It ain’t me, babe – A recusa de Dylan

Ao ler a biografia de Bob Dylan lançada em 1972 pelo jornalista Anthony Scaduto (especializado em crimes e que se autoproclamava um expert em Máfia), uma citação de Dylan ficou na minha cabeça.

Scaduto deixou que Bob visse as prévias da biografia, em troca de entrevistas. Em uma delas, Bob afirma:

“Antes de compor John Wesley Harding [álbum de 1967], eu percebi algo sobre todas as canções mais antigas que eu escrevi. Eu descobri que quando eu utilizava palavras como ‘ele’, ‘isto’, ‘eles’ e falava sobre outras pessoas, eu estava na verdade falando em ninguém a não ser eu.”

Outra história que me chamou a atenção foi a mensagem quase subliminar contida na música It’s all over now, baby blue. Muitos biógrafos dylanescos afirmam que a canção é um “término de relação” entre Bob Dylan e todo o movimento folk. Considerando isto, a apresentação de Dylan no Newport Folk Festival de 1965 se torna ainda mais lendária – após tocar três músicas acompanhando por uma banda elétrica, Bob voltou ao palco para apresentar duas canções acústicas: fechou com Mr. Tambourine Man, mas não sem antes dar o seu recado com It’s all over now, baby blue.

Foi então que há algumas semanas eu encontrei na internet um manuscrito da música It ain’t me, babe. Nele, além do rascunho da letra, existem outros poemas e estrofes espalhados. Mas há também um algo que se parece com um desabafo:

“Quantas vezes eu terei que REPETIR que eu não sou um cantor folk antes que as pessoas parem de dizer ‘ele não é um cantor folk’”

Ao ver esse fac-símile, veio-me à cabeça a somatória de todas essas idéias soltas.

It ain’t me, babe é frequentemente interpretada como sendo uma resposta ao “fora” levado por Dylan de sua então namorada Suze Rotolo. A relação conturbada foi retratada em várias canções, como Boots of spanish leather, Ballad in Plain D e Don’t think twice, it’s all right. It ain’t me, babe seria, portanto, uma renúncia de Dylan ao papel Hollywoodiano de um galanteador.

Aqui, Joan Baez interpreta a música e afirma que a canção é anti-casamento. Bob nunca foi de explicar suas canções para as pessoas, nem para amigos/namoradas. Logo, acho que se trata apenas de uma interpretação de Baez, sem se basear em fatos. (Vale lembrar que Bob Dylan casou-se com Sara Lownds em novembro de 1965)

Com a anotação de Dylan no manuscrito acima – aliados aos exemplos já citados -, temos argumentos suficientes para incluir It ain’t me, babe na mesma categoria de It’s all over now, baby blue. Bob Dylan está tentando fugir dos rótulos e principalmente das responsabilidades intrínsecas de um movimento artístico/engajado.

Assim como em diversas músicas dylanescas, o dialogismo está presente nesta canção: a primeira frase (“Go ‘way from my window”) tem referências tradicionais: é o nome de uma canção britânica (gravada, inclusive, por Baez, em 1964, no álbum 5) e também é um trecho de Drop Down Mama, de Sleepy John Estes.

Incrível versão da música num show em Glasgow (2004)

A música é uma recusa a um formato pré-estabelecido de tratamento. Mas acho difícil que seu alvo seja realmente a relação com Suze. Além da frase no manuscrito, a autobiografia de Rotolo mostra que, apesar de Dylan ter um lado mais frio, seu lado romântico e cavalheiro também vinha à tona frequentemente.

Bob Dylan, num ato que ofendeu alguns, renegou não só a função de “porta-voz de uma geração” como preferiu se distanciar dos dogmas do movimento Folk. Seu foco era o desenvolvimento de sua música e poesia. A apresentação de Dylan no Newport Folk Festival de 1965 não teve o intuito de polemizar ou criticar a “instituição” Folk. Bob incluiu a banda porque achava que a música precisava dela.

Na época do lançamento do álbum Highway 61 Revisited, Bob explicou um pouco mais sobre suas ambições e anseios:

“Tudo que eu posso fazer é ser eu – seja quem for – para aquelas pessoas que eu toco e não chegar nelas dizendo coisas que eu não sou. Eu não vou dizer a elas que eu sou um grande lutador de causas ou um grande amante ou um menino prodígio ou qualquer coisa. Porque eu não sou, cara. Porque enganá-los?”

“I’m not the one you want, babe
I’ll only let you down
You say you’re looking for someone
Who will promise never to part
Someone to close his eyes for you
Someone to close his heart
Someone who will die for you and more…
But it ain’t me, babe”

Dois melodramas em uma melodia

Elenco da peça Madhouse on Castle Street

Em 1992, a TV britânica BBC convidou Bob Dylan para participar da peça Madhouse on Castle Street, veiculada no programa Sunday Nigh Play do dia 13 de janeiro de 1963. Ao receber o convite, em dezembro do ano anterior, Bob percebeu que seria uma ótima oportunidade de re-encontrar seu “verdadeiro amor”.

Isso porque sua então namorada Suze Rotolo, a garota que está abraçada com Dylan na capa do álbum The Frewheelin’, viajara para a cidade de Perugia, na Itália, com a mãe e o padrasto para passar as férias, em junho de 1962. Eles partiram de navio no dia 9 e chegaram oito dias depois. Segundo Suze, eles trocaram inúmeras cartas durantes essa época e Bob sempre expressava sua saudade. Porém, alguns amigos relataram a Scaduto que Suze, que era artista plástica, se apaixonou pela Itália, principalmente por encontrar cursos de artes no país. Assim, ela decidiu ficar mais tempo que o previsto.

Antes de ir à Inglaterra para gravar sua primeira performance fora dos Estados Unidos, Bob partiu para a Itália com a cantora Odetta para encontrar Suze no início de janeiro. Contudo, ela voltara para New York apenas alguns dias antes. Dylan afirmou ser nessa época em que ele começou a trabalhar na melodia das canções Girl from north country e Boots of spanish leather.

O instrumental das duas músicas é baseado na antiga e tradicional balada britânica Scarborough Fair, que Bob aprendeu através de uma versão de Martin Carthy. A balada é um diálogo entre um homem e uma mulher, cada um fazendo pedidos ao outro, através de um mensageiro, para que prove seu verdadeiro amor.

Apesar das duas serem finalizadas na mesma época, Girl from north country, lançada no The Freewhellin’ (1963), não é sobre Suze Rotolo. Dylan afirma que estava com a música na cabeça durante muito tempo e remetia a uma paixão da época de colegial, quando morava em Hibbing, a loira e charmosa Echo Helstrom.


Uma curiosidade: no dia 2 de agosto de 1969, Bob Dylan participou do encontro da turma de formandos em Hibbing. Echo também estava no evento e ao perceber a presença de Dylan, pensou em apenas chegar até ele e dizer algo como “Você talvez não se lembre de mim, mas eu gostaria de um autógrafo”. Ao se aproximar, Bob a viu e tomou iniciativa: “Ei! Eu falo de você o tempo todo!” e se vira para Sara, sua mulher, e fala: “Essa é a Echo”. No final da conversa, Echo diz a Bob que compôs uma canção, quando ele pergunta qual o título, ela responde: Boy from north country. Bob apenas ri e fica embarassado.

Girl from the north country empresta o estilo de “recados” da antiga balada. Um homem pede para seu interlocutor que fale com sua amada sobre ele, que veja se ela está bem agasalhada contra o vento frio e se ela continua linda como ele relembra. O homem também se pergunta se a mulher lembraria dele.

Boots of spanish leather, lançada no álbum Times they are a-chagin’ utiliza da estrutura de diálogo para ilustrar os caminhos opostos tomados pelos dois protagonistas da canção. Como uma troca de cartas, a mulher que está na Espanha pergunta insistentemente ao homem se ele quer algo de presente da Europa. Ele apenas responde que quer a volta da sua amada, aguardando apenas seu amor. No final, a mulher diz não saber quando voltará e o homem, entendendo o recado, enfim aceita que ela envie um presente: Botas de couro espanhol.

Ao pegar a mesma adaptação de melodia e transforma-la em duas canções, Bob Dylan compensou essa “repetição” ao utilizar características diferentes da balada em cada música. É interessante notar que apesar do resultado lírico ser duas abordagens distintas, as duas versões são complementares ao absorver a atmosfera da canção que as originou.

Luz na iminente escuridão

Uma vez uma amiga veio conversar comigo em um tom sério e cauteloso. Ela questionou basicamente o seguinte:
– Porque você parou no tempo e fica nessa de ouvir Bob Dylan? Essa época já passou, você não acha?

Já estou calejado e evitei explicar as razões que me fazem (ainda) ouvir Dylan. A única resposta que dei foi:
– Ele está vivo. Portanto, ainda podemos considerá-lo contemporâneo. Não é tão “fora de época” assim.

O conhecimento geral é que Bob Dylan foi um artista dos anos 60. De fato foi, mas, talvez como sua maior característica, ele nunca se contentou em ser esse personagem estático. Exemplifico essa afirmação com uma música, dentre tantas que eu poderia citar, da “época atual”.

Lançada no álbum Time out of mind (1997), quando Bob Dylan tinha 56 anos, Not dark yet pode ser interpretada como uma descrição poética da velhice. Segundo Brian Hinton, Emmylou Harris – que cantou com Dylan no álbum Desire – acha que é a melhor canção já composta sobre envelhecer: “Para aqueles de nós que estão atravessando essa porta, a canção traz à luz coisas que nem sabíamos ser capazes de sentir. Ele colocou poesia nessa experiência”.

Ela pode soar “vintage” e descrever um idoso, mas está longe de ser uma canção velha. Como uma tendência dos álbuns considerados trilogia (Time out of mind [1997], Love and theft [2001] e Modern times [2006]), Bob Dylan intercala aspectos individuais com reflexões afinadas com a contemporaneidade.

Ironicamente, meses após a gravação de Time out of mind, Bob Dylan quase morreu ao ter uma doença rara e grave. Howard Sounes escreveu que Dylan foi diagnosticado com pericardite – uma inflamação do pericárdio (uma película que reveste o coração), que impossibilitou o fluxo correto do sangue. O problema foi provocado pela inalação de um fungo, que provoca a histoplasmose.

Detalhes à parte, Bob Dylan se mostra ser, ainda hoje, um artista que se renova, mesmo que a sua maneira. Muitas canções atuais de Dylan têm o mesmo poder e intensidade que os “greatest hits” dos anos 60. Mesmo com o fim próximo, com a escuridão cada vez mais iminente, a luz ainda não se apagou.