Um Dylan incompreendido ou incompreensivo?

De origem judáica, Shabtai Zisel ben Avraham só se apresentou em Israel pela primeira vez em 1987. Não sabe quem é? Este é o nome hebráico de Robert Allen Zimmerman. Ou, para facilitar, Bob Dylan.

Depois de passar por uma fase cristã, que durou do fim de 1978 até o começo de 1983, Bob tocou nos dias 5 e 7 de Setembro de 1987 nas cidades de Tel Aviv e Jerusalem, respectivamente. Para acompanhá-lo, Tom Petty e seu grupo The Heartbreakers.

Bob Spitz, em sua biografia sobre Dylan, relata no prólogo a expectativa da população pelo primeiro show de Dylan em Israel. Como bem descreveu Spitz, enquanto que para o público havia uma ansiedade muito grande, para Dylan os dois shows pareciam ser como outros quaisquer.

Robert Hilburn, um conceituado crítico musical, acompanhou Dylan em sua passagem pelo país. Ele relata que no show de Tel Aviv, Bob Dylan abriu com Maggie’s Farm, mas incluiu também canções menos famosas e emblemáticas, como Joey, Señor e Dead Man, Dead Man. Hilburn viu a empolgação do público diminuir e as pessoas balançarem a cabeça como se não estivessem entendendo.

No dia seguinte, Hilburn foi questionado por Dylan sobre a recepção do show. Ele respondeu que era a primeira vez que Bob estava em Israel e, portanto, havia uma grande expectativa da platéia de ouvir os grandes clássicos dylanescos.

Dylan então perguntou a Hilburn quais músicas ele achava interessente tocar. Hilburn fez uma lista e entregou a Bob. No show seguinte, em Jerusalém, Bob incluiu as canções sugeridas por Hilburn.

Abaixo, um vídeo em que Hilburn relata exatamente esta passagem e ilustra como Bob Dylan é tão misterioso e intrigante quanto suas canções.

Hilburn defende Dylan e afirma que o cantor não achou que a escolha da música deveria obedecer o gosto do público. Dylan exemplifica sua opinião: “Quando eu vou ver um show do Sinatra, eu não me importo com o quê ele toca, eu só quero vê-lo, ouví-lo cantar o que ele sente que deve cantar”.

Spitz finaliza o seu prólogo citando um desabafo melancólico de uma fã, que questiona ao vento, como se esperasse uma resposta: “Eu não o entendo. Por que ele tem que nos confundir dessa maneira? Qual é a dele?”

The Dude e seu “Man in Me”

Jeff Bridges é um ator americano que tem no currículo filmes de ótima bilheteria, como Tron, Iron Man e Seabiscuit. Em 2009, ganhou o Oscar de melhor ator por Crazy Heart, em que interpreta um cantor de country em decadência. Jeff não só interpretou o papel, como cantou na trilha sonora oficial.

Contudo, apesar da carreira de sucesso, seu papel mais lendário foi como Jeff Lebowski, ou The Dude, no filme Big Lebowski. O longa, dirigido pelos irmãos Coen, não obteve um lucro maciço, mas ganhou o rótulo de cult com o passar do tempo. Além de uma religião criada a partir do personagem de Bridges, o Dudeísmo, existe até um festival, o Lebowski Fest, em que o próprio Bridges é figura frequente.

O que tudo isso tem a ver com Bob Dylan? Abaixo, a introdução de Big Lebowski:

The Man in Me é uma canção do álbum New Morning, de 1970. Em um momento de completa satisfação pessoal, ausente do mainstream por opção, Bob Dylan se afastou dos holofotes e curtia o convívio familiar desde 1966, quando sofreu o famoso acidente de moto que cancelou sua desgastante turnê mundial.

Assim, The Man in Me pode ser interpretada como uma grande, porém meio cafona, declaração de amor para sua então esposa, Sara Lowndes. Bob descreve toda a influência de sua mulher no despertar do “homem dentro de mim”. Como disse Hinton, o vocal expressivo abrange desde o orgulho masculino até sua vulnerabilidade.

Voltemos para o Big Lebowski. Há alguns anos atrás, em uma das Lebowski Fests, Jeff Bridges cantou a música de Dylan em alto e bom som. E provavelmente com algumas doses de White Russian

Recentemente, Bridges – que lançou há pouco tempo um álbum country – cantou a mesma música em uma sessão para a revista Rolling Stone. A versão atual é bem mais hillbilly e “madura” do que a entoada no vídeo acima. Jeff apresenta a música como sendo do seu compositor favorito e provavelmente a preferência de 90% das pessoas presentes. Confira:

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Vale lembrar que Jeff Bridges já trabalhou com Bob Dylan. Os dois atuaram, em 2003, no filme Masked and Anonymous, co-escrito por Sergei Petrov (não conhece? é um dos heterônimos de Dylan).

Update: o vídeo acima não está mais disponível, mas eis a versão mais recente:

O Folk Rock (ou Cavalo de Tróia em Newport)

Após se esquivar do papel de “voz de sua geração” e evitar ser rotulado como um compositor de música de protesto (posicionamento contido em letras como It Ain’t Me, Babe), Bob Dylan mantém sua liberdade pessoal e decide não mais seguir os dogmas estilísticos do folk.

As influências

Na prática, o mundo conspirava para a criação do folk rock. Em 1963, os EUA são invadidos pela beatlemania; no ano seguinte, The Animals grava sua versão elétrica de House Of The Rising Sun (cujo arranjo foi emprestado de Dylan, que furtou de Dave Van Ronk); ainda em 1964, Tom Wilson, produtor dos últimos discos de Dylan, faz experimentações em estúdio e junta o vocal de Dylan de “Rising Sun” com um instrumental que remete aos Animals; no início de 1965, o grupo The Byrds lança uma versão elétrica de Mr. Tambourine Man, atigindo o topo da parada da Billboard.

Quando Roger McGuinn, dos Byrds, se encontrou com Dylan e mostrou a versão do grupo para “Tambourine Man”, Bob ficou surpreso e disse: “Nossa, cara. É possível dançar com isso”.

Aos Animals, ele confessou que estava dirigindo quando reconheceu no rádio a versão da banda para “Rising Sun”. Ao perceber do que se tratava, Dylan parou o carro, ouviu a canção, saiu do veículo, pulou e bateu na capota. Foi como uma “eureka” de como ele poderia transformar sua arte.

De volta pra casa

Quando ainda respondia por Bob Zimmerman, Dylan montou seus primeiros grupos. Ao contrário do que muita gente pensa, sua primeira atuação na música foi através do Rock and Roll. Em Hibbing, Bob montou, junto com LeRoy Hoikkala e Monte Edwardson, a banda The Golden Chords, em que tocava piano, guitarra e cantava músicas principalmente de Little Richard.

Bob também flertou com o rock no início dos anos 60. Em 1962, seu primeiro single foi Mixed Up Confusion, uma música improvisada e confusa que tinha Dylan acompanhado de uma banda.

Assim, o título Bringing It All Back Home, álbum de 1965, é uma clara referência ao rock and roll presente na vida de Dylan desde o início. Apesar da decisão de tornar seu som elétrico, Bob resolveu fazer isso com gradatividade. Em Bringing It All Back Home, apenas o lado A do disco é acompanhado de banda.

O lado B do disco é reservado para as versões acústicas. Mr. Tambourine Man é acompanhado por uma sutil guitarra e Gates of Eden tem um formato tranquilo, mas seu conteúdo é desconfortável.

As duas últimas músicas do disco são ansiosas e agressivas. It’s Alright, Ma (I’m only bleeding) é intepretada com tamanha intensidade que Bob parece não ter tempo nem para respirar. It’s all over now, baby blue termina o álbum de forma cítrica. Alguns especulam que seja o fim do relacionamento de Dylan com Joan Baez. Outros, como eu, já a interpretam como o fim do relacionamento de Dylan… com o folk.

Cavalho de Tróia em Newport

Desde sua estréia no Newport Folk Festival, em 1963, Bob foi considerado a grande aparição no cenário Folk e um dos poucos que conseguiriam manter a tocha do engajamento político acesa. Em 1964 Dylan era a principal atração. O mesmo aconteceu no ano seguinte, mas Dylan tinha novos planos.

Nestes vídeos abaixo, é possível perceber a apunhalada que foi sua apresentação em 1965, quado resolve tocar Maggie’s Farm e a recém-lançada Like a Rolling Stone.

Após o choque elétrico, Peter Yarrow (do trio Peter, Paul & Mary) pede que Dylan volte com seu “machado” e cante algumas músicas acústicas. Bob acalma a todos com seu “Tambourine Man”, mas depois dá seu recado preciso com “It’s All over now”.

As consequências

Mesmo que sob influência de uma porção de fatores, ainda é possível dar a Dylan o crédito de criado do folk rock. O estilo não durou muito tempo e foi logo substituído pela psicodelia, mas sua importância se manteve, já que consolidou Bob Dylan no status não mais apenas de mero cantor folk, mas do poeta da música pop.