Infelizmente, eu não era receptivo a nada daquilo na época. Na real não tinha ouvido coisa nenhuma de Bob e estava desenvolvendo um forte preconceito contra ele, baseado, suponho, no que eu pensava de gente que gostava dele. No que me dizia respeito, Dylan era um folkie. Eu não conseguia enteder todo aquele alvoçoro, e parecia que todo mundo ao redor dele o protegia até a morte. Contudo, uma pessoa de sua comitiva com que me dei bem instantaneamente foi Bobby Neuwirth. Acho que era pintor ou poeta. Parecia companheiro de Dylan, mas achou tempo para conversar comigo e tentar me dar dicas sobre o que estava rolando. Eu era como “Mr. Jones” em “Ballad of a thin man”, mas foi o começo da amizade de uma vida inteira. Não lembro de Dylan conversar com ninguém; talvez fosse tímido como eu. […] Não pensei muito a respeito de Bob Dylan por um tempo, e aí ouvi “Blonde on blonde” e graças a Deus finalmente saquei.
Uma vez uma amiga veio conversar comigo em um tom sério e cauteloso. Ela questionou basicamente o seguinte: – Porque você parou no tempo e fica nessa de ouvir Bob Dylan? Essa época já passou, você não acha?
Já estou calejado e evitei explicar as razões que me fazem (ainda) ouvir Dylan. A única resposta que dei foi: – Ele está vivo. Portanto, ainda podemos considerá-lo contemporâneo. Não é tão “fora de época” assim.
O conhecimento geral é que Bob Dylan foi um artista dos anos 60. De fato foi, mas, talvez como sua maior característica, ele nunca se contentou em ser esse personagem estático. Exemplifico essa afirmação com uma música, dentre tantas que eu poderia citar, da “época atual”.
Lançada no álbum Time out of mind (1997), quando Bob Dylan tinha 56 anos, Not dark yet pode ser interpretada como uma descrição poética da velhice. Segundo Brian Hinton, Emmylou Harris – que cantou com Dylan no álbum Desire – acha que é a melhor canção já composta sobre envelhecer: “Para aqueles de nós que estão atravessando essa porta, a canção traz à luz coisas que nem sabíamos ser capazes de sentir. Ele colocou poesia nessa experiência”.
Ela pode soar “vintage” e descrever um idoso, mas está longe de ser uma canção velha. Como uma tendência dos álbuns considerados trilogia (Time out of mind [1997], Love and theft [2001] e Modern times [2006]), Bob Dylan intercala aspectos individuais com reflexões afinadas com a contemporaneidade.
Ironicamente, meses após a gravação de Time out of mind, Bob Dylan quase morreu ao ter uma doença rara e grave. Howard Sounes escreveu que Dylan foi diagnosticado com pericardite – uma inflamação do pericárdio (uma película que reveste o coração), que impossibilitou o fluxo correto do sangue. O problema foi provocado pela inalação de um fungo, que provoca a histoplasmose.
Detalhes à parte, Bob Dylan se mostra ser, ainda hoje, um artista que se renova, mesmo que a sua maneira. Muitas canções atuais de Dylan têm o mesmo poder e intensidade que os “greatest hits” dos anos 60. Mesmo com o fim próximo, com a escuridão cada vez mais iminente, a luz ainda não se apagou.