O prefácio dylanesco – 50 anos do disco de estréia de Bob

Em 19 de março de 1962, a Columbia lançava o primeiro disco de Bob Dylan, um jovem de 20 anos que tocava pelas ruas de Greenwich Village e entoava canções de Woody Guthrie e outros andarilhos importantes do cancioneiro americano.

Hey hey Woody Guthrie

Durante o ano de 1960, Bob Dylan morou em Minneapolis para estudar na Universidade de Minnesota. Ele chegou na cidade como um roqueiro inspirado pela música de Little Richard e a imagem de James Dean, mas ao se deparar com os estilos musicais e a vida boêmia do bairro de Dinkytown, Bob investiu boa parte de seu tempo numa imersão ao universo folk.

Foi nesta época que Dylan teve o primeiro contato com as músicas vindas de compilações montadas por pessoas como Alan Lomax e Harry Smith. Bob também se deparou com a obra de Woody Guthrie. Além das músicas, que Dylan tratou de aprender e a assimilar até mesmo o sotaque do autor, ele também foi apresentado a “autobiografia ficcional” de Woody, Bound for Glory.

Seu entusiasmo pelo folk e por Woody foi imediato. Além de trocar sua guitarra por um violão Martin, Bob Dylan estava determinado a visitar seu ídolo, que sofria de Doença de Huntington e estava internado em um hospital psiquiátrico em New Jersey.

Wintertime in New York town

Bob Dylan chegou à New York em uma terça-feira, 24 de janeiro de 1961, indo direto para o bairro de Greenwich Village (atraído pelo aluguel barato e pela atmosfera boêmia e estudantil). Em sua primeira noite, vagueou pela MacDougal Street e entrou no Café Wha?, onde tocou duas músicas de Woody.

No domingo seguinte, 29 de janeiro, Bob percorreu cerca de 300km até chegar no Greystone Park Psychiatric Hospital. Lá encontrou um Woody convalescido, com quem conversou, tocou algumas músicas e recebeu até um bilhete como prova:

“I ain’t dead yet. Woody Guthrie”

Bob visitaria Woody outras vezes e passaria a integrar o grupo de pessoas que celebravam sua música, formado por pessoas como Bob Gleason, Ramblin’ Jack Elliot e o lendário Pete Seeger.

I finally got a job in New York town

Quase imediatamente, Bob Dylan passou a integrar a “gangue” dos músicos de Greenwich Village, que tocavam em todos os bares possíveis e que, depois das mini-apresentações, passavam um cesto para conseguir alguns trocados.

Entre os frequentadores desses bares estava o jornalista Robert Shelton, crítico musical do New York Times. Ele foi o responsável pelo primeiro contrato de Bob Dylan, após escrever uma resenha sobre uma expressiva apresentação do cantor e publicar o texto na edição do jornal de 29 de setembro de 1961.

Apenas algumas emanas se passariam até que John Hammond, famoso produtor da Columbia – que descobrira talentos como Billie Holiday, Aretha Franklin e Count Basie – convidasse Bob Dylan a integrar o portifólio da Columbia. Os dois já se conheciam de uma sessão de gravação da cantora Carolyn Hester, em que Dylan fez uma participação tocando gaita nas faixas “I’ll Fly Away”, “Come Back Baby” e “Swing and Turn Jubilee”.

Hammond’s Folly

As gravações do primeiro disco de Bob Dylan aconteceram nos dias 20 e 22 de novembro, no estúdio A da Columbia, e há quem diga que o disco custou apenas US$402. De qualquer forma, o lucro também não deve ter ficado muito distante disto. Em seu ano de lançamento, o disco não chegou nem no Top 200 da Billboard.

Por conta do fracasso de vendas, muitos achavam que a contratação de Dylan, que até então não possuía grandes composições e já era criticado por executivos da gravadora pela sua voz anasalada, seria uma “mancada de Hammond”.

I’m singing you this song but I can’t sing enough

Antes mesmo do lançamento de seu disco de estréia, Bob Dylan já estava arrependido. Entre os 4 meses que separaram as gravações do nascimento do álbum, despertou-se um instinto de composição que até então inexistia.

As duas composições próprias do disco (Song to Woody e Taklin’ New York Blues) ainda mantinham a influência de – e reverência a – Woody Guthrie. Porém, em 1962 Dylan já estava decidido a sair da sombra de seu ídolo e começar a trilhar seu próprio caminho.

Now the only thing a gambler needs is a suitcase and a trunk

A importância do álbum “Bob Dylan” está na documentação de um garoto com um vasto conhecimento na escolha do repertório. Os compositores das músicas fazem parte da história da música popular americana.

E das obras destes ícones que Dylan se apropria, dando uma nova roupagem e com uma interpretação sagaz. Ao ouví-lo, muitos achavam se tratar de um velho negro, vivido e cheio de experiências. Mal sabiam que o dono era um jovem judeu de Duluth que se aventurava na cidade grande.

O disco serve como um prefácio do que viria a ser sua obra. O registro é como um marco zero, com referências que ecoam até hoje no mundo dylanesco.

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