Hank Williams e sua influência em Bob Dylan

A influência de Hank Williams na obra de Bob Dylan é inegável e apresenta-se em diversas formas. A primeira delas está na própria história da música americana. Apesar de morrer aos 29 anos, Hank Williams é uma das lendas do country.

Veja mais algumas referências de Hank na obra de Dylan:

  • Segundo Oliver Trager, Bob Dylan afirmou em 1965 que começou a compor após ouvir Hank Williams;
  • Durante as primeiras apresentações como um músico folk, e principalmente no álbum Nashville Skyline, é possível ver a influência de Hank no estilo vocal de Dylan, que adotou seu lendário “gemido country”;
  • No documentário Dont Look Back, registrado antes de Dylan gravar o álbum Highway 61 Revisited e sua revolucionária Like a Rolling Stone, Bob aparece cantando a música Lost Highway, que contém a seguinte estrofe: “I’m a rolling stone, all alone and lost/ For a life of sin, I have paid the cost”;
  • Em 1950, Hank passou a utilizar o pseudônimo de Luke the Drifter para fazer canções mais recitadas e com um conteúdo filosófico/espiritual. Bob Dylan foi diretamente influenciado por este formato no álbum John Wesley Harding;
  • Há 10 anos, em 2001, foi lançado Timeless, um CD em tributo à Hank Williams. Diversos artistas interpretaram canções famosas. Entre as participações, estão Keith Richards, Keb’Mo’, Sheryl Crow e, obviamente, Bob Dylan.

The Lost Notebooks of Hank Williams

Já faz algum tempo que circulava a notícia que Bob Dylan estaria preparando um álbum em tributo a Hank Williams. E agora se confirmou o disco “The Lost Notebooks of Hank Williams”, que será lançado no dia 4 de outubro.

O registro será lançado pelo selo de Bob Dylan, o Egyptian Records, e distribuído pela Columbia. Se sair no Brasil, virá pela Sony/BMG.

O projeto é bem interessante e utilizou de letras inacabadas encontradas em cadernos de anotações de Hank Williams. Todas foram musicadas pelos artistas, escolhidos por conta da evidente influência de Hank no trabalho de cada um. Entre eles, Norah Jones, Jack White, Levon Helm e parte da família Dylan: Jakob e Bob, que infelizmente não fizeram um dueto.

Abaixo, a lista das músicas e seus intérpretes:

Alan Jackson – “You’ve Been Lonesome, Too”
Bob Dylan – “The Love That Faded”
Norah Jones – “How Many Times Have You Broken My Heart?”
Jack White – “You Know That I Know”
Lucinda Williams – “I’m So Happy I Found You”
Vince Gill and Rodney Crowell – “I Hope You Shed a Million Tears”
Patty Loveless – “You’re Through Fooling Me”
Levon Helm – “You’ll Never Again Be Mine”
Holly Williams – “Blue Is My Heart”
Jakob Dylan – “Oh, Mama, Come Home”
Sheryl Crow – “Angel Mine”
Merle Haggard – “The Sermon on the Mount”

The Ventures of Zimmerman (Bob Dylan em Quadrinhos)

A revista National Lampoon foi uma publicação dos anos 70 que nasceu a partir de outra revista, a Harvard Lampoon. Seu conteúdo era de humor e havia desde pequenos textos, imagens e desenhos, até histórias em quadrinhos.

Durante minhas procrastinações no Tumblr, encontrei imagens de uma revista em que Bob Dylan era a inspiração para o protagonista. The Ventures of Zimmerman foi publicada na edição de outubro de 1972. No site em que eu encontrei as imagens em tamanho maior, há um comentário interessante: como no início dos anos 70 já existia a nostalgia em relação aos anos 60 – a chamada na edição era “Lembra-se daqueles anos 60 fabulosos?”.

Abaixo, a capa e o link para as oito páginas das HQ.

Página 1
Página 2
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Página 4
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Página 6
Página 7
Página 8

O Folk Rock (ou Cavalo de Tróia em Newport)

Após se esquivar do papel de “voz de sua geração” e evitar ser rotulado como um compositor de música de protesto (posicionamento contido em letras como It Ain’t Me, Babe), Bob Dylan mantém sua liberdade pessoal e decide não mais seguir os dogmas estilísticos do folk.

As influências

Na prática, o mundo conspirava para a criação do folk rock. Em 1963, os EUA são invadidos pela beatlemania; no ano seguinte, The Animals grava sua versão elétrica de House Of The Rising Sun (cujo arranjo foi emprestado de Dylan, que furtou de Dave Van Ronk); ainda em 1964, Tom Wilson, produtor dos últimos discos de Dylan, faz experimentações em estúdio e junta o vocal de Dylan de “Rising Sun” com um instrumental que remete aos Animals; no início de 1965, o grupo The Byrds lança uma versão elétrica de Mr. Tambourine Man, atigindo o topo da parada da Billboard.

Quando Roger McGuinn, dos Byrds, se encontrou com Dylan e mostrou a versão do grupo para “Tambourine Man”, Bob ficou surpreso e disse: “Nossa, cara. É possível dançar com isso”.

Aos Animals, ele confessou que estava dirigindo quando reconheceu no rádio a versão da banda para “Rising Sun”. Ao perceber do que se tratava, Dylan parou o carro, ouviu a canção, saiu do veículo, pulou e bateu na capota. Foi como uma “eureka” de como ele poderia transformar sua arte.

De volta pra casa

Quando ainda respondia por Bob Zimmerman, Dylan montou seus primeiros grupos. Ao contrário do que muita gente pensa, sua primeira atuação na música foi através do Rock and Roll. Em Hibbing, Bob montou, junto com LeRoy Hoikkala e Monte Edwardson, a banda The Golden Chords, em que tocava piano, guitarra e cantava músicas principalmente de Little Richard.

Bob também flertou com o rock no início dos anos 60. Em 1962, seu primeiro single foi Mixed Up Confusion, uma música improvisada e confusa que tinha Dylan acompanhado de uma banda.

Assim, o título Bringing It All Back Home, álbum de 1965, é uma clara referência ao rock and roll presente na vida de Dylan desde o início. Apesar da decisão de tornar seu som elétrico, Bob resolveu fazer isso com gradatividade. Em Bringing It All Back Home, apenas o lado A do disco é acompanhado de banda.

O lado B do disco é reservado para as versões acústicas. Mr. Tambourine Man é acompanhado por uma sutil guitarra e Gates of Eden tem um formato tranquilo, mas seu conteúdo é desconfortável.

As duas últimas músicas do disco são ansiosas e agressivas. It’s Alright, Ma (I’m only bleeding) é intepretada com tamanha intensidade que Bob parece não ter tempo nem para respirar. It’s all over now, baby blue termina o álbum de forma cítrica. Alguns especulam que seja o fim do relacionamento de Dylan com Joan Baez. Outros, como eu, já a interpretam como o fim do relacionamento de Dylan… com o folk.

Cavalho de Tróia em Newport

Desde sua estréia no Newport Folk Festival, em 1963, Bob foi considerado a grande aparição no cenário Folk e um dos poucos que conseguiriam manter a tocha do engajamento político acesa. Em 1964 Dylan era a principal atração. O mesmo aconteceu no ano seguinte, mas Dylan tinha novos planos.

Nestes vídeos abaixo, é possível perceber a apunhalada que foi sua apresentação em 1965, quado resolve tocar Maggie’s Farm e a recém-lançada Like a Rolling Stone.

Após o choque elétrico, Peter Yarrow (do trio Peter, Paul & Mary) pede que Dylan volte com seu “machado” e cante algumas músicas acústicas. Bob acalma a todos com seu “Tambourine Man”, mas depois dá seu recado preciso com “It’s All over now”.

As consequências

Mesmo que sob influência de uma porção de fatores, ainda é possível dar a Dylan o crédito de criado do folk rock. O estilo não durou muito tempo e foi logo substituído pela psicodelia, mas sua importância se manteve, já que consolidou Bob Dylan no status não mais apenas de mero cantor folk, mas do poeta da música pop.