What Was It You Wanted (ou o preço da fama)

Uma de suas músicas favoritas, Suze Rotolo cita em seu livro What Was It You Wanted como uma canção que só Bob Dylan poderia escrever. Para ela, além de mostrar a essência do cantor, a letra contém o humor cáustico e a habilidade de Dylan em juntar diversos significados em sua volta.

Suze ainda complementa, afirmando que as canções do começo da carreira de Bob, época em que eles namoravam, são “cruas”. Ela diz conseguir ver todos os reais significados, já que convivia com seu compositor.

What Was It You Wanted foi gravada no álbum Oh Mercy, de 1989. Com uma atmosfera sombria, Bob Dylan faz diversos questionamentos que soam como um interrogatório, mas que podem ser interpretados como um reflexo de um interrogatório.

No primeiro volume de suas memórias, Crônicas, Bob relata que compôs rapidamente e de uma vez só, tanto a melodia quanto a letra. E explica:

“Você tem que ser econômico ao escrever uma canção dessas. Se você já foi objeto de curiosidade, sabe do que essa canção trata. Não precisa muita explicação. Gente meiga e indefesa às vezes faz o maior barulho. Podem atrasar você de muitas maneiras. É inútil resistir ou lidar com elas pela força. Às vezes você tem apenas que morder o seu lábio superior e colocar os óculos escuros. Canções como essa são cães estranhos. Não são boas companhias.”

Portanto, What Was It You Wanted é sobre a pressão da fama e a exigência do público em ter tudo que é possível, e impossível, do artista. Talvez para exemplificar essa perseguição, Bob Dylan termina a música com a mesma pergunta que Travis Bickle, de Taxi, se faz para o espelho, enquanto está sozinho no quarto.

A imagem da capa de Oh Mercy é de autoria de um artista chamado Trosky. Bob se deparou com a imagem nas ruas de Manhattan (mais exatamente na 9th Avenue com a 53rd St). Trotsky recebeu US$5.000 pela imagem e Dylan ainda ajudou no pagamento do aluguel de sua casa. Em entrevista à revista People, Trotsky conta também que se sentiu lisonjeado ao ser questionado por Bob se o nome do disco combinava com a arte.

Alguns anos depois, no disco Across the Borderline, Willie Nelson faria uma versão parecida, mas com sua voz inigualável.

Under the “Ray” sky

Além de Zé Ramalho, considerado por alguns o Bob Dylan do sertão, hoje seria o aniversário de 57 anos de Stevie Ray Vaughan. O guitarrista morreu no dia 26 de agosto de 1990 em um acidente de helicóptero, após tocar em um show ao lado de Eric Clapton e Robert Cray para cerca de 25 mil pessoas.

E foi no seu último ano em vida que seria lançado o álbum Under The Red Sky, de Bob Dylan. Stevie Ray Vaughan e seu irmão Jimmie tocaram guitarra nas canções: 10,000 Men, God Knows e Cat’s in the Well. Jimmie participaria também na música Handy Dandy.

O álbum foi produzido por Don Was e Jack Frost (um dos heterônimos de Bob Dylan). Don Was já havia produzido Carly Simon, o B52’s e Bonnie Raitt. O timbre do disco é mais limpo, jovial, como se Dylan quisesse se aproximar dos jovens. Além dos irmãos Vaughan, outros músicos famosos foram recrutados. Veja o nome de alguns e as músicas que participaram:

  • Al Kooper (autor do órgão de Like a Rolling Stone) – órgão em Under The Red Sky, Unbelievable, Handy Dandy;
  • David Crosby (The Byrds e Crosby, Still, Nash & Young) – Backing vocals em Born In Time, 2 x 2;
  • Elton John – Piano em 2 x 2;
  • George Harrison – Slide guitar em Under The Red Sky;
  • Paulinho da Costa (percussionista brasileiro) – Born in Time, 2 x 2, God Knows, Handy Dandy;
  • Randy Jackson (Gravou o clipe de Most of the Time e depois participaria do American Idol ) baixo em Wiggle Wiggle, Born in Time, T. V. Talkin’ Song, 2 x 2;
  • Robben Ford – guitarra em Born In Time, T. V. Talkin’ Song;
  • Slash (Guns’n’Roses) – Wiggle Wiggle

Curiosidade (ou fofoca): No encarte, há um agradecimento à Carole Childs, possivelmente sua namorada/amante e o álbum é dedicado à “Gabby Goo Goo”, também conhecida como Desiree Gabrielle Dennis-Dylan, filha de Dylan com sua então esposa Carolyn Dennis (Carolyn e Bob foram secretamente casados entre 1986 e 1992).

50 anos da resenha de Robert Shelton

O jornal New York Times foi fundado em setembro de 1851. 110 anos se passariam até que, no dia 29 de setembro de 1961, Robert Shelton publicasse sua resenha sobre Bob Dylan. Semanas depois, o cantor seria convidado por John Hammond para assinar um contrato com a Columbia, mudando sua carreira e seu tempo. Este seria o primeiro de muitos escritos de Robert Shelton sobre Bob. O jornalista escreveria pelos próximos 20 anos a biografia No Direction Home.

Hoje, portanto, faz 50 anos da publicação desta matéria.

Abaixo, o texto na íntegra:

Bob Dylan: A Distinctive Folk-Song Stylist

 

A bright new face in folk music is appearing at Gerde’s Folk City. Although only 20 years old, Bob Dylan is one of the most distinctive stylists to play in a Manhattan cabaret in months.

Resembling a cross between a choir boy and a beatnik, Mr. Dylan has a cherubic look and a mop of tousled hair he partly covers with a Huck Finn black corduroy cap. His clothes may need a bit of tailoring, but when he works his guitar, harmonica or piano and composes new songs faster than he can remember them, there is no doubt that he is bursting at the seams with talent.

Mr. Dylan’s voice is anything but pretty. He is consciously trying to recapture the rude beauty of a Southern field hand musing in melody on his porch. All the “husk and bark” are left on his notes and searing intensities pervades his songs.

Mr. Dylan is both comedian and tragedian. Like a vaudeville actor on the rural circuit, he offers a variety of droll musical monologues: “Talking Bear Mountain” lampoons the overcrowding of an excursion boat, “Talkin’ New York” satirizes his troubles in gaining recognition and “Talking Havah Nageilah” burlesques the folk-music craze and the singer himself.

Slow-motion Mood

In his serious vein, Mr. Dylan seems to be performing in a slow-motion film. Elasticized phrases are drawn out until you think they may snap. He rocks his head and body, closes his eyes in reverie and seems to be groping for a word or a mood, then resolves the tension benevolently by finding the word and the mood.

Mr. Dylan’s highly personalized approach toward folk song is still evolving. He has been sopping up influences like a sponge. At times, the drama he aims at is off-target melodrama and his stylization threatens to topple over as a mannered excess.

But if not for every taste, his music-making has the mask of originality and inspiration, all the more noteworthy for his youth. Mr., Dylan is the more noteworthy for his youth. Mr. Dylan is vague about his antecedents and birthplace, but it matters less where he has been than where he is going, and that would seem to be straight up.