Os 10 anos do Dylanesco.com

O primeiro post do Dylanesco foi em 10 de novembro de 2010, ainda hospedado nos servidores do WordPress. No segundo semestre de 2011, um designer e fã do Bob Dylan (e desde então um grande amigo), Maurivan Luiz, me abordou para tornar o Dylanesco um site com hospedagem própria. Era um passo de amadurecimento, consolidando o meu comprometimento em escrever um site em português sobre Bob Dylan e seu universo.

De lá para cá, foram mais de 370 posts – desde análises extensas e detalhadas, passando por curiosidades e pequenas abordagens até por devaneios e retrospectivas, como essa.

Agradeço a todas pessoas, citadas aqui ou não, pelas trocas de ideias, comentários, links, arquivos e visões. Este site começou como um acervo de reflexões, mas se tornou uma ponte para muitas outras conexões.

Biblioteca Dylanesca

Talvez o verdadeiro big bang do Dylanesco tenha sido dois anos antes de seu nascimento. Trabalhando como vendedor Livraria Cultura entre 2008 e 2010, o trabalho me deu dois presentes especiais: amigos que mantenho até hoje e descontos para funcionarios, que naquela época eram substanciais, principalmente para livros importados.

A primeira versão da biblioteca dylanesca

E foi um desses amigos, Fábio Bonillo, que ao me ver refletir sobre comprar ou não um livro sobre Bob Dylan – Dylan’s Vision Of Sin, de Christopher Ricks – me fez uma pergunta sugestiva: “Por que você não monta uma biblioteca sobre ele?”. E assim fui aproveitando meus dias como vendedor e depois caçando no Ebay, Estante Virtual, sebos físicos ou livrarias diversas, para compor uma bilioteca com mais de cem livros e uma porção de revistas.

A partir da leitura desses livros e da audição de todo material, oficial ou não, que eu conseguia encontrar, queria registrar de alguma maneira as conexões e reflexões que eles me davam.

De acervo à amizades

O Dylanesco sempre foi pensado como um repositório de reflexões minhas sobre os mais diversos assuntos que habitam o universo de Bob Dylan. No fundo, sempre escrevi os posts como forma de organizar as informações na minha cabeça. Felizmente, tive acesso a diversas pessoas que me ajudaram a expandir minhas reflexões e criar amizades fundadas em uma paixão em comum.

Sérgio Pinho Alves e Cristiano Radke foram importantes nas trocas de informações e novidades que quase sempre vinham sem aviso prévio.

Através do site, conheci virtualmente, e depois pessoalmente, Lydia Himmen e Oscar Fortunato, duas pessoas incríveis e que não só tive ótimos papos como ainda me apresentaram o fã-mor brasileiro: Eduardo “Peninha” Bueno.

Em momento de um upgrade natural do site, conheci o Eduardo Cuducos que me ajudou muito em deixá-lo melhor e tirá-lo de um lamaçal virulento.

MTV Brasil

Tive o “privilégio” de ser convidado duas vezes pela MTV Brasil para compor uma lista de blogs parceiros com eles. O primeiro convite ocorreu ainda quando era a antiga MTV. Fui até o prédio e lá me foi vendido uma parceria interessante e promissora. Um contrato seria enviado para concretizar o compromisso.

Quando recebi o documento, conversei com um amigo advogado, Daniel Jacintho, que traduziu o juridiquês extenso e me mostrou a realidade malandra do mercado: ao assinar eu cedia todos os direitos autorais de todo o conteúdo do site para ser usado para qualquer fim pela Abril, sem necessidade de remuneração ou aprovação. Uma parceria pouco equilibrada, eu diria, que obviamente declinei.

Meses depois, já como “nova MTV”, recebi outro contato dessa vez para uma parceria sem amarras ou grandes obrigações. Eu deixaria uma “barra de atalho” da MTV no meu site e o meu link apareceria no site deles. Nada de mais, mas mais justo do que anteriormente.

Universo Dylanesco

Registrar meu acompanhamento da carreira de Dylan nesses últimos 10 anos me fez ainda mais admirador do seu trabalho, sua missão musical e sua vasta liberdade artística. Gostaria de escrever muito mais do que escrevo – além de inúmeras outras ideias que ainda estão como rascunho -, mas admito orgulho de criar um acervo de textos e reflexões, algumas delas datadas ou até pouco amadurecidas, mas todas sinceras.

Que venham tantas outras décadas!

9 coisas que aprendemos sobre Bob Dylan com as fitas de Tony Glover

A edição mais recente da revista Rolling Stone americana traz alguns detalhes sobre um lote de itens que pertenceu a Tony Glover e que serão leiloados em breve pela sua família, após a morte do músico e jornalista, através da RR Auction. Dentre os itens, destacam-se cartas e fitas enviadas por Bob Dylan, que o conheceu no início dos anos 1960 em Minneapolis e manteve contato por décadas.

Já havia a informação que em 1971 Tony Glover entrevistou Bob Dylan para um projeto que não foi para a frente, mas não tínhamos muito mais detalhes a respeito até o momento. Pela primeira vez, a Rolling Stone traz alguns trechos das sessões de conversa ocorridas entre 1969 e 1971.

Abaixo, alguns destaques da reportagem:

1- Shalala

Em uma carta de 1964, Bob Dylan comenta sobre a música “Shala la la”, de Manfred Mann, é dizendo ser “linda pra caralho” – talvez já marinando a ideia de juntar o folk com o rock.

2- Zimmerman x Dylan

Sobre a decisão de mudar seu sobrenome de Zimmerman para Dylan, ele afirma que isso lhe deu mais liberdade.

“Isso me permitiu entrar no personagem baseado em Woody Guthrie com mais convicção. E eu não precisaria ser lembrado de coisas que eu não queria que me lembrassem naquela época. Eu tinha que ser livre o suficiente para aprender a música, para ser livre o suficiente para aprender técnica”.

3- Lennon x Harrison

Apesar de décadas depois fazer uma canção em homenagem ao artista, Bob diz ter vergonha das aparições de Lennon e Yoko na época, quando ambos foram ao Dick Cavett show fingindo ter a receita de LSD para a paz mundial. Ele também dá de ombros quando lembra da frase “I don’t believe in Zimmerman”, da música “God”.

Por outro lado, ele demonstra muito respeito por George Harrison e sua atuação em Bangladesh, com um festival em que Dylan chegou a participar com belas versões, em uma rara aparição na época. Para Bob, só George conseguiria fazer todos prestarem atenção em Ravi Shankar. Lennon não conseguiria.

4- Bastidores de “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”

Dylan admite que a canção foi uma quebra por conta da sua forma, pela sua cadência. Para ele, a “da-da-da, da-da-da, da-da-da” era hipnotizante, mas servia muito bem apenas no papel. Seria, e foi, um trabalho gigantesco lembrar de todos os versos e sua história. Dylan admite que o prazer estava no processo de criação do que se tornaria uma canção – e uma canção tocada inúmeras vezes ao longo dos anos.

5- John Wesley Harding x Nashville Skyline

Assim como “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”, as músicas do disco John Wesley Harding também nasceram como poemas, tendo suas melodias vindas posteriormente. O contrário aconteceu com as canções de Nashville Skyline, com as melodias vindas primeiro.

“Se você isolasse as palavras por um minuto e só pensasse no som da voz, o som da música e do vocal (…), o som seria basicamente o que as palavras são. Um monte de coisas sonhadoras, agradáveis, prazerosas, um tipo de música relaxante, eu imagino”.

6- “Like a Rolling Stone”, a vingança generalizada

Glover tentou tirar de Dylan o principal alvo da música, mas Dylan respondeu rindo com um cenário mais amplo:

“Sabe, é quando você fica bravo ao entrar numa loja e pede uma chave de fenda e você fica esperando por uma hora. E depois você vai buscar algo para comer e olha em seu pudim e vê uma poça de merda. Daí você vai ao cinema e pisa em um pouco de baba e depois se senta em um pouco de baba. Você sai disso e vai dar uma volta no carro, e ele quebra. Com quem você está bravo? Não é nenhum tipo específico de pessoa”.

7- Blonde On Blonde é audição recorrente

Apesar de admitir que não tem uma boa relação com sua discografia, ele admite que Blonde on Blonde é um ótimo disco e que ele ouve com certa frequência. “E eu sei que não é possível superá-lo”.

8- As vaias de Newport Folk Festival

Com uma amizade em mãos, Tony Glover pode entrar em detalhes mais pessoais. Sobre o fatídico episódio das vaias no show de 1965 no Newport Folk Festival, Tony pergunta se Bob estava chorando.

“Eu não estava chorando. Pete Seeger estava. Então eu voltei ao palco e toquei sozinho ‘Mr. Tambourine Man’ e ‘Baby Blue’ porque era o que as pessoas queriam ouvir. Eles eram como uns bebezinhos. Eles queriam ouvir isso e era só o que eles queriam ouvir. Então eu fui e cantei para eles. Na época eu apenas sabia que eles eram um bando de cuzões e pensei: “Ah, foda-se. Se é só isso que vocês querem eu canto para vocês dormirem”.

9- A aceitação da relevância dylanesca

“Nós ouvimos rádio hoje em dia – e há tanta música que foi influenciada por mim. A maior parte dela, você sabe, até mesmo os Beatles. Mas para um cara realmente dizer: ‘Bem, eu mudei a música popular’ [risos], cara, que afirmação infernal é essa? Na verdade posso dizer isso, cara, e isso me deixa louco. … Todas essas pessoas estão fazendo, em uma só fase, o que Bob Dylan fazia naquela época, sabe?”

Então Glover pergunta para seu velho amigo se ele sentiu orgulho por mudar a música popular, e dylanescamente:

“Sim, de verdade, eu realmente tenho um certo orgulho… por um lado. Por outro não, não significa absolutamente nada – claro que não.”

Resenha: Rough and Rowdy Ways (ou as multidões dylanescas)

Lançado nesta sexta-feira, 19 de junho, “Rough and Rowdy Ways” é a certeza de que Bob Dylan ainda tem muito a fazer – e nos surpreender. As 10 faixas do disco formam um quadro belo, vasto, vivo e preciso da arte dylanesca de alcançar a essência da canção.

Nos oito anos que separaram Rough and Rowdy Ways e Tempest, Bob Dylan esteve longe do descanso. Além de sua turnê interminável, lançou três discos, sendo um deles triplo, com canções clássicas do songbook americano. No palco e no estúdio, passou a flertar com um canto mais calmo, menos sujo – as notas se alongavam num sussurro acolhedor enquanto os músicos formavam uma névoa harmônica que as sustentavam.

Em Rough And Rowdy Ways, as lições aprendidas somaram-se aos blues já tão presente para criar uma rica paisagem lírica. Já nas primeiras audições, duas palavras me vieram a mente: gratidão e diversão. Seja nas canções carinhosas e acolhedoras, seja nos grooves joviais cheios de improviso, Bob Dylan une a energia do aqui-e-agora com o intimismo da sabedoria.

Aborda temas diversos: o mundo greco-romano, sua musa-mor Arte e a tradição do folk e blues. Todos entremeadas ao longo do disco, em imagens, referências, odes, listas e costuradas com o toque dylanesco de referências aparentemente distintas. Escritores, bandas e personagens diversos dividem versos para criar um cenário quase absurdo, quase impossível, mas que se torna real através do amálgama narrativo típico de Dylan.

É impossível não se emocionar com as baladas introspectivas. “I Contain Multitudes”, “I’ve Made Up My Mind do Give Myself to You”, “Mother of Muses”, “Key West (Philosopher Pirate)” prendem sua atenção. Cada uma a sua maneira, criam um laço intenso, uma conexão espiritual. Não poucas vezes me peguei num estado aéreo, completamente imerso na névoa dylanesca.

Já “False Prophet”, “Goodbye Jimmy Reed” e “Crossing the Rubicon” te fazem sorrir de canto. É a hora de curtir em alto e bom som, se possível de pé, e só imaginar como serão suas inúmeras versões ao vivo. 

“My Own Version of You” e “Black Rider” complementam o disco, com narrativas vívidas. Também é o caso de “Murder Most Foul”, um épico que pode parecer cansativo e monótono, mas uma vez imerso no enredo, se torna respeitável e definitivo.

Para a gravação, Bob Dylan recrutou sua atual banda – Charlie Sexton (guitarra), Tony Garnier (baixo), Bob Britt (guitarra), Donnie Herron (guitarra steel, violino, acordeon), Matt Chamberlain (bateria) – além da participação de outros músicos, sem explicitar em quais faixas.

  • Fiona Apple (cantora e pianista, supostamente gravou o piano em “Murder Most Foul”)
  • Blake Mills (cantor e guitarrista)
  • Benmont Tench (pianista e membro fundador do Heartbrakers)
  • Alan Pasqua (pianista)
  • Tommy Rhodes (ainda sem registro de quem seja…)

Rough And Rowdy Ways com certeza figura entre os melhores discos do Bob Dylan. É belíssimo em sua plenitude. 

Trilhando Rough And Rowdy Ways

As primeiras impressões das músicas. (Podendo mudar a cada audição)

I Contain Multitudes: o poema de Walt Whitman é recontextualizado ao lado de uma pilha de referências, como Rolling Stones, Anne Frank, Indiana Jones e Edgar Allan Poe. O belíssimo arranjo evidencia os versos e soa como um reflexo reflexivo da recente viagem jazzística.

False Prophet: um blues arrastado e lamacento, criado por  Billy ”The Kid” Emerson nos anos 50 ganha uma nova letra. False Prophet é malandra, divertida e envolvente.

My Own Version of You:  Dylan encarna Mary Shelley e faz sua versão musical de Frankestein. Num arranjo caminhante, um andróide que mistura Al Pacino, Marlon Brando, Leon Russell e tantos outros, além de um conhecimento gigantesco.

I’ve Made up My Mind to Give Myself to You: Essa é de moer qualquer coração, com a certeza de verter lágrimas. Para mim, é uma ode ao artista que se entrega por completo à Arte, ao público, à estrada e a sua Musa. 

Black Rider: direcionada a um personagem homônimo de uma peça teatral de Burroughs, com trilha de Tom Waits. Soturna, misteriosa e com uma bela performance vocal de Bob Dylan.

Goodbye, Jimmy Reed: um blues que poderia ter vindo dos Rolling Stones, mas que ganha novos ares líricos quando adentra o universo dylanesco. O improviso dos instrumentos cria um ambiente boêmio, esfumaçado. Vai dar boas versões ao vivo.

Mother of Muses: Outra ode comovente à Arte, com referência a Mnemósine, mãe das nove musas, dentre elas Calíope, musa da poesia épica. E outra bela performance focal de Dylan, ecoando os aprendizados de “Stay With Me”, por exemplo.

Crossing the Rubicon: Soa como uma continuação de “Early Roman King”, do disco Together Through Life. É interessante notar essa junção entre a história antiga e a estrutura tradicional do blues. A frase básica de guitarra vai dar muito molho ao vivo.

Key West (Philosopher Pirate): Me lembrou “Not Dark Yet”, mas otimista. É como se fosse uma resposta do Dylan dos 79 anos ao Dylan de 56. Impossível não pensar na biografia de Bob ao ouvir, principalmente ao ouvir juntar Ginsberg, Corso, Kerouac, Jimmy Reed e Buddy Holly.

Murder Most Foul: um épico que talvez até por isso Dylan preferiu deixá-la só em um disco separado (tanto no CD quanto no vinil). Como disse, parece monótona, mas sua narrativa envolvente te capta a atenção.