Tom Waits é um ouvinte dylanesco

Tom Waits lançará no próximo dia 24 seu novo disco de canções inéditas, intitulado Bad As Me. Para divulgar o álbum, Tom fez um ótimo vídeo e desde ontem o disponibilizou para audição online.

O site Pitchfork entrevistou Waits sobre o disco e outros assuntos. Durante a entrevista, Tom citou Bob Dylan e seu programa de rádio.

Depois de dizer que gosta de compor enquanto dirige, Tom Waits afirmou que não costuma ouvir música no carro. Contudo, disse gostar do Theme Time Radio Hour, apresentado por Bob Dylan. Waits comenta que o formato adotado por Dylan é realmente o perfil dos programas radiofônicos que Tom ouvia quando era criança, com um disc jockey escolhendo um tema e tocando músicas ligadas a este assunto.

A transcrição da entrevista indica que Tom Waits imita Bob Dylan. Deve ser interessante ouvir esta interpretação. Seria algo assim?

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Tom Waits também divaga rapidamente sobre a influência de Dylan na música pop, citando Reach Out I’ll Be There, do Four Tops, como uma canção que dialoga com Like a Rolling Stone.

Entre as participações no disco Bad As Me, estão o baixista Flea e o guitarrista Keith Richards (que também divide os vocais em Last Leaf). Outro convidado foi David Hidalgo, membro da banda Los Lobos. Para quem não sabe, Hidalgo participou do álbum Together Through Life, tocando guitarra, violão e acordeon.

Warren Zevon

Bob Dylan é autor de muitas façanhas: além de suas composições, é tido como o pioneiro no Folk Rock, o primeiro a incluir a poesia na música pop e foi o responsável até por criar um emprego – de porta-voz de sua geração. Esta última é creditada a Bob por Warren Zevon, durante uma entrevista a Dave Letterman.

Warren Zevon foi um músico cujo estilo de letra se assemelhava muito ao de Dylan. Com suas letras que flertavam com o cinismo, sarcamos e engajamento político, estava uma sensibilidade que poucos conseguiram. E talvez por isso Bob se aproximou de Warren.

Em 1987, após cinco anos sem lançar disco e quase conhecendo a morte através do alcoolismo (que ele chamava de uma saída “covarde”), Warren Zevon lançou o disco Sentimental Hygiene. No álbum, vários artistas famosos participaram: R.E.M, Flea (baixista do Red Hot Chili Peppers), Neil Young e Bob Dylan – que tocou gaita na canção The Factory.

Em 2002, Warren Zevon foi diagnosticado com um tipo raro de câncer, que o dava pouco tempo de vida. Conseguiu terminar seu último disco, The Wind, de 2003 e que contava com uma cover corajosa e emocionante de Knockin’ on Heaven’s door. Ele morreria em setembro do ano seguinte.

Ainda em 2002, Bob Dylan incluiu em parte dos seus shows algumas músicas de Warren Zevon: Accidentally Like A Martyr, Mutineer, Boom Boom Mancini e Lawyers, Guns and Money. Harold Lepidus, em um ótimo post sobre Zevon, afirma que Dylan chegou a tocar três delas no mesmo show.

Em um trecho da bela canção Accidentally Like A Martyr, há a seguinte estrofe:

The days slide by
Should have done, should have done, we all sigh
Never thought I’d ever be so lonely
After such a long, long time
Time out of mind

Pergunto: seria daí que a referência para o título álbum de 1997?

Além de Bob Dylan, Warren recebeu uma bela homenagem de Dave Letterman, com quem trabalhou substituindo Paul Schaffer durante algumas semanas. Meses antes de morrer, Warren foi ao Late Show e participou como convidado único, sendo entrevistado e interpretando três músicas no programa.

Veja as interpretações de Bob Dylan para as canções de Zevon:

Accidentally Like A Martyr

Boom Boom Mancini

Mutineer

Bônus

Durante a última entrevista a Dave Letterman, ao ser questionado sobre o que mudou sua vida após o diagnóstico da doença e a iminência da morte, Warren respondeu que passou a “curtir cada sanduíche”. E foi com essa frase, Enjoy Every Sandwich, que foi batizado um tributo com vários músicos interpretando canções de Zevon.

Abaixo, dois filhos: Jakob Dylan (na época ainda no Wallflowers) e Jordan Zevon no programa Late Show, de Letterman.

What Was It You Wanted (ou o preço da fama)

Uma de suas músicas favoritas, Suze Rotolo cita em seu livro What Was It You Wanted como uma canção que só Bob Dylan poderia escrever. Para ela, além de mostrar a essência do cantor, a letra contém o humor cáustico e a habilidade de Dylan em juntar diversos significados em sua volta.

Suze ainda complementa, afirmando que as canções do começo da carreira de Bob, época em que eles namoravam, são “cruas”. Ela diz conseguir ver todos os reais significados, já que convivia com seu compositor.

What Was It You Wanted foi gravada no álbum Oh Mercy, de 1989. Com uma atmosfera sombria, Bob Dylan faz diversos questionamentos que soam como um interrogatório, mas que podem ser interpretados como um reflexo de um interrogatório.

No primeiro volume de suas memórias, Crônicas, Bob relata que compôs rapidamente e de uma vez só, tanto a melodia quanto a letra. E explica:

“Você tem que ser econômico ao escrever uma canção dessas. Se você já foi objeto de curiosidade, sabe do que essa canção trata. Não precisa muita explicação. Gente meiga e indefesa às vezes faz o maior barulho. Podem atrasar você de muitas maneiras. É inútil resistir ou lidar com elas pela força. Às vezes você tem apenas que morder o seu lábio superior e colocar os óculos escuros. Canções como essa são cães estranhos. Não são boas companhias.”

Portanto, What Was It You Wanted é sobre a pressão da fama e a exigência do público em ter tudo que é possível, e impossível, do artista. Talvez para exemplificar essa perseguição, Bob Dylan termina a música com a mesma pergunta que Travis Bickle, de Taxi, se faz para o espelho, enquanto está sozinho no quarto.

A imagem da capa de Oh Mercy é de autoria de um artista chamado Trosky. Bob se deparou com a imagem nas ruas de Manhattan (mais exatamente na 9th Avenue com a 53rd St). Trotsky recebeu US$5.000 pela imagem e Dylan ainda ajudou no pagamento do aluguel de sua casa. Em entrevista à revista People, Trotsky conta também que se sentiu lisonjeado ao ser questionado por Bob se o nome do disco combinava com a arte.

Alguns anos depois, no disco Across the Borderline, Willie Nelson faria uma versão parecida, mas com sua voz inigualável.