Drifter’s Escape – o acidente de 1966

Há exatos 46 anos, Bob Dylan sofreria um acidente de moto que mudaria o percurso de sua carreira drasticamente.

No início de 1966, Bob e The Band fizeram uma turbulenta turnê elétrica que passou pelos Estados Unidos, Europa e até Austrália, recebendo vaias na maioria dos lugares. O baterista Levon Helm foi substituído por Mickey Jones por se assustar com as frequentes ameaças do público (foi nessa turnê que Dylan foi chamado de “Judas”, por exemplo).

Após o fim da turnê, Bob conseguiu algumas semanas de folga do palco. Porém, a pressão ainda era imensa. Albert Grossman acabara de agendar mais 60 shows para o segundo semestre do ano; a ABC-TV adiantara US$ 100 mil para um especial de TV; a editora Macmillian pressionava Dylan para que ele terminasse logo o livro Tarantula, que ele insistia em adiar seu lançamento.

Com tudo isso em mente, no dia 29 de julho de 1966 Bob Dylan sofreu um acidente com sua moto inglesa Triumph 500. Por sorte, ele era seguido por Sara Dylan.

As reais implicações do acidente à saúde de Dylan nunca foram descobertas. Entre os inúmeros biógrafos, há os extremos de quem acredita que o acidente quase o matou e também quem diga que tudo não passou de uma farsa dylanesca para ele sair do foco por um tempo.

Para compor a fotografia do acidente, quatro referências em biografias:

Anthony Scaduto

Quando foi lançado em 1972, o livro escrito pelo jornalista da editoria de polícia e auto-intitulado “mafia expert” Anthony Scaduto foi considerado a primeira biografia séria escrita sobre um rockstar. Com um ar detetivesco, Scaduto entrevistou inúmeras pessoas, algumas delas testemunhando de forma anônima.

Em seu livro, Scaduto defende a ideia de que o acidente foi realmente grave: cortes no rosto, concussão no cérebro (que deu a Dylan uma breve amnésia), ferimentos internos e pescoço quebrado. Depois de ficar uma semana no hospital, Bob ainda ficaria mais um mês de cama em sua casa em Woodstock. Os médicos disseram a Sara Dylan e ao empresário Albert Grossman que se a fratura no pescoço tivesse sido com alguns centímetros de diferença, certamente o teria matado.

Robert Shelton

No Direction Home é considerada por muitos a biografia definitiva de Bob Dylan, mesmo abordando a vida do cantor até o início dos anos 80. Amigo de Dylan, Robert foi imprescindível para o início do sucesso do cantor. Semanas depois da publicação de uma resenha de Shelton sobre Dylan, Bob conseguiu seu contrato com a major Columbia, algo impensável para qualquer músico de Greenwich Village.

Em seu livro, Shelton destaca a dificuldade em se saber com exatidão o que foi real e o que foi invenção nos detalhes do acidente. Segundo o irmão de Dylan, David, o acidente existiu, mas “Bob nunca disse ter quebrado o pescoço. Foi Albert quem quebrou o pescoço”.

Bob disse a Shelton que “aconteceu em uma manhã depois de eu ficar acordado por três dias. Derrapei numa poça de óleo”, mas o jornalista verificou que para outras pessoas, Dylan afirmou que estava pilotando na Striebel Road, perto de sua casa em Woodstock, e levava sua moto para a oficina quando a roda traseira travou e ele voôu por sobre o veículo.

Robert colheu alguns relatos de pessoas que visitaram Dylan na época: Allen Ginsberg foi levar livros e disse que Bob não lhe pareceu gravemente ferido; Um editor da Macmillan afirmou que Bob se recuperava de um acidente terrível e que não pôde usar os olhos por um tempo; O diretor D.A. Pennebaker foi visitá-lo e o viu com um aparelho ortopédico.

Clinton Heylin

Em seu livro Behind the Shades Revisited, Clinton Heylin faz uma compilação funcional, com infinitas citações das mais diversas pessoas, contruindo um rico panorâma.

Heylin é o único que afirma que a moto do acidente era uma Triumph 650 Bonneville e ressalta que Dylan nunca foi famoso por ser um motociclista habilidoso. Durante uma entrevista em 1987, Bob afirma que teve um pânico quando olhou diretamente para o sol e que, ao freiar, a roda travou e ele vôou. Ele conta também que ficou uma semana no hospital e depois foi transferido para o sótão de um médico.

Dylan contou ao jornalista Al Aronowitz que viu sua vida passar em sua frente enquanto voava da moto para o chão. Ele tinha certeza que morreria. Para Heylin, D.A. Pennebaker relata que Dylan não parecia tão machucado pelo acidente, mas irritado com todo mundo.

Daniel Mark Epstein

Recém-lançada, A Balada de Bob Dylan é uma ótima leitura e trata de várias passagens dylanescas de maneira poética e muito bem narrada.

Em seu livro, Epstein enfatiza que não há registros médicos no hospital próximo e nenhum policial foi chamado e dá uma nova abordagem ao acidente, reduzindo-o a um ato de completa falta de destreza de Dylan:

“Graças aos céus não houve nenhum acidente de moto na vizinhança naquela manhã. Havia uma motocicleta e havia um poeta muito fatigado e desajeitado que queria andar nela. Ele disse que não dormia havia três dias. O veículo empoeirado, fora de uso, estava na garagem de Albert Grossman em Bearsville; não estava pronto para ser usado pois os pneus estavam murchos. Bob Dylan estava levando a pesada moto da casa de Grossman pela Striebel Road em direção a Glasco Trunpike, onde iria consertá-la, e Sara estava seguindo-o no carro. De algum modo Dylan perdeu o equilíbrio na estrada escorregadia e a motocicleta caiu sobre ele. Foi assim que ele se machucou. Esse foi o acidente de motocicleta.”

A reclusão dylanesca

Apesar dos diferentes relatos sobre o fatídico acidente, todos os livros compartilham da mesma conclusão: real ou fingimento, Bob Dylan certamente usou do evento para se distanciar da mídia e, principalmente, conseguir evitar toda a pressão que sofria.

Scaduto, por exemplo, afirma que “o acidente deu-lhe uma chance de resolver as coisas na sua cabeça, para tentar decidir para onde ele queria ir a partir daqui”. Para o jornalista, Dylan confessou: “Você estava certo sobre quando você descreveu todas essas pressões, mas você realmente tocou a superfície As pressões eram inacreditáveis. É algo que você não consegue imaginar ao menos que vivencie. Cara, [essa pressão] dói muito”.

Shelton conclui: “Mesmo se o caso fosse tão grave quanto o noticiado, o acidente se tornou uma metáfora, um tempo para mudanças, uma possibilidade de libertação, o começo de sete anos e meio de retirada para uma existência mais tranquila.”

No livro de Heylin, o capítulo sobre o acidente abre com uma citação de Dylan sobre a ocasião: “Quando eu tive aquele acidente… eu acordei, retomei meus sentidos e percebi que eu estava trabalhando para todos esses sanguessugas. E eu não queria aquilo. E também, eu tinha uma família”.

Epstein embasa sua hipótese de farsa ao citar uma entrevista de Dylan para a Rolling Stone em 1969, quando dá a entender que o acidente pode ter sido mais simbólico do que literal. Para Jann Wenner, Bob afirma: “Eu ainda não havia sentido a importância desse acidente até, no mínimo, um ano depois que ele aconteceu. Eu compreendi que ele foi um acidente de verdade”.

Bob Dylan usou esse tempo para descansar e se recompor mentalmente. O início 1967 foi usado para ensaios despretenciosos com The Band e tornaria-se o disco The Basement Tapes (lançado em 1975). Em outubro de 1967, Bob Dylan viajaria para Nashville para gravar John Wesley Harding, um álbum que marca seu distanciamento, no auge da psicodelia, ao rock.

Assim nascia, mais uma vez, um novo Dylan.

5 thoughts on “Drifter’s Escape – o acidente de 1966

    1. Olá, Paula.

      Recentemente vi que o Robert Johnson costumava sugerir que fizera um pacto com o demônio. Imagino que o caso seja análogo: Dylan produzindo seu mito. Tanto é que ele comentou sobre o fato na última entrevista à Rolling Stone.

      Obrigado pelos elogios e pela menção.

      Beijos

  1. nao sei se interessa mas
    ainda nao li biografias do Dylan mas andei bastante de moto, acredito que a moto da foto, e que vi em algumas fotos dele, é uma Triumph Tiger T90 de 1965
    o motor é muito pequeno para ser uma Triumph 650 Bonneville como descrito por Clinton
    provavelmente ele tenha caido por causa do pneu murcho, é muito facil de cair, e ele nao deve ter se machucado muito,
    com certeza o incidente foi muito util pra ele tirar um tempo pra respirar e perceber que realmente tava perdendo a cabeça

    1. Olha só… Obrigado pela sua observação sobre a moto.

      E sobre o acidente, imagino que deva ser algo assim tb… um susto que o faz parar para pensar o que ele estava fazendo com a vida.

      Abração!

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