A Balada de Bob Dylan – Um retrato musical

Depois de um 2011 com lançamentos de ótimos livros dylanescos no país (a saber: um guia e uma biografia), a editora Zahar traz mais uma boa novidade literária ao mercado brasileiro.

“A Balada de Bob Dylan” foi escrita pelo poeta, biógrafo e dramaturgo Daniel Mark Epstein e, como Eduardo Bueno afirma na apresentação, vai além de um mero registro da vida e obra dylanesca:

“(…) essa balada é, ao mesmo tempo, mais e menos do que uma biografia: é uma reportagem autoral, um conto fidedigno, um ensaio biográfico, um longo poema em prosa; os gêneros se mesclam, se fundem e se completam de tal forma que, a certa altura, chegam a dar ao leitor a impressão de que o fazem com o propósito de forjar um novo modelo: um retrato literário, como o subtítulo sugere”.

O livro é trilhado através de quatro shows distintos em que Epstein foi testemunha ocular: 14 de dezembro de 1963 (um dia depois de Dylan ter “se comparado” ao assassino de Kennedy, Lee Oswald); 30 de janeiro de 1974 (show no Madison Square Garden, com The Band, que se tornaria o disco “Before The Flood”); 4 de agosto de 1997 (cinco semanas antes do lançamento de “Time Out of Mind” – álbum considerado “a volta por cima” de Dylan); e 24 de julho de 2009 (quando Bob excursionou com Willie Nelson e John Mellencamp).

A partir desses momentos distintos, Mark invade as entrelinhas não apenas das letras, mas também das inúmeras variações no arranjo das canções e expande a reflexão para montar um panorâma rico e poético de Bob e todo seu contexto.

Uma das coisas mais interessantes desta obra é que ela é efetivamente recente (nos EUA, foi lançado a apenas um ano atrás). Isso faz com que vários fatos atuais sejam analisados, como é o caso do Theme Time Radio Hour e do mais recente disco de inéditas de Dylan, Together Through Life.

Assim, como dito por Eduardo Bueno na apresentação e em algumas boas resenhas do livro na época do lançamento americano, “A Balada de Bob Dylan” se diferencia dos incontáveis livros anualmente lançados sobre Bob. É um retrato que vale a pena ser lido e absorvido.

A Balada de Bob Dylan – Um retrato musical

Autor: Daniel Mark Epstein
Tradução: Thiago Lins
Apresentação: Eduardo Bueno
524 páginas

Saraiva | Livraria Cultura | Fnac

Sinestesia dylanesca Plus

Oscar Fortunato é um artista plástico brasileiro que consegue absorver a essência do universo dylanesco no seu trabalho. Em suas obras com influência direta do cantor é possível perceber uma abordagem engajada, mas não estritamente política – algo facilmente encontrado em boa parte das canções de Bob Dylan.

OUTSIDER

Em 2009, por exemplo, Oscar utilizou do conhecido “lambe-lambe” para criar em Goiânia e Brasília uma inteligente exposição a céu aberto que integrou o projeto OUTSIDER (com um belíssimo texto de abertura do dylanesco-mor Eduardo Bueno).

POSTAIS DO ABISMO
Eduardo Bueno

Sou portador de boas novas.
Novas e boas, meus bons moços.
O circo chegou à cidade. E não para vender cartões-postais de enforcados.
Mas cartazes de foras-da-lei com as cabeças a prêmio.
Procura-se!
(encontrar é o de menos – a não ser que você esteja se achando).
O salão de beleza está repleto de marmanjos & marujos & marchands cegos.
Eles se põem em marcha para vender manchas e manchar reputações.
Eles usam black-tie.
Compradores de promessas por um punhado de dólares, dando tiros no escuro.
Oscar Fortunato chega ao baile de gala achando que é baile de máscaras.
Mas ficou bem de Charada na festa à fantasia, em meio aos pingüins de smoking.
O Coringa traz um ás na manga: um valete que se abre em copas.
É Jack of Hearts na cabeça, diz o Jokerman.
É o rei dos caras de pau. Tem olho de vidro e cara de mau.
Debaixo do braço, não uma caixa de violino,
mas a vitrola-metralhadora de matar fascistas.
Essa máquina funciona bem desde a já era do LP.

Estilhaços de poema para todo o lado.
Sangue sobre tela, respingando no linóleo
como pedaços de um espelho partido.
Plácidos linoplastos borrifados de borrões.
Técnicas mistas em papel duro, oxidando nos dedos.
Oscar dá as tintas: um chope e dois pastel oleoso.
Painting box & tinteiro com nanquim a serigrafar o inserigrafável.
Aqui estão os outdoors da percepção, repletos de outsiders & outcasts,
out there.
Alto lá. Mãos ao alto – e pé na estrada.
Trocando os pés pelas mãos, pausa para aplausos:
Bem vindo ao Bob pop show. E Bob não é bobo:
Na era do acrílico, está em busca de uma gema.
But we know he doesn´t talk.
Mas avista e avisa: melhor entrar na arca antes do dilúvio universal.
A hard rain is gonna fall – e não é chuva de estrelas.
Eu ia lhe chamar enquanto corria a barca.
Só que o afortunado Oscar não está lá.
E não está aqui: tá nem aí.
Ele está certo que é um errante.
Pegou um big yellow táxi e foi-se embora, de carona com Lenny Bruce,
enquanto Ginsberg uiva o Kaddish e, em bom português, Kerouac diz:
“Fui-me de boleia ao Orégão!”
Luzem os lusíadas nos tristes trópicos.
Novos tópicos? Oscar topa todos.
Mas não topa tudo por dinheiro.
Sabe que é solitário lá no topo.

Alguém poderá dizer: faltou Einstein disfarçado de Robin Hood!
Mas isso aqui não é a travessa da desolação, meu chapa.
Nem o boulevard dos sonhos perdidos.
É a autopista, o autorama, a auto-estrada autoral do auto-conhecimento.
Não entendeu nada?
Nem pense duas vezes: it´s allright, ma.
Estamos apenas sangrando.
So let it bleed & let it beat.
Soa esse som estranho em seus ouvidos.
Não são nossos últimos suspiros.
São respostas que não querem calar, blowin in the wind.

Além das frases traduzidas de canções de Bob Dylan, o restante da exposição continha obras que absorveram o contexto em que Dylan é inserido. Nas obras, há também referência a Woody Guthrie (na vitrola preta com a placa “This Machine Still Kills Fascists”) e Jack Kerouac – como um dos protagonistas de “Lily, Rosemary and The Jack Of Hearts”.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Wv6DXW0WDNE]

Durante a vernissage em Brasília, o Senador Eduardo Suplicy esteve presente e até entoou sua famosa versão a cappella de “Blowin’ In The Wind”:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=gpoO4bvL38o]

PLUS

A partir das criações de Oscar, sua mulher Lydia Himmen – que gerenciava os trabalhos do artista – resolveu expandir sua atuação. Ao invés de criar uma galeria fixa e restringir seu público apenas à Goiânia, onde residem, Lydia criou uma galeria virtual para representar Oscar e vários outros artistas. Assim nascia a Plus.

Isso foi em 2010. De lá pra cá, “things have changed” pra muito melhor, com o crescimento do acervo e do número de artistas que integram a Plus. Agora, em comemoração aos dois anos da galeria, Lydia e Oscar farão um Plus Open House, que acontece no próximo sábado (9 de junho).

Além de abrir a casa+atelier+escritório, Oscar fará impressão de Linoplastos, Gravuras e camisetas com telas de sua autoria.

Plus Open House
Quando: 09 de junho de 2012
Onde: rua 114, 70. St Sul. Goiânia , GO
contato@plusgaleria.com

Clique aqui e conheça outras obras de Oscar Fortunato.