Resenha – The Cutting Egde: Observando o Big Bang

“A visão que o mundo tem de Rimbaud é um caleidoscópio. Ela muda de cor, de forma, se transforma e nunca é definitiva. Não é concreta, não é real. A lenda tomou conta da biografia e o mito soterrou o homem. Os poemas são poderosos fragmentos biográficos, embora eles não concluam, não desenhem um Rimbaud preciso. Seus delírios, suas alucinações, suas iluminações e temporadas no inferno, às vezes indicam traços do poeta. Mas a poesia acabou quando ele estava saindo da adolescência, aos 19 anos. Aí começa a saga mítica-rimbaldiana que não deixou versos, mas quase se sobrepõe ao poeta.” – (Ivan Pinheiro Machado, sobre Rimbaud).

“A voz de Dylan tinha uma ponta afiada [cutting edge, em inglês], o som de seu estilo de blues das antigas afiado com uma segurança tranquila de um artista no topo de seu jogo, ainda cru, ainda abrasivo, mas absolutamente, definitivamente ao seu estilo. Você poderia amar aquele som ou odiá-lo, mas você não poderia negar sua singularidade.” – (Elijah Wald, sobre Bob Dylan de ‘65).

Booleg Series N. 12 - Cutting Edge

Gosta de ler? Imagine ter acesso ao rascunho do seu livro favorito. Um manuscrito todo rabiscado, com devaneios do autor sobre os diversos caminhos que a trama pode tomar. “Quem é o verdadeiro heroi?”, “Em que momento os dois devem se encontrar?”, “Já é hora dele morrer?”.

Prefere filmes? Pense ter acesso aos bastidores de um filme com o script em aberto. Roteirista, diretor e atores discutem as diversas formas de passar a intenção do autor. “Estou puto ou inconformado?”, “Mas eu me surpreendo com a reação porque eu estava triste, não?” “Eu devo ir correndo ou caminhando?”.

Os dois exemplos acima são bem rasos, admito, mas talvez sejam uma boa analogia para se entender um pouco o que é ouvir The Bootleg Series, Vol. 12: The Cutting Edge – 1965-1966. A mais recente edição da série de bootleg oficiais cobre com muitos detalhes as sessões de gravações da “fase elétrica” de Dylan, ou os 14 meses que separam Bringing It All Back Home e Blonde On Blonde.

Detalhe da versão Deluxe
Detalhe da versão Deluxe

Até mesmo para os patamares da Bootleg Series, Cutting Edge é surpreendente. Se nas edições anteriores havia um linha narrativa que contextualizava o tempo/espaço de Bob Dylan na história do universo, dessa vez ela é não apenas um livro aberto, mas uma viagem no tempo completa. Já que estamos falando de universo, pense na possibilidade de observar o momento do Big Bang. Talvez eu não consiga explicar Cutting Edge sem analogias…

Tive acesso primeiro ao áudio da versão de colecionador, com mais de 19 horas espalhadas em 379 faixas, dispostas cronologicamente em 18 CDs, e comprei as duas outras versões: Deluxe, com 6 CDs, e o “Best of” em três vinis (que acompanha também o formato em CD duplo).

Antes de apertar o Play, um “unboxing” das duas edições que tenho em mãos.

“Unboxing” – Deluxe

Frente do box com 6 CDs
Frente do box com 6 CDs

A versão com 6 CDs é acompanhada de dois livretos. “Mixing Up The Medicine” reúne fotos, reportagens e documentos (como alguns manuscritos de letras), dividos em capítulos cronológicos de cada álbum, as turnês entre eles e, curiosamente, um capítulo apenas para a visita de Dylan a Factory de Andy Warhol (fato sem tanta relevância no BS12).

Verso do box com 6 CDs
Verso do box com 6 CDs

O outro livro, além de comportar os 6 CDs, possui dois textos maiores que contextualizam as obras em seu tempo, além de pinçarem destaques da compilação. O primeiro texto é de Bill Flanagan e percorre rapidamente a história de Bob Dylan entre Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited. O segundo grande texto é de Sean Wilentz, escolhido para falar apenas sobre Blonde On Blonde e sua importância na história da música.

Al Kooper faz um breve relato sobre sua experiência, além de outros dois depoimentos: Angeline Butler, que cantou em uma versão de “If You Gotta Go, Go Now” e Rowland Scherman, fotógrafo da famosa capa do Greatest Hits.

Outro ponto de destaque são as notas de cada uma das músicas dos discos, com uma breve análise da evolução ocorrida dentro do estúdio.

No total, o Deluxe oferece 111 faixas, sendo um dos CDs focado em toda a sessão de gravação de “Like a Rolling Stone”. No final dos 15 takes, o CD contém os quatro canais da fita master separados – canal 1: guitarra solo, canal 2: vocal e guitarra base (Dylan), canal 3: piano e baixo, e canal 4: bateria e órgão.

“Unboxing” – Best Of em vinil

Frente do box em vinil
Frente do box em vinil

A menor versão de Cutting Edge é de um CD duplo ou vinil triplo. Possui apenas um livreto, com fotos, documentos e os textos citados acima com exceção das análises das músicas compiladas. Cada vinil está guardado em dois envelopes, um com uma arte vintage relacionada à Columbia e outra lisa.

Enquanto as versões mais extensas apresentam mais de um take de várias músicas, a edição “Best of” possui apenas uma versão alternativa de cada canção – as únicas exceções são “Like a Rolling Stone” e “Desolation Row”, que possuem dois takes cada. No total, o Best Of possui 36 faixas.

Trilhando “Cutting Edge”

Detalhe de um dos vinis
Detalhe de um dos vinis

Cutting Edge é um registro de um dos períodos mais relevantes de Bob Dylan para a história da música. Foi na junção das letras de Dylan, seu passado recente folk e sua vontade em voltar para o rock, que se criou, querendo ele ou não, um novo estilo. Nas inúmeras versões das músicas em que Dylan é acompanhado por banda, é possível ver como muitas nasciam como um rock mais óbvio e pop, passando só depois para a abordagem menos jovial que se caracterizaria a fase elétrica de Bob.

Bob Dylan sabe pra que lado ir, mas desconhece o caminho para se chegar lá. A banda nem sempre acerta nos primeiros takes, mas o que vemos aqui é um Dylan mais insistente do que ouvíamos falar. De fato algumas músicas são deixadas de lado para serem tocadas em um outro momento, mas várias outras são executadas quase à exaustão, com inúmeras mudanças até mesmo na letra – algo que Dylan costuma fazer até hoje nos palcos.

Manuscrito de "I Want You"
Manuscrito de “I Want You”

Infelizmente, a maior parte desses exemplos são de canções menos relevantes, como “On the Road Again” (que em uma das versões recebe um batuque bizarramente interessante), a primeira abordagem de “It takes a lot to laugh, it takes a train to cry” (que depois ganharia novos ares em Nashville), “Can You Please Crawl Out Your Window” (que no fim só virou um single sem grande importância) e “Leopard-Skin Pill-Box Hat” (que depois de 13 takes insistindo na mesma ideia, só teria sua versão final em um outro dia, dessa vez acertada no primeiro take).

Os bons destaques são: “One Of Us Must Know (Sooner Or Later)”, “Stuck Inside Mobile With Memphis Blues Again”, “Just Like A Woman”, “Visions Of Johanna” e a já batida “Like a Rolling Stone”. Em todas elas, o ponto de partida é muito distante do resultado final (com exceção de “Rolling Stone”, em que já no quarto take temos a versão final, mas a banda continua por mais 11 tentativas!). Essas canções são ótimos exemplos de como Dylan tinha uma ideia na cabeça, mas que precisava da parceria da banda para chegar na execução ideal. Acompanhar os inúmeros takes é aflitivo, mas prazeroso: é como saber o final do filme, mas assisti-lo observando como a história chega até sua conclusão.

Cada versão de Cutting Edge conta parte da história ocorrida nas salas frias dos estúdios da Columbia, tanto em New York quanto em Nashville. Até mesmo os 18 CDs da edição mais parruda possuem lacunas. Temos acesso “apenas” a tudo que foi gravado, mas algumas decisões não foram registradas nas fitas. Como já disse, ainda assim é uma imersão sem igual e inédita até mesmo depois de onze edições da Bootleg Series.

Capa de um dos livros
Capa de um dos livros

É possível perceber, por exemplo, parte das razões da troca de produtor. Não sabemos ao certo porque Dylan, ou seu empresário, trocou Tom Wilson por Bob Johnston, mas temos registros de um artista impaciente com os assovios irritantes de Wilson nas inúmeras interrupções. Também podemos ouvir a tentativa de Dylan em gravar com sua banda de turnê (que se tornariam The Band): Bob está incomodado com a batida forte e concisa do grupo, mas não sabe explicar com exatidão para onde quer ir. De todas as músicas gravadas por eles, apenas uma chegou a Blonde On Blonde – “One Of Us Must Know (Sooner Or Later)”.

O que sabemos é que após a experiência frustrada com The Band, Bob Johnston conseguiu convencer Dylan a gravar na capital do country, Nashville. Lá, encontrou com músicos profissionais que possuiam experiência com artistas do calibre de Elvis, o maior ídolo de Dylan, e possuiam uma habilidade de se ajustar às adversidades musicais. Este capítulo tem uma importância tão grande, que até o Country Hall Of Fame fez uma recente exposição sobre a influência de Dylan e Cash na cidade.

Conclusão

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Quando Ivan Pinheiro Machado fala sobre Rimbaud, ele descreve um artista numa época em que pouco se tem registro. A fuga do poeta à Africa gerou tanta especulação quanto o significado sua própria, e escassa, obra. No caso de Bob Dylan, contudo, temos cada vez mais dados para revisitar, reescrever e reapreciar a formação do poeta, cantor, mito e sua Musa. Assim como o Rimbaud, Bob Dylan é um eterno caleidoscópio, criando um amalgama que se molda a partir das vontades do seu dono.

E, parafraseando Elijah Wald, que em seu livro “Dylan Goes Eletric” quase prevê o nome do Bootleg Series N.12, “você pode amar aquele som ou odiá-lo, mas você não pode negar sua singularidade”.

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