A Hard Rain’s A-Gonna Fall (ou a descrição do medo e a discrição do terror)

Updade (2024): comecei um podcast para abordar diversos temas e os dois primeiros episódios são sobre essa canção. Conheça o Podcast Dylanesco, disponível no Spotify, Amazon Music, Apple Podcast e Youtube.

Em outubro de 1962, os EUA viviam seu momento mais tenso na Guerra Fria. Após instalarem mísseis nucleares na Turquia apontados para a URSS, os americanos viram seu arquiinimigo fazer o mesmo ao colocar mísseis na costa de Cuba, todos apontados para o território rival.

Apelidada de Crise dos mísseis, a tensão ia além de um iminente embate: era a consolidação de uma guerra nuclear. Uma guerra que poderia ficar sem vencedores, já que devastaria boa parte do nosso planeta – ou simplesmente sua totalidade.

O episódio influenciou Bob Dylan em ao menos duas canções. Let me die in my footspeps – inicialmente intitulada I will not go down under the ground – era uma música quase descritiva da situação: houve um crescimento na venda de tijolos e cimentos nos EUA, já que inúmeros cidadãos montaram abrigos subterrâneos para um possível ataque russo. Um Dylan patriota, percebendo a possível destruição total de seu país, se recusa a descer e prefere morrer na sua terra, com o orgulho de ser parte dela.

Contudo, assim como fez em algumas canções de protesto (vide Only a pawn in their game), Dylan também focou não apenas no fato, mas refletiu sobre as origens e os possíveis resultados desse embate.

A Hard rain’s a-gonna fall foi lançada no álbum “The Freewhelin’ Bob Dylan” (1963) e gravada em apenas um take no dia 6 de dezembro de 1962, no estúdio A da Columbia em New York. A melodia e a estrutura básica – como um diálogo – foram emprestadas da canção tradicional “Lord Randall”. Nela, um jovem e a mãe conversam e, aos poucos, revela-se que o filho está morrendo por envenenamento.

Ao vivo no Carnegie Hall Hootenanny – 22 de September 22 de 1962

Bob converte a música para uma problemática contemporânea. Sobre sua versão, ele afirma que “cada frase é na verdade uma música inteira. Mas quando a escrevi acreditava que não viveria tempo bastante para escrever muitas mais, então coloquei tudo o que pude nela.”

Durante a turnê The Rolling Thunder Venue, em 1975 (3ª estrofe)

Todas as estrofes iniciam com um questionamento para o “filho de olhos azuis”: Onde ele esteve, o que ele viu, o que ele ouviu, quem ele conheceu e, finalmente, o que ele fará com a chuva que está prestes a cair.

Gravação de estúdio de 2008

Para o jornalista Anthony Scaduto, Dylan explica que não se trata de uma alusão a uma chuva nuclear, mas “apenas” de algum tipo de fim que está prestes a acontecer. Bob afirma que a frase que explica a chuva está na última estrofe, “Where the pellets of poison are flooding their waters” [Onde as gotas de veneno inundam suas águas]. Como veneno, ele diz considerar todas as mentiras que são empurradas para dentro dos cérebro dos americanos, principalmente em rádios e jornais.

EDIT: Infelizmente o vídeo foi excluído, mas recomendo procurar essa versão
Ao vivo em Amherst, no dia 19/11/2010 (5ª estrofe) – Atualmente é a versão que mais me chama a atenção, principalmente a interpretação de Dylan nessa estrofe. É interessante perceber como o fraseado na guitarra de Charlie Sexton vai regendo e influenciando Bob na forma de cantar, que cresce gradativamente até seu ápice.

Nas suas respostas às questões, Bob utiliza imagens inéditas no linguajar usado pela música popular da década de 60. Acima de tudo, é uma canção que expressa terror e medo, sem um foco pré-definido. Não há menção à guerra nuclear, chuva radioativa, segregação racial ou a qualquer tema específico. A música incita o ouvinte a refletir sobre seus próprios medos, discutir a iminência de que algo ruim possa acontecer através de seus próprios sentimentos.

Abaixo, uma versão completa de “A hard rain’s a-gonna fall”, gravada em 10 de março de 1964.

Top5 – I shall be released

Em 1966, Bob Dylan sofreu um acidente de moto que o tirou da turnê infinita que estava fazendo. Para se recuperar, hospedou-se em uma casa na região bucólica de Woodstock (sim, a mesma que abrigaria o festival hippie anos depois). Sua banda de apoio da época, The Band, também se hospedou na mesma região e todos passaram os últimos três anos da década de 60 ensaiando diariamente, mas sem nenhum plano de voltarem para estrada tão cedo.

Boa parte desses ensaios foi gravada e seria compilada no álbum duplo The Basement Tapes, lançado apenas em 1975. Contudo, uma das melhores canções de Bob Dylan dessa safra ficaria de fora dessa compilação. A primeira aparição de “I shall be released” seria no álbum de estréia do The Band, Music From Big Pink (Big Pink era o apelido da casa do grupo em Woodstock). Ao longo dos anos, diversas outras pessoas gravaram essa música (a enciclopedia dylanesca Keys To The Rain apresenta mais de uma página só com referencias de gravações) e Dylan tocaria frequentemente em seus shows. A versão dylanesca de 1967 só seria lançada oficialmente em 1991, na compilação de sobras The Bootleg Series – Vol. 1 – 3

O site PopMatters fez uma seleção das diversas versões dessa música, fiz um Top5 delas:

The Band
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=eBn1_Mq8h0c]

Nina Simone
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=XyCn8IC5RpE]

Mama Cass, Mary Travers & Joni Mitchell
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=8aYAUE6is7I]

Last Waltz – The Band com: Bob Dylan, Joni Mitchell, Neil Young, Van Morrison, Ringo Starr, Eric Clapton, Neil Diamond, Ronnie Hawkins, Dr. John, Ron Wood…
[vimeo=http://vimeo.com/11869065]

Sting
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=z3MDO3xS584]

*** Bonus!

Joe Cocker (que não estava na lista do PopMatters!)
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Dpyhl85MYmU]

Post publicado inicialmente no blog Pangeia, no dia 14/02/2010

Top5 –  I shall be released

A Billie Holiday caipira (ou a cantora folk favorita de Dylan)

No primeiro volume de sua auto-biografia (Crônicas – Volume Um), Bob Dylan relata o início de sua estadia em New York, quando chegou em Greenwich Village no começo dos anos 60. Ao descrever o famoso Cafe Wha?, Dylan lembra que sua cantora favorita no lugar era Karen Dalton. Bob a descreve como tendo a voz de Billie Holiday e o jeito de tocar violão de Jimmy Reed.

A vida da cantora folk não diverge muito dos percalços da diva do jazz. O vício em heroína e o alcoolismo fizeram com que sua carreira nunca deslanchasse. Lançou apenas dois álbuns – It’s so hard to tell who’s going to love you the best (1969) e In my own time (1971). Ambos foram fracassos de vendas.

Bob Dylan homenageou a cantora na canção Katie’s been gone, gravada no final dos anos 60 em Woodstock com The Band e que entraria no álbum The Basement Tapes (1975).

Karen perderia seus dois filhos, viveria na rua e contairia AIDS. Ela morreu em 1993 aos 55 anos. Recentemente seus álbuns foram relançados e ela passou a ter um melhor respeito após alguns artistas, como Nick Cave e Cat Power, reverenciarem a cantora.

Abaixo, alguns vídeos com canções de Karen Dalton:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=H0ZlWK-b_KY]

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=2oRJyffGdIY]

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=raLXnnlPI_I]

fonte: Dangerous Minds