Sinestesia dylanesca Plus

Oscar Fortunato é um artista plástico brasileiro que consegue absorver a essência do universo dylanesco no seu trabalho. Em suas obras com influência direta do cantor é possível perceber uma abordagem engajada, mas não estritamente política – algo facilmente encontrado em boa parte das canções de Bob Dylan.

OUTSIDER

Em 2009, por exemplo, Oscar utilizou do conhecido “lambe-lambe” para criar em Goiânia e Brasília uma inteligente exposição a céu aberto que integrou o projeto OUTSIDER (com um belíssimo texto de abertura do dylanesco-mor Eduardo Bueno).

POSTAIS DO ABISMO
Eduardo Bueno

Sou portador de boas novas.
Novas e boas, meus bons moços.
O circo chegou à cidade. E não para vender cartões-postais de enforcados.
Mas cartazes de foras-da-lei com as cabeças a prêmio.
Procura-se!
(encontrar é o de menos – a não ser que você esteja se achando).
O salão de beleza está repleto de marmanjos & marujos & marchands cegos.
Eles se põem em marcha para vender manchas e manchar reputações.
Eles usam black-tie.
Compradores de promessas por um punhado de dólares, dando tiros no escuro.
Oscar Fortunato chega ao baile de gala achando que é baile de máscaras.
Mas ficou bem de Charada na festa à fantasia, em meio aos pingüins de smoking.
O Coringa traz um ás na manga: um valete que se abre em copas.
É Jack of Hearts na cabeça, diz o Jokerman.
É o rei dos caras de pau. Tem olho de vidro e cara de mau.
Debaixo do braço, não uma caixa de violino,
mas a vitrola-metralhadora de matar fascistas.
Essa máquina funciona bem desde a já era do LP.

Estilhaços de poema para todo o lado.
Sangue sobre tela, respingando no linóleo
como pedaços de um espelho partido.
Plácidos linoplastos borrifados de borrões.
Técnicas mistas em papel duro, oxidando nos dedos.
Oscar dá as tintas: um chope e dois pastel oleoso.
Painting box & tinteiro com nanquim a serigrafar o inserigrafável.
Aqui estão os outdoors da percepção, repletos de outsiders & outcasts,
out there.
Alto lá. Mãos ao alto – e pé na estrada.
Trocando os pés pelas mãos, pausa para aplausos:
Bem vindo ao Bob pop show. E Bob não é bobo:
Na era do acrílico, está em busca de uma gema.
But we know he doesn´t talk.
Mas avista e avisa: melhor entrar na arca antes do dilúvio universal.
A hard rain is gonna fall – e não é chuva de estrelas.
Eu ia lhe chamar enquanto corria a barca.
Só que o afortunado Oscar não está lá.
E não está aqui: tá nem aí.
Ele está certo que é um errante.
Pegou um big yellow táxi e foi-se embora, de carona com Lenny Bruce,
enquanto Ginsberg uiva o Kaddish e, em bom português, Kerouac diz:
“Fui-me de boleia ao Orégão!”
Luzem os lusíadas nos tristes trópicos.
Novos tópicos? Oscar topa todos.
Mas não topa tudo por dinheiro.
Sabe que é solitário lá no topo.

Alguém poderá dizer: faltou Einstein disfarçado de Robin Hood!
Mas isso aqui não é a travessa da desolação, meu chapa.
Nem o boulevard dos sonhos perdidos.
É a autopista, o autorama, a auto-estrada autoral do auto-conhecimento.
Não entendeu nada?
Nem pense duas vezes: it´s allright, ma.
Estamos apenas sangrando.
So let it bleed & let it beat.
Soa esse som estranho em seus ouvidos.
Não são nossos últimos suspiros.
São respostas que não querem calar, blowin in the wind.

Além das frases traduzidas de canções de Bob Dylan, o restante da exposição continha obras que absorveram o contexto em que Dylan é inserido. Nas obras, há também referência a Woody Guthrie (na vitrola preta com a placa “This Machine Still Kills Fascists”) e Jack Kerouac – como um dos protagonistas de “Lily, Rosemary and The Jack Of Hearts”.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Wv6DXW0WDNE]

Durante a vernissage em Brasília, o Senador Eduardo Suplicy esteve presente e até entoou sua famosa versão a cappella de “Blowin’ In The Wind”:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=gpoO4bvL38o]

PLUS

A partir das criações de Oscar, sua mulher Lydia Himmen – que gerenciava os trabalhos do artista – resolveu expandir sua atuação. Ao invés de criar uma galeria fixa e restringir seu público apenas à Goiânia, onde residem, Lydia criou uma galeria virtual para representar Oscar e vários outros artistas. Assim nascia a Plus.

Isso foi em 2010. De lá pra cá, “things have changed” pra muito melhor, com o crescimento do acervo e do número de artistas que integram a Plus. Agora, em comemoração aos dois anos da galeria, Lydia e Oscar farão um Plus Open House, que acontece no próximo sábado (9 de junho).

Além de abrir a casa+atelier+escritório, Oscar fará impressão de Linoplastos, Gravuras e camisetas com telas de sua autoria.

Plus Open House
Quando: 09 de junho de 2012
Onde: rua 114, 70. St Sul. Goiânia , GO
contato@plusgaleria.com

Clique aqui e conheça outras obras de Oscar Fortunato.

Bob Dylan recebe de Obama “Medalha da Liberdade”

Bob Dylan esteve hoje a tarde na Casa Branca para receber diretamente do presidente americano Barack Obama a Medalha da Liberdade, a mais alta condecoração civil do país – criada pelo presidente Kennedy em 1963. Além de Dylan, outras 12 pessoas foram homenageadas no evento.

Quem não tem colírio…

Bob Dylan estaria em pleno acordo com a solenidade, vestindo um Black-Tie (cujo terno parecia ter saído do seu guarda-roupa de show), se não fosse por um pequeno detalhe: Dylan estava usando óculos escuro – aparentemente um Ray-Ban Caravan.

Será que Bob, fazendo jus a máxima raulseixista, colocou as lentes escuras para não transparecer uma influência? Vale lembrar que em 1970, quando ele estava relutando em receber uma honraria da Universidade de Princeton, Bob foi convencido por Sara e David Crosby (ex-integrante dos Byrds) a ir ao evento, mas só compareceu após fumar uma boa quantidade de maconha (Dylan cantaria sobre esse dia na música “Day of The Locust”, do álbum New Morning).

Veja o trecho em que Obama coloca a medalha em Bob:

“Come on, Bob”

Antes de entregar as medalhas, Obama fez um breve discurso sobre a importância das pessoas que receberiam a condecoração.

“Esses extraordinários homenageados vêm de diferentes origens e diferentes esferas da vida, mas cada um deles fez uma contribuição duradoura para a vida da nossa nação”. Sobre Dylan, Obama recordou-se:

“E eu me lembro de estar na faculdade ouvindo Bob Dylan e meu mundo se abrir, porque ele capturou algo sobre este país que foi tão vital”.

Ao ser chamado pela locutora do evento, Bob Dylan se manteve parado, como se não tivesse prestando atenção em todo o cerimonial. Obama interviu: “Come on, Bob” e só então ele se levantou para receber a homenagem.

Enquanto uma descrição sobre sua importância era ditada, Dylan permaneceu alheio e parecendo indiferente, sem demonstrar qualquer reação. Após receber sua medalha, comprimentou Obama quase com desdém e voltou ao seu lugar.

Além de Bob Dylan, outros músicos já receberam a medalha, como: Frank Sinatra, Count Basie, B.B. King, Pablo Casals, Ella Fitzgerald e Aretha Franklin.