Bryan Ferry e seu “Dylan para leigos”

O britânico Bryan Ferry fez sucesso nas décadas de 70 e 80, quando esteve à frente do Roxy Music, grupo que influênciou diretamente o movimento New Wave. A banda durou até 1983, quando fez um hiato que terminaria apenas em 2001 com uma reunião que dura até os dias de hoje.

Em 2007, Bryan Ferry gravou o álbum Dylanesque, que obviamente continha apenas canções de Bob Dylan. Apesar do Roxy Music ter como característica sonora o uso de instrumentos eletrônicos, o álbum gravado por Ferry em seu projeto solo tem uma atmosfera crua, sem aparentar ser um álbum cantado por alguém que fez sucesso com New Wave.

O álbum contém onze canções, que passam por várias fases de Bob Dylan. Ainda assim, sete das onze faixas são músicas gravadas por Bob na década de 60.

Os arranjos são bons e se distanciam com qualidade das versões originais. Ouço o álbum com prazer, mas não acho que ele esteja entre as melhores interpretações de músicas dylanescas. Pareceu-me superficial, sem conseguir atingir o ouvinte com a mesma intensidade que as canções naturalmente têm.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=D8NCSx31gws]

A versão de Bryan para Simple Twist Of Fate exemplifica bem essa minha aparência. Ela é gravada como um rock divertido e levemente rápido, ignorando a essência da canção: um relato triste, cansado e melancólico.

Vejo Dylanesque como um bom início para quem quer começar a entrar no mundo de Bob Dylan. As versões são mais palatáveis e a sonoridade bem mais acessível. Mas, mesmo com os “defeitos”, a máxima se mantém: ninguém canta Dylan como Dylan.

Abaixo, a lista das músicas do álbum (com links para vídeos do YouTube) e onde é possível encontrar a versão original de Dylan.

1- Just Like Tom Thumb’s Blues
Álbum: Highway 61 Revisited

2- Simple Twist of Fate
Álbum: Blood on the Tracks

3- Make You Feel My Love
Álbum: Time Out of Mind

4- The Times They Are a-Changin’
Álbum: The Times They Are a-Changin’

5- All I Really Want to Do
Álbum: Another Side of Bob Dylan

6- Knocking on Heaven’s Door
Álbum: Pat Garrett & Billy the Kid

7- Positively 4th Street
Álbum: Bob Dylan’s Greatest Hits

8- If Not For You
Álbum: New Morning

9- Baby Let Me Follow You Down
Álbum: Bob Dylan

10- Gates of Eden
Álbum: Bringing It All Back Home

11- All Along The Watchtower
Álbum: John Wesley Harding

Moptop Madness: Bob Dylan vs. Bobby McFerrin

O site Cover Me organizou uma competição para o mês de março entre várias versões de outros músicos sobre canções dos Beatles. No total serão 64, divididos em embates entre duas músicas.

Bob Dylan participa representado por sua versão ao vivo de Something, do amigo George Harrison. A interpretação dylanesca é confrontada com a cover de Blackbird, feita pelo músico Bobby McFerrin.

Ouça a versão dylanesca:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=JnIxx1S0nCQ]

Para votar e ouvir a versão de McFerrin, acesse o Cover Me.

A relação esfumaçada entre Dylan e os Beatles

De uma maneira didática (e superficial), podemos afirmar que Bob Dylan e Beatles tiveram importâncias distintas nos anos 60: enquanto os Beatles transformaram o rock em um produto focado na juventude, com uma forma mais ampla do que a geração roqueira da década anterior, Bob Dylan expandiu os conteúdos das letras, introduzindo uma linguagem mais poética e sugerindo questionamentos contemporâneos nas músicas que tocavam em rádio. Assim, Beatles está para forma como Dylan está para o conteúdo das canções dos anos 60 (como eu disse, de uma maneira bem didática).

Ainda assim, é inegável a relação mutualística entre os dois. Ao ouvir os Beatles, Dylan afirma que percebeu que uma linha havia sido traçada, um marco na história da música pop. Já Lennon compôs várias músicas sob influência dylanesca. Ian MacDonald afirma que I’m a Loser, gravada no dia 14 de agosto de 1964 e lançada no álbum Beatles For Sale, foi a primeira música composta por Lennon que aflorava essa referência (ou reverência).

Contudo, talvez o maior benefício de Dylan na carreira dos Beatles não estava nas suas letras ou em sua sonoridade, mas num encontro nebuloso entre as duas super-potências do pop.

A data é imprecisa. Alguns autores afirmam que o encontro ocorreu dia 24 e outros informam que a data foi dia 28 (o vídeo abaixo informa que foi 30/08). O fato é que em agosto de 1964, após um show feito pelos Fab Four em Forest Hills, o grupo se encontrou com Dylan no Hotel Delmonico, em Manhattan.

Após serem apresentados pelo amigo em comum Al Aronowitz, Bob Dylan tirou um baseado (ou cigarro de maconha para os leigos) e ofereceu aos jovens de Liverpool. A lenda é que Bob Dylan achava que os Beatles eram íntimos da droga, pois ao ouvir a música I wanna hold your hand, Dylan interpretou “I get high” ao invés de “I can’t hide”. A verdade é que os Beatles sempre foram usuários de álcool, mas nunca tiveram contato com o “cigarro dos artista”.

Durante a experiência, Paul McCartney ficou surpreso com a sensação e pediu que para que seu gerente de palco, Mal Evans, escrevesse tudo que dissesse. Durante a viagem, ele descobriu o significado da vida e, segundo as anotações de Evans, a resposta era: existem sete níveis.

O canal do Youtube Meth Minute 39 publicou há algum tempo um vídeo que ilustra esse famoso encontro que resultou numa mudança drástica na abordagem muscial do quarteto.

O mais irônico é que a influência da maconha na música dos Beatles não agradou Dylan. Segundo Marianne Faithfull, em um outro encontro entre Bob e McCartney, o baixista dos Beatles mostrou a criação mais recente da banda, a psicodélica Tomorrow Never Knows. Ao colocar o vinil no toca-discos, Paul, que estava entusiasmado, deu um passo para trás e esperou o retorno de Dylan. Bob, ao ouvir, simplesmente saiu da sala.