No show de ontem, em Nagoya, Bob Dylan resolveu incluir a canção “Workingman’s Blues #2” ao repertório fazendo uma releitura fantástica.

A música se aproxima de “Nettie Moore”, também de Modern Times (2006), apesar de manter a mesma cadência harmônica do original. Depois do refrão, uma parada com uma mudança na tonalidade (na primeira vez ficou bem dissonante, mas nas outras soou bem – o que pode indicar o frescor do arranjo).

Além disso, o incansável Dylan fez mais mudanças na letra. “Workingman’s Blues #2” já tinha passado por algumas alterações líricas nos últimos anos, mas dessa vez ele resolveu alterar quase integralmente a última estrofe.

Ouça a música e, abaixo, a transcrição da última parte (feita pelo user TheSkinnyMoo, no Youtube):
Imagem de Amostra do You Tube

“I’ll be back home
Ιn a month or two
When the frost is on the vine
I’m gonna punch my spear right straight through
Half ways down your spine
Then I’ll lift my arms
To the star lit skies
And I’ll pray the fugitive prayer
I’m guessing tomorrow the sun will rise
I hope the final end’s been spared
Now the battle is over up in the hills
And the mist is settlin’ in
Look at me with all my scars
What did I ever win?”

 

Bob Dylan no Japão (2014)Nos primeiros shows de 2014, Bob Dylan resolveu acrescentar pouca coisa ao que vinha apresentando no ano passado. Contudo, escolheu bem: trouxe ao palco de Tóquio a primeira versão ao vivo de “Huck’s Tune”.

Gravada em 2006 (no mesmo estúdio usado pars registrar Time Out Of Mind), a música fez parte da trilha sonora do filme Lucky You e só entrou na discografia oficial de Dylan em 2008 – quando foi incluída no Bootleg Series Vol. 8: Tell Tale Signs.

Ouça a versão de estúdio:

Com uma ligeira influência na melodia da tradicional canção escocesa “Tramps and Hawkers”, “Huck’s Tune” seduz pela doçura como Dylan canta a possível história de desistência. A versão ao vivo me lembrou da releitura que Bob fez da música “Shadows”, de Gordon Lightfoot, em outubro de 2010.

Ouça a versão ao vivo (Tóquio, 04/04/14):

 

Em 1984, após voltar da turnê que se viraria o disco Real Live, Bob Dylan resolveu fazer um novo álbum de estúdio (Empire Burlesque), mas dessa vez de um jeito diferente. Depois de divergências com Mark Knopfler durante as gravações de Infidels, Bob decidiu assinar a produção e a testar diversas bandas em várias sessões de gravações em estúdios diferentes. Ron Wood participou de algumas sessões e testemunhou um Dylan menos assertivo e confiante no resultado.

Paralelo a tudo isso, Carole Childs – uma das namoradas de Dylan na época e que trabalhava como A&R (artista e repertório) da gravadora Geffen – sugeriu que Bob desse uma canção ao grupo que ela acabara de assinar e que gravavam seu disco de estreia.

Lone Justice

O Lone Justice era tido como os queridinhos do momento, com a bela cantora Maria McKee à frente e um estilo nomeado como “cowpunk”. Ainda assim, Maria e cia. ficaram surpresos ao ter como visita Bob Dylan, acompanhado por Ron Wood, para entregar-lhes pessoalmente a demo da música “Go ‘Way Little Boy”.

Ouça a demo feita por Dylan:

Bob resolveu acompanhar as gravações – talvez como um estágio para entender melhor a função de produtor que ele assumiu em seu próprio projeto. Anos depois Maria relembrou o momento e a orientação dylanesca:

“Ele veio até o estúdio quando estávamos gravando nosso primeiro álbum e nos ensinou a música. E ele ficou por aí. Ele trouxe Ron Wood com ele e eles tocaram na música… Nós acabamos trabalhando durante bastante tempo porque ele não gostava do jeito que eu estava cantando… até que eu cantei como se fosse ele! Chegou ao ponto que eu apenas fiz minha melhor imitação de Bob Dylan – e ele disse, ‘Ah, agora você está cantando de verdade!’

Circularam duas versões da música. Uma possui um solo de órgão no começo enquanto a outra (abaixo) possui um solo de gaita que alguns dizem ser do próprio Dylan – e outros de Maria.

Ouça a versão com a gaita no início:
Imagem de Amostra do You Tube

O grupo lançou apenas mais dois discos – sendo mais um de estúdio e outro ao vivo.

 

Lost In The RiverEm novembro de 2013, tivemos as primeiras informações sobre o projeto liderado pelo produtor T-Bone Burnett para completar e gravar letras inéditas de Bob Dylan recentemente descobertas. Agora temos mais informações.

O projeto mudou seu nome para Lost In The River: The New Basement Tapes e foram divulgados os músicos participantes, além de Burnett: Elvis Costello, Rhiannon Giddens (Carolina Chocolate Drops) Taylor Goldsmith (Dawes), Jim James (My Morning Jacket) e Marcus Mumford (Mumford & Sons). Todos cantarão e completarão as letras não finalizadas de Dylan.

Bob não se envolveu no projeto, mas deu aval para Burnett usar suas letras. Além do disco, haverá um documentário com cenas do processo de produção do álbum.

Como bem lembrou o L.A. Times, é impossível não fazer um paralelo com The Lost Notebooks – projeto liderado por Dylan com o mesmo perfil: completar e gravar letras inéditas de Hank Williams. A diferença, contudo, é que no caso de Lost In The River, todas as músicas serão gravadas por um grupo fixo.

Não há uma data definida para o lançamento, mas sabe-se que ocorrerá apenas no final do ano.

Conexões dylanescas

T-Bone Burnett e cia.

A escolha dos participantes não parece ter sido a toa. Todos, sem exceção, já dividiram o palco com Bob Dylan. Carolina Chocolate Drops abriu um único show em 2012; O Dawes fez uma mini-turnê no início de 2013; My Morning Jacket participou do festival itinerante AmericanaramA; Elvis Costello já dividiu o microfone no palco; e Mumford & Sons tocou com Bob no Grammy de 2011.

T-Bone Burnett já é outra histórica. Como já disse, é íntimo da família Dylan há um bom tempo.

The Basement Tapes

The Basement Tapes

Apesar de ter sido lançado em 1975, as gravações de Basement Tapes datam de 8 anos antes. Neste período, Bob Dylan estava se recuperando do famoso acidente de moto em sua casa em Woodstock. Na mesma vizinha, o grupo que o acompanhava (e que se tornaria The Band) se instalou numa grande casa rosa (The Big Pink). Dylan passou a visitá-los durante alguns meses e a fazer gravações de covers, canções inéditas e algumas brincadeiras improvisadas.

Algumas fitas foram distribuídas para a gravação de artistas da época e logo entraram no mercado negro de bootlegs. Anos depois, no lançamento oficial de parte deste registro (que pode ser considerado o volume 0 do Bootleg Series), Dylan admitiu surpresa ao ficar sabendo que Basement Tapes estava vendendo bem. “Eu pensei que todo mundo ja o tivesse”, ele teria dito.

 

Eu nunca fui fã da sonoridade dos anos 80. Na minha humilde opinião, os sintetizadores, ecos e baterias eletrônicas só distanciaram a essência da música dos ouvidos. E, infelizmente, esses timbres invadiram a discografia dylanesca dessa década.

Bob Dylan in the 80s Vol. 1

Para compensar os maus tratos à arte de Bob, a gravadora ATO resolveu fazer um tributo focando nas músicas de Dylan lançadas nesse período. “Bob Dylan in the 80s Vol.1” possui, em sua maioria, uma abordagem mais amigável aos dias de hoje. O primeiro volume conta com participações de músicos como Glen Hansard, Slash, Reggie Watts e Langhorne Slim.

O lançamento oficial (em MP3, vinil e CD) será só no dia 25 de março (é possível fazer a pré-venda aqui), mas o Wall Street Journal publicou essa semana o disco para audição na íntegra.

Escute “Bob Dylan in the 80s Vol.1”:

 
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