Bob Dylan tem soul (e R&B)

A última edição (#157) da revista Isis publicou uma nota sobre a gravação de uma música inédita de Bob Dylan pela jovem cantora de Minessota Nikki Jean. Ela assina com Dylan a co-autoria da música Steel and Pennies (Don’t Ever). A canção foi baseada em Don’t Ever Take Yourself Away, registrada por Bob durante as sessões de Shot of Love.

Em seu disco de estréia, chamado Pennies In a Jar e lançado pela mesma gravadora de Dylan, Columbia, Nikki apresenta um som agradável que mescla um pouco do R&B moderno (incluindo intervenções sutis de “rappers”) com um Soul mais antigo, lembrando bastante o estilo de Joss Stone do começo da carreira (que, consequentemente, remete à época da Motown).

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Num post recente, Harold Lepidus divulgou que a trilha sonora da nova serie de TV Hawaii Five-O terá a versão original de Don’t Take Yourself Away, cantada por Bob Dylan. Provavelmente, trata-se de uma bela estratégia de marketing da Sony (que é dona da Columbia). Essa versão já circula entre os fãs em diversos bootlegs.

Um blog de fãs da série divulgou um link com a música original de Dylan. A versão de Nikkie é um soul com uma letra bem similar a de Bob. Dylan faz um reggae suingado bem interessante também.

Além dessa canção, Nikkie Jean foi creditada como co-autora de outras músicas, assinando parcerias com Burt Bacharach, Jimmy Webb, Carole King e Carly Simon.

Dylan nas 100 melhores canções dos Beatles

Já faz algum tempo que a Rolling Stone Brasil lançou uma edição especial com uma seleção intitulada “as 100 melhores canções” dos Beatles. Abaixo, um breve “raio x” da revista sobre as menções à Bob Dylan.

Introdução: Elvis Costello comenta sua relação com a obra dos Beatles. Ao dizer que Rubber Soul e Revolver são seus álbuns favoritos do Fab4, Costello afirma que é possível ouvir várias referências nestes discos, como R&B, psicodelia e… Bob Dylan.

#2 – I Wanna Hold Your Hand: sobre a Beatlemania do início dos anos 60, Dylan comenta em 1971 que “eles estavam fazendo coisas que ninguém mais fazia”. Ele também diz: “Seus acordes eram extraordinários. Era óbvio para mim que eles tinham poder de longevidade. Eu sabia que eles estavam apontando a direção para onde a música tinha que seguir. Na minha cabeça, os Beatles eram isso”.

#3 – Strawberry Field Forever: Antes de receber uma roupagem psicodélica, Strawberry Field Forever foi composta por John Lennon tendo como base a canção It’s All over now, baby blue.

#5 – In my life: Para John Lennon, In My Life foi seu primeiro grande trabalho e é um marco de quando ele passou a ser ele mesmo nas músicas, compondo subjetivamente ao invés de objetivamente. Lennon dá os créditos a Dylan: “Acho que foi Dylan quem me ajudou a perceber isso – não através de qualquer conversa ou coisa assim, mas ouvindo seu trabalho”. A revista ilustra parte da influência dylanesca através do histórico encontro de Bob com os garotos de liverpool, quando ele apresentou maconha à banda.

#12 – Norwegian Wood (This bird has flown): Bob Dylan é citado por sua paródia em 4th Time Around. Nesta época, Lennon era ridicularizado pelos outros Beatles por copiar Bob, usando até a “boina Dylan”. Ao ouvir do próprio Bob 4th Time Around, Lennon suspeitou do sarro de Dylan e disse não ter gostado. Posteriormente afirmou que gostara da música, mas o fato é que deixou de lado sua boina.

#31 – You’ve got to hide your love away: Sobre a música, Lennon assume: “Esta é minha fase Dylan”. McCartney analisa o quanto Bob afetou seu parceiro. “Era como se John sentisse que ‘aquele deveria ter sido eu’. E para isso, John fez uma imitação de Dylan”. Os primeiros versos de Hide your love away são similares aos de I don’t believe you (she acts like we have never met).

#36 – I shoul have know better: a revista dá a esta canção o crédito de ser a primeira música dos Beatles com inspiração dylanesca. O próprio solo de gaita de John, menos técnico que o apresentado em discos anteriores, já mostra esta influência. Enquanto estavam em Paris, em janeiro de 1964, o quarteto teve contato com The Frewhellin’. Lennon relembra que todos ouviram o disco durante as três semanas seguintes.

#53 – It won’t be long: Para a Rolling Stone, esta música era o tipo de canção que Bob tinha em mente quando afirmou que os acordes dos Beatles eram “extraordinários, simplesmente extraordinários”.

#62 – Girl: Em comparação com Just Like a Woman, a Rolling Stone acha que Girl deixa a canção de Dylan parecer uma coisa de criança. E você, concorda?

#71 – I’m a Loser: Além de influenciar a linha de gaita e o vocal de Lennon, John se sentiu “pressionado” para usar a palavra clown [palhaço] depois que Bob usou em diversas canções.

#76 – Yer blues: Ballad of a Thin Man é usada como referência, através do personagem Mr. Jones, para ilustrar a fase de falta de consciência cósmica de Lennon, durante sua viagem à Índia.

#78 – And your bird can sing: Dylan é citado por introduzir a maconha aos Beatles. A lenda diz que um McCartney drogado decobriu a chava da vida, que era: “existem sete níveis”.

#98 – Long, Long, Long: George Harrison se baseu na música Sad-Eyed Lady of the Lowland para compor Long, Long, Long. Tom Petty disse à revista que George citava Bob como as pessoas citam as Escrituras.

O poslúdio de Robert Shelton

Em um dos parágrafos finais, Robert Shelton faz uma retrato virtuoso com várias referências sobre a influência de Dylan. Consegui descobrir algumas canções e um álbum (que estão entre colchetes), mas sei que existem lacunas. De qualquer forma, é um belo trecho.

“Não podemos dar um preço às rimas, cadências e imagens de Bob Dylan que reentram no imaginário popular, de onde as tirou e refinou. Sabemos que o Mr. Jones é o arquifilisteu alheio ao fato de que algo está acontecendo [Ballad of a Thin Man]. Apesar de estarmos na Rua da Desolação [Desolation Row], continuamos seguindo em frente [Tangled Up in Blue]. Pode ser que haja sangue nos trilhos [Blood on the Tracks] e que nada seja revelado [Ballad of Frankie Lee and Judas Priest], mas ele nos disse que deve haver alguma escapatória [All Along the Watchtower]. Pode não haver caminho para casa [Like a Rolling Stone] para ele e para muitos de nós, mas com um pé na estrada e outro na cova, tentamos sair da jaula vazia que nos prende [Visions of Johanna]. Desespero e esperança travam um embate na torre do capitão, alerta-nos um par de gêmeos beligerantes. Apesar de estar tudo acabado agora, renovamos a nós mesmos deixando os mortos para trás [It’s All Over now, Baby Blue]. Somos mais jovens do que tudo isso agora [My back pages]. Morte e renascimento [Oh, Sister]. Para cada sete que morrem, há outras sete ocupadas nascendo [It’s alright, Ma]. Esquecemo-nos de onde terminam os versos de Dylan e começam os nossos.”

E aí? Mais alguma referência?