Let’s have a baby!

Em 2002, Sheryl Crow contou uma passagem dela com Bob Dylan. Em 1998, quando ela estava em estúdio gravando o álbum The Globe Sessions – que incluiria a canção Mississippi, Bob Dylan ligou para ela no dia do aniversário da cantora. Ao saber que era aniversário dela e perceber que ela não estava tão feliz, Bob perguntou qual era o problema. Sheryl respondeu que estava triste por não ter filhos. Eis que Bob respondeu de imediato: “Vamos ter um filho!”

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=PaFWy3Fjhes]

The Great Music Experience

Em maio de 1994, o Japão, em parceria com a Unesco, produziu o festival The Great Music Experience. Dentre os objetivos do evento, estava a divulgação da cultura japonesa para o mundo todo. Assim, músicos japoneses de instrumentos tradicionais dividiram o palco com artistas mundiais.

A principal atração do festival seria Bob Dylan. Segundo a cantora Sheryl Crow, Bob Dylan teve aulas de canto para se preparar para a apresentação. Dylan cantou suas músicas com uma orquestra pela primeira vez em sua vida.
O cantor escolheu as músicas I Shall Be Release, A hard rain’s a-gonna fall e Ring them bells.

Veja toda a apresentação de Bob Dylan

As interpretações demonstram de fato um Dylan muito compenetrado em sua voz. Ring them bells tem um arranjo orquestral sólido e A hard rain’s a-gonna fall uma bela harmonização com a dinâmica da música.

Muito dessa responsabilidade aparente talvez seja explicada pelo contexto. A primeira metade da década de 90 pode ser considerada um período de entre-safra nas composições dylanescas. Seu último álbum de músicas inéditas (Under the red sky, de 1990) fora lançado quatro anos antes e seus dois discos de estúdio desde então eram apanhados de canções tradicionais interpretadas apenas por Dylan e seu violão – Good as I been to you, de 1992, e World Gone Wrong, de 1993.

Alguns biógrafos afirmam que nessa época Dylan estava tentando reencontrar suas raízes ou alguma razão para voltar a compor, basicamente como aconteceu também no início da década de 70, quando Bob retornou ao bairro “folk” nova-iorquino Greenwich Village.

A Hard Rain’s A-Gonna Fall (ou a descrição do medo e a discrição do terror)

Updade (2024): comecei um podcast para abordar diversos temas e os dois primeiros episódios são sobre essa canção. Conheça o Podcast Dylanesco, disponível no Spotify, Amazon Music, Apple Podcast e Youtube.

Em outubro de 1962, os EUA viviam seu momento mais tenso na Guerra Fria. Após instalarem mísseis nucleares na Turquia apontados para a URSS, os americanos viram seu arquiinimigo fazer o mesmo ao colocar mísseis na costa de Cuba, todos apontados para o território rival.

Apelidada de Crise dos mísseis, a tensão ia além de um iminente embate: era a consolidação de uma guerra nuclear. Uma guerra que poderia ficar sem vencedores, já que devastaria boa parte do nosso planeta – ou simplesmente sua totalidade.

O episódio influenciou Bob Dylan em ao menos duas canções. Let me die in my footspeps – inicialmente intitulada I will not go down under the ground – era uma música quase descritiva da situação: houve um crescimento na venda de tijolos e cimentos nos EUA, já que inúmeros cidadãos montaram abrigos subterrâneos para um possível ataque russo. Um Dylan patriota, percebendo a possível destruição total de seu país, se recusa a descer e prefere morrer na sua terra, com o orgulho de ser parte dela.

Contudo, assim como fez em algumas canções de protesto (vide Only a pawn in their game), Dylan também focou não apenas no fato, mas refletiu sobre as origens e os possíveis resultados desse embate.

A Hard rain’s a-gonna fall foi lançada no álbum “The Freewhelin’ Bob Dylan” (1963) e gravada em apenas um take no dia 6 de dezembro de 1962, no estúdio A da Columbia em New York. A melodia e a estrutura básica – como um diálogo – foram emprestadas da canção tradicional “Lord Randall”. Nela, um jovem e a mãe conversam e, aos poucos, revela-se que o filho está morrendo por envenenamento.

Ao vivo no Carnegie Hall Hootenanny – 22 de September 22 de 1962

Bob converte a música para uma problemática contemporânea. Sobre sua versão, ele afirma que “cada frase é na verdade uma música inteira. Mas quando a escrevi acreditava que não viveria tempo bastante para escrever muitas mais, então coloquei tudo o que pude nela.”

Durante a turnê The Rolling Thunder Venue, em 1975 (3ª estrofe)

Todas as estrofes iniciam com um questionamento para o “filho de olhos azuis”: Onde ele esteve, o que ele viu, o que ele ouviu, quem ele conheceu e, finalmente, o que ele fará com a chuva que está prestes a cair.

Gravação de estúdio de 2008

Para o jornalista Anthony Scaduto, Dylan explica que não se trata de uma alusão a uma chuva nuclear, mas “apenas” de algum tipo de fim que está prestes a acontecer. Bob afirma que a frase que explica a chuva está na última estrofe, “Where the pellets of poison are flooding their waters” [Onde as gotas de veneno inundam suas águas]. Como veneno, ele diz considerar todas as mentiras que são empurradas para dentro dos cérebro dos americanos, principalmente em rádios e jornais.

EDIT: Infelizmente o vídeo foi excluído, mas recomendo procurar essa versão
Ao vivo em Amherst, no dia 19/11/2010 (5ª estrofe) – Atualmente é a versão que mais me chama a atenção, principalmente a interpretação de Dylan nessa estrofe. É interessante perceber como o fraseado na guitarra de Charlie Sexton vai regendo e influenciando Bob na forma de cantar, que cresce gradativamente até seu ápice.

Nas suas respostas às questões, Bob utiliza imagens inéditas no linguajar usado pela música popular da década de 60. Acima de tudo, é uma canção que expressa terror e medo, sem um foco pré-definido. Não há menção à guerra nuclear, chuva radioativa, segregação racial ou a qualquer tema específico. A música incita o ouvinte a refletir sobre seus próprios medos, discutir a iminência de que algo ruim possa acontecer através de seus próprios sentimentos.

Abaixo, uma versão completa de “A hard rain’s a-gonna fall”, gravada em 10 de março de 1964.