4 razões para descartar e 5 razões para ouvir Triplicate

TRIP-COVER-650

Bob Dylan anunciou o lançamento de um novo álbum. Triplicate será seu primeiro disco-triplo, com 30 faixas divididas em discos temáticos, e o terceiro com covers de clássicos americanos (com abordagem parecida que Shadows In The Night, de 2015, e Fallen Angels, de 2016).

Assim que foi divulgado, alguns fãs criticaram o lançamento de mais um disco no formato quero-ser-Frank-Sinatra. Abaixo, algumas razões para desdenhar e outras para se interessar por Triplicate.

Porquê descartar:

1) Último álbum de inéditas foi em 2012

Se não houver nenhum outro disco de estúdio em 2017, serão 5 anos sem um disco de inéditas. O último, Tempest, possui ótimas canções que entraram no repertório de Dylan nas turnês recentes, como “Duquesne Whistle”, “Long and Wasted Years”, “Pay In Blood” e “Early Roman Kings”.

2) 52 covers nos últimos 3 anos

Isso mesmo. Bob lançará CINQUENTA E DUAS músicas que não são dele – só nos últimos três lançamentos de estúdio (sem contar os discos da “Bootleg Series”). Isso porque ele ganhou um Nobel de Literatura pela suas composições…

3) Contexto político americano instiga

Sabemos que Dylan não costuma de posicionar claramente em questões políticas, mas é inegável o teor engajado em boa parte de sua carreira. E com Trump no mais alto cargo da democracia americana, assunto não faltaria, mesmo que indiretamente.

4) The Voice é The Voice

Bob nunca foi famoso por ser um ótimo cantor. De fato ele consegue trazer interpretações intensas, mas escolher canções já cantadas por Frank “The Voice” Sinatra (com exceção de “Braggin’” de Triplicate) e sua incomparável qualidade vocal é pedir para ser criticado – agora imagina fazendo isso 51 vezes!

Porquê ouvir:

1) Discos temáticos

As 30 músicas de Triplicate estarão divididas em três discos temáticos: ‘Til The Sun Goes Down, Devil Dolls e Comin’ Home Late. Será interessante se aprofundar nas canções e interpretar as nuances das canções a partir desta divisão.

16463195_1496287683734375_7531250637459232364_o

2) Presenciar uma “fase odiada”

Para aqueles que acompanham diretamente Dylan apenas nos últimos 20 anos, será interessante vivenciar uma fase polêmica. Apenas para citar outras: a passagem da fase acústica para fase elétrica nos anos 1960; sua ida ao estilo country e crooner no início dos anos 1970; e a fase cristã do final dos anos 1970 e início dos 1980. Todas elas foram amplamente criticadas, mas depois tiveram seu valor revisto. Será que isso se mantem?

3) Arranjos intimistas e delicados

Nos discos anteriores, é muito bonito ver como Bob e sua banda, composta por cinco músicos, conseguiu adaptar com muita qualidade os arranjos originais de orquestras (apenas com algumas exceções, que tiveram a companhia de sopros). Enquanto em Shadows… o foco foi o pedal steel de Donnie Herron, em Fallen Angels o protagonista foi Charlie Sexton. Teremos um destaque diferente dessa vez?

4) Depois de covers, sempre teve coisas boas

Uma análise rápida mostra que depois de discos com covers, Dylan sempre se renovou e lançou coisas muito boas. É o caso de New Morning após o lançamento de Self Portrait (com uma boa quantidade de covers); ou, o mais emblemático, com o lançamento de Time Out Of Mind, depois de dois discos de canções tradicionais (sem autores conhecidos) – Good As I Been To You e World Gone Wrong. Talvez possamos esperar coisa muito boa ainda em 2017 (lembrando do boato de um disco com a volta do produtor Daniel Lanois, que fez justamente Time Out…).

5) 75 anos e ainda se desafiando

Para começo de conversa, ele não precisava mais lançar disco nenhum. Ele já se provou ser um artista único e incansável. Mas, apesar disso, insiste em se colocar a prova, testando seus limites (e seu público, admito) em caminhos obscuros e inéditos. Isso é, no mínimo, muito respeitável.

Para concluir, uma frase dylanesca: “Só porquê você gosta das minhas coisas não significa que eu te devo alguma coisa”.

Afinal, a carreira é dele. ;)

Confira a playlist no Spotify com versões anteriores das canções de Triplicate. Aproveite e siga o Dylanesco por lá.

O Greenwich Village de Bob Dylan (ou Sons da Cena de 1961)

dylan_group_hudson_800

Bob Dylan chegou à New York em uma terça-feira, 24 de janeiro de 1961. Foi direto para o bairro de Greenwich Village (atraído pelo aluguel barato e pela atmosfera boêmia e estudantil) e já em sua primeira noite, vagueou pela MacDougal Street e entrou no Café Wha?, onde tocou duas músicas de Woody Guthrie.

No domingo seguinte e em diversas outras ocasiões, Bob Dylan visitaria Woody – internado no Greystone Park Psychiatric Hospital – e passaria a conviver com pessoas que também celebravam a música de Woody, como Bob Gleason, Ramblin’ Jack Elliot e Pete Seeger.

Quase imediatamente, Bob passou a integrar a “gangue” dos músicos de Greenwich Village que tocavam em todos os bares possíveis e que, depois das mini-apresentações, passavam um cesto para conseguir alguns trocados.

dylan-dalton-neil

Nessa época, várias testemunhas viam Bob sempre calado, mexendo ansiosamente a perna, observando tudo que via em sua volta. Ganhou o apelido de “esponja” e absorveu várias coisas que via no dia a dia – sotaque e novos acordes de uns; dedilhados e canções desconhecidas de outros (como a história do “empréstimo” que Dylan fez da versão de “House Of The Rising Sun” de Dave Van Ronk – e que depois seria usada também pela banda Animals).

Neste tempo e espaço único, com o movimento de Folk Revival começando a borbulhar ao lado do jazz, blues e poesia beat do Greenwich Village, Bob Dylan recebeu uma enxurrada de informações e referências que seriam cruciais para muita coisa: do fraseado poético ao encontro com Woody Guthrie, o contrato com John Hammond e muito mais.

Sons da Cena de 1961

bob-dylan-greenwich-village-2cd

Apesar de Greenwich Village ocupar um pequeno trecho do sul da ilha de Manhattan, ela tem um bom pedaço do espaço emocional para Bob Dylan e seus fãs. Com base nessa relevância, a gravadora Chrome Dreams e o editor da revista ISIS Derek Barker fizeram uma compilação que ilustra bem o contexto em que Bob Dylan mergulhou (e ainda assim conseguiu se diferenciar).

São 50 faixas do mais variado conteúdo. Há Pete Seeger e Woody Guthrie como a base de muita coisa; temos contemporâneos do Folk Revival como Dave Van Ronk, Ramblin’ Jack Elliot e The New Lost City Ramblers; temos a poesia de Allen Ginsberg e as piadas de Lenny Bruce; blues que vão de John Lee Hooker e Big Joe Willams a Lonnie Johson e Josh White. E por aí vai…

Derek afirma que não foi sua intenção, mas ao garimpar as canções que compõe o CD Duplo percebeu que muitas músicas já foram interpretadas por Dylan ao longo das cinco décadas de carreira. Outro ponto bem interessante são releituras feitas por Dylan a partir de letras e melodias, é o caso de “Nottamun Town” (para “Masters Of War”) e “Who’s Gonna Buy Your Ribbon” (para “Don’t Think Twice, It’s Alright”), por exemplo.

Ouça no Spotify (e aproveite para seguir o perfil do Dylanesco) ou compre o CD aqui.

Assista Bob Dylan no Desert Trip (“Oldchella”) na íntegra!

Bob Dylan, Desert Trip (14/10/2016)

Que semana para Bob Dylan! Tocou para 75 mil pessoas no festival Desert Trip (Califórnia) na sexta, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura na quinta, se apresentou no mesmo dia em Las Vegas (sem qualquer menção ao prêmio – sendo a única surpresa empunhar a guitarra depois de anos durante “Simple Twist of Fate”) e retornou à Califórnia para fechar sua participação no festival que também trouxe Rolling Stones, Paul McCartney, Neil Young, The Who e Roger Waters.

(Quase) o mesmo repertório, mas um show bem diferente

Bob Dylan fez minúsculas mudanças no repertório dos três shows dessa semana. Se na primeira participação no Desert Trip ficou de fora os dois maiores clássicos de sua carreira, “Blowin’ In The Wind” e “Like A Rolling Stone”, o cantor resolveu incluí-los separadamente nos dois shows seguintes – além de acrescentar uma música de sua atual fase “crooner”, “Why Try To Change Me Now”.

Para o show do dia 07 de outubro de 2016, um Bob Dylan mais intimista, usando seu chapéu e sentado ao piano boa parte (apesar de muitos notarem que ele não usava camisa por baixo do terno – talvez querendo manter o estilo, mas cedendo ao calor californiano). Segundo relatos, Dylan parecia mais solto e alegre do que de costume na apresentação de Las Vegas no dia 13/10, mesmo dia do anúncio do Nobel de Literatura.

Bob Dylan, Desert Trip (14/10/2016)

Em sua segunda aparição no Desert Trip, 14/10, Bob Dylan manteve a desenvoltura do show de Las Vegas. Tocou piano, mas de pé, e deixou o chapéu intocado próximo ao guitarrista Charlie Sexton (a camisa também não estava presente). Em alguns momentos, pegou um dos quatro pedestais de microfone no centro do palco e se portou como um devido roqueiro – talvez para dizer que é primeiro músico e depois Nobel de Literatura (mas deixou em destaque uma réplica do busto “Poesie”, de Antonio Garella, atrás do piano). Porém, o mais notado foi que ele permitiu que transmitisse no telão o show inteiro (na semana anterior, só as primeiras músicas). Ainda assim, os ângulos eram distantes – ruim para quem quer ver muitos detalhes, mas bom para criar a ambiência que Dylan parece perseguir nos últimos anos.

Houve uma mudança drástica no repertório desses primeiros shows de outubro em relação aos anteriores que privilegiava as canções de seus dois últimos discos (Shadows In The Night e Fallen Angels) de standards já interpretados por Frank Sinatra. Este ajuste deve estar diretamente ligado à amplitude de público do festival. Ao mesmo tempo, é impossível deixar de perceber a consistência da carreira de Dylan. Deste repertorio mais “nostálgico”, sete músicas são dos anos 60, duas dos anos 70 e oito são de 1997 para cá, incluindo “Make You Feel My Love”, como se Bob quisesse retomar os créditos depois que a canção ficou famosa na voz de Adele.

É fato que Bob Dylan distoa de boa parte de seus contemporâneos sessentistas que também subiram ao palco do Desert Trip (talvez a única exceção seja Neil Young). Ele preferiu seguir um outro caminho, menos nostálgico e mais desafiador. Também optou por menos fogos de artifício para focar em sua arte primária: a música.

Vídeo: Bob Dylan no Desert Trips (Oldchella) – 14/10/2016

Repertório:
1. Rainy Day Women #12 & 35 (Bob ao piano)
2. Don’t Think Twice, It’s All Right (Bob ao piano)
3. Highway 61 Revisited (Bob ao piano)
4. It’s All Over Now, Baby Blue (Bob ao piano)
5. High Water (For Charley Patton) (Bob no centro do palco)
6. Simple Twist Of Fate (Bob no centro do palco com gaita)
7. Early Roman Kings (Bob ao piano)
8. Love Sick (Bob centro do palco)
9. Tangled Up In Blue (Bob no centro do palco com gaita)
10. Lonesome Day Blues (Bob ao piano)
11. Make You Feel My Love (Bob ao piano)
12. Pay In Blood (Bob no centro do palco)
13. Desolation Row (Bob ao piano)
14. Soon After Midnight (Bob ao piano)
15. Ballad Of A Thin Man (Bob no centro do palco com gaita)
(bis)
16. Like A Rolling Stone (Bob ao piano)
17. Why Try To Change Me Now (Bob no centro do palco)

Outros vídeos: