Inside Llewyn Davis (ou Another Loser Like Me)

“Se nunca foi nova e nunca fica velha, então é uma canção folk” –

Llewyn Davis

“See that kid sitting back at the bar
He’s picking up a storm on a Martin guitar
That poor fool thinks he’s gonna be a star
He’s just another loser like me” –

Losers, de Dave Van Ronk

Inside Llewyn Davis

De maneira simplória, “Inside Llewyn Davis – Balada de um homem comum” conta a história de um músico e suas tentativas frustradas de sucesso. Mas por trás dessa sinopse diminuta, esconde-se outro tempo e outro lugar. O bairro de New York Greenwich Village no início de 1961 era bem diferente do que conheceríamos.

E talvez esteja aí um dos grandes trunfos do filme dos irmãos Cohen: contar uma história que se passa na calmaria antes da tempestade; no prólogo antes da história ser efetivamente (re)escrita.

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O Greenwich Village se transformaria nos primeiros meses de 1961. No dia 24 de janeiro, um garoto que se autointitulava “Bob Dylan” chegava de Minneapolis ao bairro com o objetivo de seguir viagem até New Jersey, onde seu ídolo Woody Guthrie padecia em um hospital psiquiátrico. Mas toda a trama de “Inside Llewyn Davis” se passa antes da influência de Bob Dylan na cena e na região.

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Llewyn Davis x Dave Van Ronk

Llewyn Davis x Dave Van Ronk

Llewyn Davis é claramente, e vagamente, inspirado no músico Dave Van Ronk. Ao contrário de Llewyn, Van Ronk tinha uma relativa fama no bairro, sendo apelidado de “Prefeito da rua MacDougal” – uma das principais da região. Além de excelente violonista, influenciado por ícones como Rev. Gary Davis e Mississippi John Hurt, Van Ronk também era referência pelos pensamentos políticos e pela seu amplo conhecimento sobre folk, blues e jazz tradicional.

Outra “incoerência” é que Dave Van Ronk não só tinha uma casa como hospedou alguns músicos iniciantes – como o próprio Dylan, que passou boa parte de 1961 na casa de Dave e Terri.

Entre as similaridades, está o título do disco “Inside Llewyn Davis” e a busca pelo sucesso. Dave Van Ronk nunca chegou a ter a fama de seus contemporâneos e apesar dos discos que lançou e das turnês que fez, sua fama basicamente se restringiu ao bairro folk de New York.

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Já em 1972, o selo Fantasy lançou uma compilação intitulada “Van Ronk” que continha os dois primeiros discos do músico – ambos gravados em abril de 1962. No encarte, lê-se:

“Dave Van Ronk tornou-se um personagem lendário na música folk, apesar de nunca ter a aceitação total do público que ele tão convincentemente merece. Como um estímulo e mentor na atmosfera de música folk de Greenwich Village, ele fornece orientação e inspiração para uma série de poetas da música, entre eles Bob Dylan, Paul Simon, Judy Collins e Arlo Guthrie”.

As armadilhas do folk

É complexo entender a razão da carreira “mal-sucedida” de Van Ronk. Sua interpretação era única e suas habilidades técnicas eram finas e virtuosas.

Seria seu repertório, recheado de músicas tradicionais antigas – e até algumas obras de Weill e Brecht, o grando culpado? Se sim, como Pete Seeger e Joan Baez conseguiram se manter tanto tempo no topo e no holofote?

joan baez and pete seeger

Tomando como base de comparação esses três músicos se tem alguns fatos concretos: Pete Seeger, ao lado de muitos companheiros como Woody Guthrie, praticamente criou o movimento de direitos civis aplicado à música. Sua contribuição para a disseminação dessa cultura popular teve um peso imensurável. Joan Baez também participou da mesma abordagem, agregando ao “folk revival” um engajamento político para a defesa dos oprimidos.

Mas talvez não esteja aí a grande diferença. Para mim, o que Dave Van Ronk sofreu foi simplesmente um “simple twist of fate”. Tanto Joan quando Pete já tinham lançado seus discos antes da chegada de Dylan em NY. Dave Van Ronk era apenas o cara certo, mas na hora errada.

Bob Dylan trouxe um frescor na tradição. Talvez a carreira de Dylan sirva como contra-exemplo para a frase de Llewyn: “Se nunca foi nova e nunca fica velha, então é uma canção folk”. Bob Dylan trouxe frases novas para uma música antiga; um pensamento atualizado revisitando os alicerces da cultura popular. A música de Dylan era nova e apenas nós, décadas depois, saberíamos que ela nunca ficaria velha.

Hang me, oh hang me I’ll be dead and gone

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“Inside Llewyn Davis” está longe de ser um filme hollywoodiano. Tanto o desenrolar da trama quanto sua narrativa espantam aqueles que querem algo harmonioso e utópico. O filme é a luta intensa do artista que acredita numa arte única e talvez pouco compreendida.

E, acima de tudo, é uma homenagem esquisita e diferente, mas com gratidão e respeito, aos ícones e lendas que são pouco conhecido de muitos, mas muito valiosos para poucos.

Infelizmente Dave Van Ronk de encaixa nessa definição e talvez agora seja a hora de compensar a falta de reconhecimento.

5 thoughts on “Inside Llewyn Davis (ou Another Loser Like Me)

  1. Eu acho “charminho” do Dave Van Ronk não ter aparecido mais, apesar de ser, soar como tantos outros que “estouraram” na década dos anos 1960. Não era tão bom assim como dizem, não mesmo.
    A década dos anos 1960 não tem nada de extraordinário, dizem que os anos 1920 foram melhores, e eu acredito.
    Já pensaram naquela turma que tocou em Woodstock, em 1969?
    A maioria, venhamos e convenhamos, era de uma ruindade de doer.
    “Charminho” porque, naquela tola época, os artistas mentiam, diziam que tinham vindo de favela, de família pobre, por causa aquela bobajada de capitalismo x comunismo, etc.
    Se dissessem que tinham vindo de família boa de classe média (a maioria, inclusive Bob Dylan), pronto, babau!
    Bob Dylan música nova?
    É, talvez uma estética nova mesmo, mas ele roubava pra caramba da tradição, e ficava por isso mesmo…
    Tenho que pôr “roubava” entre aspas? Talvez, mas algumas vezes roubava (sem aspas) mesmo, descaradamente, e tocava o barco.
    Bob Dylan, como ele mesmo já disse, e é verdade, soava como cantor de blues e rock’n’roll primitivo com material folk, por isso parecia diferente, pareceu diferente. Mas não era tão “novo” assim, não, principalmente no que diz respeito à estrutura melódica, quer dizer, estrutura melódica da velha música folclórica, depois foi mudando.
    É isso aí.

    1. Cara,,. Você fala tanta bobagem e besteira que só você mesmo que acha que tem alguma genialidade no que diz. Tenta parecer descolado e irônico… mas só demostra a tacanha ignorância sobre mundo, música e eventos únicos e extraordinários.

  2. A respeito do filme.
    Não dá para sentir simpatia pelo protagonista, aliás, por nenhum personagem. parece que todos estão se esforçando para ser ou parecer malvados. Era assim que se sobrevivia nos anos 60? Pelo que li na autobiografia de Suze Rotolo, imaginei a seguinte comparação futebolística: se Dylan fosse Pelé, Dave seria Leônidas…um cara que, dizem, era tão bom ou até melhor que Pelé, mas que apareceu antes e, então, teve de abrir caminho para os outros. Não sei se se aplica, preciso conhecer melhor a obra de Dave (já tentei ouvir, mas desisti uma vez). A Suze conta do roubo dos arranjos para Risin’ Sun e como as garotas impediram uma briga muito séria entre ambos por causa disso, o próprio Dave lembra o episódio no documentário No Direction Home, filtrado pelos anos torna-se uma passagem engraçada.
    Foi difícil seguir o filme até o fim, mas para o dylanista que aguentar, tem uma surpresa no finaal…

    1. Depois desse comentário grosseiro, revi o filme duas ou três vezes… o roteiro até que faz sentido e o personagem não é tão “poser” assim, já que ele acabara de perder o parceiro que se suicidara. E a trilha sonora é simplesmente linda demais. Não é só pela presença de Dylan no final, a história vale por si. E eu espero aprender a nunca comentar alguma coisa que eu não tenha ouvido ou visto ou lido pelo menos duas vezes.
      Abraço!

      1. Anselmo, a arte tem dessas coisas! Nem sempre é na primeira impressão que as coisas funcionam. Que bom que gostou! Eu acho que gostei mais pela ligação, mesmo que distante, com Dave Van Ronk.

        Abração!

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