Bob Dylan, 76 anos (ou “O escultor sonoro”)

Trinta e oito discos de estúdio, três mil e quinhentos shows e mais de quinhentas músicas depois, Bob Dylan completa setenta e seis anos de idade. Números que refletem o quanto ele passou sua vida imerso em um único tema: a Música.

Entender Bob Dylan é se aprofundar nos meandros das possibilidades da canção. Como um escultor, Dylan quer explorar todos os ângulos do seu objeto de contemplação. Se num mesmo romance coexistem raiva, tristeza, alegria e paixão, porque não seria possível na escultura sonora dylanesca?

No momento da exposição, ao invés de levar para a estrada um museu itinerante em que o que prevalece é o julgamento do infinito, Bob & cia preferem levar o próprio ateliê. Trabalha na frente do público. Permite que todos o observe produzir em tempo real. É como se ele nos deixasse apreciar o que ele faz, mas o benefício se limita até aí. Não podemos opinar e mal podemos interagir – só nos resta testemunhar seu momento de criação.

Por quê? O mais importante é a conexão que é feita. Mas qual é a conexão se Dylan pouco fala (durante os shows, durante premiações, com raras entrevistas)? A conexão se faz através da canção. Em seus shows recentes, a parca luz parece nortear uma possível máxima dylanesca: não sou eu, é a Música. E de fato sempre foi.

Porém, é preciso falar dos fatos recentes. Seus últimos discos são de canções imortalizadas por Sinatra e outros e não exploram o poder poético que lhe rendeu o Nobel de Literatura em 2016. O repertório dos shows se mantem praticamente estático, com raras mudanças e sutis alterações nos arranjos e fraseados. Dentro deste contexto, é preciso opinar:

Prefiro o Bob de outras épocas. E nem precisa ser tão distante. Do início da década 2010, dos shows de São Paulo em 2012. Sinto falta do imprevisível, do aqui-e-agora, dos resgate de canções próprias, de lançamentos de novos álbuns de inéditas, de um Dylan incomodado com a mesmice.

Mas também é preciso respeitar: se sua regra foi sempre mudar, manter-se o mesmo é uma mudança de hábito, não? Ao invés de criar esculturas distintas e diárias, Bob se propôs um novo desafio: recriar a mesma escultura incessantemente. Talvez seja um bloqueio criativo ou uma crise com sua própria criação, mas talvez seja uma imersão no desconhecido, mesmo que isso signifique uma fase de interpretação de canções de terceiros e a monotonia da repetição.

Seja como for, estaremos contigo, Bob. E entendemos sua (agri)doce indireta, mesmo que não seja de sua autoria:

“I’m sentimental, so I walk in the rain
I’ve got some habits even I can’t explain
Could start for the corner, turn up in Spain
But why try to change me now?

I sit and daydream, I’ve got daydreams galore
Cigarette ashes, there they go on the floor
I’ll go away weekends, leave my keys in the door
But why try to change me now?

Why can’t I be more conventional?
People talk, people stare, so I try
But that’s not for me, cause I can’t see
My kind of crazy world go passing me by

So, let people wonder, let ‘em laugh, let ‘em frown
You know I’ll love you till the moon’s upside down
Don’t you remember I was always your clown?
Why try to change me now?
Don’t you remember I was always your clown?
But why try to change me
Why try to change me now?”

Resenha: Triplicate (ou “The Old, Weird America Pt. 2”)

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Eis que Bob Dylan apresenta seu terceiro disco seguido com standards de jazz. E ainda conseguiu inovar: lançou seu primeiro disco triplo. Triplicate consite em 30 canções divididas em três temas principais: ´Til The Sun Goes Down, Devil Dolls e Comin’ Home Late.

Ouvir Triplicate é uma viagem interessante. São 96 minutos de uma música que, mesmo após dois discos, ainda surpreende por vir de quem vem. É inegável o esforço e esmero que Bob teve para fazer essas gravações, com interpretações e arranjos meticulosos e precisos. Os causos clássicos de Dylan no estúdio sempre ilustram um artista que gosta do aqui-e-agora da interpretação, evitando arranjos pré-definidos e valorizando o instinto e impulso artístico seu e dos músicos. Nos últimos lançamentos, contudo, Dylan se forçou a respeitar o arranjo e seguir conforme o combinado – ele mesmo disse que deixou os improvisos de lado. O resultado? Um novo artista. De novo.

Leia também: “4 razões para descartar e 5 razões para ouvir Triplicate”

Testemunhar o nascimento de uma nova fase, o Bob Dylan crooner que está na ativa desde Shadows In The Night (mas com algumas aparições em 1970 e 1995) é uma antítese do seu passado sessentista, quando era o ícone da função singer-songwriter (ou cantautor), criticando as canções produzidas por compositores relativamente anônimos para cantores famosos. Agora, como se quisesse fazer as pazes com atritos do passado e redescobrir a si próprio, Dylan mergulha na função de ser um mero intérprete – com possíveis requintes de crueldade: bem lembrou Carl Wilson do discurso que Bob deu no MusiCares de 2015, mesmo ano do lançamento de “Shadows…”:

“Os críticos pegam pesado comigo desde primeiro dia. Os críticos dizem que eu não sei cantar. Que eu coaxo. Que pareço um sapo. Por que os críticos não dizem o mesmo sobre Tom Waits? Os críticos dizem que minha voz é um soco. Que eu não tenho voz. Por que eles não dizem essas coisas sobre Leonard Cohen? Por que eu recebo tratamento especial? Os críticos dizem que eu não consigo segurar uma canção e que eu falo durante a canção. Mesmo? Eu nunca ouvi isso sobre Lou Reed. Por que ele é isento? Que eu enrolo minhas palavras, não tenho dicção. Vocês já ouviram Charley Patton ou Robert Johnson, Muddy Waters? ‘Por que eu, Senhor?’, eu diria a mim mesmo.”

Talvez aí esteja uma das funções das 52 músicas gravadas por Dylan nos últimos três anos: mostrar que ele não é “““apenas””” um poeta laureado qualquer, mas um cantor único.

E ao fazer isso, Bob Dylan revisita a história da America através dos standards da primeira metade do século XX. É como em Basement Tapes, em que a arte de Dylan começa na curadoria dos documentos históricos, mas dá sua maior contribuição na maneira como interpreta as canções, se apropriando, impondo e incorporando uma entidade maior que si mesmo e em homenagem a quem sempre amou: sua eterna Musa, a música.

No caso de Basement Tapes, o resultado descrito por Greil Marcus é um mundo próprio, um universo paralelo em que o passado e presente se transformam em um amálgama atemporal, ora caótico, mas extremamente simbólico e artístico. Já em Triplicate o esmero está em redescobrir a essência da palavra, através de fraseados e nuances na interpretação que ressignificam a própria canção (ato não tão incomum para Dylan).

Talvez para reforçar o valor da obra, Triplicate vem com uma resenha escrita pelo renomado autor Tom Piazza (que tem uma extensa bibliografia voltada ao jazz). Nela, Tom esmiuça a importância do álbum até mesmo para os standards, elogiando a maneira como Bob traz uma nova energia para as desgastadas canções.

Porém, é preciso jogar limpo: sentimos falta do Dylan compositor; do Dylan e seu repertório variado; Dylan e seus improvisos. Para manter a esperança, é bom pensar que este álbum triplo tem como finalidade a conclusão de um intercâmbio dylanesco. Agora é torcer para que uma nova safra de canções ganhem vida – se é que já não existem. Enquanto isso, há uma viagem de trinta faixas e 96 minutos que vale a pena curtir cada momento.