Mini-doc sobre Bootleg Series V.10 (Another Self Portrait)

Another Self Portrait

O canal oficial do Bob Dylan no Youtube postou há algumas horas um vídeo em forma documentário sobre a gravação do disco Self Portrait, de 1970, como divulgação do décimo volume do “Bootleg Series”, que reúne sobras de estúdios e versões ao vivo.

Assista ao vídeo:

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Intitulado “Another Self Portrait”, o lançamento abrange os anos entre 1969 e 1971 na carreira de Dylan e terá 35 canções. Além de versões com mixagem diferente de Self Portrait, haverá faixas com George Harrison e músicas nunca antes lançadas.

Na Amazon, é informado que o disco estará nas lojas no dia 27 de agosto. O site também informa que haverá uma versão de luxo que além de contar com os dois discos com as 35 músicas, outros dois discos com uma versão remasterizada de Self Portrait e as 17 músicas que Bob Dylan & The Band tocaram no festival Isle Of Wight, em 1969. Essa mesma versão luxuosa terá dois livros com notas escritas pelo escritor Greil Marcus e fotos de John Cohen e Al Clayton.

Dylan & The Dead (ou a inércia dylanesca)

No meio dos anos 1980, Bob Dylan estava perdido e, apesar de buscar alternativas, não parecia tão engajado – vislumbrava uma aposentadoria iminente.

Em 1986, Bob Dylan excursionou com Tom Petty & The Hearbrakers, a “True Confessions Tour”, e tocou 60 shows. No ano seguinte, entre uma fase e outra da turnê com Petty, um dos organizadores (e empresário de Neil Young), Elliot Roberts, arrumou seis shows de Dylan com a lendária banda hippie Grateful Dead. Como Bob estava com uma pedra a rolar e honrando sua frase “when you ain’t got nothing, you got nothing to lose”, aceitou.

Jerry Garcia, o xavequeiro

O primeiro encontro de Dylan com o Grateful Dead foi em julho de 1972, quando Bob assistiu a um show da banda. Tanto Bob quanto o líder da banda, Jerry Garcia, nutriam uma paixão por músicas americanas tradicionais e antigas e começaram uma amizade.

A história da turnê teve início em julho de 1986, quando o Dead dividiu três shows com Dylan e Tom Petty & The Heartbrakers. Quando o Grateful Dead estava no palco, Dylan cantou com a banda “Desolation Row” e “It’s All Over Now, Baby Blue”.

Clinton Heylin conta que foi nessa época que Jerry Garcia “deu em cima” de Dylan para eles fazerem uma turnê juntos.

O modus operandi dylanesco

Os ensaios começaram em junho de 1987 no Club Front, um lugar usado por músicos para ensaios e produções, localizado na rua Front, 20 (San Rafael).

Nos ensaios, Bob Dylan se surpreendeu com as sugestões de músicas. Ao invés de canções óbvias e que ele estava acostumado a tocar nos shows com Tom Petty, os novos companheiros resgataram preciosidades esquecidas e algumas quase inéditas (como “Walkin’ Down The Line” e “John Brown”, esta tocada apenas algumas vezes no início dos anos 60 e até então nunca lançada oficialmente).

Bob Weir (guitarrista do Grateful Dead): “Ele era difícil de se trabalhar na medida em que ele não queria ensaiar uma música mais que duas vezes, no máximo três. E então nós ensaiamos cerca de 100 canções duas ou três vezes… Este é meio que uma crítica padrão do modo dele trabalhar.”

Abaixo, um registro de um dos primeiros ensaios, ocorrido no dia 1º de junho. Note que algumas canções Dylan simplesmente não começa pelo primeiro verso (como “Ballad Of a Thin Man” e “Times They Are A-Changin’”, por exemplo).

Dearest the shadows, I live with are numberless

Em Crônicas, V.1, Bob Dylan relata o início do ensaio com o Dead e sua crise de identidade com suas próprias canções.

“Depois de mais ou menos uma hora, ficou claro para mim que a banda queria ensaiar mais e diferentes canções do que eu estava acostumado a tocar com Petty. Queriam repassar todas elas, aquelas de que gostavam mais, as pouco conhecidas. Me vi em uma situação peculiar e pude ouvir o rangir dos freios. Se soubesse disso desde o início, possivelmente não teria aceitado as datas. Eu não nutria sentimentos por nenhuma daquelas canções e não sabia como poderia cantá-las com qualquer entusiasmo.”

Então Dylan relata um fato que mudaria sua perspectiva. Completamente desinteressado com o andamento do ensaio, Bob inventou que tinha esquecido algo no hotel e saiu do estúdio para caminhar na chuva fraca. Sua ideia era abandonar o projeto, mas depois de andar umas cinco ou seis quadras, ouviu um jazz saindo de pequeno bar. Foi até lá, pediu uma gim-tônica e ouviu as baladas de jazz, como “Time On My Hands” e “Gloomy Sunday”. Prestou atenção no vocalista, que parecia Billy Eckstine e percebeu que o músico estava a vontade, cantando de maneira natural.

“De repente e sem aviso, foi como se o cara tivesse aberto uma janela para a minha alma. Foi como dissesse: ‘É assim que você deve fazer’. De repente, compreendi algo mais rápido do que jamais havia compreendido antes. Pude perceber como ele trabalhava para atingir seu poder, o que estava fazendo para alcançá-lo. Entendi de onde o poder estava vinvo, e não era da voz, embora a voz me trouxesse agudamente de volta a mim mesmo. (…) Se de algum modo conseguisse chegar perto de manejar a técnica, poderia dar conta daquela maratona de exibições.”

Bob retornou ao ensaio e de agora em diante conseguiria completar a mini-turnê no automático. Se a manobra deu a Dylan uma paciência e até um estímulo para continuar, o resultado não foi dos melhores.

Jokerman and the Deadheads

Na turnê de seis shows, o Grateful Dead estava em alta. A maioria do público consistia de Deadheads – os fãs fervorosos da banda. Stanley Mieses, em um artigo para o New Yorker de 27 de julho, relata que muitos dos fãs paravam os trailers nos estacionamentos dos locais do show para congregar – muitos deles nem entrariam nas apresentações.

Apesar do momento de iluminação, o jeito de Dylan cantar parecia enfadonho, enrolado e há quem pense que o cantor subia no palco bêbado – o que não é uma ideia absurda. O Grateful Dead, acostumado com shows que chegavam a cinco horas de duração e com imensos improvisos, sentiram o peso dos imprevistos dylanescos no palco.

O visual de Dylan, que mais parecia um mendigo, corroborava ou significava todo o empenho de Bob no palco. Ele estava em inércia, cumprindo tabela para a banda, para o público e para si mesmo.

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No fim da meia dúzia de shows, ficou acordado um lançamento de um disco com os registros dos shows.

Dylan & The Dead

A banda selecionou cuidadosamente as melhores performances para ser compiladas no álbum. Bob, contudo, preferiu escolher canções que não haviam entrado em discos ao vivo anteriores.

Quando recebeu a fita com a mixagem final, chamou Jerry Garcia até sua casa em Malibu para discutir alguns detalhes. Chegando na casa de Dylan, cheio de cães enormes e em um ambiente rústico, nem aparentando estar na região de celebridades, Jerry teve que escutar as ressalvas de Dylan sobre a equalização. O único problema é que Bob ouvia o registro em um toca-fitas barato, sem qualquer poder de referência.

O resultado é um registro de um vocal mastigado e talvez alcoolizado de Dylan, acompanhado por uma banda fazendo uma batida quase monótona. O que salva são os belos solos e arranjos de Jerry Garcia na guitarra.

The Grateful Dylan

Apesar da experiência parecer um fiasco, Bob parece ter tido uma boa lembrança da turnê. Howard Sounes conta que menos de dois anos depois, no dia 12 de fevereiro de 1989, Bob subiu ao palco em um show do Dead e insitiu para que acompanhasse apenas em músicas do grupo. Depois de avacalhar cinco canções, a banda o forçou a cantar apenas músicas próprias.

No dia seguinte, Dylan ligou para o escritório do Grateful Dead e pediu uma vaga na banda. Ele estava sendo sincero e a banda então fez um plebiscito para decidir. Um dos integrantes da banda recusou a entrada do músico e Bob teve que conviver com o fardo do artista-solo (Nigel Williamson sugere que o veto partiu do baixista Phil Lesh).

Sorte de todos, já que Dylan lançaria no mesmo ano Oh Mercy, disco que começou a gravar apenas algumas semanas depois e que trouxe de volta o diferencial dylanesco que há muito tempo Bob estava a procura.

Tempest (Parte 2): de carona com Bob Dylan

Confira aqui a primeira parte.

Quando tive o primeiro acesso a Tempest na íntegra, preferi ouví-lo em sua ordem ao invés de escutar primeiro as faixas até então inéditas para mim. Confesso que fiquei ansioso, já que as canções mais faladas eram justamente as duas últimas do disco. Mas a viagem agradabilíssima até o destino valeu tanto, senão mais, do que o ponto final. A tempestade dylanesca finalmente caía.

Para quem acompanha as centenas de shows anuais que Bob faz, pode perceber a diferença ocorrida entre 2011 e 2012. Dylan parece mais à vontade no palco, investindo em suas performances. Curva-se com as mãos nos joelhos enquanto sola sua gaita; sorrisos fáceis distribuídos agora com mais frequência; experimentalismos sonoros, alternando instrumentos no meio da música e incluindo ecos em sua voz.

Como se a usasse para alongar suas canções, Bob Dylan tornou a gaita ausente em Tempest e voltou a investir pesado em letras extensas. O espaço para solos também é escasso. Das 10 músicas, metade ultrapassam os sete minutos e apenas uma possui menos de quatro minutos. Mais de 23 mil caracteres espalhados em 68 minutos.

Tempest é uma viagem em vários sentidos. A música é apenas um pano de fundo para que o cantor, ou o narrador, conte suas histórias compiladas em andanças. Até esse momento, seria impensável imaginar Dylan cantando baladas românticas que parecem ter saído da Motown ou das madrugadas calmas da Sun Records. Bob não só assume o papel de andarilho, como usa com muita sabedoria o desgaste de sua voz para cantar com a experiência de um ancião que experimentou o trajeto dantesco.

Trilhando – Tempest

#1 – Duquesne Whistle: A Rolling Stone achou o clipe “chocantemente violento”, comparando até a Goodfellas. Para mim o vídeo é bem humorado, mostrando o quanto se sofre com o amor – ou apenas um belo fim para um “stalker”. E como disseram no Facebook: Bob Dylan parece ter feito as pazes com a juventude.

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A canção, co-escrita por Robert Hunter (que também participou de Together Through Life), é uma amável história de nostalgia. O narrador lembra, a partir do apito, de um “namoro de portão” e da árvore que costumava subir. A melodia parece ecoar Earl Hines e sua “I ain’t got nobody”.

O que seria esse apito de Duquesne? Alguns acham que se trata de uma fornalha localizada em Duquesne, Pennsylvania. Porém, existe uma antiga linha de trem que vai de New York até Pittsburgh que era conhecida como Duquesne, mas que agora se chama Amtrak.

#2 – Soon After Midnight: Bob Dylan parece realizar um de seus possíveis sonhos: ser adulto o bastante para adentrar a Sun Records dos anos 50 e gravar um R&B tranquilo e acalentador. Há uma clara referência a Elvis em “It’s now or never/ More than ever”. A belíssima e suave canção deveria durar muito mais e bem que poderia ter um final menos abrupto.

#3 – Narrow Way: Um blues rápido e encrenqueiro que tem boas frases como: “I’m still hurting from an arrow, that pierced my chest/ I’m gonna have to take my head, and bury it between your breasts”. O refrão, como Will Hermes percebeu, é emprestado de uma antiga canção de Mississippi Sheiks, “You’ll Work Down to Me Someday”.

#4 – Long and Wasted Years: Um country-soul primoroso e comovente que lamenta o fim de um grande amor. Algumas frases poderiam estar em Crônicas V.2, como: “I wear dark glasses to cover my eyes/ There are secrets in them I can’t disguise/ Come back baby if I ever hurt your feelings I apologize”. Seu arranjo é um registro da atual fase de Dylan e sua experimentação melódica cadenciada.

#5 – Pay In Blood: Para mim, uma das melhores canções de Dylan dos últimos 30 anos. A vingança volta a ser tema, mas dessa vez a acidez dylanesca vem com muito mais experiência e sabedoria. A voz de Bob está mais rasgada do que nunca, tornando a música ainda mais forte. No Expecting Rain encontraram ecos de Julio Caesar de Shakespeare (“I came to bury, not to praise”).

#6 – Scarlet Town: Com uma atmosfera nebulosa que lembra “Ain’t Talkin’”, de Modern Times, Bob cita a mesma cidade utilizada como pano de fundo em uma das versões da tradicional “Barbara Allen”. Mantendo a referência ao passado, Dylan “pegou emprestado” algumas frases do poeta John Greenleaf Whittier.

#7 – Early Roman Kings: Um blues pesado e vagaroso que se baseia em “Manish Boy” de Muddy Waters e principalmente em “I am a man”, de Bo Didley. Como já dito, Bob usou da frase “I ain’t dead yet”, criada por Woody Guthrie, que em 1961 deu um bilhete a Dylan com a frase para comprovar que ainda estava vivo.

#8 – Tin Angel: Apesar de extremamente monótona, a narrativa prende e inebria o ouvinte. Seu enredo parece ter saído de uma compilação de histórias do folk tradicional americano. É como se Dylan reescrevesse toda a antologia de Harry Smith.

#9 – Tempest: Para quem acha que o clima alegre não foi uma boa escolha de Dylan, saiba que a melodia foi baseada na canção da Carter Family sobre o mesmo tema, “The Great Titanic”. Bob investe quase 14 minutos do disco para contar a história do fatídico e centenário acidente do Titanic, ocorrido em 14 de abril de 1912. Na descrição, nem Leonardo DiCaprio, ou apenas Leo, escapa.

#10 – Roll On John: A canção que fecha o álbum, como uma trilha enquanto sobem os créditos, é uma homenagem comovente e sincera de Dylan ao amigo John Lennon, morto em 1980. Bob utiliza de alguns versos do ex-beatle para recontar parte da vida de John. O título da canção é emprestada de uma homônima, intepretada por Dylan 50 anos antes, em janeiro de 1962.

Às vezes, a sensação é de que estamos realmente em um Pontiac Tempest, há 130Km/h. Em outras, estamos em um Corvette conversível, enquanto sentimos o vento leve e podemos curtir com calma a bela paisagem que se apresenta.

O destino final é, sem sombra de dúvidas, a fonte Palas-Atena e seus significados: sabedoria, justiça e arte.

Roll On, Bob.