Sessões dylanescas (ou mutações instantâneas)

Entre todos que tocam com Dylan, é praticamente unanimidade a opinião de Bob Dylan necessita que sua canção seja tocada de maneira intuitiva, sem passar por uma racionalização que a torna fria e distante. Nos relatos das sessões de gravações, muitos músicos afirmam que após duas ou três tentativas frustradas, Bob Dylan muda algo – tempo, ritmo, acordes, entonação e até mesmo tudo – para trazer o frescor novamente à música.

Like a Rolling Stone

A batida inicial da caixa da bateria é tida como um marco na música. Para muitos, incluindo Bruce Springsteen, toda a atmosfera de “Like a Rolling Stone”, que se inicia com uma rajada da bateria e prossegue com o Hammond, guitarra e, claro, a voz de Dylan, obriga qualquer um a prestar a atenção nos próximos seis minutos e onze segundos.

Mesmo assim, engana-se quem acha que Bob Dylan apareceria no estúdio no dia 15 de junho de 1965 com toda esta revolução em mente. De fato ele sabia que o conteúdo possuía algo de especial, mas também sabia que dependeria dos músicos para conseguir que a música falasse tudo aquilo que sua letra dizia.

Nas primeiras versões, em um ritmo de valsa, “Like a Rolling Stone” não tem a raiva da vingança tão intrínseca a letra. Outra coisa que se percebe, é a ausência da tão famosa caixa da bateria. Ela, como muitas outras coisas na obra dylanesca, foi um momento único, mas que dessa vez foi beneficiada pelo registro fonográfico.

Ouça alguns takes de “Like a Rolling Stone”:

Tell Ol’ Bill

Já no século XXI, outra sessão de gravação veio a público. “Tell Ol’ Bill” foi escrita especialmente para o filme “North Country” (2005), estrelado pela atriz Charlize Theron. O filme registra um dos casos mais famosos de abusos sexuais dos EUA, mas a versão escolhida para a trilha tem uma abordagem solta e descontraída. A faixa que entrou na trilha se baseia na canção “I Never Loved But One”, da Carter Family.

Em 2008, a Columbia lançou o álbum “Tell Tale Signs”, o oitavo volume da “Bootleg Series”. Nele, incluiu uma versão mais soturna e levemente raivosa da canção.

Contudo e como sempre, a “Bootleg Series” é sempre uma compilação raquítica se comparada ao material existente no “mercado negro”. Abaixo, a sessão da gravação de “Tell Ol’ Bill” e os inúmeros caminhos traçados por Dylan.

Os dois exemplos acima ilustram bem o fenômeno que ocorre na cabeça de Dylan e na maturidade cobrada por ele dos músicos que o acompanham. Mais do que uma “banda de apoio”, Bob Dylan necessita de estruturas fortes, porém versáteis, para embasar todas as suas intenções, que variam em questão de segundos.

Michael Moore e sua participação dylanesca em “Occupy This Album”

O cineasta Michael Moore participou do disco “Occupy This Album” cantando a música “The Times They Are A-Changin’”. Em sua releitura, Moore fez uma alteração na letra: no trecho “Come senators, congressmen, Please heed the call, Don’t stand in the doorway, Don’t block up the hall”, ele substituiu “block up” por “fuck up”.

Ouça a versão de Michael Moore para “The Times The Are A-Changin’”:

O projeto tem como objetivo, além de fornecer recursos para o movimento “Occupy Wall Street”, documentar as várias músicas que trilharam os dias de ocupação. Para manter a temática “99%”, “Occupy This Album” terá 99 faixas (em quatro CDs). Além do cineasta, diversos músicos participaram, como: Ani DiFranco, Crosby and Nash, Jackson Browne, Tom Morello, Willie Nelson, The Guthrie Family e muitos outros.

O lançamento será dia 15/05.

Momentos dylanescos pela América do Sul

Cada um que presenciou uma apresentação de Bob Dylan terá em sua mente um momento marcante. Há quem diga que o cantor olhou diretamente para o olho de quem conta a história; outros vão narrar com riqueza de detalhes os passos dylanescos ao longo dos shows ou fazer longas análises sobre a maneira como a música pulsava.

Repertório do show de Porto Alegre com as tonalidades de cada música. As marcações em caneta me parecem ser das guitarras usadas por Charlie Sexton em cada canção.

Eis apenas alguns pequenos momentos que ajudaram a tornar inesquecível a passagem de Bob pela América do Sul em 2012.

How Does It Feel?

O quê dizer do momento altruísta de Dylan, quando ele presenteou os mineiros ao deixar que apenas a platéia de Belo Horizonte cantasse o refrão de “Like a Rolling Stone”?

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To Make It Better

Aqui, um detalhe sutil que abriu a mente de todo mundo que ouviu. Na mesma semana que Bob se apresentava em Porto Alegre, Paul McCartney fez show em Florianópolis. Na hora de apresentar sua banda, após falar de Charlie Sexton, Bob Dylan rascunhou um pequeno trecho de “Hey Jude” e emocionou a todos.

Before he can hear…

Na última canção do último show na Argentina, durante “Blowin’ in the Wind”, um rapaz conseguiu subir ao palco e tascou – ou tentou – um beijo em Dylan (próximo ao minuto 6:00). Apesar de se assustar com a invasão, Bob não se mostrou nenhum nervosismo e continuou a canção como se nada tivesse acontecido. Curiosamente, relatos informaram que o “vândalo” foi colocado de volta ao seu assento pela segurança da casa.

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