Análise de “Ballad Of a Thin Man”

Updade (2024): comecei um podcast para abordar diversos temas. São episódios curtos com informações e análises e um dos primeiros é sobre essa canção. Conheça o Podcast Dylanesco, disponível no Spotify, Amazon Music, Apple Podcast e Youtube. Ah, aproveita e segue no Instagram também: @dylanesco. 

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A pergunta mais óbvia que se faz depois de ouvir “The Ballad Of a Thin Man” é: quem é o tal Mr. Jones? Porém, muito mais do que saber seu primeiro nome ou seu semblante, a canção explora um dos maiores arquétipos de Dylan. “Um observador que não vê, uma pessoa que não faz as perguntas certas”, segundo um dos dylanescos-mor, Robert Shelton. Por isso, que tal uma imersão nessa canção que pouco saiu do repertório de Dylan desde 1965?

Something is Happening: Contexto

Desde quando Bob Dylan estava inserido apenas na cena Folk, com canções como “Blowin’ In The Wind”, “A Hard Rain’s A-Gonna Fall” e “It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding)”, já havia uma condecoração nobre: um poeta profético. Após os discos elétricos, seu público aumentou consideravelmente e junto com ele houve uma inflação na sua reverência, sendo promovido a termos como “Porta Voz da Geração”.

Além da especulação quase divina em relação à Dylan, outro ponto importante era o próprio jornalismo da época. As primeiras revistas dedicadas ao rock estavam apenas começando e muitas publicações mais tradicionais ainda não sabia lidar com o aumento de relevância do estilo e sua aproximação a uma poética mais ousada, engajada e complexa. O despreparo e falta de imersão geraram algumas perguntas absurdas e necessidade de um rótulo de algo que ainda estava em transformação. Seus registros são no mínimo curiosos:

Os exemplos acima mostram parte do cotidiano de Bob quando estava em turnê ou divulgação de novidades (com lançamentos a cada 3 meses entre 62 e 66, contando álbuns e singles). Uma hora é preciso revidar, certo?

Nobody Has Any Respect: Conteúdo

Com um nome possivelmente baseado na franquia de comédia dos anos 30 e 40 “Thin Man”, que em 1947 lançou o filme “The Song of the Thin Man” (o que, ao meu ver, não é preciso ter de muita reflexão sobre o título, sendo apenas uma curiosidade. Como é possível ouvir na versão Deluxe do Bootleg Series Vol.12, Dylan costumava batizar as canções com palavras praticamente aleatórias. Neste caso, Dylan diz no começo do take 1 “Esta se chama “Ballad of a Thin Man, Parte 1”), a canção é descrita por Oliver Trager como uma versão dylanesca para O Processo, de Kafka, em que Mr. Jones está preso no absurdo e é julgado em um meio que ele desconhece.

Para Mark Polizzotti, “Thin Man” segue a mesma linha acusatória de “Like A Rolling Stone” e “Positively 4th Street”, mas dessa vez Dylan é o grande inquisitor, distante e implacável.

Mr. Jones é um homem comum, de família rica, que se acha entendido por ler best sellers de literatura e por andar com gente culta e metida a inteligente. Contudo, quando se depara com uma realidade diferente da qual está acostumado, se perde por completo, sem entender absolutamente nada.

Ao nomeá-lo, Dylan incitou uma série de especulações sobre o real senhor Jones. Há quem o classifique como Brian Jones, dos Stones; há quem ache que foi uma menção ao escritor negro e militante Le Roi Jones; ou mesmo que há um contexto homossexual. Bob Dylan desvendou o mistério 12 anos depois, em um show de 1978, quando afirmou que escreveu a canção para “um repórter que trabalhava no Village Voice em 1963” (talvez Jeffrey Jones, que se sentiu até orgulhoso pelo bullying dylanesco). Em 1986, Dylan deu ainda mais pistas sobre sua motivação:

“Esta é uma canção que eu escrevi em resposta às pessoas que fazem perguntas todo o tempo… Eu imagino que a vida de uma pessoa fala por si mesmo, certo? Então de vez em quando você tem que fazer este tipo de coisa – colocar alguém no seu devido lugar… Esta é minha responsta para algo que aconteceu na Inglaterra, eu acho que foi 1963 ou 1964…” – Bob Dylan

Assim como o freakshow que Mr. Jones se depara, sua identidade é uma construção complexa, como uma colcha de retalhos. Sua fonte primária pode ter sido o tal repórter, mas acho que o próprio Dylan percebeu como o perfil se adequaria a inúmeros outros jornalistas e curiosos de algo que estava acontecendo e não sabiam do que se tratava. As analogias e metáforas de Dylan criam uma ambiência rica para exemplificar como “entendedores entenderão”. A escolha do sobrenome pode ter nascido de uma pessoa real, mas também é uma opção comum (como Silva aqui no Brasil). Um exemplo está na clássica entrevista de Bob a Horace Judson, da revista Time, em que o músico quer exemplificar um homem comum e diz “C.W. Jones”.

“Ballad of a Thin Man” deve ser entendida não só como um produto dentro de um contexto – quando Dylan deu cérebro ao rock e bagunçou toda uma forma pseudo-jornalística de se abordar o pop -, mas também expandir a reflexão para as relações humanas. Oliver Trager sugere “O Processo”, mas há mais Kafka em “Thin Man”. Tal qual em “A Metamorfose”, Bob Dylan questiona as relações humanas, as intenções reais dos interlocutores. Não há respeito, não há boas intenções. É o absurdo do Homem sendo o lobo do Homem.

Here’s Your Throat Back: Forma

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Depois de alguns dias de descanso, Bob Dylan e sua banda de apoio (Mike Bloomfiled – guitarra; Paul Griffin – Rhodes; Al Kooper – órgão; Bobby Gregg – bateria; Harvey Brooks – baixo) voltaram para o estúdio A da Columbia no dia 2 de agosto, segunda-feira, para uma sessão produtiva e penúltima ida ao estúdio do que se tornaria Highway 61 Revisited (a próxima sessão seria exclusiva para “Desolation Row). “Ballad of a Thin Man” é última a ser gravada no dia (por volta das duas da manhã), a primeira música do álbum a começar com um piano – que muitos não sabiam que era o instrumento inicial de Dylan -, e apenas dois takes para chegar a versão final. É um começo soturno, que ganha ainda mais calafrios com a bateria arrastada e as ambiências sonoras do órgão. O clima é quebrado com um breve riso de Bob, que parece ilustrar o absurdo da canção.

Com exceção da Ponte, cada estrofe obedece o mesmo formato, com Dylan enfatizando a rima e a penúltima linha rimando com “Mr. Jones (a-a-a-b-b). Como disse Polizzotti, Bob já usou este tipo de estrutura de rimas em outras canções (“My Back Pages”, “Maggie’s Farm”, por exemplo). O formato mostra um esforço técnico, já que é preciso encontrar várias palavras para a mesma rima. O resultado é uma sensação de algo inevitável, como se tudo acabasse obrigatoriamente no mesmo lugar.

Give Me Some Milk: Repercussão

“Thin Man” rendeu uma repercussão considerável. No primeiro show após o lançamento do disco, em Forest Hills (28 de agosto de 1965), Bob manteve a introdução da música até que as vaias contrárias ao trecho elétrico da apresentação diminuíssem para que ele pudesse entregar com exatidão sua mensagem. Outro ponto alto na mesma época é no famoso show de Manchester (17 de maio de 1966). É esta a canção que antecede um dos xingamentos mais famosos da história do rock: “Judas!”.

No belíssimo filme “I’m Not There”, ganhou boa atenção com uma espécia de clipe, com um jornalista Jones sendo arrastado por situações bizarras e uma Cate Blanchet como Bob Dylan.

Ao longo dos anos, as versões tiveram mudanças relativamente pequenas, Apesar disso, foi objeto de estudo para um artigo acadêmico em que se analisa a voz e entonação de Bob Dylan em cinco décadas da canção.

Em 2012, Bob Dylan passou a usar um piano no palco e ecos na canção. Tempos depois, usou o instrumento para entoar “Thin Man” – contudo e sem surpresas, a famosa linha no instrumento não foi tocada por Dylan.

https://www.youtube.com/watch?v=o7YIRDtIkt0

Até julho de 2015, a canção pouco saiu do repertório. Até as poucas mutações empregadas por Dylan mostram o quão respeitoso ele parece ser pela obra criada. E até hoje, alguma coisa acontece no mundo dylanesco e inúmeros senhores Jones insistem em fazer as perguntas erradas.

Ouça outras versões da canção:

“All I Can Do Is Be Me”, o Balé Dylanesco

“Yes, to dance beneath the diamond sky with one hand waving free
Silhouetted by the sea, circled by the circus sands
With all memory and fate driven deep beneath the waves
Let me forget about today until tomorrow”
(‘Mr. Tambourine Man”)

“Tudo o que posso fazer é ser eu, seja quem isso for”
(Bob Dylan a Paul J. Robbins, em 1965)

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As figuras de linguagens e fraseado poético de Dylan abrem margem para diversas interpretações… inclusive para as corporais. Foi com esse intuito que o grupo britânico de balé contemporâneo Chantry Dance Company compilou em 2014 algumas obras de Dylan para compor o espetáculo “All I Can Do Is Be Me”.

Segundo a própria companhia de dança, a obra tem como argumento a relação de um homem com uma sociedade quebrada indiferente. Ao descobrir seu poder com o amor, ele busca mostrar às pessoas como se manter fiéis a si mesmas.

O título é baseado em uma entrevista que Bob Dylan deu para Paul J. Robbins em março de 1965. Seu contexto é menos belo: Bob Dylan comenta causticamente a poesia de maneira geral e critica a formação dos jovens imposta pela sociedade. É uma fase mais ácida de Dylan, em que ele usa de sua verborragia agressiva para combater as críticas dos conservadores folks e das levas de rótulos que recebia frequentemente.

As músicas usadas são: “Blowin’ in the Wind”, “All I Really Want To Do”, “Like A Rolling Stone”, “A Hard Rain’s A-Gonna Fall“, “Times They are A-Changin'” e “Mr. Tambourine Man”, todas da década de 1960.

O resultado do espetáculo abaixo chega a ser interessante. Por um lado, há uma releitura que pende para o clichê nas canções dylanescas; por outro, evidencia a beleza na melodia das músicas, além de mostrar a amplitude interpretativa que se pode chegar.

Confira abaixo:

Bob Dylan e o Cinema: A Minha Canção de Amor/Together Through Life

Together Through Life

Bob Dylan sempre foi seduzido pela sétima arte – desde a juventude, nas sessões do cinema Lybba Theater de seu tio, em Hibbing, passando pelo seu orgulho ao exibir seu Oscar de Melhor Trilha Sonora Original com “Things Have Changed”. Ao longo de sua carreira, experimento diversas participações no cinema. Esta é uma das mais recentes, que resultou em duas obras interligadas e independentes ao mesmo tempo.

A Ousadia de Olivier

A idealização do álbum Together Through Life (2009) começou com uma audácia surpreendente de um diretor francês. Olivier Dahan ainda colhia os frutos da aclamada cinebio “La Vien en Rose”, sobre Edith Piaf, quando começou a trabalhar em um “roadmovie” que se passava no Sul dos EUA. Para isso, precisava se uma trilha sonora que tivesse a mesma intensidade e contraste que o roteiro. A resposta não era difícil.

“Eu queria que as canções soassem sulistas. Verdadeiras músicas do espírito americano. O que isso significava para mim, e para milhões de pessoas no mundo, é canções de Bob Dylan” – Olivier Dahan, para a Rolling Stone.

Com a resposta na cabeça, foi atrás de concretizá-la, surpreendendo até mesmo Bob Dylan com o pedido:

“No começo eu achei impensável. Digo, eu não sabia o que ele estava realmente dizendo. ‘Você pode escrever 10 ou 12 canções?’. Saca? Eu disse ‘É mesmo? Este cara está falando sério?’. Mas ele foi muito audacioso! Normalmente te pedem para escrever uma música para ficar no fim do filme. Mas 10 músicas? Dahan queria colocá-las ao longo do filme e encontrar diferentes razões para elas. Eu meio que dei o benefício da dúvida que este cara sabia o que ele estava fazendo.” – Bob Dylan, para a Rolling Stone.

My Own Love Song

My_own_love_songJane (Renée Zellweger) é uma ex-cantora que abandonou a carreira após sofrer um acidente de carro e ficar paraplégica. Sua única companhia é Joey (Forest Whitaker), um ex-bombeiro que foi internado em um hospital psiquiátrico após ver sua família morrer. O destino os une para que se ajudam contra os fantasmas do passado, enquanto obrigam um ao outro a entender e superar os obstáculos da vida. A obra se passa numa viagem entre Marysville (Kansas) até New Orleans (Louisiana). Personagens são incluídos na história para criar o clima de epopéia da dupla.

A participação de Bob Dylan na trilha sonora é fiel aos planos tanto do cantor quanto do diretor: ser o pano de fundo que conecta os personagens ao enredo ao mesmo tempo que insere o público no mundo do Sul dos EUA. O caso não é uma cobertura de todos os ritmos locais, mas um imenso quadro que tá a tônica para a ambiência escolhida.

Além de algumas canções de Together Through Life, outras músicas da discografica dylanesca aparecem em momentos cruciais, como “What Good Am I” (do disco Oh Mercy), “Precious Angel” e “I Believe In You” (ambas do álbum Slow Train Coming).

O filme não é tão redondo, mas vale assistir. Como resume Sérgio Vaz:

“Parece que o diretor queria contar uma história de pessoas que enfrentam problemas sérios na vida, uma dureza sem conta e sem fim, mas que, mesmo assim, buscam algum tipo de esperança, de alegria.

O filme é isso, sim: um road movie de pessoas desajustadas e sofridas que ainda têm forças para perseguir a felicidade.

Mas acaba tendo tantos elementos díspares, disparatados, que deixa aquela sensação de obra irregular, um tanto descosturada.

No entanto, mesmo assim é – repito mais uma vez – um filme que tem muitas qualidades.”

Trilhando: Together Through Life

O álbum Together Through Life é o 33º disco de estúdio de Bob Dylan, lançado no dia 28 de abril de 2009, cerca de um ano antes da exibição do filme. Apesar de ser concebido por encomenda, Bob Dylan, como de costume, transcende a função da canção como pano de fundo para criar algo independente de seu contexto (dois outros exemplos óbvios são “Knockin’ On Heaven’s Door” e “Things Have Changed”).

Bob Dylan co-escreveu quase todas as letras com Rober Hunter, letrista do Grateful Dead que já havia trabalhado com Dylan no álbum Down In The Groove (1988) e participaria da criação de “Duquesne Whistle”, de Tempest (2010). A única exceção é “This Dream Of You”.

A escolha dos músicos pareceu ser meticulosa, a partir da paisagem sonora a ser criada:

  • Mike Campbell (guitarra e mandolin): guitarrista do Tom Petty & The Hearbreakers, que excursionou com Dylan em 1986;
  • Tony Garnier (baixo): músico com mais estrada ao lado de Dylan, desde 1989;
  • Donnie Herron (steel guitar, banjo, mandolin e trumpete): músico constante nas últimas turnês;
  • David Hidalgo (acordeão e guitarra): integrante da banda Los Lobos, já tocou guitarra para outros, como Tom Waits;
  • George Receli (bateria): assim como Donnie, frequente nas últimas turnês de Dylan.

Together Through Life chegou ao público três anos depois de Modern Times, de 2006. Se desde 1997 Bob já mostrava um desgaste na voz, este álbum é a concretização do término das cordas vocais de Dylan. Mas assim como Tom Waits, Bob parece usar essa limitação a seu favor, criando uma voz que soa e ressoa seus 50 anos de música.

(curiosamente, Bob Dylan conseguiria abandonar parte dessa rouquidão após o lançamento de Tempest, de 2012 e com a voz ainda mais suja. Na turnê que se seguiu, Dylan começou a explorar um outro estilo, mas aveludado – que evoluiria para seu atual momento, em que interpreta diversos standards de jazz. Mas isso é outro papo…)

Faixa a faixa:

Beyond Here Lies Nothin’ – Se Olivier queria um clima sulista, aí está. Uma música que te leva a um bar rústico no meio do nada americano. Tudo na música é suingue, um ritmo interessante para ver Dylan, com 68 anos, cantar em cima. O clipe, ainda mais surpreende, retrata uma “sutil” discussão de relacionamento:

Life Is Hard – O único pedido feito por Olivier: uma balada para ser cantada pela protagonista ao final do filme. “Life is Hard” é uma das músicas que eu gostei desde a primeira audição. Há uma leveza melancólica no arranjo e na interpretação de Dylan que torna o desabafo sobre os obstáculos da vida em algo positivo – um recomeço a partir da dor.

Renee Zellweger – Life Is Hard (SPOILER ALERT!)

My Wife’s Home Town – Ao lado de Hunter e Dylan, a canção também é creditada a Willie Dixon pela sua óbvia relação com “I Just Want To Make Love To You”, interpretada por Rolling Stones, mas cuja versão mais próxima é de Muddy Waters. A canção é uma ode bem humorada sobre sua esposa (sabe se lá qual!). É impossível não conectar com Tom Waits e não sorrir ao ouvir os risos dylanescos no último refrão.

Muddy Waters – I Just Want To Make Love To You

If You Ever Go To Houston – Um dialogismo atrás do outro. Enquanto o arranjo ecoa a versão de Fats Domino para “Blueberry Hill”, a letra possui um trecho de “Midnight Special”, canção de Harry Belafonte gravada em 1962 e tem como participação na gaita o jovem Bob Dylan, recém chegado à New York.

Fats Domino – Blueberry Hill

Forgetful Heart – Para mim, entre as melhores canções que Bob Dylan já compôs (a lista é grande, admito). Um blues em tom menor que clama por uma acordo de paz entre o ser e seu coração. Enquanto a gravação soa em um ritmo arrastado, ao vivo a a música fica ainda mais vagarosa, com um arranjo em bongôs, violino e arco no baixo acústico que carrega ainda mais o desespero da letra.

Bob Dylan – Forgetful Heart (Istanbul, 20/06/2014)

Jolene – Uma espécie de “Lucille”, de Little Richards, mas com uma possível referência ao hit homônimo de Dolly Parton. Contudo, se Dolly pede para que Jolene não roube seu homem, Dylan retrata justamente o homem perdido pelo amor platônico de Jolene.

Dolly Parton – Jolene

This Dream Of You – É como se Dylan refizesse “Romance In Durango”, de Desire (1976). Para Hinton, uma mistura de Paris com tango ou música mexicana. No meio do belo arranjo de acordeon e violino, a esperança reina através do sonho – e aqui guarda uma incoerência dylanesca, mas aguarde duas faixas.

Shake Shake Mama – O grande destaque desta música é o ritmo da bateria de George Receli. É impossível não se empolgar com o som ao mesmo tempo que entende a sutileza e dificuldade que é ter um ritmo completo e simples ao mesmo tempo. Anos depois, o vocalista da banda canadense The Deep Dark Woods faria uma versão bem diferente, mas iluminando um outro lado da canção:

Ryan Boldt – Shake Shake Mama

I Feel A Change Comin’ On – Uma feliz canção amparada no otimismo da mudança. Lembra da incoerência dylanescoa? Está na ponte desta música. Se antes a esperança vem em forma de sonho, aqui ele afirma: “Qual o propósito de sonhar? Você tem coisas melhores a fazer. Sonhos nunca funcionaram para mim, até mesmo quando eles se tornam realidade”. Mas essa é a melhor parte da letra: “Estou ouvindo Billy Joe Shaver e lendo James Joyce. Algumas pessoas me dizem que eu tenho o sangue da terra na minha voz”. Mais Dylan, impossível.

It’s All Good – É como se Dylan resolvesse reescrever “Political World”, do disco Oh Mercy, com a ambientação proposta pelo filme. Ironica, sarcamo e até novas risadas de Bob preenchem um cenário tão confuso quanto real, que no final pouco importa. It’s all good.

Conclusão: Blood Of The Land In My Voice

Apesar de um roteiro ligeiramente truncado, Olivier acertou na mosca ao ser corajoso o suficiente com o pedido a Dylan. Além de criar uma trilha sonora de qualidade e indentidade, ainda estimulou Bob a produzir um disco bom, com ótimas canções que ele manteria no repertório de shows durante muito tempo.