5 novidades no show de Bob Dylan de 2019

Depois de um breve boato vindo do baixista da Rolling Thunder Revue, Rob Stoner, de que Bob Dylan pausaria sua turnê no segundo semestre de 2019, tudo voltou ao normal: 38 shows marcados entre outubro e dezembro. Nesta fase da turnê, Bob Dylan optou por tocar principalmente em universidades.

E no primeiro show, no Bren Center de Irvine, tivemos algumas novidades.

Piano armário

Bob Dylan deixou de lado seu Baby Grand Piano e optou por um piano mais popular, o piano de armário. Se por um lado o transporte durante a turnê seja muito mais fácil com este instrumento, seu design pode dificultar ver o rosto de Dylan para quem está na platéia olhando para o fundo do piano.

Manequins (?!?)

Três manequins foram colocados atrás da banda. Na foto é possível ver que um manequin é masculino e está vestido de smoking e outro feminino com o que parece ser um vestido. Não tentei buscar razões para isso (e lembrei de quando alguns espelhos foram colocados na frente do palco, virados para o público, alguns anos atrás).

Novo baterista, Matt Chamberlain

Sem anunciar se a mudança é definitiva ou temporária, George Receli foi substituído pelo baterista Matt Chamberlain. Com 52 anos, Matt tocou com Pearl Jam em 1991 e se tornou músico de estúdio desde então, tocando com inúmeros músicos, como Amos Lee, Blake Mills, Brad Mehldau, Bruce Springsteen, David Bowie, Elton John, Fiona Apple, John Mayer, Soundgarden, Laura Marling e gravou dois discos com The Wallflowers, banda do filho de Dylan, Jakob.

Novo guitarrista, Bob Britt

Sem nenhuma razão aparente – talvez apenas para mudar a sonoridade, mesmo – Bob Dylan havia tirado Stu Kimball da guitarra. Desde o ano passado ele fez shows apenas com Charlie Sexton na guitarra e Donnie Herron no violion, lapsteel e pedal steel. Agora, trouxe de volta um segundo guitarrista. Bob Britt já é conhecido de Dylan faz tempo, sendo um dos inúmeros músicos que participou do disco Time Out Of Mind.

Nesta entrevista, Bob Britt conta um pouco de como foi participar da gravação do disco:

Things Have Changed sai

Para o primeiro show com a nova formação, Bob Dylan optou por mexer também no repertório. Tirou algumas canções que estavam há muito tempo, como Things Have Changed, Blowin’ in the Wind e Like a Rolling Stone, e incluiu uma bem rara, Lenny Bruce.

Aqui está o áudio completo:

Setlist:
Beyond Here Lies Nothin’ (Bob on guitar)
It Ain’t Me, Babe
Highway 61
When I Paint My Masterpiece
Cry A While
Simple Twist of Fate
Honest With Me
Tryin’ to Get To Heaven
Make You Feel My Love
Pay in Blood
Lenny Bruce
Early Roman Kings
Girl of the North Country
Not Dark Yet
Thunder on the Mountain
Soon After Midnight
Gotta Serve Somebody

bis

Long and Wasted Years
It Takes A Lot To Laugh, It Takes A Train To Cry

Resenha: Rolling Thunder Revue, a caixa

No mesmo mês do lançamento do filme sobre a turnê Rolling Thunder Revue pela Netflix, a Columbia lança uma caixa com todas as gravações profissionais da turnê de 1975, além do registro de ensaios e extras. No total são 10 horas, 32 minutos e 18 segundos ao longo das 148 faixas e distribuídos em 14 CDs.

Paralelo ao lançamento do filme e desta caixa, também há o relançamento do Bootleg Series Vol.5, inicialmente de 2002, que agora funciona basicamente como uma compilação de 22 canções dessas 148.

(Para ler sobre a turnê, recomendo este artigo que fiz anos atrás)

Unboxing

A caixa é menor do que as Bootleg Series, mas ainda assim muito bonita. Dos 14 discos, 10 foram organizados em envelopes duplos por serem do mesmo show. Assim, temos cinco shows completos, além de três discos com ensaios antes da turnê – dois discos no Studio Instrument Rentals (SIR) e um para os ensaios no Seacrest Motel. O box finaliza em um disco com extras, contendo gravações amadoras de momentos históricos dos shows, áudios de cenas registradas pela equipe de filmagem e até um anúncio de rádio divulgando a turnê.

Também há um livreto de 52 páginas com um texto sobre a turnê escrito pelo romancista Wesley Stace e um breve descritivo dos discos da caixa.

Análise

The 1975 Live Recordings traz o registro de uma fase magistral. A cada show, Bob Dylan tocava por quase 2 horas e dividia o palco com vários outros artistas – cada apresentação do Rolling Thunder Revue chegava a 4 horas de duração.

Com um apelo circense performático e compartilhando as atenções com outros artistas, Bob Dylan parece ter diminuído a pressão para si, tornando-se mais leve no palco. No recente filme de Scorsese, diversos registros mostram um artista que gesticula, anda pelo palco e distribui olhares a todos – atitudes pouco comuns no palco dylanesco, antes e depois da Rolling Thunder.

Os 14 CDs mostram não apenas a evolução dos arranjos entre Bob Dylan e a banda de apoio, intitulada Guam, mas também as mutações nas linhas vocais ao longo da turnê – para mim, parte da relevância em ter este registro tão extenso.

Destaques

Existem várias pérolas espalhadas pelas 148 faixas, que vão ganhando importância ao longo da audição constante. Fiz aqui um destaque dessas primeiras audições:

  • Hurricane (Disco 7, Faixa 3): na apresentação no Harvard Square Theatre, Bob Dylan brinca com a melodia da canção, subindo e descendo, sem perder uma palavra da longa história.
  • Blowin’ In The Wind (Disco 12, Faixa 8): em Quebec, Dylan e Baez entoam o famoso refrão em francês, levando o público ao êxtase instantâneo.
  • Joey (Disco 1, Faixa 7): Bob Dylan entrara em julho de 1975 para gravar Desire, que seria lançado apenas no início do ano seguinte. Em outubro, durante os ensaios da Rolling Thunder, “Joey” aparece em uma única versão vagarosa e interessante, a começar pela sua introdução crescente.
  • She Belongs To Me (Disco 1, Faixa 6): Uma versão divertida, com Dylan improvisando a letra e transformando o romance de outrora em cutucadas a uma mulher exigente demais. Impossível não refletir sobre os dissabores que Bob passava no casamento.
  • This Land Is Your Land (Disco 1, Faixa 16): Registro da primeira versão ensaiada, com Dylan sugerindo que terminassem o show com ela – algo que aconteceu ao longo da turnê, numa versão bem mais rápida. Em outra versão, Bob Dylan diz que um dia esta música seria o hino nacional.
  • Wheel’s On Fire/ Hurricane/ All Along The Watchtower (Disco 2, Faixa 4): uma tentativa muito interessante de medley. Uma pena que ficou apenas no ensaio.
  • Isis (todas): Isis talvez seja um dos melhores exemplos da liberdade dylanesca durante a Rolling Thunder. Seja pelo andamento, pela intensidade ou pela melodia, cada uma das seis versões de Isis ganha sua atenção.
  • Simple Twist of Fate (Disco 7, Faixa 1): em sua única aparição com gravação profissional do box, a canção gravada em Harvard está nua. Bob Dylan canta como se fosse a última vez que a cantaria.
  • It Ain’t Me Babe (Disco 4, Faixa 2): em Worcester, Bob Dylan começa a canção em um timbre único e diferente. Meio agudo, sussurrado, ele transforma a libertação em uma belíssima angústia insegura.
  • Romance In Durango (Disco 10, Faixa 5): no segundo show da noite, em Boston, Bob Dylan força a banda a uma versão mais rápida e intensa. Divertido ver a música mudando ao longo da sua execução e ficando cada vez mais quente.

Conclusão

Com o lançamento desta caixa, o escritório de Bob Dylan parece oficializar mais uma linha de produtos. Além dos lançamentos inéditos, com Dylan tendo aparente controle completo, Jeff Rosen resgata do acervo dylanesco dois produtos: a Bootleg Series, já em seu 14º volume e a Live Recordings, que não é numerada, mas organizada por ano (em 2016 foi lançada o 1966 Live Recordings).

The 1975 Live Recordings é uma necessidade, ao menos de audição, para qualquer fã dylanesco. Se 1966 a raiva era o motor, em 1975 temos a liberdade como faísca. Vale cada segundo.

Resenha: Rolling Thunder Revue, o filme

41 anos depois de dirigir “The Last Waltz” e 14 anos depois de “No Direction Home”, Martin Scorsese volta ao universo dylanesco para abordar a famosa turnê Rolling Thunder Revue, um circo cigano criado por Bob Dylan e com participação de inúmeros artistas, como Joan Baez, Jack Elliot, Roger McGuinn e muitos outros (escrevi aqui um artigo detalhado sobre este período).

“Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story”, lançado no dia 12 de junho pela Netflix, é mais um conjunto de anedotas do que um registro documental. Talvez por conta da gigantesca empresa de streaming, Scorsese optou por uma obra mais divertida e próxima do entretenimento do que um documentário que os fãs mais radicais gostariam. Ainda assim, é um filme intrigante, interessante, rico e complexo.

Segundo a revista Rolling Stone, a ideia de uma nova parceria com Scorsese surgiu logo depois do sucesso de “No Direction Home”. Ao pensarem no Rolling Thunder Revue e no grande materia que se sabia que fora registrado em vídeo, a equipe de Dylan revirou todo o acervo, mas não encontrou os negativos das filmagens. O único registro foi a versão de trabalho, com inúmeros remendos para fazer a edição. Então a equipe de Scorsese teve que restaurar quadro a quadro até ficar com uma qualidade interessante para o documentário.

Desde 2009 a equipe de Dylan recolhe entrevistas com os participantes da turnê, mas pouco deste registro foi usado para o documentário. Bob foi entrevistado há dois anos pelo seu empresário, Jeff Rosen, sem a presença de Scorsese (assim como ocorrido em “No Direction Home”).

O resultado é envolvente, principalmente nas mãos de Scorsese. Suas colagens de cenas, coreografando imagens, falas e canções, criam uma narrativa elegante e poética. Já de início, Bob Dylan deixa claro seu conhecido desdém pela nostalgia – uma manobra que cai em contradição quando ele lembra de vários detalhes ao longo do filme.

As cenas dos shows mostram um Bob Dylan em um de seus ápices. Com o rosto maquiado, gesticula e dá ênfase com o corpo às palavras e dinâmicas da música. Sua interação com os outros integrantes da banda é intensa, com olhares e brincadeiras. Dividindo o palco com outros artistas, Bob Dylan parece solto, leve e livre do fardo que é ser Bob Dylan.

Os fãs mais detalhistas sentirão falta de passagens históricas importantes. “Renaldo & Clara”, o filme megalomaníaco meio documentário e meio show, idealizado por Dylan, não ganha qualquer menção explícita, sendo apenas sugerido através da parceria entre o dramaturgo convidado Sam Shepard e um cineasta de nome Stefan Van Dorp. Mas é aí que começa a ficar interessante…

(Se você não gosta de spoilers, deixe para terminar de ler depois de assistir)

Renaldo & Clara revisited?

Scorsese optou não por citar “Renaldo & Clara”, mas fazer sua própria versão. Alguns dos personagens retratados por ele nunca existiram, mas dão tempero e endossam o clima dos bastidores da turnê – que como bem registrou Ratso em seu livro, usavam o tempo livre entre os shows com filmagens semi-improvisadas e semi-roteirizadas.

Aqui estão as ficções criadas para o filme:

  1. Stefan von Dorp nunca existiu, o ator é Martin von Haselberg, marido de Betty Midler
  2. Sharon Stone não foi ao show acompanhada da mãe e nem teve um affair com Dylan
  3. Jim Gianopulos não foi promotor (ele é o atual CEO da Paramount Pictures)
  4. Dylan não se inspirou no Kiss para pintar a cara (e Scarlet não era namorada de Paul Stanley)
  5. Allen Ginsberg e Peter Orlovsky não foram “rebaixados” a carregadores de caixa
  6. O deputado Jack Tanner não existe. Interpretado por Michael Murphy, é inspirado no mockumentary Tanne ‘88

Neste momento, a frase de Dylan no início do filme se torna a espinha dorsal: “a vida não é sobre descobrir-se. A vida é sobre inventar-se”.

Também há pistas ao longo do filme. Do termo “conjurar” no início, aos truques de mágica e, principalmente, a outra frase de Dylan, que fala sobre usar máscara e dizer a verdade.

Conclusão

O filme parece agradar a todos: para os fanáticos, imagens inéditas e de alta qualidade dos shows, além de uma entrevista recente de Bob Dylan; para os “netflixers”, um pseudo-documentário que entretém e explica parte da mística em torno do cantor; e ao próprio Dylan, pois Scorsese parece presenteá-lo com uma versão melhorada, e imediatamente bem-sucedida, do que o longuíssimo-metragem que Bob fez nos anos 70 (Renaldo & Clara passa das quatro horas de duração).

Nos créditos, Scorsese optou por uma lista enorme de todos os anos de turnê do Bob Dylan, de 1975 a 2018. É como se endossasse a ideia de Dylan sobre ser apenas mais uma turnê, num longínquo passado.

Todos ganham, principalmente nós dylanescos.