“This is an old one. Not really new. It gives me great pleasure to sing it in this place!”
Bob Dylan em Nuremberg (01/07/1978), antes de cantar “Masters of War”.

“And I hope that you die
And your death’ll come soon
I will follow your casket
In the pale afternoon
And I’ll watch while you’re lowered
Down to your deathbed
And I’ll stand over your grave
‘Til I’m sure that you’re dead”
Trecho de “Masters of War”.

O Terceiro Reich alemão começou em 1933 e perdurou até 1945, computando 12 anos de Estado totalitário nazista. Entre os locais favoritos de Hitler para ver os desfiles e fazer seu discurso, estava em Nuremberg, em um imponente complexo de construções.

Bob Dylan tocaria na Alemanha em 1978 para findar um hiato de 12 anos sem uma turnê mundial. A cidade do último show no país foi Nuremberg, e o local escolhido foi justamente uma das construções do complexo citado.

Temos, portanto, uma sorridente ironia: 12 anos de presença nazista e 12 anos de ausência dylanesca. Contudo, o que torna tudo isso mágico é a origem judáica de Bob. Um judeu congregando 80 mil pessoas para falar de coisas que durante 12 anos sequer poderiam ser pensadas.

Zeppelinfeld, Nuremberg (Alemanha)

Hitler, em Nuremberg.

A passagem de Bob Dylan pela Alemanha na turnê de 1978 se concluiu em um show em Nuremberg, no dia 1º de julho. O local escolhido foi parte do Reichsparteitagsgelände, um conjunto de construções criado na década de 30 para o Partido Nazista com foco em desfiles e discursos.

A tribuna Zeppelinfeld foi inspirada no Altar de Pérgamo, uma magnífica construção que os gregos fizeram para Zeus, “pai dos deuses e dos homens”. Zeppelindelf está localizada à leste da gigantesca avenida principal do complexo e possui 360 metros de comprimentos. Seu nome é uma homenagem ao criador do Zeppelin, que em 1909 pousou com um de seus dirigíveis na região.

Bob Dylan, em Nuremberg.

Em um monumento tão imponente e significativo quanto o Zeppelinfeld, Bob Dylan cantou por duas horas e meia, compensando o hiato de 12 anos.

Open Air Festival

01/07/1978

Apesar de tocar no festival britânico “Isle of Wight Festival” em 1969 e excursionar em 1974-76 com The Band e depois com a Rolling Thunder Revue, Bob Dylan estava desde o acidente de moto de 1966 sem fazer uma turnê mundial. Isso mudaria em 1978.

Influenciado pela numerosa “E Street Band”, do Bruce Springsteen, e talvez satisfeito com o palco cheio da turnê de 75-76, Dylan montou um grupo com 11 integrantes para rodar por Oceania, Asia, Europa e América do Norte e tocar em 114 shows em 78.

Os organizadores do show em Nuremberg resolveram montar um grande festival a céu aberto para satisfazer os mais de 80 mil pagantes. Ao lado de Bob Dylan, artistas como Sonny Terry & Brownie Mc Ghee, Leroy Little, Lake, Vince Weber e Eric Clapton (que voltou ao palco para tocar o bis com Dylan).

Bob Dylan, 1978.

Bob Dylan tocou 30 músicas em um set de cerca de duas horas e meia. A apresentação foi empolgante e Bob parecia inspirado. Entre as músicas, passou até a fazer comentários. Na hora de apresentar o trio de cantoras, disse:

“Cantoras de apoio no dia de hoje! À esquerda, minha noiva Carolyn Dennis. À direita, minha paixão de infância, Jo Ann Harris. E, no meio, minha atual namorada, Helena Springs.”

Há quem diga, como Eric Clapton, que Bob Dylan não sabia da história da região que tocava. Contudo, ouvindo a gravação, é possível ouvir Bob falando, antes de começar sua fatal “Masters of War”: “Me dá muito prazer tocar esta música neste lugar”.

Na época, havia apenas 15 dias que seu último álbum, Street Legal, fora lançado. Quase como uma previsão, eis um trecho de uma música do disco (“Changing of the Guards”), mas que Dylan só tocaria no dia 5 de Julho de ’78, em Paris.

“Gentlemen, he said
I don’t need your organization, I’ve shined your shoes
I’ve moved your mountains and marked your cards
But Eden is burning, either brace yourself for elimination
Or else your hearts must have the courage for the changing of the guards

Peace will come
With tranquillity and splendor on the wheels of fire
But will bring us no reward when her false idols fall
And cruel death surrenders with its pale ghost retreating
Between the King and the Queen of Swords”

Ouça o show completo:

  • She’s Love Crazy

  • Baby Stop Crying

    Thank you! All right, this is a new song, played for you now right at the start.

  • Mr. Tambourine Man

  • Shelter From The Storm

    Thank you! This next song is the story of my life.

  • It’s All Over Now, Baby Blue

  • Tangled Up In Blue

  • Ballad Of A Thin Man

  • Maggie’s Farm

  • I Don’t Believe You (She Acts Like We Never Have Met)

  • Like A Rolling Stone

  • I Shall Be Released

  • Going, Going, Gone

  • A Change Is Gonna Come (Sam Cooke)

  • Love Minus Zero/No Limit

    Steven Soles: Laissez-faire (David Ackles)

  • A Hard Rain’s A-Gonna Fall

  • One Of Us Must Know (Sooner Or Later)

  • You’re A Big Girl Now

  • One More Cup Of Coffee (Valley Below)

  • Blowin’ In The Wind

  • I Want You

  • Señor (Tales Of Yankee Power)

    This is another new song, Tales Of Yankee Power.

  • Masters Of War

    Thank you. That was a new song. This is an old one. Not really new. It gives me great pleasure to sing it in this place!

  • Just Like A Woman

  • Don’t Think Twice, It’s All Right

    OK, We wanna do this tune. A lot of people say this is reggae, but it still seems to work pretty well this way. It’s an old song still says the same thing. Actually it’s more Southern Mountain Reggae.

  • All Along The Watchtower

    This is called All Along The Watchtower. We wanna dedicate this to the late great Jimi Hendrix.

    Thank you! David Mansfield on the violin. I taught him every single note.

  • All I Really Want To Do

  • It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding)

    Thank you! All right, I wanna introduce you to my band. You know how good they are so give them the appreciation they deserve. Tonight, on the drums, from England, Ian Wallace. On the bass guitar, from San Francisco, Jerry Scheff. All right, on the organ, from Philadelphia, Alan Pasqua. From Mobile, Alabama, on lead guitar, Billy Cross. On the conga drums from Detroit, Bobbye Hall. All right, rhythm guitar, you met this young man earlier. He’s got a great future ahead of him, Mr. Steve Soles from Tombstone, Arizona. On the fiddle, the violin, violin and the mandolin, David Mansfield. On the saxophone, a young man who gave up a career as an airline pilot to join this band, Steve Douglas. Background singers tonight, on the left, my fiancée Carolyn Dennis. On the right, my childhood sweetheart, Jo Ann Harris. And, in the middle, my current girlfriend, Helena Springs. I wrote and recorded this in New York City 1963, called It’s Alright Ma, I’m Only Bleeding.

  • Forever Young

    Thank you! I wish we could stay and play all night, I really I do. But just can’t. This is a tune I recorded on an album with The Band called Planet Waves. I’m gonna leave you with this tune. It means a lot to me and I know it means a lot to you.

  • I’ll Be Your Baby Tonight

    Thank you. Eric Clapton is back. He’s gonna stay here and sing all night with me.

    Thank you. Eric Clapton on lead guitar!

  • The Times They Are A-Changin’

Fonte do áudio e transcrição: AllDylan

 

Bob Dylan, 74 anos.

“Meus filhos estão começando a notar que eu sou poucou diferente dos outros pais. ‘Porque você não tem um trabalho normal como todo mundo?’, eles me perguntaram um dia. Então eu contei a eles esta história:

Na floresta, existiam uma árvore torta e outra reta. Todo dia a árvore reta falaria para a torta ‘Olhe para mim… sou alta, reta e linda. Olhe para você… você é toda torta e retorcida. Ninguém quer olhar para você’. E elas cresceram juntas na floresta. Um dia, os madeireiros vieram, viram as duas árvores e disseram: ‘Apenas cortemos as árvores retas e deixamos o resto’. Então os madeireiros transformaram todas as árvores retas em madeira serrada, palitos de dente e papel. E a árvore torta continua lá, crescendo cada vez mais forte e estranha a cada dia”.
Tom Waits

24 de maio de 2015. O garoto de Duluth que caiu na estrada para achar um lar e descobrir que a própria trilha é o destino faz 74 anos. O jovem que sempre conquistou pelo talento e muitas vezes foi desdenhado por sua audácia está velho. Mas ainda tem bons caminhos para nos mostrar.

Como a árvore de Tom Waits, Bob Dylan se preocupa em sempre crescer e evoluir através de imperfeições e imprevistos, ao invés de se concentrar na perfeição efêmera e previsível das perfumadas flores. Pode não exalar um cheiro encantador, mas se mostra virtuoso nas formas que ganha e conquista. Dia após dia. Há 74 anos.

Bob parece não buscar uma obra perfeita, mas um progresso infinito. Nada como um dia após outro dia – e cada um a sua maneira. Não olhe para trás. Não viva o mesmo dia duas vezes. Não pense duas vezes… está tudo bem.

Bob Dylan, 74 Anos

Ao violão, preencheu o folk com grossas folhas de verdades absolutas e permitiu que esta árvore crescesse com as curvas semânticas da poesia. Na guitarra, injetou a seiva bruta do pensamento ao rock, que se imbuiu de elaborar uma seiva fina, forte e muito nutriente para se espalhar desde então.

Mesmo depois de tantas mudanças, tantas raízes descobertas, tantas sementes semeadas e tantas seivas produzidas, Dylan continua investindo nesta floresta semiótica de ressignificação constante e eterna.

E se fizéssemos uma versão dylanesca da Árvore da Vida, de Darwin? Bob Dylan seria tanto o ponto inicial, onde tudo começou, quanto a própria Mãe Natureza, que garante que todos os pontos d’A Origem das Espécies sejam respeitados. Bob Dylan é o jardineiro e o próprio jardim.

Bob Dylan é a Floresta Amazônica e sua produção de oxigênio. Que nós respiramos todos os dias. Sabendo ou não. Há 74 anos.

Happy Birthday, Mr. Dylan.

Bob Dylan, 74 Anos

 

2015-Letterman

Bob Dylan tocou há apenas algumas horas no Ed Sullivan Theatre, o mesmo local em que ele abandonou em 12 de maio de 1963. Dylan foi o último convidado músical da última semana de Dave Letterman a frente do programa antes de sua aposentadoria.

Para a ocasião, Bob escolheu sua música de trabalho (que nunca tinha sido tocada ao vivo) de Shadows In The Night: “The Night We Called It a Day”. A apresentação foi filmada em plano sequência, sem nenhum corte de câmera e Dylan, como de costume, passou boa parte do tempo analisando sua imagem em alguma TV e sem esboçar um sorriso, nem quando Dave foi agradecê-lo. (timidez ou apenas falta de paciência para o showbusiness, mesmo?).

Sem mais delongas, Bob Dylan:

Imagem de Amostra do You Tube
 

Depois de um rumor não confirmado de shows no Brasil em 2015, a turnê anual de Bob Dylan começou ontem, 10 de abril, em Atlantic City-NJ, nos EUA.

(O mapa está desatualizado, mas é legal para ter uma noção da extensão da turnê, que prioriza a região sul dos EUA)

(O mapa está desatualizado, mas é legal para ter uma noção da extensão da turnê, que prioriza a região sul dos EUA)

No primeiro show do ano, Bob Dylan manteve o repertório de boa parte dos shows de 2014 – setlist que alguns fãs já apelidaram de “The Set”. O site AllDylan compilou os vídeos de algumas músicas da apresentação e você pode conferir abaixo.

Entre os destaques dos registros, estão a pequena mudança no arranjo atual de “Workingman’s Blues #2”, a dinâmica de “Pay In Blood”, algumas inovações na linha vocal de “High Water (For Charley Patton)” e o guitarrista Stu Kimball no chocalho durante “Early Roman Kings”.

Confira o repertório e os vídeos:

1. Things Have Changed
2. She Belongs To Me
3. Beyond Here Lies Nothin’

Imagem de Amostra do You Tube

4. Workingman’s Blues #2

Imagem de Amostra do You Tube

5. Duquesne Whistle
6. Waiting For You

Imagem de Amostra do You Tube

7. Pay In Blood

Imagem de Amostra do You Tube

8. Tangled Up In Blue
9. Love Sick

Imagem de Amostra do You Tube

(intervalo)
10. High Water (For Charley Patton)

Imagem de Amostra do You Tube

11. Simple Twist Of Fate

Imagem de Amostra do You Tube

12. Early Roman Kings

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13. Forgetful Heart

Imagem de Amostra do You Tube

14. Spirit On The Water
15. Scarlet Town
16. Soon After Midnight
17. Long And Wasted Years

(bis)
18. Blowin’ In The Wind
19. Stay With Me

 

Dylan, Cash, and the Nashville Cats: A New Music City

Visitei Nashville em 2013, quando acompanhei três shows da turnê AmericanaramA que Bob Dylan ao lado das bandas Wilco, My Morning Jacket e outros convidados. Na ocasião, meu passeio pela lendária “Capital da Música” expôs uma lacuna curiosa: quase nenhuma menção à Bob Dylan e sua relação com Nashville.

Contextualizando

Como escrevi na época, Robbie Robertson talvez tenha matado a charada pelo “ostracismo dylanesco” na Music City. Ele opina que a cultura de Nashville não tem o costume de valorizar músicos que não fazem parte do círculo local. Apesar de acharmos elementos aqui e ali, o “wild mercury sound” que Dylan conseguiu em Blonde on Blonde difere daquele que escutamos aos montes nas ruas da cidade.

Bob Dylan gravou quatro discos em Nashville: Blonde On Blonde (parte em Nashville, parte em New York), John Wesley Harding, Nashville Skyline e Self Portrait (também com sessões divididas entre Nashville e New York). Entre os dois maiores entusiastas e influenciadores da ida de Dylan à capital do Country estão: Bob Johnston, produtor nascido em Nashville que trabalhou com Dylan em New York, e Johnny Cash, que Bob conheceu no Newport Folk Festival e manteve contato até o reencontro em 1969, para as gravações de Nashville Skyline.

Dylan, Cash, and the Nashville Cats: A New Music City

A nova exposição do museu Country Music Hall Of Fame parece querer compensar este desdém passado. Em “Dylan, Cash, and the Nashville Cats: A New Music City”, o curador Pete Finney mostra a importância que a parceria entre Cash e Dylan teve para a ampliação da atuação de Nashville no cenário musical, expandindo sua atividade para além do country. A exposição também homenageia outros músicos locais importantes para a fama de alta qualidade da cidade, entre eles: Kenny Buttrey, Charlie Daniels, Pete Drake, Charlie McCoy e Jerry Reed – muitos deles com participações em discos de Bob Dylan.

A Rolling Stone destacou os principais itens da exposição que fica até o final de 2016. Veja uma compilação dos itens dylanescos:

1- Manuscrito de “Wanted Man”, música que Dylan escreveu para Johnny Cash, que a gravou no disco “Live At San Quentin”

2- Guitarra Telecaster, usada por Charlie Daniels nas gravações de Nashville Skyline e Self Portrait

3- Agenda de Charlie McCoy, músico responsável pelo solo em “Desolation Row”

4- Terno que Dylan usou no encontro com Papa João Paulo II, em 1997, feito pelo designer Manuel Cuevas.

5- Acetato de “4th Time Around”, que Bob gravou em Nashville no dia 14 de fevereiro de 1966.

6- Grammy de Johnny Cash pelo texto do encarte de Nashville Skyline

7- Ingresso para show que Dylan fez em Louisville, Kentucky, no dia 4 de fevereiro de 1966 – dez dias antes de começar a gravar Blonde on Blonde.

O site do museu destacou outros itens dylanescos, como:
– Mahogany 1949 Martin 00-17, que Bob Dylan no começo dos anos 60;
– Documentos do começo da carreira de Dylan, como seu primeiro show oficial em New York
– Guitarra Gretsch Country Gentleman de Ron Cornelius, usada em gravações de Dylan no começo dos anos 70.

 
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