Férias dylanescas

O Dylanesco ficará alguns dias sem atualização, mas é por uma ótima causa: vim aos Estados Unidos para assistir aos shows de Dylan em Atlanta, Nashville e Memphis.

Vou tentar escrever alguns detalhes na minha volta.

Abraços a todos,

Pedro

Izzy Young leiloa letras inéditas de Dylan

Izzy Young April 1962 credit Netzorg

Izzy Young, fundador do lendário Folklore Center, local no Greenwich Village focado na venda e troca de canções e instrumentos tradicionais, resolveu leiloar duas letras inéditas que Bob Dylan fez para ele nos anos 60.

Young pediu a vários músicos que frequentavam sua loja para escreverem uma música sobre a bomba nuclear. “Bob Dylan chegou literalmente no dia seguinte e entregou isto para mim”, disse Izzy a Rolling Stone americana sobre as duas canções. (Nesta mesma época, Bob Dylan escreveu uma de suas melhores obras, “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”).

Intituladas “Go Away You Bomb” e “I Want that Bomb”, as letras foram escritas em uma máquina de escrever e possuem anotações a mão feitas pelo próprio Dylan. Em “Go Away You Bomb”, Bob une raiva e sarcasmo em frases como “An’ I hate you cause you could drop on my by accident an’ kill me” e “An’ I hate you twice as much as Jim Crow hates me”.

Go Away You Bomb

Ouça Izzy Young lendo “Go Away You Bomb”:

A iniciativa de leiloar os documentos históricas partiu da filha de Izzy, que via seu pai sem dinheiro em Stocolmo – cidade onde mora desde o início dos anos 70 e onde mantem ainda seu Folklore Center.

I Want that Bomb

A casa de leilões Christie’s estima que os valores das letras esteja entre R$77 mil a R$110 mil. “Será a primeira vez na vida que eu terei dinheiro de verdade”, disse Izzy.

Além da importância em seu empreendimento, Young foi responsável por organizar o primeiro grande show de Dylan em New York, agendado no Carnegie Recital Hall, em novembro de 1961. Infelizmente, apenas 53 pessoas estiveram no concerto e Izzy ficou no prejuízo (mesmo assim insistiu em dar 20 dólares à Dylan, que recusou e só aceitou 10 dólares).

Primeiro concerto de Bob Dylan em NY

Sobre as visitas de Bob no Folklore Center, ele conta que apesar no início Dylan parecer ser só mais um, com o tempo ele viu o diferencial no garoto. “Eu percebi, depois de um tempo, que havia algo de diferente nele. Ele levaria cada maldito disco que eu tinha e iria ouvi-los. Ele era o único que lia aqueles livros comunistas acadêmicos. Tudo que eu tinha na loja, ele leria.”

No início de abril, Izzy Young voltou a New York e visitou toda a região do Greenwich Village. Veja fotos aqui e uma entrevista com ele em plena Washington Square aqui.

Fonte: RS USA

“Man In The Long Black Coat”: a “House Carpenter” de Dylan

Recentemente encontrei esta animação, feita pelo artista Andrew Colunga, que ilustra a música “Man In the Long Black Coat”. A partir deste vídeo fui atrás da história por trás da densidade de uma das canções mais sombrias de Dylan.

People don’t live or die, people just float

“Man In The Long Black Coat” foi composta em março de 1989, durante as gravações de Oh Mercy, disco produzido por Daniel Lanois (que apesar das tensões nas gravações, voltaria a trabalhar com Bob Dylan em Time Out Of Mind).

Malcom Burn, músico que participou da gravação do disco, relatou para Damien Love (na Uncut de novembro de 2008) os primeiros esboços de Dylan com a canção:

“Quando ele começou a fazer, ele estava cantando talvez uma oitava acima. E não soou tão bem. Estava bem ruim, na verdade. E talvez tenha sido Bob ou talvez tenha sido Daniel Lanois, mas alguém percebeu que não estava funcionando, e sugeriu cantar uma oitava mais grave, e foi quando ele conseguiu aquele ‘Crickets – a-chirpin’ – water is high’. De repente o fraseado veio e eu fiquei tipo, ‘Porra, isto é muito bom.”

Além de testemunhar os primeiros passos da canção, Malcom foi responsável pelos grilos que preenchem a canção – feito com um lendário teclado Yamaha DX7.

Every man’s conscience is vile and depraved

Em sua autobiografia, Bob Dylan fez alguns comentários sobre a letra da música:

“Ela foi tirada de um abismo de trevas, visões de um cérebro elouquecido, uma sensação de irrealidade – o pesado preço do ouro pairando sobre a cabeça de alguém. Quando não resta mais nada, até a corrupção é corrupta. (…) A letra tenta falar de alguém cujo próprio corpo não lhe pertence. Alguém que amou a vida mas não pode viver, e cuja alma se amargura porque outros são capazes de viver”.

Para Clinton Heylin, “Man In The Long Black Coat” é uma releitura do tema da folclórica “House Carpenter” – também conhecida como “Daemon’s Lover”. A canção tradicional conta a história do retorno de um homem para seu antigo amor – que atualmente está casada com um carpinteiro. O homem então convence a mulher a largar o marido e os três filhos para viajar no mar. No fim, eles vão até próximo ao inferno, quando o barco onde está o casal quebra e é engolido pelo mar.

Seguindo a teoria de Heylin, a releitura do tema de “House Carpenter” pode ser a história contada sob o ponto de vista do carpinteiro. O homem da longa capa preta talvez seja a Morte ou o próprio Demônio.

Oliver Trager cita um rumor de uma possível influência do filme No Mercy, de 1986 e estrelado por Richard Gere e Kim Basinger, mas as relações são bem vagas se comparadas com a lógica de Heylin (veja o trailer do filme aqui).

A “Walk The Line” dylanesca

Em seu livro, Bob Dylan também comenta sobre suas intenções com “Man In The Long Black Coat”, comparando com um clássico de Johnny Cash:

“De algum modo estranho, pensei nela como a minha ‘I Walk The Line’, uma canção que sempre considerei o ponto alto, uma das mais misteriosas e revolucionárias de todos os tempos, uma canção que promove um ataque a nossos pontos mais vulneráveis, as palavras afiadas de um mestre”.