Izzy Young leiloa letras inéditas de Dylan

Izzy Young April 1962 credit Netzorg

Izzy Young, fundador do lendário Folklore Center, local no Greenwich Village focado na venda e troca de canções e instrumentos tradicionais, resolveu leiloar duas letras inéditas que Bob Dylan fez para ele nos anos 60.

Young pediu a vários músicos que frequentavam sua loja para escreverem uma música sobre a bomba nuclear. “Bob Dylan chegou literalmente no dia seguinte e entregou isto para mim”, disse Izzy a Rolling Stone americana sobre as duas canções. (Nesta mesma época, Bob Dylan escreveu uma de suas melhores obras, “A Hard Rain’s A-Gonna Fall”).

Intituladas “Go Away You Bomb” e “I Want that Bomb”, as letras foram escritas em uma máquina de escrever e possuem anotações a mão feitas pelo próprio Dylan. Em “Go Away You Bomb”, Bob une raiva e sarcasmo em frases como “An’ I hate you cause you could drop on my by accident an’ kill me” e “An’ I hate you twice as much as Jim Crow hates me”.

Go Away You Bomb

Ouça Izzy Young lendo “Go Away You Bomb”:

A iniciativa de leiloar os documentos históricas partiu da filha de Izzy, que via seu pai sem dinheiro em Stocolmo – cidade onde mora desde o início dos anos 70 e onde mantem ainda seu Folklore Center.

I Want that Bomb

A casa de leilões Christie’s estima que os valores das letras esteja entre R$77 mil a R$110 mil. “Será a primeira vez na vida que eu terei dinheiro de verdade”, disse Izzy.

Além da importância em seu empreendimento, Young foi responsável por organizar o primeiro grande show de Dylan em New York, agendado no Carnegie Recital Hall, em novembro de 1961. Infelizmente, apenas 53 pessoas estiveram no concerto e Izzy ficou no prejuízo (mesmo assim insistiu em dar 20 dólares à Dylan, que recusou e só aceitou 10 dólares).

Primeiro concerto de Bob Dylan em NY

Sobre as visitas de Bob no Folklore Center, ele conta que apesar no início Dylan parecer ser só mais um, com o tempo ele viu o diferencial no garoto. “Eu percebi, depois de um tempo, que havia algo de diferente nele. Ele levaria cada maldito disco que eu tinha e iria ouvi-los. Ele era o único que lia aqueles livros comunistas acadêmicos. Tudo que eu tinha na loja, ele leria.”

No início de abril, Izzy Young voltou a New York e visitou toda a região do Greenwich Village. Veja fotos aqui e uma entrevista com ele em plena Washington Square aqui.

Fonte: RS USA

“Man In The Long Black Coat”: a “House Carpenter” de Dylan

Recentemente encontrei esta animação, feita pelo artista Andrew Colunga, que ilustra a música “Man In the Long Black Coat”. A partir deste vídeo fui atrás da história por trás da densidade de uma das canções mais sombrias de Dylan.

People don’t live or die, people just float

“Man In The Long Black Coat” foi composta em março de 1989, durante as gravações de Oh Mercy, disco produzido por Daniel Lanois (que apesar das tensões nas gravações, voltaria a trabalhar com Bob Dylan em Time Out Of Mind).

Malcom Burn, músico que participou da gravação do disco, relatou para Damien Love (na Uncut de novembro de 2008) os primeiros esboços de Dylan com a canção:

“Quando ele começou a fazer, ele estava cantando talvez uma oitava acima. E não soou tão bem. Estava bem ruim, na verdade. E talvez tenha sido Bob ou talvez tenha sido Daniel Lanois, mas alguém percebeu que não estava funcionando, e sugeriu cantar uma oitava mais grave, e foi quando ele conseguiu aquele ‘Crickets – a-chirpin’ – water is high’. De repente o fraseado veio e eu fiquei tipo, ‘Porra, isto é muito bom.”

Além de testemunhar os primeiros passos da canção, Malcom foi responsável pelos grilos que preenchem a canção – feito com um lendário teclado Yamaha DX7.

Every man’s conscience is vile and depraved

Em sua autobiografia, Bob Dylan fez alguns comentários sobre a letra da música:

“Ela foi tirada de um abismo de trevas, visões de um cérebro elouquecido, uma sensação de irrealidade – o pesado preço do ouro pairando sobre a cabeça de alguém. Quando não resta mais nada, até a corrupção é corrupta. (…) A letra tenta falar de alguém cujo próprio corpo não lhe pertence. Alguém que amou a vida mas não pode viver, e cuja alma se amargura porque outros são capazes de viver”.

Para Clinton Heylin, “Man In The Long Black Coat” é uma releitura do tema da folclórica “House Carpenter” – também conhecida como “Daemon’s Lover”. A canção tradicional conta a história do retorno de um homem para seu antigo amor – que atualmente está casada com um carpinteiro. O homem então convence a mulher a largar o marido e os três filhos para viajar no mar. No fim, eles vão até próximo ao inferno, quando o barco onde está o casal quebra e é engolido pelo mar.

Seguindo a teoria de Heylin, a releitura do tema de “House Carpenter” pode ser a história contada sob o ponto de vista do carpinteiro. O homem da longa capa preta talvez seja a Morte ou o próprio Demônio.

Oliver Trager cita um rumor de uma possível influência do filme No Mercy, de 1986 e estrelado por Richard Gere e Kim Basinger, mas as relações são bem vagas se comparadas com a lógica de Heylin (veja o trailer do filme aqui).

A “Walk The Line” dylanesca

Em seu livro, Bob Dylan também comenta sobre suas intenções com “Man In The Long Black Coat”, comparando com um clássico de Johnny Cash:

“De algum modo estranho, pensei nela como a minha ‘I Walk The Line’, uma canção que sempre considerei o ponto alto, uma das mais misteriosas e revolucionárias de todos os tempos, uma canção que promove um ataque a nossos pontos mais vulneráveis, as palavras afiadas de um mestre”.

Time Out of Mind (ou Mind Out of Time)

No dia 30 de setembro de 1997, Bob Dylan surpreende a todos com “Time Out Of Mind”, um disco que traz de volta a qualidade e a transparência confessional de tempos como “Blood On The Tracks”, com a adição de uma experiência de um homem de 56 anos que lutava para encontrar não apenas um lugar ao sol, mas uma sombra para seus anseios.

Havia sete anos que Bob Dylan não gravava um álbum de inéditas – desde 1990 com Under the Red Sky. Apesar de alguns discos lançados (World Gone Wrong, Good As I Been To You, MTV Unplugged e Bootleg Series 1-3) e participações em homenagens, como o Grammy e um show tributo, tanto público quanto crítica pareciam ter desistido de esperar algo novo e relevante do artista.

Danny & Dylan

Para por em prova aquilo que escrevera recentemente, Bob Dylan ligou para Daniel Lanois, produtor de seu disco Oh Mercy (1989). O segundo trabalho da dupla teria início no segundo semestre de 1996.

Como Bob disse em Crônicas V.1, o clima entre Dylan e Lanois não foram dos melhores durante as primeiras gravações. “Sei que ele queria me entender melhor à medida que íamos em frente, mas você não consegue fazer isso, a menos que goste de quebra-cabeças. Acho que no fim ele desistiu disso”.

Ainda na autobiografia, Dylan cita seu reencontro com Lanois:

“Danny e eu nos veríamos de novo em dez anos e trabalharíamos juntos, mais uma vez de forma turbulenta. Faríamos um disco e começaríamos tudo de novo, retomaríamos de onde havíamos parado.”

Mesmo com o trauma de Oh Mercy, Bob convidou Lanois para ir até seu hotel. Reticente quanto a voltar a gravar, Dylan leu para o produtor algumas coisas que escrevera no início de 1996, quando estava em sua casa em Minnesota, e perguntou: “Você acha que temos um álbum?”.

Teatro do horror

A partir de uma lista feita por Dylan com referências sonoras – como Charlie Patton, Little Walter e Arthur Alexander – e do apreço recente de Bob pelo cantor Beck e seus loops de batidas, Lanois convidou seu amigo Pretty Tony Mangurian e os dois começaram a trabalhar em possíveis bases para as letras dylanescas.

Primeiramente eles se encontraram em um estúdio em New York, mas depois rumaram para o “Teatro”, um antigo teatro mexicano dos anos 1920 que Lanois e Mark Howard transformaram em estúdio de gravação.

Bob Dylan chegou às gravações no início de 1997. Nos primeiros dias já se percebia que as intenções, ou aquilo que Lanois pensara ser um norte, havia mudado. Bob Dylan não só queria gravar ao vivo, sem computadores e loopings, como, no primeiro esboço, ficava claro que o clima que Dylan queria não era o mesmo que Lanois.

Dylan sentou-se ao piano e começou a cantar “Can’t Wait”. A canção se mostrava mais próxima de um gospel intimista do que do delta blues que Bob apresentara como parâmetro.

Depois de duas semanas de experimentações no Teatro, Lanois levou um segundo baque: Dylan não estava à vontade de gravar tão próximo de casa, fazendo o trajeto de cerca de 40 minutos diariamente. Como alternativa, escolheu ir para Miami, do lado oposto do país. E tudo recomeçava.

Criteria sem critérios

O local escolhido para as novas gravações foi o Criteria Studios, com um ambiente bem mais sóbrio e frio do que o Teatro de Lanois. Junto com as diferenças na abordagem musical entre artista e produtor, também apareceram os primeiros embates implícitos. Enquanto Daniel Lanois recrutou alguns músicos para a sessão (Cindy Cashdollar e Brian Blade, por exemplo), Bob Dylan chamou parte de sua banda de turnê (Bucky Baxter e Tony Garnier) e outros, como Jim Keltner, Jim Dickenson e Duke Robillard.

Em alguns momentos, o estúdio ficava com dois bateristas e mais um bando de músicos, todos tentando seguir duas vertentes musicais praticamente opostas.

Foi a partir daí que a relação de Bob com Lanois se tornou mais crítica. Com o produtor querendo propor linhas pré-determinadas e “reger” Dylan, sua maneira de trabalhar era completamente oposta ao modo improvisado e experimental de Bob.

Como conta Daniel Mark Epstein, durante as gravações de “Not Dark Yet”, em meio a uma discussão da tonalidade da música e da maneira que Dylan deveria cantar, Lanois pediu ao braço-direito de Bob, o baixista Tony Garnier, que pedisse para Dylan cantar da maneira que ele cantou em uma outra vez.

Então Bob e Tony conversaram:

“Tony, quantas vezes você me ouviu tocar?”

Tony encolheu os ombros e disse que não sabia

“E então? Você me ouviu cantar umas mil vezes?”

“Sim.”

“Você me ouviu tocar duas mil vezes?”

“Sim, acho que sim.”

“Você em algum momento me ouviu cantar do mesmo modo duas vezes?”

A sala estava no mais completo silêncio. Ninguém se mexia. Tony Garnier confirmou que nunca tinha escutado Dylan cantar da mesma forma duas vezes.

Esta foi a última vez que Dylan chamaria um produtor para ajudá-lo nas gravações.

Trilhando – Time Out Of Mind

Love Sick – Assim define Brian Hinton: “Primeiro vem algo que parece o farfalhar de um fantasma, depois estamos diretamente dentro de uma sopa aural de incômodo”. A música de abertura é densa e sombria, desenhando um Dylan que percorre as ruas que estão mortas.

Dirt Road Blues – Inspirada em “Down The Dirt Road Blues”, de Charley Patton, Dylan desistiu de gravá-la durante as sessões e pediu para Lanois usar uma gravação que Bob fez com sua banda de turnê durante uma passagem de som. Depois da base “costurada”, Dylan apenas incluiu sua voz.

Standing In The Doorway – Melancólica ao extremo, a canção tem reflexos de diversas músicas. O refrão pode ser uma referência a “Bullfrog Blues”, de William Harris; a relação amor/ódio lembra “Pretty Polly”, de Dock Boggs. A menção de “gay guitar” talvez seja apenas uma menção à empresa Gay, que fabricava guitarras nos anos 50. Como disse o cantor Jonathan Rice sobre as composições de Dylan: “no coração de suas letras existe apenas essa solidão constante e impenetrável. Alguém tem de viver isso para que o resto de nós possa ser feliz”.

Million Miles – Um rock’n’roll vagaroso que parece ter sido feito nos mesmos moldes de “Dirt Road Blues”: uma base em “looping” enquanto Dylan faz seu devaneio. A abertura da música já vale sua audição: “You took a part of me that I really miss/ I keep asking myself how long it can go on like this”.

Tryin’ To Get To Heaven – Uma das minhas músicas prediletas (e nunca me sairá da cabeça de quando a ouvi em 2012), Clinton Heylin contextualiza muito bem a canção: “Se Time Out Of Mind se provou ser uma sinuosa jornada, a composição de ‘Tryin’ To Get To Heaven’ sugere que Dylan chegou ao seu destino”. Matthew Zuckerman, na revista ISIS, a chamou de “mosaico de frases tradicionais”, já que empresta diversas linhas de músicas compiladas por Alan Lomax em “Folk Songs of North America”.

‘Till I Fell In Love With You – Outra música que parece ter nascido de um sample. Tão sombria quanto retrô, a canção é solta e imprecisa, com os instrumentos flutuando, sumindo e reaparecendo, enquanto Dylan divaga sobre a doença “amor”.

Not Dark Yet Talvez a música que mais expresse esse “retorno dylanesco”. Cada frase se transforma em uma reflexão, podendo refletir cada linha por dias. Emmylou Harris a elegeu a melhor música sobre envelhecer: “Para aqueles de nós que estão atravessando essa porta, a canção traz à luz coisas que nem sabíamos ser capazes de sentir. Ele colocou poesia nessa experiência”.

Cold Irons Bound – Hinton: “A bateria retine e Dylan rosna como um gato vadio encurralado”. Em meio a uma canção de desilusão amorosa, uma reflexão que vai além do subjetivo: “The walls of pride is high and wide/ Can’t see over to the other side/ It’s such a sad thing to see beauty decay/ It’s sadder still to feel your heart torn away”.

Make You Feel My Love – Durante um show, Bob afirmou que a fez para Garth Brooks. De lá pra cá, a música foi gravada por diversos artistas e usada até em teste para um “show de calouros”. A canção é a prova de que Dylan, apesar de todas as dores, ainda consegue ver o lado bom do amor.

Can’t Wait – A música que deu parte do norte ao disco foi consideravelmente alterada daquele “soul” para essa vagarosa versão. Tudo está suspenso e a voz deteriorada de Dylan é a única coisa minimamente concreta que temos. É o suficiente.

Highlands – A música que começou com um riff de uma música de Charley Patton (provavelmente “Screamin’ and Hollerin’ The Blues”, recebeu como influência na letra a poesia de Robert Burns (“My Heart’s In The Highlands”). Em algumas passagens da música, Dylan cita Neil Young, faz um desenho de uma garçonete e diz ler a autora Erica Jong. Apesar de tudo soa mais como uma brincadeira do que algo mais significativo, é intrigante ouvir seus 16 minutos – que no vinil duplo ocupou um lado inteiro.

Sobras de estúdio

Das canções que ficaram de fora do disco, duas são belíssimas e até os músicos que participaram das gravações não entenderam o porquê de suas não inclusões.

“Mississippi” recebeu alguns takes bem diferentes entre si, mas Dylan preferiu guardá-la para o próximo disco, Love & Theft, de 2001. Neste ínterim, Bob ofereceu a música para Sheryl Crow, que gravou no álbum “The Globe Sessions”.

Outra canção foi “Red River Shore”, que para Jim Dickison foi a melhor música de todas as sessões do disco. Ela só viria a público em 2008, no compilado Tell Tale Signs (da “Bootleg Series”).

Quase encontrando Elvis

Logo após seu lançamento, a crítica elogiou o disco e recolocou Bob Dylan como referência musical. Com “Time Out Of Mind”, Dylan ganhou em 1998 os Grammys de “Disco do Ano”, “Melhor Disco de Folk Contemporâneo” e “Melhor Cantor” com “Cold Irons Bound”. Nos agradecimentos, apesar das diferenças, Bob elogiou Daniel Lanois por alcançar uma sonoridade incomum.

Ironicamente, depois de finalizar o disco que tanto trata da velhice (mas antes mesmo de lançá-lo), Bob ficou gravemente doente. No dia do seu aniversário, durante uma festa que sua filha Maria deu para o pai, Dylan reclamou de dores no peito. No dia seguinte, Bob dava entrada no hospital St. John’s, em Santa Mônica.

O diagnóstico era uma infecção muito séria chamada histoplasmose, que Dylan provavelmente pegou após inalar algum fungo em uma região lamacenta durante seus passeios de moto.

Ele passou seis dias no hospital e precisou tomar remédios durante meses. Aos repórteres, disse que achava que seria sua hora de encontrar com Elvis.

Conclusão

Se Time Out of Mind teve uma ótima aceitação de público e crítica, Dylan parece não ter gostado tanto das ambiências impressionistas de Lanois.

Ainda assim, o resultado é um disco belíssimo com canções tão imponentes e relevantes para a carreira de Bob quanto os álbuns dos anos 60 e 70.

O título do disco, talvez vindo da música de Warren Zevon “Accidentally Like A Martyr”, pode ser uma indicação desse desapego na preocupação.

O fato é que a carreira de Dylan, a partir de agora, voltaria a ficar nos holofotes e Bob, traumatizado, passaria a produzir todos os seus discos futuros sob o pseudônimo Jack Frost.