Os 71 anos de Bob Dylan (ou como ele nunca olha para trás)

Surpreende-se aquele que pensa que o bom e genuíno artista de rock (e suas variáveis) deve morrer aos 27 anos. Tudo bem, temos Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain e, o primeiro de todos, Robert Johnson; contudo, também temos bons exemplos de músicos que estão na ativa até hoje: Keith Richards, Mick Jagger, Paul McCartney, Leonard Cohen, Neil Young, Tom Waits e, obviamente, Bob Dylan.

Contudo, engana-se quem acha que todos esses músicos dos anos 1960 revivem a década mais importante da música pop. Basta dizer que todos os vivos acima citados lançam novos discos com músicas tão boas quanto os revisitados hits (guardadas as devidas proporções, eu sei). Mas há pelo menos um que vai além de tudo isso (acho que não preciso dizer que este blog é tendencioso, certo?)

Como já foi falado, escrito e vaiado, Bob Dylan se destaca de todos os mencionados (vivos ou não) pela maneira como se reinventa. É comum dizer, e até foi feito um filme sobre isso, que Dylan possui várias vidas. E, depois de largar uma dessas personas, Bob Dylan segue em frente, sem nunca olhar para trás.

[vimeo=http://vimeo.com/24043070]

Vídeo feito no ano passado para homenagear os 70 anos de Dylan.

Distanciando-se da ruminação da própria arte, Bob Dylan parece ser um Woody Allen da música, só que ainda mais sofisticado. Mesmo soando contraditório, ele é um sonegador do próprio passado ao mesmo tempo que dialoga com tudo o que já fez. Revisita suas músicas mas, ao invés de requentar todo o sabor criado, refaz todo o prato e cria novos aromas para as mais de 500 receitas.

Pode soar intelectualoide e pomposamente verborrágico, mas é possível entender parte dessas mutações dylanescas através de Walter Benjamin. Em “A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução”, o pensador alemão critica a reprodutibilidade da Arte e da sua conversão a um fenômeno de massa. Para ele, as reproduções perdem o frescor, o chamado hic et nunc (aqui e agora, em latim). Readaptando as ideias de Benjamin, podemos dizer que Bob mantém o hic et nunc de sua obra ao revisitá-la com diferentes abordagens a cada dia.

Mesmo aos 71 anos, que Bob Dylan completa hoje, ele mantém o instinto de mudança (change), palavra recorrente nas canções dylanescas. E nós, o que podemos esperar?

“I feel a change coming on

And the fourth part of the day is already gone”

Que venham mais e mais partes.

5 thoughts on “Os 71 anos de Bob Dylan (ou como ele nunca olha para trás)

  1. “Chris Shaw – há muitos anos o engenheiro de som preferido de Bob Dylan – conta que, ao fim de um show, se aproximou de Dylan e, referindo-se à interpretação de It’s Alright Ma que acabara de ouvir, quis saber se alguma vez o músico tinha voltado a tocar a versão original da música. Dylan o olhou e disse: “Bom, você sabe, um disco não é mais que o registro do que você estava fazendo naquele dia em particular. E ninguém gostaria de viver o mesmo dia outra vez, não?” A anedota não só expõe uma crença artística, mas um modo de vida. E isso me faz pensar não só na necessidade que sempre tive de modificar tudo o que se apresenta como original, mas também na angústia que sinto quando alguém me fala sobre um livro que publiquei há muito tempo. Volta e meia isso acontece quando um romance é lançado em um outro país e preciso aparecer em público, como se tivesse acabado de escrevê-lo e, além disso, assinar em baixo de tudo que foi dito ali, há tanto tempo. A gente escreve precisamente pelo motivo contrário, para modificar os originais. São situações muito incômodas e, em certas ocasiões, beiram o pesadelo quando se vê que o outro se fortalece na crença de que se é o mesmo do que quando, horas ou anos atrás, escreveu aquilo. Escrevo para não viver o mesmo dia outras vezes. Como Dylan é sábio.”

    O texto acima foi retirado de uma entrvista com o escritor espanhol Enrique Vila-Matas, cujo último livro,”Arde Bob Dylan”,deve ser lançado no final de junho no Brasil.

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