Quando brisa refrescante vira vento idiota

Segundo o dicionário, a palavra catarse pode ter vários significados. Para Aristóteles, a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um representação dramática.

A psicanálise apresenta também uma acepção bem interessante: operação de trazer à consciência estados afetivos e lembranças recalcadas no inconsciente, liberando o paciente de sintomas e neuroses associadas a este bloqueio.

Um relacionamento que corrói e desmorona aos poucos é, muitas vezes, uma conjunção de sentimentos recalcados. A saudade de um tempo que passou se mistura ao descontentamento acumulado de ações corriqueiras.

Jakob Dylan já afirmou que o álbum Blood on the Tracks é a síntese das brigas entre seus pais. O disco, lançado em 1975, é uma fotografia multifacetada do fim de um relacionamento. Em diversas canções, ouve-se os vários sentimentos e desesperos pela perda. Ora é a raiva, ora a angústia, às vezes a ironia e quase sempre a tristeza.

Na época do lançamento, Bob Dylan se surpreendeu e até reclamou do sucesso do álbum. Durante uma entrevista para Mary Travers (do trio Peter, Paul & Mary), dois meses depois que Blood On the Tracks estava nas lojas, Dylan diz:

“Muitas pessoas me disseram que gostaram deste álbum. É difícil para mim me relacionar com isso – quero dizer, as pessoas apreciando este tipo de sofrimento.”

Até mesmo para os moldes deste disco, Idiot Wind é uma das músicas mais intensas e dolorosas de Bob Dylan, que gravou versões intimistas e acústicas antes de chegar na interpretação que entraria para o álbum. Além da abordagem, as versões também se diferem nas letras, que sofrem mutações aparentemente para se tornarem mais abstratas e menos descritivas.

Hinton pontua bem ao mostrar essas alterações líricas, que para ele deixa a música menos específica, mas mais perniciosa. “You left your bags behind” torna-se “your corrupt ways had finally made you blind”. Um distanciamento no relacionamento, ilustrado por “in order to get a word with you, I’d have to make up some excuse” é promovido com uma alteração quase apocalíptica: “I kissed goodbye the howling beast on the borderline which separated you from me”.

A versão do álbum poderia ser a definitiva se não houvesse o registro ao vivo, de 1976. O disco Hard Rain é um registro de uma sequência de shows feita após The Rolling Thunder Revue. Entre as pessoas que estavam na platéia, Sara Dylan, futura ex-mulher e “musa” em Idiot Wind.

Na edição 157 da Isis, Kenneth Wexler cita a Idiot WInd de Hard Rain como uma das melhores coisas que Dylan já lançou. E vai além: “Se alguém nunca tivesse ouvido Bob Dylan antes, e eu tivesse que tocar apenas uma faixa para mostrar a essa pessoa a grandeza do homem, eu teria uma difícil escolha entre esta e a versão de estúdio de Like a Rolling Stone”.

No vídeo acima, Dylan parece expurgar qualquer resquício de tristeza e eliminar em forma de uma prazerosa raiva.

Simbolicamente ou não, Bob Dylan tocou esta música nas apresentações em dois momentos. Em 1976, quando seu casamento com Sara estava no fim. E também em 1992. Quando outro casamento terminara – dessa vez com Carol Dennis.

Abaixo, o áudio do show de San Jose.

Tom Waits é um ouvinte dylanesco

Tom Waits lançará no próximo dia 24 seu novo disco de canções inéditas, intitulado Bad As Me. Para divulgar o álbum, Tom fez um ótimo vídeo e desde ontem o disponibilizou para audição online.

O site Pitchfork entrevistou Waits sobre o disco e outros assuntos. Durante a entrevista, Tom citou Bob Dylan e seu programa de rádio.

Depois de dizer que gosta de compor enquanto dirige, Tom Waits afirmou que não costuma ouvir música no carro. Contudo, disse gostar do Theme Time Radio Hour, apresentado por Bob Dylan. Waits comenta que o formato adotado por Dylan é realmente o perfil dos programas radiofônicos que Tom ouvia quando era criança, com um disc jockey escolhendo um tema e tocando músicas ligadas a este assunto.

A transcrição da entrevista indica que Tom Waits imita Bob Dylan. Deve ser interessante ouvir esta interpretação. Seria algo assim?

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=CckWcUBeALs]

Tom Waits também divaga rapidamente sobre a influência de Dylan na música pop, citando Reach Out I’ll Be There, do Four Tops, como uma canção que dialoga com Like a Rolling Stone.

Entre as participações no disco Bad As Me, estão o baixista Flea e o guitarrista Keith Richards (que também divide os vocais em Last Leaf). Outro convidado foi David Hidalgo, membro da banda Los Lobos. Para quem não sabe, Hidalgo participou do álbum Together Through Life, tocando guitarra, violão e acordeon.

As 70 maiores canções de Bob Dylan

A edição brasileira da Rolling Stone do mês de outubro, com Chico Buarque na capa, publicou uma relação com as “70 maiores canções” de Bob Dylan. Esta lista já havia sido divulgada pela edição gringa, em maio, mas só agora vem traduzida ao Brasil.

Com um ótimo texto introdutório de John Pareles – editor do New York Times que já passou pela Crawdaddy!, The Village Voice e a própria Rolling Stone – a lista segue uma ordem crescente de “importância” e algumas das canções tem textos de músicos famosos.

A relação foi votada por um grupo de especialistas dylanescos. Entre eles, Greil Marcus, Christopher Ricks, Sean Wilentz e Clinton Heylin – todos esses já escreveram livros sobre Bob e sua música.

A escolha foi bem ampla, passando desde músicas do segundo álbum, The Freewhellin’, até canções mais recentes, como Things Have Changed (lançada em 2000 como trilha sonora do filme Garotos Incríveis e que rendeu a Dylan o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original).

Veja abaixo a lista completa (e seus comentaristas, quando houver):

  1. Like a Rolling Stone (por Bono)
  2. A Hard Rain’s A-Gonna Fall
  3. Tangled Up in Blue
  4. Just Like a Woman
  5. All Along the Watchtower
  6. I Shall Be Released
  7. It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding)
  8. Mr. Tambourine Man (por David Crosby)
  9. Visions of Johanna
  10. Every Grain of Sand
  11. It’s All Over Now, Baby Blue
  12. Desolation Row (por Mick Jagger)
  13. Subterranean Homesick Blues
  14. Highway 61 Revisited
  15. Simple Twist of Fate
  16. Positively 4th Street (por Lucinda Williams)
  17. This Wheel’s on Fire
  18. Ballad of a Thin Man
  19. Blind Willie McTell
  20. Blowin’ in the Wind
  21. Mississippi (por Sheryl Crow)
  22. Don’t Think Twice, It’s All Right
  23. Forever Young
  24. Lay, Lady, Lay (por Lenny Kravitz)
  25. Knockin’ on Heaven’s Door
  26. Masters of War
  27. Sad-Eyed Lady of the Lowlands
  28. The Times They Are A-Changin’
  29. You Ain’t Goin’ Nowhere
  30. Girl From North Country (por Keith Richards)
  31. Can You Please Crawl Out Your Window?
  32. Chimes of Freedom
  33. Idiot Wind
  34. Isis
  35. The Lonesome Death of Hattie Carrol
  36. With God on Our Side (por Tom Morello)
  37. Maggie’s Farm
  38. My Back Pages
  39. Hurricane
  40. I Dreamed I Saw St. Augustine
  41. I’ll Keep it With Mine
  42. I Threw it All Away
  43. Gotta Serve Somebody (por Sinéad O’Connor)
  44. Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again
  45. It Ain’t Me, Babe
  46. Jokerman (por Chris Martin, do Coldplay)
  47. Spanish Harlem Incident
  48. Sara
  49. Up to Me
  50. Not Dark Yet
  51. Things Have Changed
  52. Tears of Rage
  53. When I Paint My Masterpiece
  54. 4th Time Around
  55. If Not for You
  56. You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (por Jim James, do My Morning Jacket)
  57. Just Like Tom Thumb’s Blues
  58. Percy’s Song
  59. Million Dollar Bash
  60. Buckets of Rain (por Cameron Crowe)
  61. It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry
  62. Queen Jane Approximately
  63. If You See Her, Say Hello
  64. Abandoned Love
  65. Tough Mama
  66. Shelter from the Storm
  67. Leopard-Skin Pill-Box Hat
  68. One Too Many Mornings
  69. One More Cup of Coffee (Valley Below)
  70. To Ramona (por Jackson Browne)

O Grings Memorabilia postou um tocador com as 70 canções.