em seu texto, Robertson exalta a interpretação de Dylan, a rapidez nas composições, sua necessidade intuitiva pelo improviso e como Bob deve ser considerado uma referência para qualquer compositor.

O Top 10

Confira o Top 10 dos “100 Maiores Artistas de Todos os Tempos”:

  1. The Beatles
  2. Bob Dylan
  3. Elvis Presley
  4. Rolling Stones
  5. Chuck Berry
  6. Jimi Hendrix
  7. James Brown
  8. Little Richard
  9. Aretha Franklin
  10. Ray Charles

A edição pode ser encontrada nas bancas, tem 122 páginas e custa R$19,90.

O melhor disco de Dylan (pt.3): Para a minha história

Esta é a última parte da trilogia “O melhor disco de Dylan” (Parte 1, Parte 2). Neste texto, falarei sobre o disco que mais tem influência sobre mim.

Tão ousando quanto eleger o disco mais importante para a história da música (ou para o próprio Dylan) é dizer qual é o seu álbum predileto. Neste caso, o contexto da gravação e até mesmo as músicas nem sempre são decisivas para a escolha.

E sobre minha decisão, nem eu sei quais são exatamente as razões que me fazem gostar tanto de John Wesley Harding. A única coisa que eu sei é que, sempre que deparo com qualquer música do álbum, eu preciso prestar atenção e tenho vontade de ouvir o disco inteiro. Isso acontece com outros (como nos acústicos Good As I Been To You e World Gone Wrong, por exemplo), mas há algo que me conecta a John Wesley Harding.

The Drifter’s Escape

Bob Dylan acabara de voltar de uma turnê pela Europa quando conseguiu alguns dias de férias no meio de 1966. Nesta época, uma nova turnê americana já estava agendada, uma emissora de televisão havia dado US$100 mil como adiantamento para um especial e a editora Macmillan cobrava o cantor pelo seu livro Tarantula, que já recebera até divulgação na mídia. Bob Dylan sofria pressões de todos os lados. A Hard Rain’s A-Gonna Fall.

Era 29 de julho de 1966 quando Bob Dylan dava uma volta com sua moto Triumph Tiger 100 de 500 cilindradas pela região de Woodstock. Sara Dylan o acompanhava de carro quando viu Bob perder o controle da moto e cair. Boatos indicavam que a vida de Dylan estava em risco.

A real gravidade do acidente permanece um mistério. A versão “oficial” é que Bob quebrou o pescoço e quase morreu. Porém, há quem diga que Dylan usou o acidente para fugir de todas as exigências que o pressiovam. Bob Dylan ficou uma semana no hospital e diz ter passado um mês de repouso em sua casa.

Com sua turnê cancelada, Dylan permaneceu em sua casa, em Woodstock, para descansar. Este hiato serviu principalmente para que Bob pudesse desempenhar seu papel de pai e marido, além de montar projetos. Um deles foi a exaustiva edição do documentário Eat The Document, sobre a recente turnê elétrica.

Bem mais despretensioso, Bob passou de junho a outubro de 1967 tocando quase diariamente com seu então grupo, recém-intitulado The Band. Dylan ia até a mansão em que a banda estava hospedada, a famosa Big Pink, e tocavam improvisos e canções tradicionais. Estes encontros foram registrados e se transformariam no disco “The Basement Tapes”, lançado em 1975.

If you cannot bring good news, then don’t bring any

Enquanto o mundo se admirava com a psicodelia, Bob Dylan permanecia recluso. Apesar desta época receber grandes lançamentos inovadores, como “Sgt. Peppers” dos Beatles, “Pet Sounds” dos Beach Boys e ver nascer o grupo Velvet Underground, Dylan parece ter sido mais influenciado pela péssima notícia que recebera.

No dia 3 de outubro, Woody Guthrie não resistiu às complicações de saúde por conta de sua doença de Huntington. Um dos maiores ídolos de Dylan, e razão de sua ida à New York, Guthrie deixava o mundo e isso provavelmente afetou drasticamente seu aprendiz.

He was never known to make a foolish move

“Eu não sabia como gravar do jeito que outras pessoas estavam gravando e eu não queria saber. Os Beatles tinham acabado de lançar Sgt. Pepper, que eu não gostei de maneira alguma… Eu pensei que era um álbum bem indulgente, apesar das canções serem realmente boas. Eu não achava que toda aquela produção era necessária” Bob Dylan

Duas semanas depois da morte de Woody, no dia 17 de outubro, Bob Dylan viajou para Nashville para gravar no Columbia Music Row Studios, mesmo local em que gravara seu disco anterior (Blonde on Blonde).

Dylan manteve o produtor Bob Johnston, mas dessa vez recrutou apenas dois músicos – Kenneth Buttrey (bateria) e Charlie McCoy (baixo) – para participar das três sessões de gravação (17/10, 6/11 e 21/11). Pete Drake (steel guitar) tocou apenas nas duas últimas faixas do álbum.

O início de John Wesley Harding já mostra o caminho que Dylan trilharia. Enquanto muitos experimentavam ruídos, ecos e artimanhas tecnológicas no estúdio, Bob iniciava seu disco apenas com violão. Em seguida, baixo, voz e bateria dão o tom. O retrato do jovem de “Blonde on Blonde” não é mais o mesmo.

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Nothing is revealed

“Antes de compor John Wesley Harding, eu percebi algo sobre todas as canções mais antigas que eu escrevi. Eu descobri que quando eu utilizava palavras como ‘ele’, ‘isto’, ‘eles’ e falava sobre outras pessoas, eu estava na verdade falando em ninguém a não ser eu. Fui para John Wesley Harding com este conhecimento na minha mente.” Bob Dylan.

Em John Wesley Harding, Bob Dylan aparenta uma sensatez até então inédita. No lugar do ansioso e curioso artista verborrágico, entra um verdadeiro poeta observador, que faz um apanhado de sua(s) vida(s) através de frases precisas.

Todas as palavras usadas em John Wesley Harding, das letras à nota da contracapa (passando pela inclusão da letra “g” no nome do lendário fora-da-lei), possuem um propósito. Mas nada é revelado. Tudo está codificado.

Bob utiliza com consciência toda a linguagem que desenvolveu de maneira intuitiva nos cinco anos anteriores. Com parábolas e alegorias, ele faz um balanço sobre sua vida. Ironicamente, a “voz da geração” virou as costas para todos os acontecimentos políticos da época para viver com plenitude o papel de homem de família.

Muitos que visitaram Dylan disseram que ele tinha em um lugar de fácil leitura a Bíblia – acompanhada de um livro com letras do cantor Hank Williams.

I Pity The Poor Immigrant

A capa de John Wesley Harding possui uma foto bucólica (uma polaroide de John Berg) de um Dylan meio barbado e sorridente. Em sua companhia, o carpinteiro Charlie Joy e dois integrantes da trupe Bauls of Bengal (que estavam hospedados na casa de Albert Grossman).

(Há um rumor de que é possível ver membros dos Beatles e do cantor Donovan escondidos na árvore. Eu possuo o vinil originial e nunca encontrei qualquer vestígio do FabFour ou do “Dylan britânico”).

Outro ponto importante é o texto na contracapa. Escrito por Bob Dylan, a nota narra a história de três reis que percebem que “a chave é Frank”. Frank é acompanhado de Terry Shute e Vera.

Para James Dunlap (em um ótimo artigo da revista Isis #120), Frank representa um “novo” Dylan e sua vontade de libertação, deixando para trás e junto com o acidente o artista inconsequente. Terry Shute seria Albert Grossman, com quem Bob estava tendo sérias divergências, e Vera, obviamente, Sara. Os três reis representariam a indústria fonográfica (possivelmente três gravadores que queriam Bob Dylan na época).

Trilhando – John Wesley Harding

John Wesley Harding – Em entrevista para Jann Wenner para a Rolling Stone de 1969, Bob Dylan afirmou que a escolha do fora-da-lei foi por uma mera questão de rítmo. Michael Gray acha que o uso de um fora-da-lei serve para incluir o próprio Dylan nesta categoria. Além disso, há ecos das canções de Woody Guthrie, que costumava escrever sobre ladrões e andarilhos.

As I Went Out One Morning – Coincidência ou não, Tom Paine era o nome do prêmio que Bob Dylan recebeu em 1963. Na ocasião, Dylan fez um discurso polêmico, incluindo-se como uma pessoa que via em si parte de Lee Oswald – assassino de John Kennedy. Dunlap interpreta a donzela da música como sendo Joan Baez “forçando” Dylan a entrar nos movimentos políticos. No fim, o próprio Tom Paine pede desculpas.

I Dreamed I Saw St. Augustine – O autor de “Confissões” é o foco da letra, mas para entendê-la melhor é preciso ver as referências da primeira frase. Ela remete à música “Joe Hill”, de 1936, e que Woody tomou como base para compor seu “Tom Joad”. É interessante ouvir a gaita tendo um papel quase de protagonista na instrumentação.

All Along the Watchtower – Na época do lançamento do disco, Bob exigiu que não se fizesse muita publicidade para evitar atrair a atenção. Porém, a versão desta canção por Jimi Hendrix no final de 68 daria uma bela visibilidade para o álbum. A música é cheia de referências bíblicas e Paul Williams acertou em cheio ao afirmar que ela começa no meio da narrativa. Assim, tudo se inicia na última estrofe.

The Ballad of Frankie Lee and Judas Priest – Uma das minhas favoritas. A canção, que a banda Judas Priest tomou como base para se batizar, lembra as fábulas de Esopo. Dunlap a vê como a alegoria da relação entre Dylan e seu empresário, Grossman. Após dar o dinheiro que Frankie Lee precisava, Judas Priest o convence a ir a um bordel, onde morre de cansaço. Vale lembrar que Al Grossman era famoso por fazer ótimas festas em sua casa em Bearsville (próximo a Woodstock) e providenciar as melhores drogas e mulheres.

Drifter’s Escape – Foi a primeira canção a ser gravada. Ela conta a história a fuga de um vagabundo durante um julgamento. O juiz soa como um ser divino, mas trata com descaso a súplica do réu. O nome certamente é uma referência ao heterônimo “Luke the Drifter”, criado por Hank Williams para entoar canções mais sombrias.

Dear Landlord – Para mim, “Dear Landlord” é o desabafo de Dylan e sua relação com seu Senhor Feudal (aka Al Grossman). Ele pede que não dê preço em sua alma. No fim, quase em tom de ameaça, sugere que não seja subestimado para não subestimar seu interlocutor.

I Am a Lonesome Hobo – Seria a frase “Where another man’s life might begin/ That’s exactly where mine ends” a oficialização do “velho” Dylan da fase pré-acidente? Para mim, a canção exala independência e é a autonomia de Dylan como artista, seja para seu empresário, sua gravadora e até mesmo para as exigências de seus fãs (que o vaiaram quando escolhera a guitarra como companheira).

I Pity the Poor Immigrant – Com melodia baseada em “Tramps and Hawkers”, essa melancólica canção pode ser interpretada como um conselho de Dylan para consigo mesmo. Hinton indica que aqui há referências bíblicas presentes em capítulo 26 de Levítico.

The Wicked Messenger – Canção com arranjo mais elaborado do disco. Talvez o “Wicked Messenger” (algo como mensageiro perverso) seja o “velho” Dylan e seu uso da linguagem poética. É uma letra meio confusa e há quem veja referências bíblicas.

Down Along the Cove – As duas últimas faixas de John Wesley Harding destoam do restante do álbum. “Down Along the Cove” é suingada e romanticamente feliz. Talvez faça sentido ao ouvir a frase da canção anterior: “If ye cannot bring good news, then don’t bring any”.

I’ll Be Your Baby Tonight – Fiel à base country, a canção é uma prévia do caminho que Dylan escolheria para Nashville Skyline. Uma música boba, romântica, mas bela. O pedal steel dá um ótimo toque com suas melodias.

Concluindo: por que é o melhor disco de Dylan para minha história?

As imagens criadas por Bob Dylan, tão ricas quanto sutis, prendem a minha atenção. É impossível não curtir frases como “I offered her my hand/ She took me by the arm”, “There are many here among us who feel that life is but a joke”, “It’s not a house . . . it’s a home”, “Dear landlord/ Please don’t put a price on my soul/ My burden is heavy/ My dreams are beyond control” e tantas outras mais.

Além do conteúdo, a forma é uma arte por si só. Em um contexto todo psicodélico da música, Bob Dylan prefere ser proporcional ao seu mundo e escolhe algo minimalista, direto e acústico. Ele vive uma fase intimista e completamente familiar, que influencia sua música. Para mim, é uma das melhores fases de Bob Dylan, com a melhor relação “homem/poeta”.