Luz na iminente escuridão

Uma vez uma amiga veio conversar comigo em um tom sério e cauteloso. Ela questionou basicamente o seguinte:
– Porque você parou no tempo e fica nessa de ouvir Bob Dylan? Essa época já passou, você não acha?

Já estou calejado e evitei explicar as razões que me fazem (ainda) ouvir Dylan. A única resposta que dei foi:
– Ele está vivo. Portanto, ainda podemos considerá-lo contemporâneo. Não é tão “fora de época” assim.

O conhecimento geral é que Bob Dylan foi um artista dos anos 60. De fato foi, mas, talvez como sua maior característica, ele nunca se contentou em ser esse personagem estático. Exemplifico essa afirmação com uma música, dentre tantas que eu poderia citar, da “época atual”.

Clique para assistir o clipe oficial

Lançada no álbum Time out of mind (1997), quando Bob Dylan tinha 56 anos, Not dark yet pode ser interpretada como uma descrição poética da velhice. Segundo Brian Hinton, Emmylou Harris – que cantou com Dylan no álbum Desire – acha que é a melhor canção já composta sobre envelhecer: “Para aqueles de nós que estão atravessando essa porta, a canção traz à luz coisas que nem sabíamos ser capazes de sentir. Ele colocou poesia nessa experiência”.

Ela pode soar “vintage” e descrever um idoso, mas está longe de ser uma canção velha. Como uma tendência dos álbuns considerados trilogia (Time out of mind [1997], Love and theft [2001] e Modern times [2006]), Bob Dylan intercala aspectos individuais com reflexões afinadas com a contemporaneidade.

Clique para assistir uma versão ao vivo (22/08/2010)

Ironicamente, meses após a gravação de Time out of mind, Bob Dylan quase morreu ao ter uma doença rara e grave. Howard Sounes escreveu que Dylan foi diagnosticado com pericardite – uma inflamação do pericárdio (uma película que reveste o coração), que impossibilitou o fluxo correto do sangue. O problema foi provocado pela inalação de um fungo, que provoca a histoplasmose.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=yKi69T6AsUU]
Eric Clapton interpretando Not dark yet em 19/05/2009

Detalhes à parte, Bob Dylan se mostra ser, ainda hoje, um artista que se renova, mesmo que a sua maneira. Muitas canções atuais de Dylan têm o mesmo poder e intensidade que os “greatest hits” dos anos 60. Mesmo com o fim próximo, com a escuridão cada vez mais iminente, a luz ainda não se apagou.

8 thoughts on “Luz na iminente escuridão

  1. Bob ja enterrou tantos amigos como o Cash, viu nascer e morrer o Velvet e acompanhou toda a febre dos anos 90, e permanece em ser trono. Reiventou o jeito de cantar, compor e tocar. Trouxe todo folclore do contry para a cidade grande, e tem tempo pra dizer que se dane tudo isso!!

    grande homem, grande homem

    1. Dylan consegue caminhar na tangente, mas ser referência no cerne da cultura americana. E saber que essa “última reinvenção” ocorreu quase aos 60 anos é tão espantoso quanto genial.

      Obrigado pelo comentário!

  2. Mas vc não está errada! Olha o álbum John Wesley Harding, por exemplo. No auge da psicodelia, no mesmo ano em que os Beatles lançavam o Sgt. Peppers, Bob Dylan lança um álbum gravado em Nashville sem nenhuma guitarra… E sem o “tipo roqueiro” que ele exigiu dois anos antes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *