Caligrafia dylanesca

No clipe de “Subterranean Homesick Blues”, Bob Dylan já havia percebido o potencial gráfico de sua verborragia. Na ocasião, escreveu em diversos cartazes trocadilhos referentes a sua letra.

Há quem fizera uma versão em Tipografia Cinética, mas o brasileiro Leandro Senna, residente nos Estados Unidos, utilizou da canção para mostrar suas aptidões caligráficas.

Para isso ele criou 66 cartazes em várias fontes e desenhos. Um belíssimo trabalho feito à mão.

Assista e surpreenda-se:
[vimeo=http://vimeo.com/49556689]

Veja aqui outras fotos e conheça mais o trabalho de Leandro Senna.

Ele falou! Dylan na capa da Rolling Stone

Para aumentar a divulgação de Tempest, Bob Dylan concedeu uma entrevista para a Rolling Stone americana, publicada na edição #1166. Nela, tocou em assuntos interessantes e curiosos, como sua “transfiguração”, a escravidão nos EUA, Obama, sua relação com arte e sua ira aos críticos. Mikal Gilmore, que já entrevistou Dylan para a Rolling Stones outras duas vezes (1986 e 2001), afirmou dessa vez que “este é o Bob Dylan como se você nunca tivesse o conhecido”.

Gilmore falou com Dylan pessoalmente e trocou algumas ligações e recados durante alguns dias. No encontro, feito em um restaurante de Santa Mônica (próximo a Malibu, onde Bob mora), o cantor vestia trajes mais quentes do que o clima sugeria: jaqueta de couro abotoada, camisa branca espessa, um gorro e uma franja falsa (um personagem parecido com o que Jotabê Medeiros encontrou em Copacabana).

Abaixo, alguns destaques dessa já histórica entrevista.

Tempest

Sobre Tempest, Bob disse que o álbum nasceu contrário a sua intenção – sua preferência era de um disco religioso (mais parecido com as canções tradicionais religiosas do que com os lançamentos de sua fase cristã). Contudo, viu que as canções se uniam e seguiu dessa forma, que para ele é muito mas fácil fazer.

Sobre o disco Time Out of Mind, marco de sua “volta triunfal”, Dylan afirmou que o que mudou foi sua forma de escrever. Após um hiato de seis anos, Bob Dylan voltou a escrever, dessa vez tendo em vista seu novo público. Ao invés de obrigar sua audiência a ouvir as canções que fizeram sentido em outros tempos, preferiu compor músicas que seu público atual pudesse se identificar.

 

Bobby Zimmerman²

Um dos pontos mais curiosos da entrevista foi sua revelação como um “transfigurado”. Ao ser questionado sobre ser uma voz única para os Estados Unidos, já que retrata eventos históricos ou os comenta, Dylan responde, mas alterna rapidamente seu humor, empolgando-se para compartilhar algo. Ele se levanta, vai até uma mesa ao lado e tráz o livro Hell’s Angel: The Life and Times of Sonny Barger and the Hells Angels Motorcycle Club, de Sonny Barger.

Primeiro, ele mostra quem são os co-autores: Keith e Kent Zimmerman (mesmo sobrenome de batismo de Dylan, nascido Robert Allen Zimmerman). Depois, pede para que Gilmore leia um trecho tão intrigante quanto a própria cena em que o jornalista se encontra: uma descrição da morte acidental de um motociclista chamado… Bobby Zimmerman (!).

A morte deste Bobby foi anos antes de Dylan sofrer seu próprio acidente de moto. Assim, Bob refletiu sobre seu acidente e sua possível morte. Como transfigurado, Dylan aparentemente remete ao conceito cristão de “transformação” ou mudança. Bob diz que só pensou sobre quem ele era a partir da leitura do livro de Barger e ainda conclui:

“Você está fazendo perguntas para alguém que está há muito tempo morto. Você está perguntando para uma pessoa que não existe”.

 

Crônicas, volume 2?

Perguntado sobre a continuação de sua autobiografia, planejada para ter três volumes, Bob Dylan disse que está sempre escrevendo, mas não informou qualquer data. Ele comentou que “Crônicas, V.1” parecia não ter um editor. Para ele, escrever não é complicado, mas o mais complexo é a releitura e o tempo que isso consome.

Judas

Mikal Gilmore questionou Bob sobre as críticas feitas por vários jornalistas que acusaram o músico de plágio. Algumas frases do livro Confessions of a Yakuza aparecem quase que integralmente em canções de Love & Theft e letras de Modern Times parecem ter sido emprestadas de poemas de Henry Timrod. Sobre isso, extraordinariamente fez menção a um dos episódios mais marcantes de sua cáustica escolha pela guitarra, em 65:

“Essas pessoas colocaram o rótulo de Judas em mim. Judas, o nome mais odiado da história humana! Se você acha que já te colocaram um apelido ruim, tenta seguir em frente com esse peso. E por quê? Por tocar guitarra elétrica. Como se isso fosse o mesmo que trair nosso Senhor e entregá-lo para a crucificação. Todos esses desgraçados maldosos podem apodrecer no inferno”

“No jazz e no folk a citação é uma tradição rica e enriquecedora. Isso certamente é verdade para todos, menos para mim”, desabafa, “As regras são diferentes para mim. Quanto a Henry Timrod, você já ouviu falar dele? Quem tem lido ele ultimamente? E quem está colocando seu nome em evidência? Quem fez com que você o lesse? Se você acha que é fácil citá-lo e que isso ajudaria o seu trabalho, faça você mesmo e vamos ver quão longe você vai. Só bundões reclamam disso. É algo antigo, parte da tradição. (…) Isso se chama composição. Tem a ver com ritmo e melodia e depois vale tudo. Você torna tudo seu. Todos fazemos isso”

Além desses destaques, Bob Dylan conversou sobre sua não identificação com os anos 60 (principalmente o movimento hippie), o governo de Obama (que Dylan tratou de desviar de qualquer afirmação), elogios a Bruce Springsgteen e Bono Vox e até de sua relação com o público nos shows, dizendo: “Minhas músicas são pessoais. Eu não gostaria que as pessoas cantassem junto comigo. Soaria engraçado”.

Agora é esperar que seja feita a tradução na íntegra na próxima edição da Rolling Stone Brasil.

Mas enquanto ela não vem:

Tempest (Parte 2): de carona com Bob Dylan

Confira aqui a primeira parte.

Quando tive o primeiro acesso a Tempest na íntegra, preferi ouví-lo em sua ordem ao invés de escutar primeiro as faixas até então inéditas para mim. Confesso que fiquei ansioso, já que as canções mais faladas eram justamente as duas últimas do disco. Mas a viagem agradabilíssima até o destino valeu tanto, senão mais, do que o ponto final. A tempestade dylanesca finalmente caía.

Para quem acompanha as centenas de shows anuais que Bob faz, pode perceber a diferença ocorrida entre 2011 e 2012. Dylan parece mais à vontade no palco, investindo em suas performances. Curva-se com as mãos nos joelhos enquanto sola sua gaita; sorrisos fáceis distribuídos agora com mais frequência; experimentalismos sonoros, alternando instrumentos no meio da música e incluindo ecos em sua voz.

Como se a usasse para alongar suas canções, Bob Dylan tornou a gaita ausente em Tempest e voltou a investir pesado em letras extensas. O espaço para solos também é escasso. Das 10 músicas, metade ultrapassam os sete minutos e apenas uma possui menos de quatro minutos. Mais de 23 mil caracteres espalhados em 68 minutos.

Tempest é uma viagem em vários sentidos. A música é apenas um pano de fundo para que o cantor, ou o narrador, conte suas histórias compiladas em andanças. Até esse momento, seria impensável imaginar Dylan cantando baladas românticas que parecem ter saído da Motown ou das madrugadas calmas da Sun Records. Bob não só assume o papel de andarilho, como usa com muita sabedoria o desgaste de sua voz para cantar com a experiência de um ancião que experimentou o trajeto dantesco.

Trilhando – Tempest

#1 – Duquesne Whistle: A Rolling Stone achou o clipe “chocantemente violento”, comparando até a Goodfellas. Para mim o vídeo é bem humorado, mostrando o quanto se sofre com o amor – ou apenas um belo fim para um “stalker”. E como disseram no Facebook: Bob Dylan parece ter feito as pazes com a juventude.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=mns9VeRguys]

A canção, co-escrita por Robert Hunter (que também participou de Together Through Life), é uma amável história de nostalgia. O narrador lembra, a partir do apito, de um “namoro de portão” e da árvore que costumava subir. A melodia parece ecoar Earl Hines e sua “I ain’t got nobody”.

O que seria esse apito de Duquesne? Alguns acham que se trata de uma fornalha localizada em Duquesne, Pennsylvania. Porém, existe uma antiga linha de trem que vai de New York até Pittsburgh que era conhecida como Duquesne, mas que agora se chama Amtrak.

#2 – Soon After Midnight: Bob Dylan parece realizar um de seus possíveis sonhos: ser adulto o bastante para adentrar a Sun Records dos anos 50 e gravar um R&B tranquilo e acalentador. Há uma clara referência a Elvis em “It’s now or never/ More than ever”. A belíssima e suave canção deveria durar muito mais e bem que poderia ter um final menos abrupto.

#3 – Narrow Way: Um blues rápido e encrenqueiro que tem boas frases como: “I’m still hurting from an arrow, that pierced my chest/ I’m gonna have to take my head, and bury it between your breasts”. O refrão, como Will Hermes percebeu, é emprestado de uma antiga canção de Mississippi Sheiks, “You’ll Work Down to Me Someday”.

#4 – Long and Wasted Years: Um country-soul primoroso e comovente que lamenta o fim de um grande amor. Algumas frases poderiam estar em Crônicas V.2, como: “I wear dark glasses to cover my eyes/ There are secrets in them I can’t disguise/ Come back baby if I ever hurt your feelings I apologize”. Seu arranjo é um registro da atual fase de Dylan e sua experimentação melódica cadenciada.

#5 – Pay In Blood: Para mim, uma das melhores canções de Dylan dos últimos 30 anos. A vingança volta a ser tema, mas dessa vez a acidez dylanesca vem com muito mais experiência e sabedoria. A voz de Bob está mais rasgada do que nunca, tornando a música ainda mais forte. No Expecting Rain encontraram ecos de Julio Caesar de Shakespeare (“I came to bury, not to praise”).

#6 – Scarlet Town: Com uma atmosfera nebulosa que lembra “Ain’t Talkin’”, de Modern Times, Bob cita a mesma cidade utilizada como pano de fundo em uma das versões da tradicional “Barbara Allen”. Mantendo a referência ao passado, Dylan “pegou emprestado” algumas frases do poeta John Greenleaf Whittier.

#7 – Early Roman Kings: Um blues pesado e vagaroso que se baseia em “Manish Boy” de Muddy Waters e principalmente em “I am a man”, de Bo Didley. Como já dito, Bob usou da frase “I ain’t dead yet”, criada por Woody Guthrie, que em 1961 deu um bilhete a Dylan com a frase para comprovar que ainda estava vivo.

#8 – Tin Angel: Apesar de extremamente monótona, a narrativa prende e inebria o ouvinte. Seu enredo parece ter saído de uma compilação de histórias do folk tradicional americano. É como se Dylan reescrevesse toda a antologia de Harry Smith.

#9 – Tempest: Para quem acha que o clima alegre não foi uma boa escolha de Dylan, saiba que a melodia foi baseada na canção da Carter Family sobre o mesmo tema, “The Great Titanic”. Bob investe quase 14 minutos do disco para contar a história do fatídico e centenário acidente do Titanic, ocorrido em 14 de abril de 1912. Na descrição, nem Leonardo DiCaprio, ou apenas Leo, escapa.

#10 – Roll On John: A canção que fecha o álbum, como uma trilha enquanto sobem os créditos, é uma homenagem comovente e sincera de Dylan ao amigo John Lennon, morto em 1980. Bob utiliza de alguns versos do ex-beatle para recontar parte da vida de John. O título da canção é emprestada de uma homônima, intepretada por Dylan 50 anos antes, em janeiro de 1962.

Às vezes, a sensação é de que estamos realmente em um Pontiac Tempest, há 130Km/h. Em outras, estamos em um Corvette conversível, enquanto sentimos o vento leve e podemos curtir com calma a bela paisagem que se apresenta.

O destino final é, sem sombra de dúvidas, a fonte Palas-Atena e seus significados: sabedoria, justiça e arte.

Roll On, Bob.