Tempest (Parte 2): de carona com Bob Dylan

Confira aqui a primeira parte.

Quando tive o primeiro acesso a Tempest na íntegra, preferi ouví-lo em sua ordem ao invés de escutar primeiro as faixas até então inéditas para mim. Confesso que fiquei ansioso, já que as canções mais faladas eram justamente as duas últimas do disco. Mas a viagem agradabilíssima até o destino valeu tanto, senão mais, do que o ponto final. A tempestade dylanesca finalmente caía.

Para quem acompanha as centenas de shows anuais que Bob faz, pode perceber a diferença ocorrida entre 2011 e 2012. Dylan parece mais à vontade no palco, investindo em suas performances. Curva-se com as mãos nos joelhos enquanto sola sua gaita; sorrisos fáceis distribuídos agora com mais frequência; experimentalismos sonoros, alternando instrumentos no meio da música e incluindo ecos em sua voz.

Como se a usasse para alongar suas canções, Bob Dylan tornou a gaita ausente em Tempest e voltou a investir pesado em letras extensas. O espaço para solos também é escasso. Das 10 músicas, metade ultrapassam os sete minutos e apenas uma possui menos de quatro minutos. Mais de 23 mil caracteres espalhados em 68 minutos.

Tempest é uma viagem em vários sentidos. A música é apenas um pano de fundo para que o cantor, ou o narrador, conte suas histórias compiladas em andanças. Até esse momento, seria impensável imaginar Dylan cantando baladas românticas que parecem ter saído da Motown ou das madrugadas calmas da Sun Records. Bob não só assume o papel de andarilho, como usa com muita sabedoria o desgaste de sua voz para cantar com a experiência de um ancião que experimentou o trajeto dantesco.

Trilhando – Tempest

#1 – Duquesne Whistle: A Rolling Stone achou o clipe “chocantemente violento”, comparando até a Goodfellas. Para mim o vídeo é bem humorado, mostrando o quanto se sofre com o amor – ou apenas um belo fim para um “stalker”. E como disseram no Facebook: Bob Dylan parece ter feito as pazes com a juventude.

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A canção, co-escrita por Robert Hunter (que também participou de Together Through Life), é uma amável história de nostalgia. O narrador lembra, a partir do apito, de um “namoro de portão” e da árvore que costumava subir. A melodia parece ecoar Earl Hines e sua “I ain’t got nobody”.

O que seria esse apito de Duquesne? Alguns acham que se trata de uma fornalha localizada em Duquesne, Pennsylvania. Porém, existe uma antiga linha de trem que vai de New York até Pittsburgh que era conhecida como Duquesne, mas que agora se chama Amtrak.

#2 – Soon After Midnight: Bob Dylan parece realizar um de seus possíveis sonhos: ser adulto o bastante para adentrar a Sun Records dos anos 50 e gravar um R&B tranquilo e acalentador. Há uma clara referência a Elvis em “It’s now or never/ More than ever”. A belíssima e suave canção deveria durar muito mais e bem que poderia ter um final menos abrupto.

#3 – Narrow Way: Um blues rápido e encrenqueiro que tem boas frases como: “I’m still hurting from an arrow, that pierced my chest/ I’m gonna have to take my head, and bury it between your breasts”. O refrão, como Will Hermes percebeu, é emprestado de uma antiga canção de Mississippi Sheiks, “You’ll Work Down to Me Someday”.

#4 – Long and Wasted Years: Um country-soul primoroso e comovente que lamenta o fim de um grande amor. Algumas frases poderiam estar em Crônicas V.2, como: “I wear dark glasses to cover my eyes/ There are secrets in them I can’t disguise/ Come back baby if I ever hurt your feelings I apologize”. Seu arranjo é um registro da atual fase de Dylan e sua experimentação melódica cadenciada.

#5 – Pay In Blood: Para mim, uma das melhores canções de Dylan dos últimos 30 anos. A vingança volta a ser tema, mas dessa vez a acidez dylanesca vem com muito mais experiência e sabedoria. A voz de Bob está mais rasgada do que nunca, tornando a música ainda mais forte. No Expecting Rain encontraram ecos de Julio Caesar de Shakespeare (“I came to bury, not to praise”).

#6 – Scarlet Town: Com uma atmosfera nebulosa que lembra “Ain’t Talkin’”, de Modern Times, Bob cita a mesma cidade utilizada como pano de fundo em uma das versões da tradicional “Barbara Allen”. Mantendo a referência ao passado, Dylan “pegou emprestado” algumas frases do poeta John Greenleaf Whittier.

#7 – Early Roman Kings: Um blues pesado e vagaroso que se baseia em “Manish Boy” de Muddy Waters e principalmente em “I am a man”, de Bo Didley. Como já dito, Bob usou da frase “I ain’t dead yet”, criada por Woody Guthrie, que em 1961 deu um bilhete a Dylan com a frase para comprovar que ainda estava vivo.

#8 – Tin Angel: Apesar de extremamente monótona, a narrativa prende e inebria o ouvinte. Seu enredo parece ter saído de uma compilação de histórias do folk tradicional americano. É como se Dylan reescrevesse toda a antologia de Harry Smith.

#9 – Tempest: Para quem acha que o clima alegre não foi uma boa escolha de Dylan, saiba que a melodia foi baseada na canção da Carter Family sobre o mesmo tema, “The Great Titanic”. Bob investe quase 14 minutos do disco para contar a história do fatídico e centenário acidente do Titanic, ocorrido em 14 de abril de 1912. Na descrição, nem Leonardo DiCaprio, ou apenas Leo, escapa.

#10 – Roll On John: A canção que fecha o álbum, como uma trilha enquanto sobem os créditos, é uma homenagem comovente e sincera de Dylan ao amigo John Lennon, morto em 1980. Bob utiliza de alguns versos do ex-beatle para recontar parte da vida de John. O título da canção é emprestada de uma homônima, intepretada por Dylan 50 anos antes, em janeiro de 1962.

Às vezes, a sensação é de que estamos realmente em um Pontiac Tempest, há 130Km/h. Em outras, estamos em um Corvette conversível, enquanto sentimos o vento leve e podemos curtir com calma a bela paisagem que se apresenta.

O destino final é, sem sombra de dúvidas, a fonte Palas-Atena e seus significados: sabedoria, justiça e arte.

Roll On, Bob.

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