When The Ship Comes In (ou a revolta dylanesca)

As recentes manifestações no país me fizeram relembrar, e de alguma maneira re-contextualizar, algumas músicas da chamada “fase de protesto” de Bob Dylan. Na semana passada, apenas postei a letra de “The Times They Are A-Changin’” e sua mensagem clara. Dessa vez, contudo, resolvi escrever algumas palavras de “When The Ship Comes In”, que também se encaixa na mesma temática, mas com uma abordagem apocalíptica e ainda mais alegórica.

Dylan on Brecht

Brecht On Brecht

“When The Ship Comes In” está diretamente ligada a um contexto engajado e poético. Isso porque em abril de 1963, Suze Rotolo – namorada de Bob – trabalhava na produção de “Brecht On Brecht”, um espetáculo off-Broadway (fora do circuito de elite do teatro nova-iorquino) baseado em canções de Berthold Brecht e Kurt Weill.

Um dia, Dylan foi se encontrar com Suze no teatro e se deparou com as músicas da dupla – “eram erráticas, sem ritmo e imprevisíveis – visões estranhas… eram como canções folk em sua natureza, mas ao contrário das canções folk também, porque eram sofisticadas”, lembraria décadas depois em suas Crônicas.

Uma das músicas ouvidas pelo visitante de 21 anos foi “Pirate Jenny”, composta para a “Ópera dos Três Vinténs”. Junto com “Mack The Knife”, “Pirate Jenny” é uma das músicas mais famosas da obra.

“Pirate Jenny” é uma música apocalítpica e vingativa. Conta basicamente a história de uma empregada que se vinga de seus patrões com a chegada de um navio da liberdade, justiça e boas intenções. Ao fim da canção, ao ser questionada sobre o fim de seus chefes autoritários, responde para matá-los.

A vingança pós-desdém

Bob & Joan

Segundo a própria Joan Baez, Bob estava a acompanhando em uma turnê pela Costa Leste americana quando ela parou o carro em frente a um hotel e pediu para Dylan verificar se era o hotel com o quarto reservado em nome de Joan Baez. Bob voltou informando que não havia reserva, mas quando ela foi ter certeza, viu que na verdade o funcionário havia mentido para Dylan. Enquanto a cantora pedia um quarto para seu acompanhante, o recepcionista tratou Bob com desdém, mas atendeu a famosa musicista.

Nesta noite, Bob Dylan – embriagado de ódio – escrevia “When The Ship Comes In”.

Sua versão de “Pirate Jenny” é tão assustadora quanto a original, mesmo que menos tétrica. A chegada do navio dylanesco é marcada pelo quase cessar do tempo, com o mar se dividindo ao meio e o vento parando de soprar. Os inimigos, acordando e desacreditando do que o esperavam, percebem não têm nada a fazer. A embarcação da justiça e sabedoria não estava de brincadeira.

Whole Wide World is watchin’

A canção foi lançada em 1964, no disco “The Times They Are A-Changin’”. Sua estreia ao público, porém, foi no ano anterior. Dylan escolheu esta música para cantar no dia 28 de agosto de 1963, na histórica Marcha dos Direitos Civis em Washington – para quem não se lembra, a manifestação teve como marco o famoso discurso “I Have A Dream”, de Martin Luther King.

Dylan, que nos anos 60 foi considerado o “porta-voz de sua geração” parece muitas vezes também ter um momento de profeta de gerações futuras. “When The Ship…” poderia muito bem ser a trilha sonora de boa parte dos protestos recentes no país.

Tudo ainda ESTÁ acontecendo e agora talvez não seja a melhor hora de entender O QUÊ ocorre, mas já está claro que já é um marco para cada um de nós, participantes ativos ou não.

Como se prevesse o futuro, em meio a um contexto com cobertura não só da grande mídia, mas também dos próprios autores e testemunhas, Dylan estava certo ao dizer com uma aliteração que faz lembrar todo o poder da Internet nos dias de hoje:

And the ship’s wise men
Will remind you once again
That the Whole Wide World is watchin’.

8 thoughts on “When The Ship Comes In (ou a revolta dylanesca)

  1. Concordo !!!
    Mais uma vez Dylan nos surpreende com suas letras atemporais !!
    Com relação a crescente onda de manifestações aqui em terra brasilis ,espero que ela não se dirija para caminhos e interesses obscuros de uma minoria que podem se aproveitar desse descontentamento geral !!!

  2. O blog está cada vez melhor e os seus conhecimentos sobre o Bob Dylan estão iluminando novos horizontes de percepção e reflexão. Muito obrigado pela excelente dedicação e trabalho.

      1. É uma tese de mestrado.Tinha esse livro. Como livro bom não se empresta e nem se devolve eu perdi-o ao emprestá-lo a uma amiga.Lembras o título? Parabéns pelo site. De longe, o melhor do Brasil.

  3. É claro que o Bob Dylan tem muito mais juízo do que o Marlon Brando tinha, mas o Bob Dylan é um pouco Marlon Brando quando age como se não estivesse nem aí, e está. Quer dizer, está, está na dele, nunca esteve em outra que não fosse a dele, e não está nem aí para fãs, seguidores, etc.
    O umbigo que o Bob Dylan usa para dar uma volta é somente um, o umbigo dele mesmo, embora pareça que não.
    A única coisa que interessa ao Bob Dylan, desde moço, é a arte, a sua arte, mais nada. Mas arte é insuficiente, finita, e o Bob Dylan parece que sabe disso, mas não demonstra o saco cheio.
    E qual é a do Bob Dylan?
    Para falar bem a verdade, não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe.

  4. Porta-voz da sua geração?
    Eta! Nossa!
    Não, Bob Dylan nunca foi porta-voz de coisíssima nenhuma, e bateu o pé firmemente contra os que achavam que ele era.
    Porta-voz?
    Quem precisa de porta-voz é presidência de República, reis, rainhas, príncipes e princesas, gente desse tipo.
    Se eu precisasse de um porta-voz, eu não seria eu, mas o outro.
    E o próprio Bob Dylan disse que as pessoas tiravam a barrigada das suas canções e não entendiam nada.

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