Google Maps Dylanesco #2: The Never Ending Tour

No final de maio, foi publicado um mapa dos lugares citados por Dylan em suas letras. Já na semana passada, para comemorar os 25 anos do início da “Never Ending Tour” de Bob Dylan, o Atlantic Cities publicou uma matéria recheada de curiosidades sobre a histórica turnê.

Apesar de Dylan já ter afirmado, nas notas do disco World Gone Wrong, que a série de shows intitulada “The Never Ending Tour”, ironicamente, teve um fim em 1991 – após a saída do guitarrista G.E. Smith.

Preciosismos (mais ou menos) a parte, o jornalista Eric Jaffe montou um mapa com todos os lugares que Bob já tocou neste quarto de século:

Além do fabuloso mapa, Jaffe ainda compilou alguns dados bem interessantes:

  • Mínimo de 2.503 apresentações, em 808 cidades ao redor do mundo;
  • A distância percorrida neste período é de mais de 1.620.932 quilômetros.

Abaixo, a relação completa das cidades e a quantidade de vezes que Dylan tocou em cada uma delas:

Bob Dylan, 72 anos: compreendendo Dylan

“Compreender é sentir… a habilidade de explicar não significa nada.” – Paul Williams

Bob Dylan, 72 anos

Tão prodígio quanto o próprio Dylan, o então garoto de 18 anos Paul Williams escreveu em julho de 1966 um artigo batizado de “Compreendendo Dylan”. O texto foi publicado na quarta edição da revista criada pelo próprio Paul, a lendária Crawdaddy!, que fortalecida pela foto de Bob na capa vendeu mais de 400 cópias só durante um Newport Folk Festival.

Neste ensaio, Paul Williams diminui a importância de se saber mínimos detalhes biográficos e sugere que se aprecie – e experiencie – mais as músicas de Dylan.

Num certo momento, Paul utiliza de uma analogia muito interessante para explicar a “função” dos poetas (como Dylan): ao invés de explicar detalhadamente o que ele viu – e o que ele acredita que viveu – o artista tenta fazer com que você sinta o que ele sentiu. No final, o mais importante não é exatamente explicar, ou de falar do que se trata a música, mas de te mostrar a complexidade dos sentimentos e vivências embutidos na canção.

Ele não te dá uma descrição, ele te fornece uma experiência. Daí a frase que usei como epígrafe. Mas apesar da afirmação categórica, o Paul Williams não diminui a função do crítico musical. Para ele, o crítico sensível deve ser um guia, que ao invés de parafrasear a canção, tenta mostrar às pessoas como apreciá-la.

E Paul Williams foi realmente um crítico de muita sensibilidade. Coincidentemente, comecei a ler um livro seu semanas antes dele falecer e o que mais me chamou a atenção foi a proximidade de sua escrita (não à toa, Bob Dylan o convidou para acompanhar alguns shows em 1980).

Portanto, este breve devaneio que faço é uma homenagem dupla: a Paul, por abrir nossa mente para um olhar tão sensível; e a Bob, que foi quem fez com que o crítico desenvolvesse este dom.

* * *

Este é o terceiro post que faço usando o aniversário de Dylan para falar de sua arte (e parafraseando Paul, se você não considera a obra de Bob uma arte, eu não vou debater isso agora e não sei como você conseguiu ler até aqui). Relendo os dois posts anteriores, alguns textos me chamaram a atenção.

No primeiro, escrevi:

“Todo sentimento humano talvez possa ser representado por uma canção dylanesca. Mais do que isso: todo sentimento humano talvez seja melhor ilustrado atraves de sua música.”

E no segundo:

“Mesmo soando contraditório, ele é um sonegador do próprio passado ao mesmo tempo que dialoga com tudo o que já fez. Revisita suas músicas mas, ao invés de requentar todo o sabor criado, refaz todo o prato e cria novos aromas para as mais de 500 receitas.”

Acho que continuo concordando com os dois trechos – apesar de querer, como é comum em releituras próprias, mudar isso ou aquilo -, mas foi após ler alguns textos de Paul Williams que eu tiveBob Dylan, 72 anos mais uma ideia do que é a música dylanesca.

Ouvir Bob Dylan é imergir num mundo tão complexo quanto belo. É passear por jardins, ruas, avenidas e todo tipo de lugar que significa e re-significa a todo momento.

É presenciar diálogos sensíveis ou ácidos que você com certeza reutilizará em algum momento de sua vida – ou desejará tê-los usado. É entender um pouco mais a mediocridade humana e, de alguma maneira, saber contemplá-la mesmo com todo o horror.

É acompanhar as mutações de um artista, revisitar seus sentimentos e expectativas e trabalhar suas próprias frustrações diante de uma música em estado de transfiguração.

É saber, acima de tudo, estar aberto a absorver de peito aberto tudo aquilo que ele tem para te oferecer.

Talvez seja essa a “função” de Bob Dylan: te ensinar a viver.

E que ele continue nos ensinando.

Happy Birthday, Mr. Dylan.