Áudio de entrevistas

Essa semana eu me deparei pela primeira vez com esses dois áudios de entrevistas de Dylan. O primeiro é editado, mas é mais cru. O segundo já é um especial bem amplo e interessante.

Para Jann Wenner (2007)

Em 2007, para comemorar seus 40 anos, a revista Rolling Stone entrevistou diversos artistas sobre o que mudou nessas quatro décadas. Jann Wenner, co-fundador da publicação, conversou com Dylan.

No áudio de parte da entrevista, Bob Dylan inicia com pouca vontade de contribuir, insinuando até que nunca foi prestativo com os jornalistas. Mas, acaba conversando sobre a influência da bomba atômica na música, sua relação com os Beatles, a importância e diferença entre religião e fé e comenta um pouco sobre o processo de produção da sua auto-biografia, Crônicas vol.1.

A entrevista publicada pode ser lida no acervo online da Rolling Stone.

Para Bert Kleinman (1984)

Um especial de mais de 2 horas com trechos de uma entrevista feita com Bob em 1984, pelo jornalista Bert Kleinman.

Na entrevista, Bob fala de várias passagens na sua vida. Diz, por exemplo que seu primeiro contato com Woody Guthrie foi através das músicas Pastures of Plenty e Pretty Boy Floyd; afirma também que começou a compor porque as canções que ele precisava cantar não existiam. Até elogia de modo bem-humorado sua frase “He not busy being born/ Is busy dying”.

É um especial bem longo, mas que vale muito a pena ouvir. Sugiro passar pra um MP3 Player e ouvir aos poucos, sem pressa.

Top 10 – Posts dylanescos

Para comemorar os 10 meses de idade e a casa nova, uma retrospectiva através dos 10 posts que julguei interessante. Para não enlouquecer, deixei em ordem cronológica de publicação.

1 – Trovadorismo Dylanesco (ou visões sobre Medgar Evers) – A partir de uma comparação entre as abordagens de Phil Ochs e Bob Dylan para o mesmo tema, o post mostra como Dylan eternizou através da linguagem poética tanto sua música quanto um retrato da sociedade americana da década de 60.

2 – A Hard Rain’s A-Gonna Fall (ou a descrição do medo e a discrição do terror) – Uma análise e contextualização de uma das canções mais ricas e emblemáticas de Dylan. Na época eu estava lendo a biografia escrita pelo Anthony Scaduto, que recomendo bastante.

3 – Ladies and gentlemen please welcome… – Relendo hoje, eu mudaria a “explicação” que utiliza Tom Zé como embasamento. Porém, ainda acho curioso saber a fonte da estranha introdução que Bob Dylan usa até hoje em seus shows.

4 – Dois melodramas em uma melodia – Além de dividirem a mesma melodia, Boots of spanish leather e Girl from north country bebem da mesma fonte lírica. Porém, cada canção empresou uma característica da letra original.

5 – Luz na iminente escuridão – Not dark yet é uma das minhas canções favoritas de Dylan. E ela só mostra o quanto Bob não é um artista datado, que se refere apenas aos anos 60. Muitas das suas últimas músicas mostram um compositor tão bom quanto antes. Mas agora ele tem a experiência a seu favor.

6 – Dueto inesperado – O registro deste dueto é imensurável. Mas como eu queria estar lá para ver Swiss Liz cantando junto com um Bob Dylan chaplinesco, enquanto o segurança não sabe o que fazer. Tudo isso com a platéia respondendo de maneira catártica.

7 – It ain’t me, babe – A recusa de Dylan – Uma abordagem menos óbvia sobre uma canção que aparentemente é “anti-mocinho”, mas que pode receber uma nova interpretação depois de levar em consideração afirmações e documentos de Bob.

8 – Os tolos e suas regras – Quando Bob Dylan se apresentou pela primeira vez na China, no começo do ano, muitas pessoas acharam que era obrigação um posicionamento em relação à política chinesa e à prisão de Weiwei. E Dylan se manteve fiel a si mesmo.

9 – No Direction Home, de Robert Shelton – Apesar de conter erros graves de revisão, o lançamento no Brasil desta biografia é um marco pois se trata de um livro essencial na biblioteca dylanesca e por ser basicamente a segunda biografia lançada em português sobre Dylan.

10 – Masters of War (ou Dylan sabor cítrico) – Esta é uma das canções mais agressivas e diretas de Bob. Quase não se vê poesia, apenas questionamentos revoltados em relação a uma problemática que se estende até os dias de hoje, quase 50 anos depois.

Bônus!

A origem do Farm Aid (ou Pedido de Dylan é uma ordem) – Um fato que soa hilário, mas que mostra o potencial profético que Dylan sempre teve. Mesmo que através de um comentário polêmico e desnecessário no contexto.

A relação esfumaçada entre Dylan e os Beatles – Tentei um tom que me arrependo, mas este encontro foi tão histórico que preciso destacá-lo. Imaginar o que seria dos Beatles sem a maconha é repensar praticamente toda a história dos anos 70 e a psicodelia.

O Folk Rock (ou Cavalo de Tróia em Newport) – Bob Dylan não tinha noção tanto da polêmica quanto do marco que seria sua apresentação elétrica no Newport Folk Festival. Enquanto muitos o rotularam como porta-voz, ele queria apenas botar pra fora os sons que tinha na cabeça.

O fraseado poético de Dylan

Ao longo de sua carreira, Bob Dylan desenvolvou diversos timbres na sua voz e fraseados distintos. No começo, antes mesmo de gravar seu primeiro álbum, amigos dizem que sua voz era doce, similar ao que ele faria nos álbuns do final da década de 60 (Nashville Skyline e Self Portrait, dos anos 70, por exemplo).

Um desses estilos foi o que Dylan usou nos seus primeiros álbuns. Seu modo de cantar era mais estruturado na letra do que na melodia. A música servia quase como uma trilha sonora para o conteúdo que Bob queria passar.

Em uma ótima reportagem de 1985 do jornalista Bob Brown, Dylan explicou como desenvolveu seu fraseado. No bairro novaiorquino de Greenwich Village, os Cafes onde os músicos folks se apresentavam eram também visitados e utilizados por poetas beats. Eles recitavam poesia e havia uma atmosfera artística tão rica que a troca era inevitável (ou, como Bob descreveu na música Tangled Up in Blue, “a revolução estava no ar”).

O vídeo da entrevista foi excluído da internet, mas aqui está a descrição completa e abaixo, um exemplo do fraseado de um dos poetas da época, Lawrence Ferlinghetti, durante o concerto “The Last Waltz” do grupo The Band, em que Bob Dylan também participou.