O jornal Estado de S. Paulo relançou a coleção Discoteca Estadão, com vários álbuns importantes da MPB. Neste fim-de-semana, série se encerra com o primeiro álbum solo de Zé Ramalho, de 1978.
O disco fez com que Zé Ramalho ganhasse o apelido de “Bob Dylan do sertão”, influenciado principalmente pelo jeito falado de cantar. Independente da alcunha ser justa, o álbum é interessante pelas ótimas letras e por utilizar diferentes estilos, como ritmos brasileiros (choro e baião) e guitarras psicodélicas.
Entre os músicos que participaram da gravação, está o guiarrista d’Os Mutantes Sérgio Dias, além do tecladista Patrick Moraz, da banda de rock progressivo Yes.
Em 2009, Zé Ramalho lançou o disco Ta tudo mudado, com versões em português de músicas do Bob Dylan. Muitas pessoas acharam as traduções de gosto duvidoso, mas é possível ouvir boas traduções, como O amanhã é distante, versão brasileira de Tomorrow is a long time.
Ao ler a biografia de Bob Dylan lançada em 1972 pelo jornalista Anthony Scaduto (especializado em crimes e que se autoproclamava um expert em Máfia), uma citação de Dylan ficou na minha cabeça.
Scaduto deixou que Bob visse as prévias da biografia, em troca de entrevistas. Em uma delas, Bob afirma:
“Antes de compor John Wesley Harding [álbum de 1967], eu percebi algo sobre todas as canções mais antigas que eu escrevi. Eu descobri que quando eu utilizava palavras como ‘ele’, ‘isto’, ‘eles’ e falava sobre outras pessoas, eu estava na verdade falando em ninguém a não ser eu.”
Outra história que me chamou a atenção foi a mensagem quase subliminar contida na música It’s all over now, baby blue. Muitos biógrafos dylanescos afirmam que a canção é um “término de relação” entre Bob Dylan e todo o movimento folk. Considerando isto, a apresentação de Dylan no Newport Folk Festival de 1965 se torna ainda mais lendária – após tocar três músicas acompanhando por uma banda elétrica, Bob voltou ao palco para apresentar duas canções acústicas: fechou com Mr. Tambourine Man, mas não sem antes dar o seu recado com It’s all over now, baby blue.
Foi então que há algumas semanas eu encontrei na internet um manuscrito da música It ain’t me, babe. Nele, além do rascunho da letra, existem outros poemas e estrofes espalhados. Mas há também um algo que se parece com um desabafo:
“Quantas vezes eu terei que REPETIR que eu não sou um cantor folk antes que as pessoas parem de dizer ‘ele não é um cantor folk’”
Ao ver esse fac-símile, veio-me à cabeça a somatória de todas essas idéias soltas.
It ain’t me, babe é frequentemente interpretada como sendo uma resposta ao “fora” levado por Dylan de sua então namorada Suze Rotolo. A relação conturbada foi retratada em várias canções, como Boots of spanish leather, Ballad in Plain D e Don’t think twice, it’s all right. It ain’t me, babe seria, portanto, uma renúncia de Dylan ao papel Hollywoodiano de um galanteador.
Aqui, Joan Baez interpreta a música e afirma que a canção é anti-casamento. Bob nunca foi de explicar suas canções para as pessoas, nem para amigos/namoradas. Logo, acho que se trata apenas de uma interpretação de Baez, sem se basear em fatos. (Vale lembrar que Bob Dylan casou-se com Sara Lownds em novembro de 1965)
Com a anotação de Dylan no manuscrito acima – aliados aos exemplos já citados -, temos argumentos suficientes para incluir It ain’t me, babe na mesma categoria de It’s all over now, baby blue. Bob Dylan está tentando fugir dos rótulos e principalmente das responsabilidades intrínsecas de um movimento artístico/engajado.
Assim como em diversas músicas dylanescas, o dialogismo está presente nesta canção: a primeira frase (“Go ‘way from my window”) tem referências tradicionais: é o nome de uma canção britânica (gravada, inclusive, por Baez, em 1964, no álbum 5) e também é um trecho de Drop Down Mama, de Sleepy John Estes.
Incrível versão da música num show em Glasgow (2004)
A música é uma recusa a um formato pré-estabelecido de tratamento. Mas acho difícil que seu alvo seja realmente a relação com Suze. Além da frase no manuscrito, a autobiografia de Rotolo mostra que, apesar de Dylan ter um lado mais frio, seu lado romântico e cavalheiro também vinha à tona frequentemente.
Bob Dylan, num ato que ofendeu alguns, renegou não só a função de “porta-voz de uma geração” como preferiu se distanciar dos dogmas do movimento Folk. Seu foco era o desenvolvimento de sua música e poesia. A apresentação de Dylan no Newport Folk Festival de 1965 não teve o intuito de polemizar ou criticar a “instituição” Folk. Bob incluiu a banda porque achava que a música precisava dela.
Na época do lançamento do álbum Highway 61 Revisited, Bob explicou um pouco mais sobre suas ambições e anseios:
“Tudo que eu posso fazer é ser eu – seja quem for – para aquelas pessoas que eu toco e não chegar nelas dizendo coisas que eu não sou. Eu não vou dizer a elas que eu sou um grande lutador de causas ou um grande amante ou um menino prodígio ou qualquer coisa. Porque eu não sou, cara. Porque enganá-los?”
“I’m not the one you want, babe I’ll only let you down You say you’re looking for someone Who will promise never to part Someone to close his eyes for you Someone to close his heart Someone who will die for you and more… But it ain’t me, babe”
Bob Geldof ficou mundialmente famoso através de seu ativismo político nos anos 80, apesar de ter iniciando sua carreira musical no final dos anos 70 com a banda The Boomtown Rats. Em 1984, ele fundou o supergrupo Band Aid, que reuniu vários artistas para levantar recursos para o povo carente da Etiópia.
A idéia evoluiu para o Live Aid, com a mesma finalidade, mas que tomou uma proporção ainda maior. Em 1985, dois festivais simultâneos – um na Inglaterra e outro nos Estados Unidos – reuniram inúmeros artistas, entre eles: Sting, Elvis Costello, U2, Elton John, The Who e Madonna. Os shows foram transmitidos por mais de 60 países e estima-se que mais de 2 bilhões de pessoas viram as apresentações.
Bob Dylan foi a penúltima atração do festival, acompanhado apenas por Keith Richards e Ron Wood. A última apresentação ficou a cargo de Lionel Richie e sua We Are The World (canção que Dylan também participou).
Durante sua apresentação, Bob Dylan deu um depoimento polêmico, sugerindo que parte do dinheiro, “talvez um ou dois milhões” fossem usados para sanar as dívidas dos fazendeiros americanos com os bancos. A observação não teve uma boa recepção por parte de Geldof, mas outras pessoas se sentiram tocadas com ela.
Essas pessas foram Willie Nelson, John Mellencamp e Neil Young. Dois meses depois do Live Aid, acontecia o Farm Aid, que até 2010 já recebeu 24 edições.