Dueto inesperado

Bob Dylan já estava no seu 10º show em treze dias quando chegou em Eindhoven, na Holanda. Era seu terceiro show no país e todos eles começaram de forma diferente das outras sete apresentações – ocorridas na Irlanda e Inglaterra: as músicas de aberturas nos shows holandeses eram covers, ao contrário das apresentações no Reino Unido, que contaram como músicas de abertura Maggie’s Farm e Rainy Day Women # 12 & 35.

O show de Eindhoven, ocorrido no dia 17 de fevereiro 1993, teve duas outras peculiaridades. A primeira, era que a canção de abertura não era I’m movin’ on, de Hank Snow, como fora nas duas primeiras apresentações no país. A música escolhida por Dylan para abrir o show foi Folsom Prison Blues, de Johnny Cash. A outra grande diferença foi um dueto inesperado.

Em The times they are a-changin’, 14º música do show, pouco antes de Bob Dylan começar a cantar, uma garota invade o palco e se aproxima do microfone de Dylan para cantar a canção que fora composta 30 anos antes (acredita-se que Dylan a escreveu em setembro de 63). Ao perceber a invasão, Dylan se espanta e dá um passo para trás, mas ao ver que a intrusa era inofensiva (e até adorável), Bob inicia um improvisado dueto.

Um segurança tenta “convidar” a loira para se retirar, mas Bob a segura pelos braços e diz estar tudo bem. Liz Souissi é suiça e acompanhou um Bob Dylan bem-humorado ao longo de toda a canção. Retomando idiossincrasias chaplinescas, Dylan sugere sarcasticamente que Liz toque também violão. O público enlouquece quando o cantor autoriza a permanência da “convidada especial” e canta em uníssono a frase que dá título a canção. Em alguns momentos, Bob Dyan bate palmas para apelidada Swiss Liz (Liz suiça em inglês).

Assista ao dueto:

Liz Souissi chegou a lançar um álbum independente em 2000, com canções de sua autoria. Entre elas, uma música chamada The man I love (download).

A Hard Rain’s A-Gonna Fall (ou a descrição do medo e a discrição do terror)

Updade (2024): comecei um podcast para abordar diversos temas e os dois primeiros episódios são sobre essa canção. Conheça o Podcast Dylanesco, disponível no Spotify, Amazon Music, Apple Podcast e Youtube.

Em outubro de 1962, os EUA viviam seu momento mais tenso na Guerra Fria. Após instalarem mísseis nucleares na Turquia apontados para a URSS, os americanos viram seu arquiinimigo fazer o mesmo ao colocar mísseis na costa de Cuba, todos apontados para o território rival.

Apelidada de Crise dos mísseis, a tensão ia além de um iminente embate: era a consolidação de uma guerra nuclear. Uma guerra que poderia ficar sem vencedores, já que devastaria boa parte do nosso planeta – ou simplesmente sua totalidade.

O episódio influenciou Bob Dylan em ao menos duas canções. Let me die in my footspeps – inicialmente intitulada I will not go down under the ground – era uma música quase descritiva da situação: houve um crescimento na venda de tijolos e cimentos nos EUA, já que inúmeros cidadãos montaram abrigos subterrâneos para um possível ataque russo. Um Dylan patriota, percebendo a possível destruição total de seu país, se recusa a descer e prefere morrer na sua terra, com o orgulho de ser parte dela.

Contudo, assim como fez em algumas canções de protesto (vide Only a pawn in their game), Dylan também focou não apenas no fato, mas refletiu sobre as origens e os possíveis resultados desse embate.

A Hard rain’s a-gonna fall foi lançada no álbum “The Freewhelin’ Bob Dylan” (1963) e gravada em apenas um take no dia 6 de dezembro de 1962, no estúdio A da Columbia em New York. A melodia e a estrutura básica – como um diálogo – foram emprestadas da canção tradicional “Lord Randall”. Nela, um jovem e a mãe conversam e, aos poucos, revela-se que o filho está morrendo por envenenamento.

Ao vivo no Carnegie Hall Hootenanny – 22 de September 22 de 1962

Bob converte a música para uma problemática contemporânea. Sobre sua versão, ele afirma que “cada frase é na verdade uma música inteira. Mas quando a escrevi acreditava que não viveria tempo bastante para escrever muitas mais, então coloquei tudo o que pude nela.”

Durante a turnê The Rolling Thunder Venue, em 1975 (3ª estrofe)

Todas as estrofes iniciam com um questionamento para o “filho de olhos azuis”: Onde ele esteve, o que ele viu, o que ele ouviu, quem ele conheceu e, finalmente, o que ele fará com a chuva que está prestes a cair.

Gravação de estúdio de 2008

Para o jornalista Anthony Scaduto, Dylan explica que não se trata de uma alusão a uma chuva nuclear, mas “apenas” de algum tipo de fim que está prestes a acontecer. Bob afirma que a frase que explica a chuva está na última estrofe, “Where the pellets of poison are flooding their waters” [Onde as gotas de veneno inundam suas águas]. Como veneno, ele diz considerar todas as mentiras que são empurradas para dentro dos cérebro dos americanos, principalmente em rádios e jornais.

EDIT: Infelizmente o vídeo foi excluído, mas recomendo procurar essa versão
Ao vivo em Amherst, no dia 19/11/2010 (5ª estrofe) – Atualmente é a versão que mais me chama a atenção, principalmente a interpretação de Dylan nessa estrofe. É interessante perceber como o fraseado na guitarra de Charlie Sexton vai regendo e influenciando Bob na forma de cantar, que cresce gradativamente até seu ápice.

Nas suas respostas às questões, Bob utiliza imagens inéditas no linguajar usado pela música popular da década de 60. Acima de tudo, é uma canção que expressa terror e medo, sem um foco pré-definido. Não há menção à guerra nuclear, chuva radioativa, segregação racial ou a qualquer tema específico. A música incita o ouvinte a refletir sobre seus próprios medos, discutir a iminência de que algo ruim possa acontecer através de seus próprios sentimentos.

Abaixo, uma versão completa de “A hard rain’s a-gonna fall”, gravada em 10 de março de 1964.