Bob Dylan, ao vivo em Palo Alto (14/10/2019)

por Leca, publicitária morando na Bay Area, que adoraria voltar no tempo pra ver o Dylan tocar Hurricane ao vivo.

Chegamos ao Frost Amphitheater perto das seis da tarde. O portão já estava aberto, então, as filas que se formavam nas duas entradas do lendário espaço já estavam em movimento.

O público nelas era bem variado. Famílias, casais e até crianças aguardavam tranquilamente para entrar. Cobertores e cadeiras eram itens quase que obrigatórios, pois a noite prometia ser fria.

Na checagem de segurança, a primeira surpresa: Bob Dylan, em pessoa, havia solicitado uma mudança de última hora nas regras (já restritas) do local. Se antes não eram permitidas apenas câmeras com lentes removíveis, ele foi além e exigiu que nenhuma câmera entrasse no lugar para que não fossem feitos registros fotográficos naquela noite. Claro que, com celulares abrigando câmeras poderosíssimas no bolso de cada um ali, o pedido era algo difícil de controlar, por isso, a equipe de segurança apertou as regras e a câmera que levamos teve que ser guardada no porta-casacos do espaço. “Nós também fomos pegos de surpresa”, disse a atendente ao nos entregar a senha para a retirada pós-show. Não respondi, mas fiquei pensando que esse é o tipo de coisa que se pode esperar quando se abriga uma estrela dessa magnitude.

O anfiteatro Frost é um centro de eventos em que todos os lugares são privilegiados. Sua disposição tem o palco no espaço mais baixo e as arquibancadas naturais se elevando à sua frente. As árvores ao redor criam uma proteção para o ambiente, deixando o som ali dentro e o mundo externo lá fora, o que cria uma espécie de aura mística, digna do show que viria a seguir.

À frente do palco, praticamente todas as cadeiras que haviam sido colocadas já estavam tomadas. Decidimos ficar mais para trás, sentar na grama e curtir nosso vinho e queijo (comprados lá dentro, é claro, já que nenhuma garrafa era permitida no lugar) até o início do show.

Um cartaz informava que todos os ingressos para o espetáculo tinham sido vendidos. E a multidão se acomodando ao nosso redor confirmava isso: Bob Dylan tocaria para uma casa cheia em plena segunda-feira.

O show começou pontualmente às sete e meia. Quem deu as boas-vindas foram as luzes do palco, pois Bob Dylan pulou o cumprimento e foi direto para aquilo que sabe fazer de melhor: música.

Ele só para pra falar quando, lá pelo meio do setlist, apresenta a banda que toca com ele. Chega até a ser estranho, de tão inesperado que é, ver ele mudar do modo performance para o modo ser humano que reconhece e agradece os talentos ao seu lado.

E que banda, senhoras e senhores. Incansáveis, cada um parece ter o seu momento durante o show. Os dois guitarristas ganham solos emblemáticos, o baterista embala as canções mais agitadas. E Bob Dylan? Bem, ele deixa a gaita um pouco de lado para se divertir com o piano armário, tocando de forma entusiasmada várias das canções. Sentado ou em pé, Dylan estava performático essa noite.

Seu traje brilhava enquanto ele se dedicava a interpretar as canções, em movimentos que não chegavam a ser exatamente uma dança, mas sim, a resposta natural do seu corpo a algo que ele faz com muito gosto, até hoje.

Tendo visto Bob Dylan em São Paulo em 2012, é impossível não comparar as duas apresentações em termos de voz. E, sabe-se lá que milagre, remédio ou exercício vocal Dylan andou fazendo, mas foi com muita alegria que pudemos ouvir sua voz em excelente estado. A rouquidão deu lugar a uma experiência quase cristalina, sendo possível entender não apenas as palavras, mas algo além, a dimensão que ele dava aos tons, alcançando diferentes notas e fazendo versões ao vivo de músicas já conhecidas soarem como novas. É difícil explicar. Mas dessa vez, banda e cantor estavam em uma sincronia tão perfeita que o show que ouvimos poderia tranquilamente ter saído de um álbum de estúdio.

No palco, além dele e a banda estavam apenas os manequins (???) alinhados na parte de trás e um busto de uma estátua no canto direito, à frente, próximo ao piano. Fora isso, a única “distração” era o trabalho das luzes, que transformava, criando texturas diferentes, o fundo do palco a cada música.

E talvez fosse o fato de que estávamos cercados de árvores em uma noite estrelada. Ou ainda, o impressionante momento, em 2019, em que não havia nenhum celular levantado na plateia (um ou outro corajosos arriscavam cliques muito rápidos e logo desapareciam), mas o show parece ter sido uma experiência quase que sobrenatural. Centenas de pessoas reunidas em uma clareira no meio da mata, sob as estrelas, para assistir a uma criatura que aparece, entrega uma experiência artística inesquecível, e, assim como veio, vai embora, deixando todos completamente transformados e se perguntando se tudo aquilo foi real.

Inclusive, como ele não se despede, o momento do bis é uma incerteza. Ele vai voltar? Ele não vai voltar? Felizmente, ele voltou, tocou mais duas músicas com a mesma energia das primeiras, deu as mãos para a banda, saudou nossa presença com uma reverência profunda (o que me deixou pensando sobre o fato do alongamento desse senhor de 78 anos ser melhor do que o meu) e partiu para estrada, rumo ao próximo show.

É isso que ele gosta de fazer. É isso que ele seguirá fazendo, até o fim dos dias.

Sorte daqueles que puderem presenciar esse momento ao vivo algum dia.

Entrar no universo de Bob Dylan pode ter regras rígidas e bem específicas, mas elas garantem, com toda a certeza, um show como nenhum outro na vida.

Setlist (por BobLinks):

  1. Beyond Here Lies Nothin’ (Bob center stage on guitar, Donnie on violin)
  2. It Ain’t Me, Babe (Bob on piano, Donnie on violin)
  3. Highway 61 Revisited (Bob on piano, Donnie on lap steel)
  4. Simple Twist Of Fate (Bob on piano then center stage on harp, Donnie on violin)
  5. Can’t Wait (Bob center stage, Donnie on lap steel
  6. When I Paint My Masterpiece (Bob on piano, Donnie on violin)
  7. Honest With Me (Bob on piano, Donnie on violin)
  8. Tryin’ To Get To Heaven (Bob on piano, Donnie on violin)
  9. Make You Feel My Love (Bob center stage, Donnie on pedal steel)
  10. Pay In Blood (Bob center stage, Donnie on lap steel)
  11. Lenny Bruce (Bob on piano, Donnie on violin)
  12. Early Roman Kings (Bob center stage, Donnie on pedal steel,
    Tony on standup bass)
  13. Girl From the North Country (Bob on piano, Donnie on violin,
    Tony on standup bass)
  14. Not Dark Yet (Bob center stage, Donnie on pedal steel)
  15. Thunder On The Mountain (Bob on piano, Donnie on lap steel)
  16. Soon After Midnight (Bob on piano, Donnie on lap steel)
  17. Gotta Serve Somebody (Bob on piano, Donnie on pedal steel)
    (bis)
  18. Ballad of a Thin Man (Bob center stage on harp, Donnie on lap steel)
  19. It Takes A Lot To Laugh, It Takes A Train To Cry
    (Bob on piano, Donnie on lap steel)

5 novidades no show de Bob Dylan de 2019

Depois de um breve boato vindo do baixista da Rolling Thunder Revue, Rob Stoner, de que Bob Dylan pausaria sua turnê no segundo semestre de 2019, tudo voltou ao normal: 38 shows marcados entre outubro e dezembro. Nesta fase da turnê, Bob Dylan optou por tocar principalmente em universidades.

E no primeiro show, no Bren Center de Irvine, tivemos algumas novidades.

Piano armário

Bob Dylan deixou de lado seu Baby Grand Piano e optou por um piano mais popular, o piano de armário. Se por um lado o transporte durante a turnê seja muito mais fácil com este instrumento, seu design pode dificultar ver o rosto de Dylan para quem está na platéia olhando para o fundo do piano.

Manequins (?!?)

Três manequins foram colocados atrás da banda. Na foto é possível ver que um manequin é masculino e está vestido de smoking e outro feminino com o que parece ser um vestido. Não tentei buscar razões para isso (e lembrei de quando alguns espelhos foram colocados na frente do palco, virados para o público, alguns anos atrás).

Novo baterista, Matt Chamberlain

Sem anunciar se a mudança é definitiva ou temporária, George Receli foi substituído pelo baterista Matt Chamberlain. Com 52 anos, Matt tocou com Pearl Jam em 1991 e se tornou músico de estúdio desde então, tocando com inúmeros músicos, como Amos Lee, Blake Mills, Brad Mehldau, Bruce Springsteen, David Bowie, Elton John, Fiona Apple, John Mayer, Soundgarden, Laura Marling e gravou dois discos com The Wallflowers, banda do filho de Dylan, Jakob.

Novo guitarrista, Bob Britt

Sem nenhuma razão aparente – talvez apenas para mudar a sonoridade, mesmo – Bob Dylan havia tirado Stu Kimball da guitarra. Desde o ano passado ele fez shows apenas com Charlie Sexton na guitarra e Donnie Herron no violion, lapsteel e pedal steel. Agora, trouxe de volta um segundo guitarrista. Bob Britt já é conhecido de Dylan faz tempo, sendo um dos inúmeros músicos que participou do disco Time Out Of Mind.

Nesta entrevista, Bob Britt conta um pouco de como foi participar da gravação do disco:

Things Have Changed sai

Para o primeiro show com a nova formação, Bob Dylan optou por mexer também no repertório. Tirou algumas canções que estavam há muito tempo, como Things Have Changed, Blowin’ in the Wind e Like a Rolling Stone, e incluiu uma bem rara, Lenny Bruce.

Aqui está o áudio completo:

Setlist:
Beyond Here Lies Nothin’ (Bob on guitar)
It Ain’t Me, Babe
Highway 61
When I Paint My Masterpiece
Cry A While
Simple Twist of Fate
Honest With Me
Tryin’ to Get To Heaven
Make You Feel My Love
Pay in Blood
Lenny Bruce
Early Roman Kings
Girl of the North Country
Not Dark Yet
Thunder on the Mountain
Soon After Midnight
Gotta Serve Somebody

bis

Long and Wasted Years
It Takes A Lot To Laugh, It Takes A Train To Cry

Resenha: Rolling Thunder Revue, a caixa

No mesmo mês do lançamento do filme sobre a turnê Rolling Thunder Revue pela Netflix, a Columbia lança uma caixa com todas as gravações profissionais da turnê de 1975, além do registro de ensaios e extras. No total são 10 horas, 32 minutos e 18 segundos ao longo das 148 faixas e distribuídos em 14 CDs.

Paralelo ao lançamento do filme e desta caixa, também há o relançamento do Bootleg Series Vol.5, inicialmente de 2002, que agora funciona basicamente como uma compilação de 22 canções dessas 148.

(Para ler sobre a turnê, recomendo este artigo que fiz anos atrás)

Unboxing

A caixa é menor do que as Bootleg Series, mas ainda assim muito bonita. Dos 14 discos, 10 foram organizados em envelopes duplos por serem do mesmo show. Assim, temos cinco shows completos, além de três discos com ensaios antes da turnê – dois discos no Studio Instrument Rentals (SIR) e um para os ensaios no Seacrest Motel. O box finaliza em um disco com extras, contendo gravações amadoras de momentos históricos dos shows, áudios de cenas registradas pela equipe de filmagem e até um anúncio de rádio divulgando a turnê.

Também há um livreto de 52 páginas com um texto sobre a turnê escrito pelo romancista Wesley Stace e um breve descritivo dos discos da caixa.

Análise

The 1975 Live Recordings traz o registro de uma fase magistral. A cada show, Bob Dylan tocava por quase 2 horas e dividia o palco com vários outros artistas – cada apresentação do Rolling Thunder Revue chegava a 4 horas de duração.

Com um apelo circense performático e compartilhando as atenções com outros artistas, Bob Dylan parece ter diminuído a pressão para si, tornando-se mais leve no palco. No recente filme de Scorsese, diversos registros mostram um artista que gesticula, anda pelo palco e distribui olhares a todos – atitudes pouco comuns no palco dylanesco, antes e depois da Rolling Thunder.

Os 14 CDs mostram não apenas a evolução dos arranjos entre Bob Dylan e a banda de apoio, intitulada Guam, mas também as mutações nas linhas vocais ao longo da turnê – para mim, parte da relevância em ter este registro tão extenso.

Destaques

Existem várias pérolas espalhadas pelas 148 faixas, que vão ganhando importância ao longo da audição constante. Fiz aqui um destaque dessas primeiras audições:

  • Hurricane (Disco 7, Faixa 3): na apresentação no Harvard Square Theatre, Bob Dylan brinca com a melodia da canção, subindo e descendo, sem perder uma palavra da longa história.
  • Blowin’ In The Wind (Disco 12, Faixa 8): em Quebec, Dylan e Baez entoam o famoso refrão em francês, levando o público ao êxtase instantâneo.
  • Joey (Disco 1, Faixa 7): Bob Dylan entrara em julho de 1975 para gravar Desire, que seria lançado apenas no início do ano seguinte. Em outubro, durante os ensaios da Rolling Thunder, “Joey” aparece em uma única versão vagarosa e interessante, a começar pela sua introdução crescente.
  • She Belongs To Me (Disco 1, Faixa 6): Uma versão divertida, com Dylan improvisando a letra e transformando o romance de outrora em cutucadas a uma mulher exigente demais. Impossível não refletir sobre os dissabores que Bob passava no casamento.
  • This Land Is Your Land (Disco 1, Faixa 16): Registro da primeira versão ensaiada, com Dylan sugerindo que terminassem o show com ela – algo que aconteceu ao longo da turnê, numa versão bem mais rápida. Em outra versão, Bob Dylan diz que um dia esta música seria o hino nacional.
  • Wheel’s On Fire/ Hurricane/ All Along The Watchtower (Disco 2, Faixa 4): uma tentativa muito interessante de medley. Uma pena que ficou apenas no ensaio.
  • Isis (todas): Isis talvez seja um dos melhores exemplos da liberdade dylanesca durante a Rolling Thunder. Seja pelo andamento, pela intensidade ou pela melodia, cada uma das seis versões de Isis ganha sua atenção.
  • Simple Twist of Fate (Disco 7, Faixa 1): em sua única aparição com gravação profissional do box, a canção gravada em Harvard está nua. Bob Dylan canta como se fosse a última vez que a cantaria.
  • It Ain’t Me Babe (Disco 4, Faixa 2): em Worcester, Bob Dylan começa a canção em um timbre único e diferente. Meio agudo, sussurrado, ele transforma a libertação em uma belíssima angústia insegura.
  • Romance In Durango (Disco 10, Faixa 5): no segundo show da noite, em Boston, Bob Dylan força a banda a uma versão mais rápida e intensa. Divertido ver a música mudando ao longo da sua execução e ficando cada vez mais quente.

Conclusão

Com o lançamento desta caixa, o escritório de Bob Dylan parece oficializar mais uma linha de produtos. Além dos lançamentos inéditos, com Dylan tendo aparente controle completo, Jeff Rosen resgata do acervo dylanesco dois produtos: a Bootleg Series, já em seu 14º volume e a Live Recordings, que não é numerada, mas organizada por ano (em 2016 foi lançada o 1966 Live Recordings).

The 1975 Live Recordings é uma necessidade, ao menos de audição, para qualquer fã dylanesco. Se 1966 a raiva era o motor, em 1975 temos a liberdade como faísca. Vale cada segundo.