Luz na iminente escuridão

Uma vez uma amiga veio conversar comigo em um tom sério e cauteloso. Ela questionou basicamente o seguinte:
– Porque você parou no tempo e fica nessa de ouvir Bob Dylan? Essa época já passou, você não acha?

Já estou calejado e evitei explicar as razões que me fazem (ainda) ouvir Dylan. A única resposta que dei foi:
– Ele está vivo. Portanto, ainda podemos considerá-lo contemporâneo. Não é tão “fora de época” assim.

O conhecimento geral é que Bob Dylan foi um artista dos anos 60. De fato foi, mas, talvez como sua maior característica, ele nunca se contentou em ser esse personagem estático. Exemplifico essa afirmação com uma música, dentre tantas que eu poderia citar, da “época atual”.

Lançada no álbum Time out of mind (1997), quando Bob Dylan tinha 56 anos, Not dark yet pode ser interpretada como uma descrição poética da velhice. Segundo Brian Hinton, Emmylou Harris – que cantou com Dylan no álbum Desire – acha que é a melhor canção já composta sobre envelhecer: “Para aqueles de nós que estão atravessando essa porta, a canção traz à luz coisas que nem sabíamos ser capazes de sentir. Ele colocou poesia nessa experiência”.

Ela pode soar “vintage” e descrever um idoso, mas está longe de ser uma canção velha. Como uma tendência dos álbuns considerados trilogia (Time out of mind [1997], Love and theft [2001] e Modern times [2006]), Bob Dylan intercala aspectos individuais com reflexões afinadas com a contemporaneidade.

Ironicamente, meses após a gravação de Time out of mind, Bob Dylan quase morreu ao ter uma doença rara e grave. Howard Sounes escreveu que Dylan foi diagnosticado com pericardite – uma inflamação do pericárdio (uma película que reveste o coração), que impossibilitou o fluxo correto do sangue. O problema foi provocado pela inalação de um fungo, que provoca a histoplasmose.

Detalhes à parte, Bob Dylan se mostra ser, ainda hoje, um artista que se renova, mesmo que a sua maneira. Muitas canções atuais de Dylan têm o mesmo poder e intensidade que os “greatest hits” dos anos 60. Mesmo com o fim próximo, com a escuridão cada vez mais iminente, a luz ainda não se apagou.

Pretty Peggy-O

Pretty Peggy-O é um dos inúmeros nomes de uma tradicional canção folk escocesa, inicialmente chamada The Bonnie Lass o’ Fyvie. Assim como as variações no título, inúmeras pessoas gravaram a música e fizeram alterações na letra, hábito comum entre os interpretes de folk.

Bob Dylan gravou a canção no seu álbum de estréia, de 1962, e “americanizou-a”, incluindo duas últimas estrofes que faziam menção à realidade e ao território dos EUA:

The lieutenant he has gone
The lieutenant he has gone
The lieutenant he has gone, Pretty Peggy-O
The lieutenant he has gone, long gone
He’s a-riding down in Texas with the rodeo.

Well, our captain he is dead, our captain he is dead
Our captain he is dead, Pretty Peggy-O
Well, our captain he is dead, died for a maid
He’s buried somewhere in Louisiana-O.

O blog Hear Ya, especializado em bandas indies, gravou uma sessão com a banda canadense The Deep Dark Woods interpretando a canção. A versão dessa banda se assemelha mais a de Jerry Garcia – muito boa, por sinal – do que a de Bob Dylan. De qualquer forma, a versão abaixo é uma bela interpretação, principalmente pelos toques do piano elétrico e órgão, além da voz grave e aveludada.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=dI-fHd6wW5I]

My Back Pages (ensaio do concerto em homenagem a Bob Dylan)

Como complemento do post sobre o Concerto em homenagem a Bob Dylan, um vídeo com o ensaio da música My Back Pages, com a participação de George Harrison, Eric Clapton, Neil Young, Tom Petty, Roger McGuinn e G.E. Smith.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=g3zStElryLY]

Detalhe para o respeitoso pedido de licença de Clapton para Dylan, no minuto 4:20.