Resoluções de Ano Novo com Bob Dylan

  1. Passar mais tempo com a família e amigos;
  2. Fazer mais exercícios;
  3. Perder peso;
  4. Parar de fumar;
  5. Curtir mais a vida (“eu vou tentar esta”);
  6. Parar de beber;
  7. Sair do “vermelho”;
  8. Aprender algo novo (“essa é fácil se você continuar ouvindo o Theme Time Radio Hour”);
  9. Ajudar outros e voluntariar-se;
  10. Organizar-se.

E aqui está as resoluções de ano novo de Woody Guthrie:

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Um feliz ano novo a todos!

Resenha: Trouble No More (ou A devoção dylanesca)

“Muitas pessoas falam ‘Staple Singers não cantam mais gospel’. Mas você sabe… Gospel não é nada além da verdade e nós estamos falando a verdade em nossas músicas. E é disso que tenho tanto orgulho. (…) Nós sentimos que quando cantamos a verdade, não faz nenhuma diferença qual o estilo que ela tem. Ainda é Gospel”. Pops Staples, em 1971, sobre Staple Singers começar a cantar música secular e em um ritmo soul.

Dois anos depois de lançar o 12º volume de Bootleg Series (no qual abordou as gravações de estúdio de 1965 e 1966), Jeff Rosen (empresário de Dylan) & cia lançam em 2017 “Trouble No More – The Bootleg Series Vol.13”, focado na fase cristã do artista(entre 1979 e 1981).

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Contextualizando

Depois de turbulências no casamento de Bob e Sara Dylan desde 1974, período do álbum Planet Waves e uma turnê recorde com The Band, o casal se separaria oficialmente em junho de 1977.

Os discos Planet Waves, Blood On The Tracks e Desire já ilustram essa instabilidade amorosa (ora devota, ora cítrica). Já Street-Legal, de 1978, insinua uma busca por um significado de vida para além do casamento.

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O ponto de partida da mudança ocorreu durante um show em 1978 na cidade de San Diego, quando alguém jogou uma crucifixo de metal no palco. Bob pegou e guardou-o no bolso. No dia seguinte, uma epifania mudaria o curso de sua vida.

“Eu disse ‘Bom, preciso de algo hoje a noite’. Eu não sabia o que era. Eu estava acostumado a todo tipo de coisa. Eu disse ‘Eu preciso de algo hoje a noite que eu não tive antes’. E eu olhei no meu bolso e eu tinha esse crucifixo”. “Havia uma presença no quarto que não podia ser de mais ninguém além de Jesus… Jesus colocou sua mão em mim. Foi uma coisa física. Eu senti. Eu senti em tudo. Todo o corpo tremeu. A glória do Senhor me nocauteou e me levantou”. – Bob Dylan

A partir de então, Bob Dylan se converteu ao cristianismo no começo de 1979 através da Igreja evangélica Vineyard. Começou a escrever canções religiosas, inicialmente para sua futura companheira Carol Dennis, mas depois resolveu gravá-las ele mesmo. Assim nascia o conceito de Slow Train Coming e da fase cristã que duraria até 1981.

Uma primeira turnê no fim de 1979 até início de 1980 focou apenas no material pós-conversão, com canções do disco recém lançado e do próximo, Saved. Na segunda metade de 1980, Dylan voltaria a tocar algumas canções antigas, numa turnê que ficou conhecida como “Retrospectiva Musical”.

“Unboxing” Trouble No More – Deluxe

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O box é composto por oito CDs e um DVD. São dois discos com um compilado de registros ao vivo, dois só com gravações em estúdio ou em passagens de som, dois discos com uma seleção de um show em Toronto de 1980 e outros dois com um show em Londres de 1981. Já o DVD é o filme Trouble No More, com imagens ao vivo intercalados por sermões escritos por Luc Sante e interpretados por Michael Shannon.

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Também compõe o box dois livros, um recheado de fotos e um texto do mágico Penn Jilette e outro com uma introdução (por Ben Rollins), análise do período (por Amanda Petrusich) e comentários faixa-a-faixa (por Rob Bowman).

Trilhando Trouble No More

A viagem pelas 102 faixas em pouco mais de 8 horas é plural, apesar de monotemática. Tirando algumas músicas do show de Londres em 1981, todo o material dialoga de alguma maneira com a fé e devoção ao Deus cristão.

Minha apreciação com o box tem mais de uma frente: 1- A forma, em que se admira a busca contínua de Dylan pela melhor expressão da canção naquele momento. Neste ponto, o destaque está para a diferença de “Gotta Serve Somebody” do show de Londres para as outras versões. Um ritmo que lembra uma embolada martela a mensagem simples: seja quem você for, estará sempre do lado de Deus ou diabo.

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2- O conteúdo, quando é possível ver Dylan ainda tateando e criando variações líricas para aperfeiçoar sua mensagem. Um destaque é Caribbean Wind, já no fim da fase cristã, quando Bob parece ter absorvido todo o conhecimento necessário sobre a religião para poder aplicá-lo de maneira mais profunda e intrínseca a sua obra sem que soe como um panfleto do Evangelho.

3- A devoção, em que é possível ver e entender a paixão de Dylan por Deus. A versão de estúdio de “When He Returns” é um ótimo exemplo: acompanhado apenas por piano, Dylan veste o véu do intérprete como poucos e entrega um registro sublime. Proporcionalmente, é o mesmo impacto que tenho quando ouço algumas obras de Bach e percebo o foco no sagrado criando uma atmosfera única e que torna institivo o sentimento da presença divina na obra. Trocando em miúdos: é possível sentir Deus na canção e interpretação dylanesca.

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Eu não sou uma pessoa religiosa, mas não é preciso ser crente para encontrar a beleza nesta fase de Dylan. Em 1979, logo após uma série de shows que Bob Dylan fez em São Francisco, o jornalista Paul Williams lançou o livro “Dylan – What Happened?” focando nas possíveis causas que fizeram Bob se tornar cristão. Williams também questiona o impacto da conversão na admiração pela arte de Dylan. Apesar de criticar trechos de letras que expressam certo conservadorismo cristão, a conclusão de Paul é similar à minha relação com Trouble No More:

“(…) E Bob Dylan continua sendo um herói para mim, porque suas recentes mudanças refletem o mesmo tipo de coragem de dentro da alma, integridade e comprometimento para o crescimento pessoal e artístico que eu sempre admirei dele desde o começo.”

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Assim, apesar de possíveis discordâncias sobre o os temas defendidos por Bob Dylan, é preciso se questionar qual a razão que cada um contempla a sua obra. Para uns é o posicionamento e importância política e social da obra; para outros são as figuras de linguagem e poética que rendeu a Dylan um Nobel de Literatura. Para mim, como disse Paul, é a metamorfose dylanesca em busca do novo para si e em uma viagem que é introspectiva sem ser ególatra. Este comprometimento mais consigo do que com o público é a integridade que respeito e admiro, por sempre trilhar seu próprio caminho de maneira transparente consigo e com seus objetivos como artista.

Conclusão

Trouble No More é uma bela compilação deste período, mas está muito aquém dos volumes anteriores. Enquanto Cutting Edge e The Basement Tapes fazem um garimpo arqueológico em dois períodos cruciais e Another Self Portrait redesenha a história, Trouble No More peca em alguns detalhes importantes.

Não há menção nenhuma à abertura dos shows de 1979, iniciada com um monologo de Regina Davis e depois acompanhada por Helena Springs e Terry Young para cantar seis músicas gospel. Outro ponto deixado de fora dos registros sonoros e que são importante nessa fase são os sermões que Dylan insistia em fazer nos shows, com críticas aos contrários a sua conversão e dizeres sobre apocalipse e afins.

Ainda assim, o volume 13 da Bootleg Series encanta pela honestidade de Bob Dylan. A frase inicial deste texto, de autoria de Pops Staples (pai de Mavis, que na data do lançamento de Trouble No More excursiona com Bob Dylan), se deu quando Staples Singers estavam ampliando seu repertório para além do gospel que faziam, dialogando com outros temas e estilos. Exatamente o oposto aconteceu com Dylan. Porém, no final, o que esperamos de um artista é sua entrega total, como ambos fizeram.

Ouça uma amostra do box no Spotify:

Bob Dylan, 76 anos (ou “O escultor sonoro”)

Trinta e oito discos de estúdio, três mil e quinhentos shows e mais de quinhentas músicas depois, Bob Dylan completa setenta e seis anos de idade. Números que refletem o quanto ele passou sua vida imerso em um único tema: a Música.

Entender Bob Dylan é se aprofundar nos meandros das possibilidades da canção. Como um escultor, Dylan quer explorar todos os ângulos do seu objeto de contemplação. Se num mesmo romance coexistem raiva, tristeza, alegria e paixão, porque não seria possível na escultura sonora dylanesca?

No momento da exposição, ao invés de levar para a estrada um museu itinerante em que o que prevalece é o julgamento do infinito, Bob & cia preferem levar o próprio ateliê. Trabalha na frente do público. Permite que todos o observe produzir em tempo real. É como se ele nos deixasse apreciar o que ele faz, mas o benefício se limita até aí. Não podemos opinar e mal podemos interagir – só nos resta testemunhar seu momento de criação.

Por quê? O mais importante é a conexão que é feita. Mas qual é a conexão se Dylan pouco fala (durante os shows, durante premiações, com raras entrevistas)? A conexão se faz através da canção. Em seus shows recentes, a parca luz parece nortear uma possível máxima dylanesca: não sou eu, é a Música. E de fato sempre foi.

Porém, é preciso falar dos fatos recentes. Seus últimos discos são de canções imortalizadas por Sinatra e outros e não exploram o poder poético que lhe rendeu o Nobel de Literatura em 2016. O repertório dos shows se mantem praticamente estático, com raras mudanças e sutis alterações nos arranjos e fraseados. Dentro deste contexto, é preciso opinar:

Prefiro o Bob de outras épocas. E nem precisa ser tão distante. Do início da década 2010, dos shows de São Paulo em 2012. Sinto falta do imprevisível, do aqui-e-agora, dos resgate de canções próprias, de lançamentos de novos álbuns de inéditas, de um Dylan incomodado com a mesmice.

Mas também é preciso respeitar: se sua regra foi sempre mudar, manter-se o mesmo é uma mudança de hábito, não? Ao invés de criar esculturas distintas e diárias, Bob se propôs um novo desafio: recriar a mesma escultura incessantemente. Talvez seja um bloqueio criativo ou uma crise com sua própria criação, mas talvez seja uma imersão no desconhecido, mesmo que isso signifique uma fase de interpretação de canções de terceiros e a monotonia da repetição.

Seja como for, estaremos contigo, Bob. E entendemos sua (agri)doce indireta, mesmo que não seja de sua autoria:

“I’m sentimental, so I walk in the rain
I’ve got some habits even I can’t explain
Could start for the corner, turn up in Spain
But why try to change me now?

I sit and daydream, I’ve got daydreams galore
Cigarette ashes, there they go on the floor
I’ll go away weekends, leave my keys in the door
But why try to change me now?

Why can’t I be more conventional?
People talk, people stare, so I try
But that’s not for me, cause I can’t see
My kind of crazy world go passing me by

So, let people wonder, let ‘em laugh, let ‘em frown
You know I’ll love you till the moon’s upside down
Don’t you remember I was always your clown?
Why try to change me now?
Don’t you remember I was always your clown?
But why try to change me
Why try to change me now?”