Inicío aqui uma série em que apresento canções dylanescas interpretadas por outros músicos.
Para gravar um album em homenagem a Ian Stewart (1938-1985) – pianista e co-fundador dos Rolling Stones (apesar de se transformar num músico contratado e Gerente de Turnê da banda em 1963) – o também pianista Ben Waters resolveu chamar diversos músicos para interpretar as canções.
Entre as músicas, está uma versão de Watching The River Flow, com uma formação classuda: além dos Rolling Stones, o ex-baixista da banda Bill Wyman participou da gravação. O apresentador Jools Holland também foi convidado, tocando órgão.
Ao ler a biografia de Bob Dylan lançada em 1972 pelo jornalista Anthony Scaduto (especializado em crimes e que se autoproclamava um expert em Máfia), uma citação de Dylan ficou na minha cabeça.
Scaduto deixou que Bob visse as prévias da biografia, em troca de entrevistas. Em uma delas, Bob afirma:
“Antes de compor John Wesley Harding [álbum de 1967], eu percebi algo sobre todas as canções mais antigas que eu escrevi. Eu descobri que quando eu utilizava palavras como ‘ele’, ‘isto’, ‘eles’ e falava sobre outras pessoas, eu estava na verdade falando em ninguém a não ser eu.”
Outra história que me chamou a atenção foi a mensagem quase subliminar contida na música It’s all over now, baby blue. Muitos biógrafos dylanescos afirmam que a canção é um “término de relação” entre Bob Dylan e todo o movimento folk. Considerando isto, a apresentação de Dylan no Newport Folk Festival de 1965 se torna ainda mais lendária – após tocar três músicas acompanhando por uma banda elétrica, Bob voltou ao palco para apresentar duas canções acústicas: fechou com Mr. Tambourine Man, mas não sem antes dar o seu recado com It’s all over now, baby blue.
Foi então que há algumas semanas eu encontrei na internet um manuscrito da música It ain’t me, babe. Nele, além do rascunho da letra, existem outros poemas e estrofes espalhados. Mas há também um algo que se parece com um desabafo:
“Quantas vezes eu terei que REPETIR que eu não sou um cantor folk antes que as pessoas parem de dizer ‘ele não é um cantor folk’”
Ao ver esse fac-símile, veio-me à cabeça a somatória de todas essas idéias soltas.
It ain’t me, babe é frequentemente interpretada como sendo uma resposta ao “fora” levado por Dylan de sua então namorada Suze Rotolo. A relação conturbada foi retratada em várias canções, como Boots of spanish leather, Ballad in Plain D e Don’t think twice, it’s all right. It ain’t me, babe seria, portanto, uma renúncia de Dylan ao papel Hollywoodiano de um galanteador.
Aqui, Joan Baez interpreta a música e afirma que a canção é anti-casamento. Bob nunca foi de explicar suas canções para as pessoas, nem para amigos/namoradas. Logo, acho que se trata apenas de uma interpretação de Baez, sem se basear em fatos. (Vale lembrar que Bob Dylan casou-se com Sara Lownds em novembro de 1965)
Com a anotação de Dylan no manuscrito acima – aliados aos exemplos já citados -, temos argumentos suficientes para incluir It ain’t me, babe na mesma categoria de It’s all over now, baby blue. Bob Dylan está tentando fugir dos rótulos e principalmente das responsabilidades intrínsecas de um movimento artístico/engajado.
Assim como em diversas músicas dylanescas, o dialogismo está presente nesta canção: a primeira frase (“Go ‘way from my window”) tem referências tradicionais: é o nome de uma canção britânica (gravada, inclusive, por Baez, em 1964, no álbum 5) e também é um trecho de Drop Down Mama, de Sleepy John Estes.
Incrível versão da música num show em Glasgow (2004)
A música é uma recusa a um formato pré-estabelecido de tratamento. Mas acho difícil que seu alvo seja realmente a relação com Suze. Além da frase no manuscrito, a autobiografia de Rotolo mostra que, apesar de Dylan ter um lado mais frio, seu lado romântico e cavalheiro também vinha à tona frequentemente.
Bob Dylan, num ato que ofendeu alguns, renegou não só a função de “porta-voz de uma geração” como preferiu se distanciar dos dogmas do movimento Folk. Seu foco era o desenvolvimento de sua música e poesia. A apresentação de Dylan no Newport Folk Festival de 1965 não teve o intuito de polemizar ou criticar a “instituição” Folk. Bob incluiu a banda porque achava que a música precisava dela.
Na época do lançamento do álbum Highway 61 Revisited, Bob explicou um pouco mais sobre suas ambições e anseios:
“Tudo que eu posso fazer é ser eu – seja quem for – para aquelas pessoas que eu toco e não chegar nelas dizendo coisas que eu não sou. Eu não vou dizer a elas que eu sou um grande lutador de causas ou um grande amante ou um menino prodígio ou qualquer coisa. Porque eu não sou, cara. Porque enganá-los?”
“I’m not the one you want, babe I’ll only let you down You say you’re looking for someone Who will promise never to part Someone to close his eyes for you Someone to close his heart Someone who will die for you and more… But it ain’t me, babe”
O britânico Bryan Ferry fez sucesso nas décadas de 70 e 80, quando esteve à frente do Roxy Music, grupo que influênciou diretamente o movimento New Wave. A banda durou até 1983, quando fez um hiato que terminaria apenas em 2001 com uma reunião que dura até os dias de hoje.
Em 2007, Bryan Ferry gravou o álbum Dylanesque, que obviamente continha apenas canções de Bob Dylan. Apesar do Roxy Music ter como característica sonora o uso de instrumentos eletrônicos, o álbum gravado por Ferry em seu projeto solo tem uma atmosfera crua, sem aparentar ser um álbum cantado por alguém que fez sucesso com New Wave.
O álbum contém onze canções, que passam por várias fases de Bob Dylan. Ainda assim, sete das onze faixas são músicas gravadas por Bob na década de 60.
Os arranjos são bons e se distanciam com qualidade das versões originais. Ouço o álbum com prazer, mas não acho que ele esteja entre as melhores interpretações de músicas dylanescas. Pareceu-me superficial, sem conseguir atingir o ouvinte com a mesma intensidade que as canções naturalmente têm.
A versão de Bryan para Simple Twist Of Fate exemplifica bem essa minha aparência. Ela é gravada como um rock divertido e levemente rápido, ignorando a essência da canção: um relato triste, cansado e melancólico.
Vejo Dylanesque como um bom início para quem quer começar a entrar no mundo de Bob Dylan. As versões são mais palatáveis e a sonoridade bem mais acessível. Mas, mesmo com os “defeitos”, a máxima se mantém: ninguém canta Dylan como Dylan.
Abaixo, a lista das músicas do álbum (com links para vídeos do YouTube) e onde é possível encontrar a versão original de Dylan.