Acabou de ser lançando o novo clipe de Bob Dylan. O vídeo tem como trilha “The Night We Called It a Day”, do disco Shadows In The Night. Como tem ocorrido nos últimos clipes, a história romântica é contata sob uma ótica violenta e sanquinária (lembre-se de “Duquesne Whistle”, “Beyond Here Lies Nothin’” e “Must Be Santa”).

Com uma roupagem em preto-e-branco, como os antigos filmes, Bob Dylan compete com o ator Robert Davi (que, coincidência ou não, também lançou um álbum com canções já interpretadas por Sinatra) o coração de Tracy Phillips. O resultado é uma sucessão de assassinatos, com Dylan escapando ileso.

Confira!

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O clipe foi dirigido por Nash Edgerton, o mesmo de “Duquesne Whistle.

 

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D.A. Pennebaker e Chris Hegedus trabalharam juntos diversas vezes. No universo dylanesco, a parceria foi importantíssima para a produção de “Dont Look Back”, de 1967, que retrata a última turnê exclusivamente acústica e solitária de Bob Dylan, ocorrida em 1965.

É desse filme, por exemplo, que está aquele que é considerado um dos primeiros clipes de música:

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A CAIXA Cultural Rio de Janeiro apresenta, de 28 de fevereiro a 8 de março de 2015, a mostra de filmes “O cinema verdade de Pennebaker e Chris Hegedus”. Serão 25 filmes, entre curtas e longas, divididos em 3 categorias temáticas: cinema rock, política e artes cênicas e performances.

Para a curadora Amanda Bonan, “Pennebaker e Hegedus foram dois dos principais consolidadores da vertente do cinema documentário que se empenha em captar a realidade tal qual ela aparece diante de nossos olhos. O cinema verdade procura reproduzir aquilo que acontece no mundo, com o mínimo de interferências possível”.

Além da exibição dos filmes, o público poderá participar de debates gratuitos com importantes pensadores e críticos de cinema.

Confira a programação!

Informações:

Local: CAIXA Cultural Rio de Janeiro – Cinemas 1 e 2
Endereço: Av. Almirante Barroso, 25, Centro (Metrô: Estação Carioca)
Telefone: (21) 3980-3815
Data: de 28 de fevereiro a 8 de março de 2015
Horários: Consultar programação
Classificação Indicativa: Consultar de acordo com o filme
Ingressos: R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia). Além dos casos previstos em lei, clientes CAIXA pagam meia
Lotação: Cinema 1 – 78 lugares (mais 3 para cadeirantes). Cinema 2– 80 lugares (mais 3 para cadeirantes)

Obs.: Meu agradecimentos a Lucia Possas pela dica!

 

Bob Dylan no MusiCares 2015

Bob Dylan, o artista que faz cerca de 100 shows anuais, mas desaparece nos hiatos de cada fase da turnê, resolveu aparecer em um tributo a si próprio. Numa pesquisa mental rápida, lembro da sua participação do Grammy de 2011 e da condecoração por Obama no ano seguinte. Nas duas ele estava presente, mas não parecia estar lá. No dia 6 de fevereiro de 2015, contudo, foi o oposto.

A MusiCares é uma organização ligada ao Grammy que ajuda músicos com dificuldades. É uma espécie de lar dos velhinhos para cantores e instrumentistas. Para conseguir angariar fundos, faz um jantar de gala anual, homenageia alguém e ganha com contribuições. Bob Dylan foi o escolhido do ano e recebeu uma festa temática completa.

Bob Dylan e Jimmy Carter

O evento teve a participação de pessoas emblemáticas, que cantaram canções de Dylan ao longo dos anos. Segundo Sheryl Crow, foi o próprio Bob que escolheu a música para cada intérprete.

Confira o set:
Leopard-Skin Pill-Box Hat – Beck
Shooting Star – Aaron Neville
Subterranean Homesick Blues – Alanis Morissettez
On A Night Like This – Los Lobos
Senor (Tales of Yankee Power) – Willie Nelson
Blind Willie McTell – Jackson Browne
Highway 61 Revisited – John Mellencamp
One More Cup of Coffee – Jack White
What Good Am I? – Tom Jones
I’ll Be Your Baby Tonight – Norah Jones
Million Miles – Derek Trucks and Susan Tedeschi
Pressing On – John Doe
Girl From the North County – Crosby, Stills & Nash
Standing in the Doorway – Bonnie Raitt
Boots of Spanish Leather – Sheryl Crow
Knockin’ On Heaven’s Door – Bruce Springsteen
Blowin’ in the Wind – Neil Young

Depois de cerca de duas horas de músicas e homenagens, o ex-presidente dos EUA (e amigo de Dylan desde a década de 70) subiu ao palco para chamar o grande homenageado.

Após receber o prêmio – mas estranhamente mal tocá-lo -, Bob Dylan pegou o calhamaço de papel que estava em sua mão e começou a ler. E aí está o oposto de suas últimas aparições do tipo: ele falou por 40 minutos. Um discurso pronto de mais de 25 mil caracteres!

Chocolate entregue durante o evento.

Começou agradecendo a todos, mas informando que as canções não chegaram até aqui sozinhas. Foi preciso a ajudade inúmeras pessoas. E passou a elencá-las: o produtor John Hammond, Peter, Paul & Mary, The Byrds, Jimi Hendrix, Nina Simone e, é claro, Joan Baez. Outras tantas foram enumeradas por Dylan pela importância na divulgação de sua obra.

Depois de olhar pra frente, Bob Dylan se dá ao luxo de olhar para trás – não apenas para o seu passado, mas para o passado do caminho que trilha, e persiste caminhar, há 50 anos. Falou da influência de grandes músicos como Staple Singers e Jerry Lee Lewis, destilou um veneno quase humilde para vários compositores e cantores que rejeitaram suas letras e canções.

Prestou doces homenagens a amigos como Kris Kristofferson, Willie Nelon e Johnny Cash. E, como faz desde suas primeiras conversas com jornalistas, confrontou os críticos. Questionou as críticas e o porquê delas serem aplicadas apenas a ele. Questionou a forma como sua obra é tratada. Foi raivoso, sem perder a sutileza do humor.

Teceu comentários verdadeiros de um manifesto: o fim da verdade em detrimento da habilidade inútil e do pseudo-talento. Descreveu suas canções como se estivesse em um workshop: elas não foram difíceis de compor, só é preciso viver.

Dylan deixou claro sua opinião sobre si mesmo: ele não inovou em nada e não revolucionou nada. Apenas seguiu o caminho que aprendeu com suas influências. Só manteve a rebeldia do rock’n’roll aliada à tradição das histórias folk. Só respeitou as raízes do blues enquanto experimentava apresentá-las à poesia. Só um detalhe: fez tudo isso através de uma porta inédita.

Infelizmente ainda não temos nem o áudio nem um vídeo na íntegra deste momento histórico do universo dylanesco. Aguardo com ansiedade e esperança.

Alguns links interessantes (em inglês):

9 pessoas que Dylan agradeceu

Vídeo com trecho do discurso

Fotos oficiais (do Grammy)

Discurso na íntegra

15 coisas que podemos refletir sobre Bob Dylan com seu discurso

 

AARP

Acabo de ler a longa entrevista de Bob Dylan na revista da AARP (sigla em inglês para Associação Americana dos Aposentados). É a primeira conversa de Dylan com a imprensa nos últimos três anos. A anterior foi com a Rolling Stone para divulgar Tempest (e teve um resultado bem mais cáustico do que esta).

Nas cerca de 9 mil palavras (ou 11 páginas impressas!), Bob Dylan conversou com Robert Love, editor da AARP Magazine e ex-funcionário da Rolling Stone. Eles falaram sobre as influências musicais, os anseios em torno de Shadows in the Night e, entre outros assuntos, a relação de Bob Dylan com sua musa maior – a música a poesia intrínseca a ela.

Permito-me fazer um devaneio sobre o que acabo de ler.

Ao terminar de ler a entrevista, me veio um antigo e minúsculo livro que me deparei na época da faculdade. Nunca me esqueci dele. Entrevista: O diálogo possível. De Cremilda Medina. Basicamente é um guia de como se fazer uma entrevista. A ideia é simples: uma entrevista deve ser um diálogo e, para isso, ambas as partes devem se alimentar do conteúdo. O entrevistador sempre sairá com algo novo, já que é essa a razão da conversa. Mas o segredo está em como fazer com que o entrevistado seja atingido de maneira equivalente.

E mais do que isso: como não transformar uma entrevista em um interrogatório!

Neste aspecto, acho que Bob Love conseguiu o trunfo de criar um papo com fluidez, muito conteúdo relevante e, o mais surpreendente, com uma considerável participação de Bob Dylan. Ao final da entrevista, Dylan relata:

“Eu achei essas perguntas muito interessantes. A última vez que eu dei uma entrevista, o cara queria saber de tudo menos de música. As pessoas fazem isso comigo desde os anos 60 – eles perguntam coisas que eles perguntariam para um médico, um psiquiatra, um professor ou um político. Por que? Por que você está me perguntando essas coisas?”

Dylan estava conectado ao entrevistador durante a conversa. O papo abriu o caminho para uma parceria e troca de informações. Não era um interrogatório. Era uma reflexão coletiva.

E aí vai outra reflexão: a crítica músical, assim como a própria indústria, enfrenta algo bizarramente similar aos anos 60. Se há 50 o jornalismo musical estava ainda em ascensão, hoje parece estar em queda livre – pelo menos na grande mídia. “Músicos” mais dançam do que cantam; o palco é preenchido com mais fogos e luzes do que instrumentos… e o jornalismo segue a mesma escassez de conteúdo.

420-bob-dylan-leans-hoodVoltando!!! E do que eles falaram? Sobre a ode à essência; sobre o respeito ao que importa; e, acima de tudo, sobre se manter fiel ao que acredita. Dylan desdenha Eric Clapton, Rod Stewart e Elton John, mas faz de maneira menos polêmica e mais motivacional. É como ele quisesse sugerir a eles que seguissem mais o coração do que a cabeça (apesar de admitir que um idoso precisa se apegar a sabedoria ao invés da paixão).

Bob Dylan reflete sobre sua base musical. Discorre sobre a verdade na música. O misticismo religioso necessário para criar uma conexão com a arte. A música é essencialmente humana e não pode ser convidada a malícias tecnológicas tão efêmeras quanto frias.

Sinatra e o mundo que Dylan ironicamente ajudou a destronar nos anos 60 merecem respeito. Se Frank passa o ápice da beleza humana em sua voz, faz isso através de um arranjo meticulosamente magistral e com um conteúdo que conecta todos. A essência é o conteúdo, a poesia, a letra, a história. Conectar-se com o enredo musical é a virtude do bom intérprete. Ser afinado e técnico passa a ser secundário.

Se em Shadows… ele homenageia os grandes compositores e letristas da geração anterior a ele, nesta entrevista ele faz questão de vomitar várias outras influências. Chuck Berry, Staple Singers, Glenn Miller, Bill Monroe, Hank Williams, Woody Guthrie. É como se ele tivesse explicando: eu não fiz nada de mais, apenas segui os passos dessas pessoas. E acreditei na minha Verdade.

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Mais do que todo o conteúdo tratado na entrevista, a pergunta que fica na mente é: por que Dylan quer falar com os aposentados americanos? Será que é por conta das músicas recém lançadas? Será pelas referências que Dylan queria fazer? Será que ele se assume como um idoso (enquanto Macca insiste em fazer parcerias com Rihanna, Kanye West, Lady Gaga e sabe lá quem mais!)?

E ae, alguma opinião?

 

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A valorização do silêncio; a intenção do imperfeito; o respiro poético; a revisitação do inusitado. Em seu trigésimo sexto álbum de estúdio, Bob Dylan explora nuances já testadas, mas nunca registradas da maneira como Shadows in the Night foi concebido.

A Valorização do Silêncio

Bob Dylan decidiu revisitar canções clássicas e algumas raridades – todas elas já interpretadas por Frank Sinatra – e escolheu manter a banda que o acompanha a tantos anos. Há arranjos para metais aqui e acolá, mas no geral é apenas Bob Dylan e seus parceiros – Tony Garnier, Charlie Sexton, George Recile, Stu Kimball e Donnie Herron.

Com um arranjo tão sutil e carinhoso, Bob Dylan se sentiu à vontade para explorar um tom raro de delicadeza.

A Intenção do Imperfeito

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Através de um formato de gravação incomum (vale dar uma lida no relato do engenheiro de som, Al Schmitt), Bob Dylan gravou tudo de uma vez só, com poucos takes, sem refações, correções ou até grande modelagens no som (a mixagem que se houve é praticamente o que foi feito no momento da gravação). O resultado é um registro bem arranjado, mas minimalista. Os instrumentos entram apenas quando necessário.

Sobre a performance de Dylan, é preciso ter mente que ele nunca foi um cantor altamente técnico. Desde o início colocava sua voz como achava que deveria, usando mais sua intuição do que um método racional. Mas após mais de 50 anos, incluiu sua vasta experiência para uma intuição ainda mais apurada.

Isso não significa que ele seja um Sinatra ou um crooner clássico, mas um intérprete sincero, transparente e real. Quando ouvimos Sinatra, somos transportados para uma realidade platônica, em que os anjos formam a banda de apoio. Com Dylan, contudo, somos convidados para um passeio no mundo real do sentimento humano. Aqui, as imperfeições existem, com algumas falhas, como leves desafinações.

Ainda assim, o resultado é belíssimo e surpreendente. Há uma lacuna de timbre vocal entre Tempest e Shadows in the Night. Se em Tempest a voz era raivosa e áspera, dessa vez ela ganha ares doces, como um avô entoando canções de sua época (e, no fim, não é isso que este disco representa?).

O Respiro Poético

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Com todos na mesma sala e o microfone de Dylan constantemente ligado, é possível ouvir uma imperfeição técnica que garante uma experiência quase transcendental. Em algumas partes instrumentais, é possível ouvir Bob respirar calmamente, pegar fôlego para iniciar o canto ou suspirar ao final de uma frase. É esquisito e imperfeito, mas ao mesmo tempo intimista e transparente.

Se Bob Dylan usa óculos escuros para cobrir a verdade dos olhos, em Shadows in the Night ele faz questão de que todos ouçam suas verdades nas palavras, sons e silêncio.

A Revisitação do Inusitado (ou a Comprovação da Competência)

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O repertório é algo que chama a atenção desde o início. Com exceção da última faixa do disco, “That Lucky Old Sun”, que Dylan já cantou outras vezes, todas as outras músicas são canções inicialmente de jazz e com o universo que, ironicamente, era justamente aquele combatido por Dylan no início de sua carreira folk.

Há quem diga que Bob não quer que Shadows in the Night seja conhecido como “Dylan canta Sintara”, mas apenas uma interpretações de canções que Bob conhecia há muito tempo e resolveu, segundo ele próprio, “desenterra-las. Tirando-as do túmulo e trazendo-as para a luz do dia”.

Mas podemos fazer outra leitura também: Bob Dylan já flertou com esse ambiente intimista e jazzy. Na turnê de 1995, experimentou cantar com sutileza, deixando os arranjos das canções como uma neblina da madrugada, enquanto as palavras que se ouvia não era do cantor, mas do próprio pensamento da noite. Em 2004, homenageou o Teatro Apollo ao lado de Wynton Marsalis para uma interpretação na companhia de uma big band. E em 2009, presenteou a todos com um disco natalino.

Neste último, muitos criticaram a atuação de Bob. Um crítico chegou a afirmar que o timbre de voz, rouco e rasgado, parecia mais uma ameaça do que um convite. Apesar de manter a voz rasgada em Tempest, a turnê de 2013 apresentou um Dylan mais calmo, tentando achar timbres mais aveludados em sua voz.

Talvez estivesse se preparando para este projeto, tão audacioso quanto belo, tão imperfeito quanto verdadeiro e tão perfeito como a vida, apesar de todos os pesares.

E, mais uma vez, Bob Dylan surpreente a todos. Para aqueles que querem o mesmo Dylan de sempre, uma frustração imediata. Para quem está de peito, e ouvido, aberto à novidades e experimentações, um prato cheio de sentimentos.

 
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