A nada solitária morte de Hattie Carrol

Em 1963, Bob Dylan estava completamente imerso no universo do folk revival dos Estados Unidos, quando diversos artistas escreviam sobre temas correntes através das chamadas “topical songs” (“canções atuais”). Como já havia mostrado no segundo álbum, The Freewheelin’ Bob Dylan, Dylan conseguia expandir os temas tratados através de canções que não só registravam um ponto de vista sobre um contexto específico, como também refletiam sobre o significado maior do acontecimento, tornando a canção ao mesmo tempo contextual e atemporal.

Entre as canções desse estilo, “The Lonesome Death of Hattie Carrol” é um destaque até mesmo para Bob Dylan, sendo uma das poucas topical songs a figurarem no repertório de seus shows até recentemente.

A história original

Como relatam Michael Gray e John Bauldie no livro “All Across the Telegraph” (compilado de artigos escritos para a revista dylanesca The Telegraph), os fatos reportados se diferem um pouco da história contada por Bob Dylan.

William Devereux Zantzinger estava com sua esposa, ambos jovens brancos de 24 anos, no Hotel Emerson em Baltimore, para um evento de caridade com foco em crianças e adultos aleijados. A festa começou às 10 da noite de 8 de fevereiro de 1963 e duraria até às 2 da manhã do dia seguinte. Zantzinger morava na fazenda da família, com 600 acres de produção de tabaco, milho e outros cereais.

Por volta da 1:30 da manhã, Ethel Hill, uma garçonete negra de 30 anos, estava limpando uma mesa quando foi abordada por Zantzinger sobre um fundo destinado aos bombeiros. Conforme relatos, ela foi agredida na bunda com uma bengala. Após tentar fugir, Zantzinger a seguiu, desferindo inúmeros golpes também nos braços e pernas. Ela não se feriu gravemente, mas teve o braço machucado. Ao ser levado de volta a mesa pela esposa, Zantzinger ainda agrediu mais uma vez Hill, dessa vez atingindo na cabeça com um sapato.

Dez minutos depois, William foi até o bar no andar de cima e pediu um bourbon com ginger ale. A atendente de bar era Hattie Carrol, negra de 51 anos que trabalhava no hotel há 6 anos como um funcionário extra em dia de eventos. Mãe de 11 filhos, morava com os mais novos, com 14 e 18 anos. Ela tinha um histórico de hipertensão e problemas no coração.

No momento em que William pediu seu drink à Hattie, ela respondeu “Um minuto, senhor”. Como resposta recebeu aos gritos “Quando eu peço um drink, eu quero agora, sua biscate negra!”. Ela estava correndo para fazer o pedido quando foi agredida no pescoço e ombros pela bengala de William. Ela pediu socorro e desmaiou nos braços de um colega. O hotel chamou uma ambulância que levou Carrol inconsciente e a polícia, que achou a bengala de madeira quebrada em três pontos, prendeu William acusado de agressão. Enquanto o levava, o policial foi agredido tanto por Zantzinger quanto pela sua esposa, sofrendo alguns machucados nas pernas e dando um olho roxo à William.

Na delegacia, a esposa de William conseguiu sair com uma fiança de 28 dólares enquanto Zantzinger passou a noite na prisão e conseguiu sair com uma fiança de 600 dólares. Na mesma manhã que ele estava em liberdade, Hattie Carrol falecia no Hospital Mercy, nunca tendo retomado a consciência. A provável causa de morte foi hemorragia cerebral.

Zantzinger já estava livre quando a polícia soube da morte, então passando a tratar o caso como assassinato – e não mais agressão – e solicitando uma nova prisão. Foi a primeira vez em Maryland que um branco foi acusado de assassinar uma mulher negra.

No julgamento, ocorrido em junho de 1963, três juízes decidiram que o caso foi de homicídio culposo, quando não há intenção. A sentença foi de seis meses de prisão. Com bom comportamento, William Zantzinger conseguiu sair da prisão após três meses, podendo passar o Natal em família.

Abordagem dylanesca

Segundo Bob Dylan relatou no box Biograph, “The Lonesome Death of Hattie Carrol” foi escrita em um café na sétima avenida, em New York. Inpirada em uma notícia de jornal, Dylan usou do fato para criar um quadro mais amplo sobre a questão racial nos Estados Unidos sua justiça tendenciosa.

Como bem disse à Steve Allen, Dylan usou a visão do repórter de uma história real para uma adaptação livre com foco em falar de algo maior:

“Hattie Carrol” empresta parte da atmosfera de “Pirate Jenny”, canção de Bertolt Brecht que também serviu de inspiração para “When The Ships Comes In”. Ambas foram gravadas em 23 de outubro de 1963 e lançadas no álbum The Times They Are A-Changin’, em 13 de janeiro de 1964.

Na abordagem dylanesca, a agressão e seu contexto são descritos de maneira objetiva ao longo de três estrofes, com cada uma recebendo um refrão frio:
“E você que filosofa sobre disgraça e critica todos os medos
Tire o trapo do rosto
Agora não é hora de chorar”

Na última estrofe, com foco no julgamento, Bob Dylan cria um clima perfeito ao elogiar a justiça através de dizeres do juíz sobre igualdade perante a lei, que até mesmo os nobres serão julgados, que não houve razão para o assassinato de Carrol – tudo descrito através de um discurso forte, imponente e aparentemente justo.

Contudo, ao informar que a “severa” punição seria de apenas 6 meses de reclusão, Bob Dylan altera parte do refrão:
“E você que filosofa sobre disgraça e critica todos os medos
Tire o trapo do rosto
Agora não é hora de chorar”

Conclusão

Assim como fez com a história de Medgar Evers em “Only a Pawn in their Game”, Bob Dylan consegue ampliar o fato em si e refletir sobre sua simbologia. Essas mortes, como tantas outras, nunca são solitárias. Todas possuem como pano de fundo um contexto de discriminação de minorias e uma elite raivosa que se vê com direitos supremos.

Nos casos citados acima, a elite se difere: enquanto que o caso de Medgar Evers ocorre após um discurso de ódio que coloca os negros como culpado das mazelas, o caso de Hattie Carrol ilustra o desrespeito a uma classe trabalhadora, negra, mas também mulher. O que se mantém é a sensação desses assassinos de que não serão punidos pelo Governo americano, que na época pouco fazia para garantir os direitos dos negros e mulheres.

Ao continuar cantando uma canção tão datada, talvez Bob Dylan mostre a atemporalidade desta poesia e a necessidade de ainda entoar uma mensagem contrária a este tipo de atitude.

Detalhes de “More Blood, More Tracks: The Bootleg Series Vol. 14”

Agora temos informações oficiais sobre o próximo Bootleg Series. O décimo quarto volume garimpará as sessões de gravações para o clássico álbum Blood On The Tracks, gravado em seis sessões, entre setembro e dezembro de 1974 e lançado em 20 de janeiro de 1975.

(Sugiro este artigo com alguns detalhes e importância deste álbum para Bob Dylan)

“More Blood, More Tracks” estará disponível em uma versão limitada de luxo e uma versão simples de 1 CD ou 2 LPs.

A versão de luxo terá 6 CDs, com um total de 87 faixas, contendo todas as gravações feitas em New York em setembro de 1974 – incluindo sobras, inícios que não deram certo e outros áudios – além de tudo que restou das sessões de gravação ocorridas em dezembro de 1974 em Minneapolis.

Também haverá dois livros, um de fotos e outro com texto escrito pelo jornalista Jeff Slate.

Foi lançado hoje um lyric video com o primeiro take de “If You See Her, Say Hello”, com imagens do manuscrito feito por Dylan no seu famoso caderno vermelho usado para compor o disco.

Belo, sereno e emotivo, Bob Dylan parece se abrir como raras vezes o vimos, sozinho ao violão e gaita:

A previsão de lançamento é 2 de novembro de 2018, com preço de US$150.

Clinton Heylin lança livro sobre disco

Assim como foi feito nas duas últimas edições do Bootleg Series, o autor e “dylanólogo” Clinton Heylin lançará um livro pela editora Route sobre a época, intitulado “No One Else Could Play That Tune” e com foco exclusivamente nas sessões de New York.

Veja o vídeo sobre o livro:

Confira a lista completa das faixas:

Disc: 1
1. If You See Her, Say Hello (Take 1)
2. If You See Her, Say Hello (Take 2)
3. You’re a Big Girl Now (Take 1)
4. You’re a Big Girl Now (Take 2)
5. Simple Twist of Fate (Take 1)
6. Simple Twist of Fate (Take 2)
7. You’re a Big Girl Now (Take 3)
8. Up to Me (Rehearsal)
9. Up to Me (Take 1)
10. Lily, Rosemary and the Jack of Hearts (Take 1)
11. Lily, Rosemary and the Jack of Hearts (Take 2)

Disc: 2
1. Simple Twist of Fate (Take 1A)
2. Simple Twist of Fate (Take 2A)
3. Simple Twist of Fate (Take 3A)
4. Call Letter Blues (Take 1)
5. Meet Me in the Morning (Take 1)
6. Call Letter Blues (Take 2)
7. Idiot Wind (Take 1)
8. Idiot Wind (Take 1, Remake)
9. Idiot Wind (Take 3 with insert)
10. Idiot Wind (Take 5)
11. Idiot Wind (Take 6)
12. You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Rehearsal and Take 1)
13. You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 2)
14. You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 3)
15. You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 4)
16. You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 5)
17. You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 6)
18. You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 6, Remake)
19. You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 7)
20. You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 8

Disc: 3
1. Tangled Up in Blue (Take 1)
2. You’re a Big Girl Now (Take 1, Remake)
3. You’re a Big Girl Now (Take 2, Remake)
4. Tangled Up in Blue (Rehearsal)
5. Tangled Up in Blue (Take 2, Remake)
6. Spanish Is the Loving Tongue (Take 1)
7. Call Letter Blues (Rehearsal)
8. You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 1, Remake)
9. Shelter from the Storm (Take 1)
10. Buckets of Rain (Take 1)
11. Tangled Up in Blue (Take 3, Remake)
12. Buckets of Rain (Take 2)
13. Shelter from the Storm (Take 2)
14. Shelter from the Storm (Take 3)
15. Shelter from the Storm (Take 4)

Disc: 4
1. You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 1, Remake 2)
2. You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 2, Remake 2)
3. Buckets of Rain (Take 1, Remake)
4. Buckets of Rain (Take 2, Remake)
5. Buckets of Rain (Take 3, Remake)
6. Buckets of Rain (Take 4, Remake)
7. Up to Me (Take 1, Remake)
8. Up to Me (Take 2, Remake)
9. Buckets of Rain (Take 1, Remake 2)
10. Buckets of Rain (Take 2, Remake 2)
11. Buckets of Rain (Take 3, Remake 2)
12. Buckets of Rain (Take 4, Remake 2)
13. If You See Her, Say Hello (Take 1, Remake)
14. Up to Me (Take 1, Remake 2)
15. Up to Me (Take 2, Remake 2)
16. Up to Me (Take 3, Remake 2)
17. Buckets of Rain (Rehearsal)
18. Meet Me in the Morning (Take 1, Remake)
19. Meet Me in the Morning (Take 2, Remake)
20. Buckets of Rain (Take 5, Remake 2)

Disc: 5
1. Tangled Up in Blue (Rehearsal and Take 1, Remake 2)
2. Tangled Up in Blue (Take 2, Remake 2)
3. Tangled Up in Blue (Take 3, Remake 2)
4. Simple Twist of Fate (Take 2, Remake)
5. Simple Twist of Fate (Take 3, Remake)
6. Up to Me (Rehearsal and Take 1, Remake 3)
7. Up to Me (Take 2, Remake 3)
8. Idiot Wind (Rehearsal and Takes 1 – 3, Remake)
9. Idiot Wind (Take 4, Remake)
10. Idiot Wind (Take 4, Remake)
11. You’re a Big Girl Now (Take 1, Remake 2)
12. Meet Me in the Morning (Take 1, Remake 2)
13. Meet Me in the Morning (Takes 2 – 3, Remake 2)

Disc: 6
1. You’re a Big Girl Now (Takes 3 – 6, Remake 2)
2. Tangled Up in Blue (Rehearsal and Takes 1 – 2, Remake 3)
3. Tangled Up in Blue (Take 3, Remake 3)
4. Idiot Wind – with band
5. You’re a Big Girl Now – with band
6. Tangled Up in Blue – with band
7. Lily, Rosemary and the Jack of Hearts – with band
8. If You See Her, Say Hello – with band

Bob Dylan, 77 anos (ou “Olhando para trás”)

Refletindo sobre as atitudes recentes de Bob Dylan, devo alertar os leitores do Dylanesco: ele mentiu para nós. Desde os anos 60, cunhou não só um documentário como um estilo de vida. “Dont Look Back” era uma bandeira para se desprender das correntes do próximo passado em busca da construção de descobertas constantes. Décadas depois, no documentário No Direction Home, ele explicou que o artista deve sempre estar em um estado de transição, para nunca estacionar num único lugar.

Repito: ele mentiu para nós. Faz um bom tempo que Bob Dylan olha para trás, sem que a gente perceba com clareza. E aqui estão dois indícios recentes:

1) Clássicos da Literatura

Meticulosamente analisado por Richard F. Thomas, a relação de Bob Dylan com os clássicos gregos e romanos data desde a juventude de Bob Dylan, ainda na cidade de Hibbing. Nas primeiras composições, olha para Roma com grande admiração, mas é no segundo milênio que ele remete ao seus estudos da adolescência com mais afinco, dialogando com grandes clássicos e em boa parte das canções que escreveu.

(Leia mais sobre o livro de Richard F. Thomas: “Why Bob Dylan Matters”)

2) Clássicos do Jazz

Desde 2015, Bob Dylan usou suas visitas ao estúdio para gravar clássicos de jazz, a grande maioria já interpretados por Frank Sinatra. Além de ser uma iniciativa que distoa de sua carreira – sendo tratado nos anos 60 como uma solução contrária ao establishment da indústria da época -, Dylan devaneou com os sons que respirou, voluntária ou involuntariamente, em sua juventude. Apesar de fincar os pés na profissão de cantautor (singer-songwriter), Bob também olhou com carinho as poesias pop que sobrevovam ao seu redor.

Viu? Apenas dois exemplos recentes que comprovam minha opinião. Bob Dylan olha, sim, para trás.

… mas calma. Pensando melhor, talvez ele não esteja mentindo para nós.

Bob não tem desdém pelo passado, mas medo pelo canto da sereia Nostalgia. Não quer se aprisionar em um personagem do Dia da Marmota em que não consegue, de fato, viver coisas novas.

Para Dylan, viver o passado não é reviver o que passou, mas recriar os significados das lembranças. Ele rememora como se quisesse organizá-las e desorganizá-las ao mesmo tempo e ininterruptamente. Ele quer ressignificar suas experiências, tornando-as algo novo.
Talvez esteja aí a razão do seu repertório estático dos shows recentes. Talvez Bob Dylan esteja querendo esfregar o passado no presente através da repetição frequente.

Enquanto que muitos de nós tratamos o passado como um canto da sereia que nos aprisiona, Bob Dylan sabe se desviar da hipnose marinha para olhar para trás com a certeza de que já viveu, mas que há ainda muito o que viver – mesmo que seja contemplando, com uma nova ótica a cada momento, o passado.

Feliz aniversário, Bob.

Para ler textos de aniversários anteriores, acesse:

Bob Dylan, 76 anos (ou “O escultor sonoro”)

Bob Dylan, 75, e a ocupação em nascer

Bob Dylan, 74, e a Árvore da Música

Bob Dylan, 73, e o eterno estado de “vir a ser”

Bob Dylan, 72 anos: compreendendo Dylan

Os 71 anos de Bob Dylan (ou como ele nunca olha para trás)

Update: eis uma bela homenagem no Youtube, com Bob Dylan cantando “Old Rock ‘n’ Roller”, de Charlie Daniels Band, e introduzindo “Essa é para quem imagina o que acontece para pessoas como eu”.