Dylan e seus poderes de expressão

Em uma crítica recente, Bob Boilen da NPR fez algumas ressalvas à atual performance de Bob Dylan. Para Boilen, as canções são pouco cantadas e muitas vezes irreconhecíveis. Concordo que uma dicção limpa não é o forte de Dylan, mas vejo que essas mutações nos arranjos (e alguns desarranjos) fazem parte de algo com uma característica valiosa: música viva e dinâmica.

Dylan é conhecido por pregar peças em suas bandas. Ensaia centenas de músicas e, no momento de uma apresentação de TV, altera todo o repertório; mudanças de acordes e tempos são alterações constantes. Assistir um show de Bob Dylan querendo ouvir as versões dos álbuns não é plausível há muito tempo. Ele não altera suas canções por senilidade ou preguiça, ele as altera para buscar sempre o frescor na audição e execução.

Existem vários exemplos dessas variações, mas uma que pode exemplificar com exatidão essas diferentes abordagens é a música Mississippi. Ela foi primeiramente lançada no álbum “Love and theft”, de 2001. Abaixo, a versão que integra o CD:

Em 2008, a Columbia lançou o oitavo volume da Bootleg Series (seleção de sobras de estúdio e edições raras que costumam circular entre os colecionadores). Intitulado de “Tell Tale Signs”, o álbum compila “restos” de registros de 1989 até 2006. Na edição de luxo deste disco, existem outras três versões da Mississippi lançada sete anos antes. Imaginando que todas foram gravadas na mesma época, é possível não só notar como a canção ganha sentimentos distintos de acordo com sua interpretação, como explicita esta ansiedade intrínseca na personalidade de Dylan, de nunca querer repetir a mesma versão e buscar diferentes caminhos para uma única música.

Enquanto a versão “oficial” tem uma levada mais reta, como um country-pop e bem produzido, essa interpretação tem uma abordagem bem mais intimista, com guitarras e violões sutis e sem bateria. A linha vocal, apesar de respeitar uma melodia, parece conversar, em forma de lamento, sobre o erro de ficar mais um dia em Mississippi.

Essa versão apresenta um quase-reggae, Bob Dylan sussurra boa parte das estrofes, como se estivesse confidenciando algo. O refrão tem uma característica de segredo: ele se queixa dos erros, mas compartilha apenas com seu ouvinte sobre o sua longa e equivocada estadia.

Com uma batida que se parece com a versão anterior (mas um pouco mais arrastada), a letra talvez seja o grande foco nessa faixa: é a única que apresenta variações nas estrofes. Parece ser uma versão primária, com Dylan ainda buscando o melhor fraseado e as melhores palavras. É interessante ver como essa parece ter uma letra mais descritiva ,“sincera” e primitiva. Uma comparação entre as letras mostra como algo que aparenta estar definitivo pode alcançar um outro patamar, já que as outras letras são explicitamente melhor desenvolvidas.

O que me admira em cada formato da Mississippi é como ela consegue ter não apenas uma sonoridade, mas um significado diferente, mesmo se tratando da mesma letra. Todas têm a mesma história, contada de maneiras únicas: ora arrependida, ora nostálgica, ora com uma pitada de malandragem, ora como um conselho. Mas, como o próprio Dylan canta:

All my powers of expression and thoughts so sublime

Could never do you justice in reason or rhyme

Todos meus poderes de expressão e pensamentos tão sublimes

Nunca conseguiriam fazer-lhe justiça em razão ou rima

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