Esta é a segunda parte da minissérie “O melhor disco de Dylan”. Neste post falarei sobre o melhor disco de Dylan para sua própria história. Como já disse, o rótulo de “melhor disco” é bem relativo, mas quis montar um breve panorama dylanesco a partir desses três exemplos. Veja a primeira parte aqui.

Depois de uma estadia em família no ambiente bucólico de Woodstock por cerca de 2 anos e meio – desde o fatídico acidente de moto, em 1966 -, Bob Dylan resolveu, no final de 1969, voltar a morar em New York, mais precisamente no número 94 da MacDougal Street, no coração de Greenwich Village.

You tamed the lion in my cage but it just wasn’t enough to change my heart

Talvez como consequência de sua volta ao mundo cosmopolita, ou devido à decisão de comprar e reformar completamente uma mansão em Point Dume (Malibu – Califórnia), Bob Dylan resolveu voltar a excursionar no início de 1974 com The Band, com a qual acabara de gravar o álbum Planet Waves.

O resultado da turnê – que obteve uma procura recorde de mais de 5 milhões de pessoas (cerca de 4% da população americana) para os cerca de 600 mil ingressos vendidos – foi mais do que seu registro no disco Before the Flood. Dylan retomou gosto pela vida boêmia, que resultou na volta do consumo, no mínimo, de álcool e cigarros, além das escapadas extraconjugais.

Felt an emptiness inside to which he just could not relate

Aliado ao retorno da tríade “sexo, drogas & rock’n’roll”, outro fator diretamente ligado ao nascimento de Blood on the Tracks foi o curso de artes que Dylan fez a partir de abril de 1974 com o imigrante russo Norman Raeben no Carnegie Hall.

Mais do que ensinar a pintar, Raeben buscava exercitar em seus alunos uma nova forma de olhar. A influência do professor no seu púpilo se deu principalmente de duas maneiras. Dylan explica que “ele colocou minha mente, minha mão e meu olho em um caminho que me permitiu fazer conscientemente algo que eu sentia inconscientemente”. Raeben também trouxe a Bob um outro entendimento de narrativa: ela não precisava ser vista como algo linear, mas poderia misturar passado, futuro e presente para criar um foco mais rico e unificado.

Bob tomou conhecimento de Norman Raeben através de amigos de sua esposa, Sara Dylan. Em 1978, ele deu alguns detalhes sobre como ficou sabendo dele:

“Eles estavam conversando sobre verdade, amor, beleza e todas essas palavras que eu ouvi durante anos, e eles as tinham todas definidas. Eu não conseguia acreditar… Eu perguntei ‘Onde vocês conseguiram todas essas definições?’ e eles me falaram deste professor.

[…] Nem preciso dizer que isto me mudou. Eu voltei para casa depois e minha mulher nunca mais me entendeu, desde então. Foi nesta época que meu casamento começou a acabar.”

Relationships have all been bad, mine’ve been like Verlaine’s and Rimbaud

Bob conheceu Sara Lownds em 1964, através da esposa de seu empresário Albert, Sally Grossman. Sara, que já fora coelhinha da Playboy, era casada com o fotógrafo Hans Lownds na época. Bob e Sara se casariam secretamente (até dos amigos e da então “namorada” Joan Baez) em 22 novembro de 1966.

As referências a Sara que Dylan fazia eram sempre de alta devoção, inclusive inspirando-o em canções como “Sad-Eyed Lady of the Lowlands”, “Love Minus Zero/No Limit” e “Sara”.

Em Blood on the Tracks, independentemente de qual seja a temática da música, é possível ver no álbum inteiro o registro de um homem perturbado. Bob vê a instituição que mais valorizava, seu próprio casamento, ruir e não sabe qual caminho tomar.

Depois de experimentar a felicidade plena e expressando-a principalmente no disco New Morning, os esforços de Dylan para salvar seu casamento começam em Planet Waves. Neste disco de 74 já é possível ouvir o desespero, que trazia junto até uma aceitável contradição, e que alcançaria seu ápice em Blood on the Tracks e ecoaria também em Desire.

Sara e Bob se divorciaram em julho de 1977.

Like it was written in my soul from me to you

Depois da turnê de 1974 e do aprendizado com Raeben, Bob viajou com seus filhos Jesse (na época com oito anos) e Anna (sete anos) até a região de Crow River, próxima a Minneapolis, em uma fazenda comprada em parceria com o irmão David (figura que importantíssima na história de Blood on the Tracks, como veremos). Ao reviver a vida no campo, porém, Dylan não revisitou integralmente a vida familiar. No lugar de Sara, levou Ellen Bernstein, executiva de 24 anos da Columbia, que conhecera durante a recente turnê com The Band.

Tão absurdo quanto viajar com seus filhos e sua amante para o campo, Bob Dylan compôs boa parte das suas confissões amorosas (que eram, em sua maioria, direcionadas e estimuladas pelo seu casamento em crise) e mostrava-as para Ellen.

“Ele compunha no começo da manhã e meio que concretizava por volta do meio-dia, descia e eventualmente, durante o dia, compartilhava o que ele escrevia. Estava no seu caderno, e ele as tocava e perguntava para mim o que eu achava, e estava sempre diferente. […] Ele mudava, mudava, mudava. Você definitivamente tinha a noção de uma mente que nunca parava”. – Ellen Bernstein

I replay the past

Com as músicas aparentemente prontas e um novo contrato com a Columbia concretizado (Dylan lançou Planet Waves e Before the Flood pela Asylum Records), Bob resolveu gravar no mesmo estúdio que registrou seus primeiros discos, o A&R – antes chamado de Studio A da Columbia. Phil Ramone foi chamado para produzir as sessões de Blood on the Tracks, que tiveram início em 16 de setembro de 1974.

Na primeira sessão, Phil chamou para participar das gravações o músico Eric Weissberg e seu grupo, Deliverance, para acompanhar Dylan. Deste primeiro dia, apenas “Meet in the Morning” iria para o disco. Nas sessões seguintes, Bob pediu apenas que o baixista Tony Brown e o organista Paul Griffin (que tocara na gravação de Highway 61 Revisited) participassem.

Com a data de lançamento marcada para o começo de janeiro, os registros ocorridos em New York seriam a versão final do disco. Porém, durante as festas de fim de ano, Bob Dylan foi até Minneapolis para ficar com sua família e mostrou o disco para seu irmão mais novo, David. Ao ouvi-lo, o caçula não gostou; achou as músicas muito parecidas e que sua venda seria baixa por conta da atmosfera monótona.


Versão de Blood on the Tracks gravadas em New York, em setembro.

David, que era produtor de bandas locais e jingles, levou Bob até o Studio 80 e nos dias 27 e 30 de dezembro Dylan gravou com músicos convidados pelo irmão. Além de regravar 6 das 10 músicas de Blood on the Tracks, Bob reescreveu algumas. Entre as músicas com mais mudanças estão “If You See Her, Say Hello”, “Tangled Up in Blue” e principalmente “Idiot Wind”, cujas alterações deixaram a música significativamente menos pessoal.

Blood on the Tracks foi lançado no dia 17 de janeiro de 1975 e recebeu ótimas críticas. Muitos acharam que era o melhor trabalho de Dylan desde sua reclusão em Woodstock, e vários o destacaram, mesmo ainda no meio da década, como o melhor disco dos anos 70.

Trilhando – Blood on the Tracks

Tangled Up in Blue - Uma das canções que mais absorveu os ensinamentos de Norman Raeben. Dylan mistura os pronomes e o conceito de tempo é diluída. Sobre a música, Bob já afirmou: “demorei 10 anos para vivê-la e 2 anos para compô-la”.

Simple Twist of Fate - Clinton Heylin, que teve acesso ao caderno em que Dylan escreveu todas as canções do disco, diz que esta canção tinha o nome temporário de “Fourth Street Affair” (possível referência ao endereço que Bob viveu com Suze Rotolo nos anos 60). Assim, Heylin acha que, da mesma forma que o término do relacionamento com Suze inspirou o cantor a escrever uma ode a um antigo amor, em “Girl From the North Country” Sara poderia ter incitado-o a lembrar de sua relação com Rotolo.

You’re a Big Girl Now - A versão de New York é incrivelmente emotiva. Porém, Dylan preferiu a versão de Minneapolis para incluir no disco (com ele fazendo os floreios “flamencos” no violão). De qualquer forma, é impossível não se envolver com o sofrimento de Bob, principalmente nas frases finais: “I’m going out of my mind/ With a pain that stops and starts/ Like a corkscrew to my heart/ Ever since we’ve been apart”.

Idiot Wind - Para mim, é uma das canções mais viscerais de toda obra dylanesca (escrevi aqui um post sobre ela). Em “Idiot Wind”, é possível sentir todos os sentimentos de um término de relacionamento: o arrependimento, raiva, desprezo e, acima de tudo, dor. A versão de Minneapolis sofreu fortes mudanças na letra e interpretação, tornando-se bem menos autobiográfica. É Dylan quem toca o órgão da canção.

You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go - Indícios (como as cidades citadas) indicam que a música é para Ellen Bernstein. Apesar de Dylan parecer ter investido neste relacionamento, Ellen nunca quis algo mais sério. A canção parece ser cantada por um homem feliz, mas há toques melancólicos, como a comparação com o relacionamento tumultuado de Rimbaud e Verlaine.

Meet Me in the Morning - Oliver Trager a vê como a melhor performance vocal de Dylan no disco. A participação de Buddy Cage no pedal steel foi marcada por uma atitude agressiva, com Bob sendo ríspido ao explicar a Cage como tocar. No fim, o músico percebeu que era apenas uma brincadeira de Dylan para forçá-lo a dar seu máximo.

Lily, Rosemary and the Jack of Hearts - Shelton a define como “uma das mais longas fábulas de Dylan, que se desenrola como um jogo de cartas”. São 15 estrofes que relatam, com a linguagem pós-Raeben, um triângulo amoroso seguido de morte. Na gravação, depois de Bob ensaiar por apenas dois ou três minutos, David deu a dica aos músicos: “Quando vocês pensarem que a canção acabou, ela não acaba. Apenas continuem tocando. É uma longa música”.

If You See Her, Say Hello - Para Michael Gray, é a reescrição de “Girl from the North Country”. A versão do disco é arrastada, sensível, mas menos intensa que a de New York. Impossível não sentir compaixão ao ouvir: “Either I’m too sensitive or else I’m gettin’ soft”.

Shelter from the Storm - Apenas três acordes são necessários para descrever o estado tempestuoso em que o narrador se encontra. Porém, a letra e a intepretação de Dylan vão além. Muito além: “I bargained for salvation and they gave me a lethal dose/ I offered up my innocence and got repaid with scorn”.

Buckets of Rain - Inspirada na melodia de “Bottle of Wine”, de Tom Paxton, Shelton que as imagens são “risos para não chorar” e define a música como “o vento idiota sopra uma chuva pesada na Rua da Desolação”.

Concluindo: por que é o melhor disco de Dylan para sua história?

“Eu sou um mistério apenas para aqueles que não sentiram as mesmas coisas que senti”.

“Muitas pessoas me disseram que gostaram deste álbum. É difícil para mim me relacionar com isso – quero dizer, as pessoas apreciando este tipo de sofrimento.”
Bob Dylan

Aliado ao contexto desesperador de Dylan, Blood on the Tracks também pode ser considerado o ápice da criação lírica de Dylan. Se é necessário responder a pergunta com apenas uma frase, a minha seria: porque nenhum álbum dele foi tão verdadeiro e confessional.

Em um artigo escrito em 1975 e intitulado “Um álbum de feridas”, Greil Marcus começa afirmando que Bob não estava brincando quando ele chamou seu novo disco de Blood on the Tracks, já que as canções está cobertas de sangue.

O disco é o registro de uma sangria verborrágica. Mesmo bem lapidada, soa transparente e úmido de lágrimas.

 

5 Responses to O melhor disco de Dylan (pt. 2): Para a história de Dylan

  1. Alexandre disse:

    Minha tese é a seguinte: Nessa época Dylan andou lendo Álvares de Azevedo mas não quis admitir.

  2. Carolina disse:

    Mais provável que ele tenha lido Checov, meu caro Alexandre.

  3. Eduardo disse:

    Pra variar, mais um post que me deixou boquiaberto. Brilhante.
    “Os Sofrimentos do Jovem Werther” talvez fosse um dos livros que ele estivesse lendo na época…

  4. […] durante horas. “Up To Me” foi gravada durante as sessões acústicas de New York para o disco Blood On The Tracks. Sua melodia e abordagem lembram bastante “Shelter From The Storm” (o que talvez explique sua […]

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