O Folk Rock (ou Cavalo de Tróia em Newport)

Após se esquivar do papel de “voz de sua geração” e evitar ser rotulado como um compositor de música de protesto (posicionamento contido em letras como It Ain’t Me, Babe), Bob Dylan mantém sua liberdade pessoal e decide não mais seguir os dogmas estilísticos do folk.

As influências

Na prática, o mundo conspirava para a criação do folk rock. Em 1963, os EUA são invadidos pela beatlemania; no ano seguinte, The Animals grava sua versão elétrica de House Of The Rising Sun (cujo arranjo foi emprestado de Dylan, que furtou de Dave Van Ronk); ainda em 1964, Tom Wilson, produtor dos últimos discos de Dylan, faz experimentações em estúdio e junta o vocal de Dylan de “Rising Sun” com um instrumental que remete aos Animals; no início de 1965, o grupo The Byrds lança uma versão elétrica de Mr. Tambourine Man, atigindo o topo da parada da Billboard.

Quando Roger McGuinn, dos Byrds, se encontrou com Dylan e mostrou a versão do grupo para “Tambourine Man”, Bob ficou surpreso e disse: “Nossa, cara. É possível dançar com isso”.

Aos Animals, ele confessou que estava dirigindo quando reconheceu no rádio a versão da banda para “Rising Sun”. Ao perceber do que se tratava, Dylan parou o carro, ouviu a canção, saiu do veículo, pulou e bateu na capota. Foi como uma “eureka” de como ele poderia transformar sua arte.

De volta pra casa

Quando ainda respondia por Bob Zimmerman, Dylan montou seus primeiros grupos. Ao contrário do que muita gente pensa, sua primeira atuação na música foi através do Rock and Roll. Em Hibbing, Bob montou, junto com LeRoy Hoikkala e Monte Edwardson, a banda The Golden Chords, em que tocava piano, guitarra e cantava músicas principalmente de Little Richard.

Bob também flertou com o rock no início dos anos 60. Em 1962, seu primeiro single foi Mixed Up Confusion, uma música improvisada e confusa que tinha Dylan acompanhado de uma banda.

Assim, o título Bringing It All Back Home, álbum de 1965, é uma clara referência ao rock and roll presente na vida de Dylan desde o início. Apesar da decisão de tornar seu som elétrico, Bob resolveu fazer isso com gradatividade. Em Bringing It All Back Home, apenas o lado A do disco é acompanhado de banda.

O lado B do disco é reservado para as versões acústicas. Mr. Tambourine Man é acompanhado por uma sutil guitarra e Gates of Eden tem um formato tranquilo, mas seu conteúdo é desconfortável.

As duas últimas músicas do disco são ansiosas e agressivas. It’s Alright, Ma (I’m only bleeding) é intepretada com tamanha intensidade que Bob parece não ter tempo nem para respirar. It’s all over now, baby blue termina o álbum de forma cítrica. Alguns especulam que seja o fim do relacionamento de Dylan com Joan Baez. Outros, como eu, já a interpretam como o fim do relacionamento de Dylan… com o folk.

Cavalho de Tróia em Newport

Desde sua estréia no Newport Folk Festival, em 1963, Bob foi considerado a grande aparição no cenário Folk e um dos poucos que conseguiriam manter a tocha do engajamento político acesa. Em 1964 Dylan era a principal atração. O mesmo aconteceu no ano seguinte, mas Dylan tinha novos planos.

Nestes vídeos abaixo, é possível perceber a apunhalada que foi sua apresentação em 1965, quado resolve tocar Maggie’s Farm e a recém-lançada Like a Rolling Stone.

Após o choque elétrico, Peter Yarrow (do trio Peter, Paul & Mary) pede que Dylan volte com seu “machado” e cante algumas músicas acústicas. Bob acalma a todos com seu “Tambourine Man”, mas depois dá seu recado preciso com “It’s All over now”.

As consequências

Mesmo que sob influência de uma porção de fatores, ainda é possível dar a Dylan o crédito de criado do folk rock. O estilo não durou muito tempo e foi logo substituído pela psicodelia, mas sua importância se manteve, já que consolidou Bob Dylan no status não mais apenas de mero cantor folk, mas do poeta da música pop.

The whole world is my throne

No último sábado, 2 de julho, Bob Dylan finalizou a turnê européia com uma apresentação na Suécia, no festival Peace & Love. No total foram 11 shows em duas semanas.

O Bob Dylan Examiner publicou uma relação das 43 músicas apresentadas durante esta parte da turnê e as quantidades de vezes que cada música foi tocada. Eu incluí links de videos do Dylan Video e Youtube.

  1. A Hard Rain’s A Gonna Fall (6 x’s)
  2. All Along The Watchtower (11)
  3. Ballad Of A Thin Man (11) [Bob se divertindo com o delay na voz!]
  4. Ballad Of Hollis Brown (5)
  5. Beyond Here Lies Nothin’ (7) [Bom “diálogo” entre guitarra e vocal]
  6. Blowin’ In The Wind (9) [Em Milão, ele tocou guitarra]
  7. Boots Of Spanish Leather (1)
  8. Can’t Wait (1) [Dylan anda pelo palco, até a ponta]
  9. Cold Irons Bound (3)
  10. Don’t Think Twice, It’s All Right (4)
  11. Desolation Row (2) [Show na China – 08/04]
  12. Every Grain Of Sand (1)
  13. Forever Young (2) [Show na China – 08/04]
  14. Forgetful Heart (6)
  15. Girl From The North Country (1)
  16. Gonna Change My Way Of Thinking (3) [Dylan visivelmente empolgado]
  17. High Water (For Charley Patton) (2)
  18. Highway 61 Revisited (11)
  19. I Don’t Believe You (She Acts Like We Never Have Met) (2)
  20. I Dreamed I Saw St Augustine (1)
  21. I’ll Be Your Baby Tonight (1)
  22. It Ain’t Me, Babe (1)
  23. It’s All Over Now, Baby Blue (4)
  24. Jolene (1)
  25. The Levee’s Gonna Break (3)
  26. Leopard-Skin Pill-Box Hat (3)
  27. Like A Rolling Stone (11)
  28. The Lonesome Death Of Hattie Carroll (1)
  29. Make You Feel My Love (1)
  30. The Man In Me (1) [Show com uma bela paisagem]
  31. Rainy Day Women #12 & 35 (5)
  32. Simple Twist Of Fate (6)
  33. Spirit On The Water (2)
  34. Summer Days (6)
  35. Tangled Up In Blue (9)
  36. Things Have Changed (10) [Cinco dias depois, Dylan faz uma versão bem diferente]
  37. Thunder On The Mountain (11)
  38. ‘Til I Fell In Love With You (1)
  39. To Ramona (2)
  40. Tryin’ To Get To Heaven (4)
  41. Tweedle Dee & Tweedle Dum (6)
  42. Visions Of Johanna (2)
  43. When I Paint My Masterpiece (1) [“Oh, the streets of Rome are filled with rubble”, em Milão]

Músicas sobre Dylan

As canções e poesias de Bob Dylan influenciaram gerações. Até hoje existem referências à obra dylanesca. Sua amplitude foi tão extensa que músicos famosos resolveram agradecer a contribuição (ou a companhia) de Bob homenageando-o em músicas.

Abaixo, uma pequena seleção delas:

Mulheres:

Cat Power – Song to Bobby
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=bPagnhPTbeg]
O título é uma clara referência a música Song to Woody, do seu álbum de estréia e que ele fez em homenagem ao seu ídolo Woody Guthrie. Cat Power relata alguns encontros e desencontros que teve com Bob.

 

Emmy the Great – Dylan
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=6zXBI_HeKME]
Essa música talvez não seja bem uma homenagem a Dylan. Emmy aparenta contar a história de um cara que se fecha através das canções de Dylan, considerando-as um “sentimento” e sem compartilhá-lo. Há uma referência direta à canção Tangled up in blue, na frase “Like reading an Italian book from the 13th century”.

 

Joan Baez
Baez compôs ao menos duas canções sobre Bob Dylan:
To Bobby
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Zp6ByI3fh1s]
Escrita em 1971 – época de “auto-ostracismo” de Dylan – Joan suplica pela volta de Bob ao ativismo político. “Ninguém consegue falar como você”, afirma Baez.

Diamonds & Rust
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=KtQh0EBbPwo]
Com uma abordagem mais passional, Diamond & Rust também foi o nome do álbum de Baez, lançado em 1975. A letra fala de uma ligação telefônica, provavelmente de Dylan, que remete a memórias nostálgicas.

 

 

Homens:

David Bowie – Song for Bob Dylan
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=PPxnCNRm_nY]
Também remetendo à canção que Dylan fez para Woody, Bowie descreve o poder da voz e das letras dylanescas. A guitarra foi gravada por Mick Ronson, que participou da turnê de Bob, no meio dos anos 70, chamada The Rolling Thunder Revue.

 

Syd Barrett – Bob Dylan Blues
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=uOokCdkIejk]
Um dos fundadores do Pink Floyd, sendo depois substituído por David Gilmour, Syd Barrett supostamente escreveu em 1963, após assistir um show de Dylan. Syd gravou a música em 1970, mas só em 2001 a fita com o registro foi encontrado. A letra é bem-humorada e escrita sob o ponto-de-vista de Bob Dylan e seu “reinado”.